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NOTAS

CONCLUSIVAS

Os percursos da vida de Aquilino Ribeiro e de Leal da Câma- ra são tão preenchidos por tamanha atividade literária, artística e cultural que inevitavelmente se projetam na troca de corres- pondência entre os dois amigos. Deixamos algumas notas so- bre categorias mais significativas das conversas escritas entre as duas figuras republicanas contemporâneas que, desde o exí- lio político, se ligam tão desinteressadamente por uma amizade que perdura até à morte de Leal da Câmara, compartilhada na correspondência.

Na análise da correspondência entre Aquilino Ribeiro e Leal da Câmara sobressai, numa primeira leitura, a lealdade e a admi- ração recíproca pelos projetos de um e de outro e a franqueza e frontalidade crítica de um para com o outro. As palavras ponti- lhadas nas descrições das missivas mostram um reconhecimento enorme por parte de Aquilino Ribeiro pela obra do artista cari- caturista e de este pela obra literária do escritor. De tal forma Aquilino Ribeiro vê na vida e na obra do artista tão grande ta- lento, o qual deveria ser perdurado no tempo, que após a home- nagem da Sociedade de Belas Artes a Leal da Câmara, em 1947, com uma mostra retrospetiva sobre o artista, Aquilino Ribeiro e Câmara Reis organizam, com a aprovação e colaboração do artis- ta, uma publicação sobre a vida e obra do artista, interrompida pela morte de Leal da Câmara. Daí que, a não realização desta edição maior, por circunstância imprevista, impelisse, provavel- mente, Aquilino Ribeiro a biografar a vida e obra do artista Leal da Câmara, com publicação em 1951.

Mas se a correspondência de Aquilino Ribeiro elucida como o escritor se congratula com a obra de Leal da Câmara, também

fica explícito, nas cartas do artista caricaturista, como ele valo- riza a modernidade da escrita de Aquilino Ribeiro. Fica enfure- cido e utiliza até um tom irónico, quando da atribuição, em 1933, do prémio Malheiro Dias, pela Academia das Ciências de Lis- boa, à obra As três Mulheres de Sansão, estranhando como é que a Academia não tinha ainda observado a notabilidade da escrita de Aquilino Ribeiro desde o livro Jardim das Tormentas. As cartas expedidas por Leal da Câmara são cruzadas por palavras de elo- gio à escrita de Aquilino Ribeiro e à singularidade do escritor. Sempre o apoia quando a crítica literária da imprensa da capital lhe é menos favorável, incentivando-o a não desanimar perante gente a quem falta modernidade para apreciar a estética literária do escritor.

Aquilino Ribeiro, ainda em Paris, e, no início da construção da amizade com Leal da Câmara, no período em que o artista está na L´Assiette au Beurre, chega a afirmar numa das suas cartas, com despudor franco, que o artista merece ter uma estátua. E numa outra carta, em que uma das temáticas é a governação de Sidó- nio Pais, Aquilino Ribeiro considera que Leal da Câmara deve- ria substituir o presidente do Ministério. Episódios escritos que mostram a liberdade de pensar e de dizer um ao outro da impor- tância do homem e da obra.

Ao longo dos quase quarenta anos de escrita entre os amigos vislumbram-se traços de caráter semelhantes entre Aquilino Ribeiro e Leal da Câmara que, estamos em crer, são o cimento que agrega a intensa amizade. A independência de espírito, a con- vicção nas suas ideias, defendendo-as com frontalidade porque acreditam nelas. Sem medo de opinar contra a bafienta socieda- de portuguesa e contra os políticos republicanos, seus compa- nheiros de luta contra a Monarquia Constitucional, pela falta de coragem em fazer melhor pela cultura do povo português, única via de transformar Portugal. Os cultos republicanos governantes que dirigem o país não deviam esquecer as ideias que defendiam antes da instauração da República para o progresso social e cul- tural do país.

Neste período, a seguir a 1910, regressam a Portugal intelectuais e artistas que se encontram fora do país, ou por exílio político ou porque procuram na Europa, sobretudo em França, um novo mo- delo de ensino das artes, e a governação republicana deve abraçar e ouvir esta plêiade de intelectuais que estão a par das vanguardas artísticas, podendo dar valiosos contributos para o progresso cul- tural do país. Uma altura de ouro em que artistas e escritores mo- dernistas lutam por um Portugal mais moderno, mais próximo

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de uma Europa além-Pirenéus (Exposições dos Humoristas Por- tugueses, as revistas literárias Renascença e Orpheu e mais tarde a

Seara Nova)

No decurso da comunicação epistolográfica há duas temáticas que vale a pena ficarem como notas conclusivas. Em cartas de Leal da Câmara fica claro a dificuldade que amigos republicanos tiveram em aceitar o convite de Aquilino Ribeiro ao monárqui- co jornalista e escritor Carlos Malheiro Dias para prefaciar o primeiro livro do escritor, Jardim das Tormentas. Leal da Câmara também não aceita bem este convite para apresentação da obra, vendo que Malheiro Dias coíbe o público literário de dar apreço à moderna obra do escritor republicano.

Uma outra temática recorrente nas missivas de Leal da Câma- ra, no período entre 1914 e 1915, são os pedidos insistentes do ar- tista a Aquilino Ribeiro para interceder junto de governantes da República para o artista ter um lugar em Lisboa, para poder re- gressar de Paris. Quando se instala em Leça da Palmeira, em 1915, é o artista que fala com republicanos (Álvaro de Castro, Eduardo Santos Silva) sobre a reputação de Aquilino Ribeiro. Numa mis- siva, Leal da Câmara dá os parabéns ao amigo por uma nomea- ção pelo presidente da Câmara do Porto, Santos Silva. Aquilino encontra-se já em Lisboa e não terá aceitado a nomeação para algum cargo no Porto.

Pelas missivas e pela obra de Aquilino Ribeiro, Leal da Câmara:

Vida e obra, depreende-se que os republicanos democráticos go-

vernantes da 1.ª República não deram a mão ao artista. Bem Leal da Câmara, desgastado pela sua falta de saúde em Paris, pedia a Aquilino Ribeiro para tratar do “seu negócio” nos corredores dos ministérios de Lisboa. Muito menos lhe davam cargos políticos. Percebe-se porquê. A independência do seu espírito crítico e a veemência como Leal da Câmara luta pelas suas ideias, não mos- trando, por vezes, ser “politicamente correto” é, provavelmente, um dos fatores porque os amigos republicanos nunca lhe deram um cargo público.

Não fossem amigos republicanos a pressionar governantes, nem Aquilino Ribeiro nem Leal da Câmara teriam tido os luga- res públicos que vieram a ter. Aquilino, como professor no Liceu Camões e na Biblioteca Nacional, pela mão de Raul Proença, e Leal da Câmara pelo amigo republicano Santos Silva, presidente da Câmara do Porto, entre 1915 e 1918, que o ampara como mé- dico em Leça da Palmeira, quando o artista retorna em 1915, e intercede para ser professor na Escola Industrial. E, é ainda mais uma vez, em 1922, já o artista tinha sido transferido para a Escola

Industrial Fonseca Benavides, em Lisboa, que a amiga Ana de Castro Osório, amiga do presidente Bernardino Machado, in- tercede para que o artista convidado para decorar o Pavilhão de Portugal, na grande exposição da comemoração dos cem anos da independência do Brasil, no Rio de Janeiro, seja Leal da Câmara. Ficou sempre um amargo de boca para ambos. Enquanto os re- publicanos combatem pela queda da Monarquia, tanto Aquilino Ribeiro, pela luta revolucionária, e Leal da Câmara, através das caricaturas panfletárias, ajudam à queda do regime monárquico. Com a sua coragem pagam com o exílio forçado. Aquilino Ribei- ro, até depois da queda da 1.ª República, luta pelas ideias demo- cráticas contra a Ditadura Militar de 1926. O escritor também paga bem caro pelo regime de Oliveira Salazar (1885-1970), que lhe censura a obra literária, mas o Mestre Aquilino Ribeiro nun- ca desiste porque a sua vida é escrever. Ambos os Mestres, o lite- rário e o pintor e caricaturista, mostram à sociedade portuguesa de então um trabalho ímpar e uma moral cívica fora do comum.

Transparece em ambos, na arte e na escrita literária, a moder- nidade do princípio do século XX. Em Leal da Câmara, um pen- samento impregnado de cultura e de novos conceitos sobre a arte e a caricatura - a Arte útil, o humorismo e a sátira. Em Aquilino Ribeiro, uma escrita com finura clássica e enquadrada pelas raí- zes identitárias do povo português. Dois intelectuais do século XX, um grande escritor e um grande artista plástico e caricatu- rista, que há muito merecem uma investigação de fôlego, que se espelhe numa obra maior os seus talentos e trajetos de criação.

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14. Casa de Soutosa / Fundação Aquilino Ribeiro – Casa Museu 15. Aquilino Ribeiro – desenho de Diogo de Macedo

16. Retrato de Leal da Câmara,

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