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4.1 Tradução e maldição de Babel

Para Walter Benjamin a tradução, por um lado, “tende a expressar o mais íntimo relacionamento das línguas entre si" 428 e, ao mesmo tempo, “é apenas um modo algo provisório de lidar com a estranheza das línguas” e “uma solução não temporal e

provisória para essa estranheza permanece vedada aos homens.”429

Em outras palavras, como explica Susana Kampff Lages no ensaio Walter Benjamin Tradução e Melancolia, se a tradução é produto inevitável da dispersão pós-babélica das línguas, ela acaba se propondo como única saída para sua superação (apesar da impossibilidade de equivalência entre idiomas).430

Esta tensão entre possibilidade e impossibilidade, capacidade e insuficiência da tradução, assim como a função da tradução como leitura crítica, podem ser identificadas no

episódio de “O canto de Ulisses” em SQU. Entretanto, a nível teórico, no breve ensaio

“Traduzir e ser traduzido”, Primo Levi aponta para o ato de traduzir como um evento

altamente positivo, próprio da civilização, portanto sob uma luz menos problematizante:

“quem exerce a profissão de tradutor deveria se sentir honrado, pois trabalha para limitar

os prejuízos da maldição de Babel.”431 Trata-se de uma ampliação das fronteiras do conhecimento, um ato de comunicação que joga uma ponte entre idiomas, entre culturas, entre seres humanos. O iluminista Primo Levi declara ainda que a tradução configura-se, e não apenas no Campo, como “obra de civilização e de paz”. 432

428

BENJAMIN, Walter. A tarefa-renúncia do tradutor. Tradução de Susana Kampff Lages. In A tarefa do tradutor, de Walter Benjamin: quatro traduções para o português. Belo Horizonte: Fale/UFMG, 2008,

p.70

429

Ibid., p. 72.

430 KAMPFF LAGES, Susana. Tradução e melancolia. Walter Benjamin: tradução e melancolia. S.Paulo,

Ed.USP, 19/08/2010, p. 213

431 LEVI, L´altrui mestiere, p.111, tradução nossa

432 LEVI, L´altrui mestiere, p.113. George Steiner leva o conceito mais longe atrelando a existência da

No que concerne à atividade de tradução, o Levi escritor experimentará de novo o corpo a corpo com o texto na tradução de Kafka, mas também no acompanhamento meticuloso das traduções para o alemão de seus livros, principalmente de SQU. Ele considerava absolutamente necessário divulgar sua primeira obra na Alemanha, pois a população deste país seria o público principal a ser atingido. Levi explica como procedia junto ao

editor: “eu alertava para não tirar ou mudar uma palavra sequer do texto e pedia que me

enviasse o manuscrito da tradução em fascículos, capítulo por capítulo, à medida que o trabalho caminhava; queria examinar a fidelidade, não apenas lexical, mas também

íntima.”433

E mais adiante acrescenta: “queria que naquele livro, em particular na versão alemã, nada se perdesse das asperezas, das violências feitas à linguagem que, além do mais, havia me empenhado em reproduzir no original italiano.”434

Levi confirma a idéia de tradução como leitura crítica e aprofundada quando afirma que

ninguém lê o texto como o lê um tradutor, pois “uma coisa é ler um livro sentado numa

poltrona, rapidamente, sem muita atenção, outra coisa é lavrá-lo, palavra por palavra, sulcar a terra, pedaço por pedaço, como quando se traduz.” 435

Nesta afirmação vislumbramos a idéia de uma função privilegiada no que concerne à relação com o texto escrito, uma possibilidade de diálogo com a literatura que, apesar de atravessar obstáculos, também traz surpresas, escondidas nos sulcos das palavras, que vem à tona graças ao encontro-confronto entre duas línguas.

(STEINER, Dopo Babele, p.57, trad. nossa da ed. italiana). Todavia ao verificar a tradução brasileira de

“translate out of time”, encontramos “traduzir além dos tempos” ou “por sobre o tempo”.

433“Io diffidavo di togliere o cambiare uma sola parola del testo, e lo impegnavo a mandarmi il manoscritto

della traduzione a fascicoli, capitolo per capitolo, a mano a mano che il lavoro procedeva; volevo controllare la fedeltà, non solo lessicale, ma intima. “ (Apud NEUSCHÄFER, Anne. Primo Levi in Germania. In La manuntezione della memoria. Diffusione e conoscenza di Primo Levi nei pa esi europei. Atti del Convegno, Torino 9-10-11 ottobre, 2003. Torino: Centro Studi Piemontesi, 2005, p. 187, tradução nossa). Anne Neuschäfer refere-se à publicação de Harmut Köhler: Nachruf auf Haiz Riedt, em “Der

Übersetzer” (Janeiro-Março 1997), p.31, trad. nossa

434 “volevo che in quel libro ed in specie proprio nella veste tedesca, niente andasse perduto di quelle

asprezze, di quelle violenze fatte al linguaggio, che del resto mi ero sforzato del mio meglio di riprodurre nell´originale italiano” (Ibidem)

435“un conto è leggere un libro seduti in poltrona, corsivamente, senza soffermarsi, un altro conto è ararlo,

parola per parola, zolla per zolla, come si fa traducendolo.” (LEVI. Conversazioni e interviste 1963-1987, p.189, tradução nossa)

4.2 Traduzir no escuro

Primo Levi esteve, como vimos, numa autêntica Babel, onde era possível sucumbir por não entender uma ordem em alemão ou não saber se comunicar na hora certa. . O episódio inusitado e fascinante de “O canto de Ulisses”, em parte já exposto, da tentativa de traduzir versos poéticos no contexto desumanizado do Campo, constitui um dos pontos altos da narração.

Lembremos a cena: o prisioneiro Levi caminha em direção às cozinhas com o companheiro alsaciano Jean, interessado em aprender italiano; Primo então resolve declamar e explicar os versos do canto XXVI do Inferno, onde Dante narra o encontro com Ulisses e este, por sua vez, relata sua última viagem (segundo a versão cristã conhecida pelo poeta florentino) até os limites do mundo conhecido - o estreito de Gibraltar - e o consequente fatal naufrágio. Mas a memória é falha e assistimos ao esforço tanto de recompor os versos quanto de traduzi-los para o francês. Levi começa, pára, esquece, traduz o que pode, esforça-se. Mesmo assim e apesar das lacunas, o italiano Primo não desiste e tenta até explicá-los e comentá-los, encontrando, por vezes, novas leituras. Como dissemos, não é apenas a memória que falha, é o próprio ato de traduzir.

Segundo Benjamin o interessante na obra literária não é o que ela "comunica", e sim o que há nela de inapreensível e, portanto, a boa tradução não passa pelo caminho da transmissão mecânica de informações, mas pela relação que se estabelece entre os dois textos, as duas línguas. Sendo assim, o ato tradutório impõe uma margem de impossibilidade, de indizibilidade, que se soma aqui às lacunas da representação do universo concentracionário. Entretanto, Levi parece encontrar na literatura um caminho para o discurso sobre o inferno real, confirmando novamente que frente à tensão entre impossibilidade e possibilidade a convocação de um texto literário, com seus artifícios ficcionais, produz o movimento da fala, ao invés de encalhar no silêncio.

A tradução é também um tipo de leitura crítica e para Levi, já no Campo, esta tradução apresenta-se como uma leitura renovada no ato em que se realiza o corpo a corpo com o texto e, também, como transmissão da própria interpretação: uma leitura, por sua vez,

mutilada em sua matéria prima, a página escrita. O texto ausente, neste caso, revive na mente e na palavra dita. Tudo, portanto, está incompleto: memória, tradução, leitura. Todavia estes elementos se compensam mutuamente: a falta do texto escrito pede socorro à memória, os vazios da memória são preenchidos pelas descobertas interpretativas, os limites da tradução reavivam o desejo de comunicar e, portanto, estimulam o funcionamento deste circuito entre memória, tradução e leitura, memória do texto e tradução e leitura sem texto.

A ausência do texto parece refletir o vazio da palavra escrita, a ausência da lei humana ou da literatura: um buraco negro436 da cultura que se alarga no meio do campo de extermínio até engolir todo o real. Mas através da palavra (e da palavra de uma testemunha, embora ficcional), a literatura é recriada; o texto de Dante é quase reeditado clandestinamente pela oralidade.

Há outros dois aspectos que gostaria de mencionar brevemente.

O esforço de Levi, escravo no campo de extermínio, ganha um acréscimo de significado, pois através da tentativa de rememoração, de tradução e de interpretação, ocorre uma tentativa de se relacionar com um texto ausente, mas fundador. De fato, estes versos constituem o marco do início do italiano como língua e aproximam mais do que nunca o prisioneiro, exilado de tudo, a sua pátria, à língua-mãe. O poema de Dante oferece um mergulho na fonte originária da própria língua (fonte histórica e literária, pois o italiano nasce com Dante, assim como a literatura italiana), estreitando os laços vitais com as raízes. O surgimento na memória do conto de Ulisses no conto de Dante parece um vôo na espiral do tempo, na busca do espírito-palavra dos antepassados, como mais um suporte para o prisioneiro.

Os versos do Canto XXVI da Comédia, recriados em Auschwitz, estabelecem também uma relação entre literatura e vida. O resgate da figura simbólica de Ulisses (o homem que desafia os deuses para perseguir o conhecimento e a compreensão das coisas) surge como identificação possível, tanto pelo naufrágio do protagonista, quanto pela aventura humana da superação dos limites do saber. Ou seja, o texto ficcional espelha-se em elementos biográficos. Os dois últimos pontos – os laços com uma raiz identitária e a

correspondência literatura-vida - confluem no fato de Dante atuar em Levi como

intertexto da maneira em que Proust exercia esta função para Barthes:

[...] a obra de Proust é, pelo menos para mim, a obra de referência, a mathésis geral, o ma ndala de toda a cosmogonia literária – como as Cartas de Mme Sévigné o eram para a avó do narrador, os romances de cavalaria para D.Quixote, etc.; isto não quer dizer que eu seja um “especialista” de Proust: Proust é o que me ocorre, não o que eu chamo; não é uma “autoridade”; é apenas uma recordação circular. E é isto o intertexto: a impossibilidade de viver fora do texto infinito – quer este texto seja Proust, ou o jornal diário, ou o écran da televisão: o livro faz o sentido, o sentido faz a vida.437

O fato de Dante não constar entre os autores propostos por Levi na coletânea de suas

“raízes” literárias, deve-se, justamente, à sua incorporação mais profunda, quase uma

metabolização física, pois incluí-lo “seria como se, num documento de identidade, na linha „signos particulares‟ estivesse escrito: „dois olhos‟.” 438 A comparação com um documento de identidade reforça nossa hipótese de que a língua de Dante opera em SQU

– e principalmente no capítulo “O canto de Ulisses” – como italiano elevado à máxima

potência ou, para permanecer em âmbito químico, como tintura-mãe, essência primária da qual o italiano de cada um seria um extrato diluído. Apesar desta imagem não corresponder a uma realidade filológica, pensamos que expresse uma possível interpretação.

Se, por um lado, a necessidade de compreender e de comunicar confronta-se com a frustração, o esforço, a inadequação que todo processo de tradução comporta, por outro

“é necessário tolerar o fato que nenhuma tradução – mesmo a mais cuidadosa e precisa -

será completamente satisfatória e definitiva”439. De fato, o contexto do Lager amplia tanto a urgência em comunicar quanto a frustração e o sentimento de inadequação; desfaz todas as certezas, as regras, os códigos éticos e a linear confiança na razão, alarga o hiato

437

BARTHES, Roland. O prazer do texto. Lisboa: Edições 70, 1974, p.77

438 “sarebbe stato come se, in un documento di identità, sul rigo ´segni particolari´ si scrivesse ´Due

occhi´.” (LEVI, Conversazioni e interviste 1963-1987, p.154, trad. nossa)

entre possibilidade e impossibilidade de usar as palavras para interagir num âmbito humano.

O esforço de Levi, Häftling n. 174517, ganha um acréscimo de significado, pois através da tentativa de rememoração, de tradução e de interpretação hermenêutica, ocorre uma tentativa de se relacionar com o texto que é releitura da figura simbólica de Ulisses (o homem que desafia os deuses para perseguir o conhecimento e a compreensão das coisas), interação de literatura e vida - posto que Dante narra a sua versão do naufrágio de um narrador-testemunha -, mergulho na nascente do italiano e portanto estreitamento do laço com as raízes.

A partir do momento em que este episódio é narrado literariamente, observamos que a função testemunhal é, todavia, potencializada e não limitada por estas distorções e por estes vácuos. Pois Ulisses, a testemunha de um naufrágio, é recriado por Dante, a testemunha da viagem ao Inferno, e retomado por Levi, desta vez testemunha real do inferno do Campo.

Quando o escritor reivindicava, polemizando com Jean Améry, a importância da cultura na situação extrema do campo de extermínio, acrescentou um comentário sobre o episódio do Canto de Ulisses:

Para mim a cultura foi útil; nem sempre, às vezes por vias subterrâneas e imprevistas, mas me serviu e talvez me tenha salvado. Releio após quarenta anos em É isto um homem? o capítulo “O canto de

Ulisses”: é um dos poucos episódios cuja autenticidade pude verificar (é uma operação

reconfortante: com a distância temporal, como disse no primeiro capítulo, pode-se duvidar da própria memória) porque meu interlocutor de então, Jean Samuel figura entre os pouquíssimos personagens do livro que sobreviveram. Permanecemos amigos, encontramo-nos várias vezes, e suas recordações coincidem com as minhas: ele se lembra daquela conversa, mas, por assim dizer, sem acentos, ou com os acentos deslocados. Ele, na época, não estava interessado em Dante; estava interessado em mim, na minha ânsia ingênua e pretensiosa de transmitir-lhe Dante, minha língua e minhas confusas reminiscências escolares, em meia hora e com as estacas da sopa no ombro. Pois,

onde escrevi “daria a sopa de hoje para poder ligar ´non ne avevo alcuna´ aos versos finais”, eu não

estava mentindo, nem exagerando.440 [trad. nossa]

Queremos acrescentar o ponto de vista de Jean Samuel sobre o episódio. Ao longo de sua autobiografia, o sobrevivente alsaciano elogia a incomum memória do amigo italiano a tal ponto que em relação a Levi afirma: “para mim era como uma tábua de salvação no oceano da memória” 441. Mas os caminhos mnemônicos possuem mistérios que levam Jean a se interrogar sobre o fato de cada um lembrar com mais intensidade de episódios

diferentes: “ambos tivemos a sensação de um encontro crucial, inesquecível, no entanto

aquela recordação não se baseava nos mesmos gestos, nas mesmas palavras, nas mesmas emoções.”442 O que aconteceu foi que Jean Samuel conservou a memória do “canto de

Ulisses” mas com menos ênfase emocional em relação a outro momento de proximidade

e interação durante um bombardeio (onde conheceu Primo), e em relação às recordações do próprio Levi.

No caminho ele quis me traduzir alguns versos de Dante e explicá-los, de modo que pudesse perceber toda a força do poema. [...] Um episódio de nossa história comum essencial em seu livro e que, entretanto, curiosamente, não foi tanto para mim; conservo dele uma lembrança diferente...

440 LEVI, I sommersi e i salvati.Turim: Einaudi, 2007, p.112. Este trecho comporta três problemas na

tradução da edição Paz e Terra, que precisamos assinalar para justificar nossa intervenção. Na edição brasileira a descrição material e concreta “con le stanghe della zuppa sulle spalle” foi transformado no metafórico “sob o tacão da fome”, onde portanto preferimos o mais literal “ com as estacas da sopa no ombro”; o segundo ponto problemático é a síntese que o tradutor opera quando Levi relata a dificuldade de juntar um verso de Dante com os versos finais:

Em italiano:“dove ho scritto ´darei la zuppa di oggi per saldare non ne avevo alcuna col finale´, non mentivo e non esageravo.”

O tradutor opta por: “ao escrever ´daria a sopa de hoje para poder lembrar até o fim´, não mentia e não exagerava.”;

Nossa tradução: “ao escrever ´daria a sopa de hoje para ligar non ne avevo alcuna com os versos finais”. Consideramos “lembrar até o fim” uma redução que apaga tanto a citação dantesca “non ne avevo

alcuna”, quanto a imagem de dois versos que ficam sem a junção, ou seja, a imagem da lacuna.

Além do mais, sendo uma auto-citação, a frase sobre a junção dos dois versos já se encontra em É isto é um homem? traduzida, desta vez sem omissões: “Eu renunciaria à minha ração de sopa para poder ligar ´non ne avevo alcuna´ com os versos finais.” (LEVI, p.117). Portanto, na edição de Os afogados e os sobreviventes a auto-citação também é sacrificada.

Enfim, a palavra “conato ” que significa “ânsia de vômito” foi traduzida com “tentativa” (“tentativa ingênua e presunçosa”), expressão à qual preferimos um mais expressivo e fiel “ânsia”. Cf. LEVI, Os

afogados e os sobreviventes, p.119.

441

SAMUEL, Mi chiamava Pikolo, p. 188, trad. nossa da ed. italiana

Revejo Primo que se concentra, tensionado no esforço de rememorar exatamente o texto, e depois sua expressão de alívio que acompanha a descoberta de uma interpretação perfeitamente adequada a circunstâncias que Dante não havia previsto. E como poderia conceber Auschwitz ? 443 [trad. nossa da ed. italiana]

Samuel - este “Ulisses” que nunca vira o mar Mediterrâneo - parece dividido entre a importância dada por Levi à forma literária e sua própria memória, como se a primeira possuísse um peso que recolocaria em questão sua visão menos brilhante. No entanto, não deixa de homenagear o escritor italiano, citando trechos inteiros do capítulo mencionado, como para contrabalançar as duas memórias e integrá-las. 444

De fato, “O canto de Ulisses” é uma página de literatura aberta a muitas leituras,

independentes da adesão às diversas verdades, que de qualquer maneira, por sua vez, propõem interrogações sobre a tortuosidade da memória. E não só. Nele, o ato de traduzir se constitui como ato de comunicação humana, de mobilização de tentativas

443 Ibid., p.29 444

Por ocasião do falecimento de Jean Samuel, em 2010, Aberto Cavaglion escreveu para o Centro Internazionale di Studi Primo Levi de Turim, um artigo, “In ricordo di Jean Samuel”, que apresentamos

em italiano: “Con il trascorrere degli anni, e il crescere della fortuna di Levi, forse a sua insaputa, Samuel

ha accettato questa parte fino a esserne sopraffatto: egli rappresentava la forza che la memoria letteraria, la poesia sa conservare nelle avversità. Per il pubblico italiano, ma non soltanto per questo, egli ha

rappresentato la potenza dell‟umanesimo classico, del Dante umanista.[...] L‟episodio di Pikolo e del canto

di Ulisse chiamava in causa il tema, centrale in Se questo è un uomo, delle fonti letterarie. Jean Samuel era invece, innanzitutto, un uomo, non un simbolo. E, come altri personaggi-uomo di Levi (per esempio Henri o Cesare) non subito riuscì a riconoscersi nella pagina del libro.[...] I brani della corrispondenza privata che Samuel pubblica nel suo libro sono belli almeno quanto il capitolo di Ulisse e rappresentano senza ombra di dubbio il carteggio di Levi più notevole fra quelli che oggi si

conoscono.[...] In quei primi mesi, in quelle prime settimane, il primo cercarsi e l‟affannoso ritrovarsi dei

compagni superstiti anima un dialogo epistolare europeo che richiederebbe uno studio specifico. Erano i giorni del silenzio, della testimonianza non accolta nemmeno nel grembo famigliare. I prigionieri si cercavano e occorreva un «hasard extraordinaire» per riuscire a farcela e potersi riabbracciare come accadde a Primo e a Pikolo. [...] In questo antefatto, a parlare e a raccontare i guai passati sono due Ulisse ritornati alla loro Itaca dopo aver temuto il naufragio. I salvati si rincorrono, si mandano lettere, si cercano e chiedono a loro volta notizie di altri sopravvissuti. [...] Nell‟estate 1947, poche settimane dopo che Levi aveva inviato in pre-lettura il capitolo su Pikolo, i due amici meditano di incontrarsi sulla Costa Azzurra («eravamo giovani fra giovani»). Samuel vedeva a Nizza per la prima volta in vita sua il mar Mediterraneo di Ulisse. Levi medita di raggiungerlo su una Lambretta che aveva appena acquistato, ma alla frontiera di Mentone lo bloccano perché non ha il passaporto, che non ha nemmeno Jean. I doganieri, senza sapere quale era la loro storia, acconsentono a un breve incontro negli uffici. Primo porta in dono della frutta e

della cioccolata.”

(http://www.primolevi.it/Web/Italiano/Contenuti/Auschwitz/140_In_ricordo_di_Jean_Samuel,última leitura: 01-06-2012)

representativas, de resistência à aniquilação, à mudez, ao naufrágio, ato de civilização por excelência.

4. 3 Traduzir a língua obscura

Quando a editora Einaudi convidou Levi a traduzir O processo de Franz Kafka, a tarefa revelou-se uma aventura árdua e difícil, onde a fidelidade chocou-se com exigências mais