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“Aqui a confusão das línguas é um elemento constante da nossa maneira de viver;

ficamos no meio de uma perpétua Babel, na qual todos berram ordens e ameaças em línguas nunca antes ouvidas, e ai de quem não entende logo o sentido.” 173

Levi nos oferece diversos exemplos lexicais do alemão do Campo, entre escritas, ordens e termos que indicam lugares, objetos, ações, funções, números (fundamentais para

171 Ibid., p. 26 172

A disposição dos Blocks (barracas) era, pelo contrário, geométrica.

reconhecer o próprio número tatuado que substitui o nome) ou frases inteiras que permanecem esculpidas como um aviso dantesco. É de Cesare Segre a observação que

“de algum modo, o ´Arbeit macht frei´ repete com cruel ironia o ´Deixai toda esperança, vós que entrais´ de Inferno, III, 9.”174

O autor insere várias expressões em quase todas as páginas, às vezes sem precisar de tradução imediata, outras vezes logo explicadas.175 Depois do alemão, o polonês e o iídiche são as segundas línguas do campo. Em 1986 Levi analisa um interessante fenômeno ligado à imersão na Babel:

Em mim mesmo e nos outros sobreviventes notei um efeito curioso desse vazio e dessa carência de comunicação. Quarenta anos depois, ainda recordamos de forma puramente acústica palavras e frases pronunciadas em torno de nós em línguas que não conhecíamos nem depois aprendemos: para mim, por exemplo, em polonês e húngaro. Ainda hoje me lembro de como se enunciava em polonês não meu número de controle, mas o do prisioneiro que me precedia, emaranhado de sons que terminava harmoniosamente, como se indecifráveis cirandas infantis, em algo como stergishi stéri

(hoje sei que essas duas palavras querem dizer “quarenta e quatro”).176

Nos últimos meses, o húngaro será mais uma língua a juntar-se entre as mais faladas devido à chegada dos prisioneiros da Hungria: “Durante toda a primavera haviam chegado trens da Hungria; de cada dois prisioneiros, um era húngaro. O Húngaro tornara-

se, depois do iídiche, a língua mais falada no Campo.”

O jargão que vai se criando é um “pastiche” que inclui línguas minoritárias caso o grupo

falante tenha características especiais e marcantes, como no caso dos Gregos.

Para dar alguns exemplos descritos por Levi, a idéia genérica de roubo pode se expressar

com o grego “klepsi-klepsi” graças à pequena, mas determinante colônia dos gregos

bilíngües de Tessalônica. 177 Por outro lado, uma das expressões mais significativas é o

174 SEGRE, Cesare. Lettura di “Se questo è un uomo”. In FERRERO (org.), Primo Levi: un´antologia della

critica, p.66

175

A diferenciação faz-se complicada na tradução brasileira onde frequentemente há uma tradução entre parêntese, mesmo quando Levi não julgou necessário acrescentá-la.

176

LEVI, Os afogados e os sobreviventes, p.82

polonês “Wstavac” (acordar): a dura ordem do despertar cotidiano fixa-se como marca do

evento traumático e voltará no pesadelo contado em A trégua (fechando a narração) acordando o sobrevivente, já livre, em sua casa, e arrancando-o brutalmente daquela

breve parêntese (a”trégua”) que correspondeu à viagem de regresso, entre Auschwitz e a

condenação a reviver Auschwitz. Em SQU, a palavra impiedosa marca os dias da interminável pena:

Em cada Bloco, o guarda noturno acaba seu trabalho: liga as luzes, levanta-se, espreguiça-se e pronuncia a condenação de cada dia: - Aufstehen! (Levanta) – ou, mais frequentemente, em polonês: - Wstavac! Bem poucos são os que ainda dormem quando é pronunciada essa palavra: a dor desse instante é aguda demais [...] A palavra estrangeira cai como uma pedra no fundo de cada alma.

“Levantar”: [...] estamos irremediavelmente expostos à ofensa, cruelmente nus e vulneráveis.178

Na Babel concentracionária não existe apenas a sobreposição de nacionalidades e línguas, mas também um novo jargão que assimila e remodela diversas expressões.

Algumas palavras assumem significados alterados em relação ao sentido usual, como o apelido de Muselmann para os prisioneiros-fantasmas à beira do fim ou o verbo

“organizar” (organisieren)179 que significa “encontrar”, arranjar objetos, roupa, pão seja roubando seja conseguindo trocas (proibidas) de mercadorias. Uma palavra, portanto, que torna o roubo sinônimo de uma conquista voltada para a sobrevivência e demonstrando, desta forma, a alteração da ética dentro do Campo.

Ao final de um capítulo nomeado “Aquém do bem e do mal”, Levi conclui:

178

Ibid., p.63. No original, não há tradução entre parêntese de Aufstehen.

179 Um comentário sobre o verbo “organizar” apareceu em “Auschwitz. Tutte le parole del Lager” de

Frediano Sessi, publicado no Corriere della sera 9/02/2000: “Un' espressione vitale e insieme aggressiva, che non temeva di mostrare la logica tremenda del Lager: si ´organizzava´ qualcosa non solo ai danni delle autorità naziste del campo, ma anche ai danni di un internato, la cui morte poteva essere la condizione della vita di un altro, non ancora abbandonato dalle forze. Prima o poi tutti faranno i conti con la necessita' espressa dal verbo organisieren e con la tremenda realta' che racchiude il suo vero significato all' interno di Auschwitz: ciascuno per sé . Ogni cosa in più (un paio di zoccoli, un berretto, una salsiccia, una sigaretta, eccetera) era merce di scambio che permetteva di vivere un giorno ancora.”. (http://archiviostorico.corriere.it/2000/febbraio/09/AUSCHWITZ_Tutte_parole_del_Lager_co_0_0002096 857.shtml, último acesso: 1/06/2012) Sobre “organisieren” cf. também as pp. 116-118 deste trabalho. Voltaremos sobre alguns vocábulos e sobre ot ema da alteração semântica no próximo capítulo.

Desejaríamos, agora, convidar o leitor a meditar sobre o significado que podiam ter para nós, dentro do Campo, as velhas palavras “bem” e “mal”, “certo” e “errado”.Que cada um julgue, na base do quadro que retratamos e dos exemplos que relatamos, o quanto, de nosso mundo moral comum, poderia subsistir aquém dos arames farpados.180

Acima de todos os idiomas, o alemão é soberano; às vezes trata-se da língua comum entre

os prisioneiros, outras é o raivoso alemão dos SS: “A escuridão retumbou com ordens

estrangeiras e com esses bárbaros latidos dos alemães quando mandam, parecendo querer libertar-se de uma ira secular.”181 Como foi observado, a cena estabelece um diálogo com Dante através da comparação com o cão monstruoso do terceiro círculo do inferno: “Grosso granizo, água suja e neve/ pelo ar tenebroso se dispersa;/ fede a terra que dentro em si a teve. / Cérbero, a fera que é cruel, diversa/ com três gorjas caninamente ladra/ sobre a gente que ali está somersa”182. Outros escritores retomam a imagem dos latidos infernais. Kluger relata a mesma situação, a chegada em Auschwitz – frequentemente descrita por testemunhas como um dos momentos mais atemorizantes -, falando dos alemães como “cães raivosos a ladrar”183; e Boris Pahor, escritor esloveno originário de Trieste, que várias vezes cita implicitamente Levi, volta a utilizar a comparação com Cérbero ao descrever uma cena noturna onde os latidos de cães confundem-se com as ordens raivosas dos oficiais:

o rebanho confuso se despe rapidamente, enquanto do outro lado da encosta, além do arame farpado, o latir dos cães rasga brutalmente a noite, e negros poços de escuridão perdem-se no infinito

precipício do nada. “Tempo, tempo!”, apressa a voz cheia de raiva, e os latidos tornam-se mais

furiosos, como se as narinas de uma fera com várias cabeças tivessem acabado de farejar o cheiro da pele nua trazido pelo vento nas asas da noite.184 [trad. nossa da ed. italiana]

180

LEVI, p.87

181 Ibid., p. 17 182

ALIGHIERI, Dante. A divina comédia de Dante Alighieri. Inferno. Canto VI, v.10-15. Tradução de Vasco Graça Moura. Venda Nova: Bertrand editora, 1996, p.71

183

KLUGER, Paisagens da memória , p.102. Logo depois, a autora fala de Primo Levi.

Quem conseguia entender e responder tinha também mais chance de manter um resquício de relação humana, enquanto que com os restantes os SS berravam e deixavam explodir ainda mais sua agressividade criminosa.

Levi dirá ter aprendido alemão em Auschwitz, tendo ele chegado com um “patrimônio lexical” limitado e noções básicas adquiridas através de um texto de química. 185

A palavra gritada com ódio tinha como objetivo desnortear, golpear emocionalmente, cancelar qualquer ilusão de relacionamento humano por parte dos SS, e mesmo quem era de língua alemã percebia esta alteração da função da linguagem:

Ouviria sempre e sempre nas semanas seguintes esse tom carregado de ódio que elimina o caráter humano dos que são movidos a gritos e berros, reduzindo-os instantaneamente a meros objetos, e sempre me curvava de medo. Era um tom que tinha a finalidade de intimidar e, portanto de anestesiar. [...] O comportamento autoritário em Auschwitz visava sempre diminuir, negar a existência humana do prisioneiro. 186

A linguagem sofre alterações de tal porte que desvirtuam sua natureza humana e induzem a estabelecer identificações com animais ou monstros (cães, Cérbero) ou, inversamente, a atribuir a objetos funções que seriam humanas, como neste exemplo vindo de outro

Campo, dado por Levi: “Narra Marsalek, em seu livro Mauthausen (Milão, La Pietra,

1977), que nesse Lager, ainda mais diversificado linguisticamente do que Auschwitz, o chicote se chamava der Dolmetscher, o intérprete: aquele que se fazia compreender por

todos.”187

A comunicação é constituída então por tonalidades e timbres no limiar do humano, da ordem dos berros, dos latidos, dos golpes. Algumas palavras também apresentam uma face assombrosa e sinistra. Nascem termos “híbridos” com raízes latinas como a temível palavra Selekcja, que significa “seleção” em polonês, tratando-se da seleção entre os

prisioneiros judeus e ciganos a serem condenados para as câmaras de gás. Em SQU o

185“Eu aprendera algumas palavras de alemão poucos anos antes, quando ainda era estudante, com o único

objetivo de entender os textos de química e de física” (LEVI, Os afogados e os sobreviventes, p.83)

186

KLUGER, Paisagens da memória , p. 103

tema da seleção, embora acenado em outros momentos, concentra-se em um dos capítulos finais - onde é relatada a aceleração do extermínio – conforme uma economia narrativa organizadora do texto. Embora em Auschwitz- Monovitz (onde Primo Levi se encontrava) as câmara de gás não estivessem à vista, os SS realizavam periodicamente seleções para eliminar os mais doentes e os que não tinham mais condição de trabalhar, escolhendo-os tanto na enfermaria quanto organizando rápidos e humilhantes exames.

O escritor relembra: “Sentimos que as seleções estão chegando. Selekcja: a palavra híbrida, latina e polonesa, ouve-se uma, duas, muitas vezes, no meio de falas

estrangeiras.”188

Esta palavra, que evoca o temido desfecho de um extermínio capilar, chega a transformar o ar em volta materializando-se: “No começo não se percebe, logo ela chama a nossa atenção; por fim, torna-se pesadelo. Hoje os poloneses dizem selekcja. [...] Nos dias seguintes, a atmosfera do Campo e da fábrica está impregnada de selekcja.”

189

Cada palavra é embebida de um significado concreto, cru, preciso, palpável, inseparável da realidade à qual se refere: o contexto do Lager. Tanto que não podemos entender

exatamente o que significa “fome” ou “medo” se nós nos referimos ao significado

comum geral, pertencente às comunidades humanas, pois no Lager a realidade é outra e ela atravessa a linguagem. (Lembramos a citação do Cap.1, p.9: “Dizemos “fome”,

dizemos “cansaço”, “medo” e “dor”, dizemos “inverno”, mas trata-se de outras coisas.

Aquelas são palavras livres, criadas, usadas por homens livres.”)

Assim, às vezes um único significante não dá conta das múltiplas falas e as inúmeras palavras para o mesmo objeto testemunham a pluralidade linguística do Lager que resiste a qualquer síntese e unificação: “ dentro de cinco minutos começa a distribuição do pão –

Brot- Broit-chleb-pain-lechem-kenyér -, do sagrado tijolinho cinzento”.190 É interessante a junção de pão e tijolo que parece antecipar a outra sequência plurilíngue do texto, justamente relativa às traduções de “tijolo” (mattone):

188 LEVI, p.126 189

Ibidem

A Torre do Carbureto, que se eleva no meio da fábrica e cujo topo raramente se enxerga na bruma, fomos nós que a construímos. Seus tijolos foram chamados Ziegel, briques, tegula, cegli, kamenny, bricks, téglak, e foi o ódio que os cimentou; o ódio e a discórdia, como a Torre de Babel, e assim a chamamos: Babelturm, Bobelturm, e odiamos nela o sonho demente de grandeza dos nossos patrões, seu desprezo de Deus e dos homens, de nós homens. 191

Múltiplas línguas, mas também múltiplas experiências, emoções, estórias, individualidades que se misturam na triste e cinzenta massa de seres condenados.

Em SQU, esta mini-Babel material (a Torre do Carbureto), símbolo da Babel maior, além de reforçar o tema da confusão das línguas, explicita seu significado de condenação.

E, ainda uma vez, hoje, como na antiga lenda, nós todos percebemos ( e os alemães o percebem) que uma maldição – não transcendente e divina, mas imanente e histórica – pende sobre essa insolente estrutura, fundada na confusão das linguagens e erguida a desafiar o céu, como uma blasfêmia de pedra.192

De fato, nas versões do mito, as causas da dispersão das línguas encontram-se na punição consequente a uma culpa. No estudo A Babel do inconsciente, onde o tema mitológico é o ponto de partida para uma perspectiva psicanalítica, os autores consideram que a punição é percebida como antefato da condição humana:

Há um elemento central na história de Babel e naquela das “origens”[...].Elas propõem um estado primordial, uma ação que provoca uma punição, introduz uma clivagem e, finalmente um estado consecutivo a essa que depois é identificado como a condição do homem.193

191 Ibid., p.73. Esta tradução sofreu uma intervenção nossa, pois na edição brasileira a segunda palavra para

“torre de babel” que imaginamos ser em iídiche, Bobelturm, foi interpretada como erro e corrigida,

repetindo portanto Babelturm em alemão mais uma vez.

192 Ibidem

193 AMATI-MEHLER, Jacqueline. ARGENTIERI Simona. CANESTRI, Jorge. A Babel do inconsciente.

Da mesma forma, George Steiner, que se detém na história da utilização da metáfora da Babel na tradição cultural, sob a perspectiva da filosofia da linguagem e da tradução, salienta que:

Não existe civilização que não tenha uma própria versão de Babel, uma mitologia da dispersão originária das línguas. Há duas hipóteses principais, duas amplas tentativas de resolver o enigma através da metáfora: foi cometido algum erro terrível, uma liberação acidental do caos linguístico, à maneira do vaso de Pandora, ou – e trata-se da explicação mais comum – a condição linguística do homem, a incomunicabilidade que tão absurdamente o divide, é uma punição.194 [trad. nossa da ed. italiana]

À distância de anos, num ensaio sobre tradução, Levi retoma o tema da Babel sublinhando o paralelismo entre a lenda antiga e contextos modernos, onde as diferenças linguísticas são percebidas ainda como uma maldição:

Elas [as diferenças linguísticas] permaneceram como uma maldição, como sabe quem teve que ficar ou, pior, trabalhar em um país do qual não conhecia a língua [...]Além disso, a um nível mais ou menos consciente, para muitas pessoas, quem fala uma outra língua é o estrangeiro por definição, o

estranho, o “esquisito”, o diferente de mim, e o diferente é um potencial inimigo, ou pelo menos um “bárbaro”: isto é, etimologicamente, um gago, que não sabe falar, quase um não-homem. Por este

caminho, o atrito linguístico tende a tornar-se atrito racial e político, outra maldição nossa. 195

[trad.nossa]

De fato, no Lager as grandes divisões foram determinadas, sobretudo, pela língua, mais do que por outros critérios também influentes como a nacionalidade, as idéias políticas ou religiosas. Trata-se de um aspecto sublinhado em outros autores sobreviventes, tanto que Pier Vincenzo Mengaldo, ao redigir uma análise comparativa de diversos testemunhos para extrair os temas e os aspectos recorrentes e comuns, não deixa de salientá-lo:.

194 STEINER, George. Dopo Babele

. Milano: Garzanti, 2004, p. 87.

195“Una maledizione esse sono rimaste, come sa chi ha dovuto soggiornare, o peggio lavorare, in un paese

di cui non consoceva la lingua [...]. Inoltre, a livello più o meno consapevole, per molti chi parla un´altra lingua è lo straniero per definizione, l´estraneo, lo “strano”, il diverso da me, e il diverso è un nemico potenziale, o almeno un barbaro: cioè, etimologicamente, un balbuziente, uno che non sa parlare, un quasi- non-uomo. Per questa via, l´attrito linguistico tende a diventare attrito razziale e politico, altra nostra

A confusa e desesperada encruzilhada de povos no Lager foi também, como sabemos, uma experiência à sua maneira excepcional de encontro – ou atrito ou confronto – entre nacionalidades e culturas diferentes. Isto envolveu em primeiro lugar os próprios judeus, no contato entre judeus

“orientais” e “ocidentais”, onde os primeiros perceberam os segundos como completamente

estranhos por cultura e tipo de civilização, grau de assimilação, posições na sociedade de origem e, sobretudo, língua.196 [trad.nossa]

Germaine Tillion, uma das autoras citadas com seu texto Ravensbrück, enfatiza a

questão: “as grandes divisões, mais ainda do que as de nacionalidade, de partido político ou de religião, foram as das línguas.” 197

O idioma iídiche revela-se marca divisória entre os judeus da Europa ocidental (muitas

vezes “assimilados”, ou seja, identificados mais com a nação de origem do que com a

cultura ou religião judaica) e os judeus ashkenazitas da Europa norte-oriental. Estes demonstram, sobretudo, desconfiança e surpresa – senão desprezo - frente a outros judeus completamente desprovidos de qualquer noção de iídiche.

Todo mundo sabe que “os 174.000” são os judeus italianos: os bem conhecidos judeus italianos que chegaram há dois meses, todos advogados, todos doutores, eram mais de cem e já são apenas quarenta; os que não sabem trabalhar, os que se deixam roubar o pão, os que apanham da manhã até a noite; os alemães chamam-nos “zwei linke Hände”(duas mãos esquerdas), e até os prisioneiros poloneses desprezam-nos porque não sabemos falar iídiche. 198

Quarenta anos depois, Levi volta a refletir sobre o Lager e, ao analisar a relação dos prisioneiros com os judeus italianos, acrescenta:

O iídiche era de fato a segunda língua do campo (substituída mais tarde pelo húngaro). Eu não só não o entendia como só vagamente sabia de sua existência, com base em algumas citações ou historietas ouvidas de meu pai, que por alguns anos havia trabalhado na Hungria. Os judeus poloneses, russos, húngaros espantavam-se com o fato de que nós, italianos, não o falássemos:

196 MENGALDO, La vendetta è il racconto, p. 85 197

TILLION apud MENGALDO, ibidem, tradução nossa

éramos judeus suspeitos, em que não se podia confiar; além de sermos, naturalmente, badoglios para os SS e mussolinis para os franceses, para os gregos e para os prisioneiros políticos. Mesmo

deixando de lado os problemas de comunicação, não era cômodo ser judeu italiano. 199

O iídiche torna-se para Levi - o italiano deportado por ser judeu - a lacuna linguística por excelência, causando quase um sentimento de culpa por não entendê-la, como declara em seu ensaio de 1986:

Angustiava-me mais do que o polonês, que eu não compreendia em absoluto, porque “deveria compreendê-lo”. Escutava-o com atenção tensa: muitas vezes me era difícil entender se uma frase a mim dirigida, ou pronunciada perto de mim, era alemã ou iídiche, ou ainda híbrida: com efeito, alguns judeus poloneses bem-intencionados se esforçavam por germanizar seu iídiche o máximo possível, a fim de que eu os compreendesse.200

Em SQU o idioma aparece amplificar e aprofundar a incompreensão. Um prisioneiro

“bem-intencionado” de nome Schmulek, tenta convencer Levi da realidade do extermínio

e das seleções, mas ele demonstra-se surdo ao som-significado estranho:

Quanto a esse tipo de perigos, ainda tenho idéias confusas. Todos falam nisso indiretamente, por alusões; se pergunto, olham-me e calam.

É verdade, então o que se ouve dizer, de seleções, de gás, de forno crematório?

Crematório. O outro, o vizinho de Walter, acorda sobressaltado, endireita-se: quem fala em crematório? Que é que há? Não podem deixar a gente dormir em paz? Ele é um judeu polonês, albino, com um rosto magro e benévolo; já passou da juventude. Chama-se Schmulek, é ferreiro. Walter, brevemente, o informa.

Der Italeyner não acredita nas seleções? Schmulek esforça-se por falar alemão, mas fala iídiche; tão grande, porém, é a sua ânsia evidente de fazer-se compreender, que, bem ou mal compreendo. Faz Walter calar com um gesto; cabe a ele me convencer.

- Me mostra teu número. Tu és 174.517. Esta numeração começou há dezoito meses e vale para Auschwitz e os Campos que dele dependem. Nós somos, agora, dez mil aqui em Buna-Monowitz; uns trinta mil, talvez entre Auschwitz e Birkenau. Wo sind die andere? Onde estão os outros? - Talvez transferidos para outros Campos...

199

LEVI, Os afogados e os sobreviventes, p.87

Schmulek abana a cabeça, diz a Walter: - Er will nix verstayen – ele não quer compreender.201

Neste episódio, a língua íidiche gera um desnorteamento por evocar, então, uma ameaça