5 Lydighetspliktens grenser
5.2 Menneskerettslige begrensninger
Chegará o dia em que ninguém mais verá Shakespeare Com medo que Hamlet lhe bata a carteira.
Nelson Rodrigues
@ (soprando a poeira de um livro antigo):
Hamlet. O vento limpa as páginas empoeiradas pelo tempo revelando a mesma história. Procuro uma página da qual eu gostava muito. Será que ela sabe da minha saudade? Ou lhe será indiferente, já que seus próprios sentimentos são tão grandes que lhe enchem até a borda? Alcançar a personagem, examiná-la, experimentá-la, por fim começar a se confundir. O que seria dessa história se eu pudesse prender em minhas mãos os seus crimes e suas vinganças? Assim, arranhando as unhas contra o papel, arrancar dessa história as palavras pai, distância, vazio, pecado, poder. Abro o livro como uma cortina em minha memória e encontro um desconhecido no caminho. (entra hamlet niño correndo) Ficamos em silêncio. Seu rosto está mortalmente pálido e seu nariz está sangrando.
Yorick (entrando vendado):
Ah, você estava aqui! Agora é a sua vez! (tira a venda e cobre os olhos de Hamlet. Música forte.
Hamlet pega Yorick.) Não se assuste, criança. Não sou perigoso. Pega a minha mão. Assim. Você sente
a minha mão? Os dedos, as veias sob a pele, o pulso, está com medo? Na minha idade as mãos ficam um pouco frias. Olha para os meus pés. Eles estão brancos de polvilho. (faz um truque barato e sobra
um lenço na mão) Você conhece este truque, não é? Que aspecto! Olhos inchados! Tome, banhe os
olhos! Toma emprestado o meu chapéu. Sabe que ele fica bem em você! Espere! Um pouco de perfume! (sai)
***
(Música. Hamlet niño se transforma no jovem Hamlet. Aos poucos as persnagens vão entrando na penumbra para o velório: silêncio.)
@:
No ato V, cena II, Hamlet pede ao amigo Horácio para que viva neste mundo de dor para contar sua história. Há quatro séculos ele sobrevive para nos contar esses atos carnais e carnificinas. É claro que ele vem adaptando essa história com o tempo.
Horácio:
Isso já aconteceu em Elsinore, na Dinamarca, e agora pode estar acontecendo em qualquer lugar, via satélite, pela internet, no Paraguai, nos Estados Unidos, no Congo, na Albânia, ou até mesmo no Brasil. Eu não sabia que a Dinamarca era tão grande!
Hamlet:
Vestindo um Paco Rabane enferrujado, safiras e pérolas selvagens, a gasta, prima donna, a vedete Gertrudes! Rainha, soprano, pavoa soberba! Mãe que, apenas alguns dias depois da morte do meu pai, trepa no leito ensebado com o assassino covarde e ladrão.
Gertrudes:
Você fala como se eu não fosse a parte mais interessante dessa história! Como se meu nome não estivesse lá na fachada do teatro em letras garrafais! Sou a que te gerou moleque! Que te fez herdeiro, com direito ao trono, coroa e poder! Hamlet! Hamleto! Malcriado! (Caiu de cabeça do meu colo quando tinha dois anos, acho que a loucura do meu filho Hamster vem daí) Você atrapalhou a minha entrada triunfal! Noutros tempos, quando as companhias de teatro não eram assim tão pobres, eu entrava em cena no alto de uma escadaria e pelos degraus se enfileiravam todos os coristas que me borrifavam perfumes e me jogavam pétalas. Tudo está acabado pra você, meu doce rei! Meu macho, meu cetro. Ah,
assim tão repetina... Hamlet:
Repentina, mãe. Gertrudes:
E não foi o que eu disse? Uma morte repentina, uma flecha, um relâmpago, deixando-me só (piscando
para Claudius), viúva negra, enlutada, desconsolada com o país nessa esculhambação! Essa gente que
avacalha com o decálogo, que nos enraba e nos passa pra trás! Ai! Estou sozinha, meu rei! (pisca para
Claudius) Sozinha com um rebento hiperativo. Do mais altíssimo trono do céu ou das profundezas da
terra, onde te encontras pra sempre enclausurado, me ajuda! Hamlet:
Segunda apresentação, senhoras e senhores: meu tio Claudius, o assassino do rei, que lhe ocupou o trono e o leito conjugal ainda quente Vamos ouvir o seu pensamento.
Claudius:
Buceta e poder. Buceta e poder. Entre buceta e poder... poder. Sempre o poder, mesmo sem buceta. Ah! O quanto me atrai poder representar esse vilão sarnento, fuleiro, mulherengo!
Hamlet:
Terceira apresentação: o pai de Ofélia e de Laertes. Polonius, o coça-saco do rei. Uma foca que bate palmas em troca de sardinhas. Um tamanduá que mete o focinho em qualquer buraco com cheiro de dinheiro.
Polonius:
Sou o conselheiro mais importante da corte. Sou ambicioso, um pouco limitado, quase ridículo, quase o bobo.
Hamlet:
Essa é Ofélia em carne e osso. Uma poodle de circo que pula arcos em troca de paçoquinha. A musa viva do teatro rebolado em mais um papel trágico.
Ofélia:
Mesmo com essa melancolia e essa coloração noturna, quando te vejo perco a cabeça e sinto uma tremedeira como se nas estradas do meu sangue corressem lagartixas! Promete que me amará? Nem que seja um tantinho assim ó!
Hamlet:
Meu pai está morto. O câncer, a arteriosclerose, o pânico, o enfarte, tudo mentira! Estão ouvindo? Tudo mentira! Merda! Tudo é merda! A vida que era do meu pai é merda! A vida da minha mãe é merda! Vocês, pobres coitados, são merda. Esse país de merda está de merda até o pescoço. E também o nada que sou eu. Merda.
Gertrudes:
Vos reuni aqui para que, como um anjo anunciador, tornar-vos particípes... Hamlet:
Partícipes, mãe. Gertrudes:
Partícipes, eu sempre erro nesse pedaço, de uma decisão que tomei: Claudius, irmão de meu recém finado marido, mas sem medida chorado, foi por mim elevado ao cargo de meu legítimo esposo, e por isso, ao mesmo tempo agora, legítimo rei. Ou seja: meu rei e também vosso rei. Nem tudo na minha alma é desmoronamento e tristeza. Com um olho eu choro, o outro eu pinto pro baile. Essa união e coroamento, ainda com o presunto quente, trará ao nosso país, tão perturbado pelos sindicalistas e sem- terra, a tão esperada paz e também economia, pois a carne assada no velório será servida fria no casamento.
Claudius:
Por que nosso príncipe acolhe com semelhante desprezo as palavras tão elevadas de sua mãe? Hamlet:
Porque, neste reino, o luto da roupa e da alma dura menos que o tempo do senhor entrar com a piroca na buceta de minha mãe. Digo, o tempo de entrar e sair.
Claudius:
Basta! Que loucura! Meu sobrinho volta a ti! Gertrudes:
Volta! Volta! Volta sim! Claudius:
Hamlet, joga fora essa tristeza e deixa que teus olhos se tornem amigos do novo rei. Levanta essas pálpebras que procuram no pó teu pobre pai. A vida é assim. Tudo aquilo que vive deve morrer um dia. É bonita essa homenagem póstuma que prestas a teu pai, mas deves lembrar que ele também perdeu um pai, e que este perdeu também o seu. E que sua vida está comprometida com a eternidade! Este obstinado luto é um capricho de menino, Hamlet! Mostra uma vontade rebelde e sem educação ao céu! Por que sempre essa perversa oposição à regra? Ser do contra ao que é comum e vulgar? Considera-me como seu pai. Pare com essa profanação de túmulos. Deixe os mortos descansarem em paz, Hamlet! Hamlet:
Se os mortos saíssem hoje à noite de seus caixões e rasgassem com suas mãos verdes os véus que cobrem os rostos nas capelas, viria à luz a face horrível dos que hipocritamente choram a morte de meu pai. E se o apocalipse explodisse e fudesse este mundo todo de mentiras, então se veria de onde vem o pús que empesteia esse reino! (sai)
*** Claudius:
Aonde quer chegar esse verme? Gertrudes:
Ai, não sei Claudius, juro que não sei, Claudius. Mas creio que você tocou no ponto nerválgico da questão: aonde quer chegar esse verme?
Polonius:
Nevrálgico, rainha. Esta noite, quando tudo no castelo estava entregue ao sono, eu, conforme hábito antigo de olhar pelo buraco das fechaduras, vi Horácio abrindo a porta do quarto do príncipe Hamlet junto a um guarda...
Claudius:
Não creio que o problema na cabeça do príncipe Hamlet gire em torno de encontros noturnos sorumbáticos.
Polonius:
Depois, vi Hamlet cortando o ar com sua espada e chamando o vento de meu pai. Esta me parece uma história de fantasmas...
Gertrudes:
Fantasmas? Então é uma história de quinta categoria. Polonius:
Porém, se devo dizer tudo o que penso... Claudius:
Polonius:
A não ser que meu cérebro tenha perdido a astúcia que já teve, penso ter achado a verdadeira causa da loucura do príncipe Hamlet.
Claudius:
Menos arte e mais substância, por favor. Gertrudes:
É, diz logo, pô, qual é o defeito na cabeça do meu filho? Polonius:
O amor que ele sente por minha filha Ofélia. Claudius:
Humpf... acha que é isso? Gertrudes:
Duvido que seja outra coisa além da morte do pai e esses fantasmas que Hamlet insiste em enxergar. Claudius:
Não Gertrudes, Polonius pode ter razão. O amor por Ofélia pode ser a fonte da perturbação de Hamlet. Pode ser. É bem possível.
Polonius:
Para dizer a verdade, na minha juventude sofri muito dos delírios de amor, bem parecido com os dele. Existe uma melancolia profunda incubada em sua alma. Receio que dela possa surgir qualquer perigo ao novo reino.
Claudius:
Há muito tempo que sinto um cheiro estranho no ar. Gertrudes:
Há algo de podre no reino da Dinamarca! ***
@:
Um Hamlet enlouquecido, apaixonado. Talvez pelo pai, ou pela mãe, talvez por Ofélia ou quem sabe pelo amigo Horácio.
Hamlet (no colo de Horácio):
Não é apenas o meu manto negro, mãe, meu abatimento, essa respiração ofegante. Nem é o rio de lágrimas que desce dos meus olhos. Todas essas exibições de dor não podem demonstrar a realidade. São ações que qualquer ator de chanchada pode representar. O que está dentro de mim repudia a minha imitação barata de agonia.
Horácio, cúmplice dos meus pensamentos. Horácio, será que me conheces? Se me conheces, como podes ser meu amigo? Desde que minha alma se tornou senhora de sua própria vontade e aprendeu a distinguir entre os homens, ela te elegeu pra ela. Porque você foi sempre o mesmo, sempre, desgraçado ou feliz, me recebeste com igual carinho.
Horácio:
Mostra-me um homem que não seja escravo de suas paixões e eu o colocarei no centro do meu coração. Hamlet:
Sim, no coração de meu coração, como a ti guardo!
(silêncio)
Horácio:
Prisão, meu senhor? Hamlet:
Isso aqui não é uma prisão cheia de celas e solitárias? Ah, Horácio, eu poderia viver no sul do cu do mundo e me achar o rei do espaço infinito se não sofresse com os meus pesadelos. Num deles, eu estava numa câmara frigorífica onde açougueiros penduravam as partes do boi, mas eu me sentia quente como se estivesse dentro de uma garrafa térmica. Então eu vi... (continua falando)
(@ escuta música num fone de ouvido e interrompe bruscamente. Entram os autopsiadores do cadáver do velho Hamlet.)
Claudius (com sua assistente Gertrudes):
Minha assistente fará agora os cortes, note como ela separa a pele, a solta do crânio, puxando desde atrás da orelha, como se uma lingüiça estivesse sendo despelada. Fura, com o trépano, buracos no alto da cabeça, alarga as aberturas com o martelo e o cinzel, inserindo uma serra entre os orifícios, rasgando os ossos.
(quando levanta o topo do crânio interrompe o trabalho mecânico por 2 segundos)
Finalmente brilha a meninge avermelhada. Minha assistente, bem como a ensinei, corta nervos e vasos, agarra o cérebro com as duas mãos, retira-o, colocando-o no recipiente de vidro com a solução. Em seguida, recoloca a extremidade do crânio, puxa de volta a pele da cabeça, suturando as duas partes. Surge novamente a feição suave e vulnerável.
Hamlet (acordando de um pesadelo): Eu vi meu pai, Horácio! Horácio:
Onde, senhor, onde? Hamlet:
No meu sonho. Horácio:
Vamos, senhor, não precisas de fantasmas para saber o que já sabes. Não precisas deles para agir como quiseres.
Hamlet:
Por favor, Horácio, só mais uma vez. Horácio:
Está bem, como então? Armado? Hamlet:
Sim, armado. Tome a espada. O rosto de pânico, vamos Horácio, você vai conseguir... Horácio:
Expressão de dor? Hamlet:
Mais tristeza do que raiva. Horácio:
Pálido ou rubro? Hamlet:
Não, muito pálido. Horácio (passando pó na face):
Hamlet:
Não, olha pra mim. Já começo a sentir o pânico... Não fala muito rápido. Prolongue as palavras, use bem as pausas.
Horácio:
É impossível. Hamlet:
Por que Horácio? Tudo estava indo tão bem! Horácio:
Ele tinha barba.
(silêncio)
Senhor, e se essa ação lhe arrastar para o oceano da loucura? Assumindo uma outra forma mais horrível do que o simples psicodrama? Sabe? Privá-lo da razão mesmo. Não fingir estar louco. Estar louco mesmo. Pense nisso, o senhor não precisa de outros motivos para realizar o que sua razão lhe impede de fazer. Meu senhor, não é preciso um fantasma sair da sepultura de sua memória para te dizer o que já sabes. Hamlet: Por favor! Horácio: Está bem... O Espectro:
Hamlet, filho. Sou eu, o espírito do teu pai. Condenado a vagar pela noite até que estejam purgados e cremados os crimes que cometi em minha vida.
Hamlet:
Meu pai? O Espectro:
Não faça essa cara assim com os teus dois olhos saltando das órbitas que eu fico com vontade de rir. Vinga-me desse infame assassinato! Está sendo divulgado por aí que eu fui mordido por uma serpente quando estava dormindo no meu pomar, com essa mentira deslavada, essa versão não autorizada de minha morte, foram enganados todos os ouvidos da Dinamarca.
Mas saibas que a serpente que tirou a vida de teu pai usa agora a coroa que lhe pertencia. Eu fui envenenado, meu filho, por meu irmão Claudius. Cochilando em meu pomar depois do almoço, como de costume, seu tio derramou um frasco de suco do maldito veneno no pavilhão do meu ouvido. Derramou um licor que coalha, como gotas ácidas no leite, o sangue bom do homem. De repente, meu corpo se cobriu de uma crosta leprosa repugnante. Vinga-me do monstruoso assassinato! Mas não contamines teu espírito a ponto que teu cérebro trame qualquer dano contra tua mãe.
Hamlet:
Reconheço meu pai, Horácio, minhas duas mãos não são tão parecidas. O Espectro:
Agora, me dá uma martelada, me leva pra uma vida nova, onde a solidão de um rei não seja horrível. O poder asfixia como um espantalho com um corvo pousado no nariz. Não esqueça de fixar meu pedido de vingança com um imã na porta da tua geladeira, para que a minha mulher e você, meu filho saibam: tudo foi escrito assim. Continuo a lhes ter amor. Tua imagem estará para sempre guardada na minha memória em letras de fogo. Quando, um dia, me encontrares de novo, não te assustes, corre até o banheiro mais próximo e jogue o coquetel na privada. Só as chamas perdoariam o que eu nunca fui para você.
O Espectro:
Daqui em diante tua memória, algumas das tuas manias, um pouco do teu rosto, das coisas que sabe, da espada antiga, do teu time...
Hamlet:
Por que você está falando com a boca torta? Eu te acho tão velho, meu pai. O Espectro:
Lembra-te de mim... Hamlet:
Lembrar-me de ti? Vou formatar tudo o que é inútil em minha memória. Todas as anotações de idéias, listas, os livros, as imagens, tudo o que no passado não for você. Viverá sozinha apenas tua voz em meu cérebro, e todo dia a visitarei, alimentando sua gravidade.
O Espectro (cantando e indo embora): “I don’t want stay here, I wanna go back to Bahia...” ***
@:
Uma história como essa precisa de chuva, como uma criança febril precisa de banho. Eu me lembro de brincar, no fim de um dia qualquer perdido na minha memória, no pátio de um hospital. A maior fúria que vi nos olhos da minha mãe até hoje foi quando eu mostrei o objeto de minha brincadeira: um termômetro velho, quebrado, vazando mercúrio. Meu brinquedo podia ter estado no ânus de algum doente, dizia ela.
(chuva no castelo)
Polonius:
Disseram-me que o príncipe Hamlet tem tido contigo alguns encontros secretos, e que tu, muito generosamente, o tem acolhido com muita liberalidade. Que existe entre vós? Confessa-me a verdade! Acredito que sejas uma criança que tomou as palavras de um pequeno príncipe por um tesouro verdadeiro, o que, na verdade, não passa de moeda podre. Teu irmão Laertes antes preferiria jogar-te fora aos catadores de papel, aos gatos e aos extremistas do que imaginá-la nos braços do extravagante Hamlet. Eu sei, eu sei, minha filha, você está realizando um bom trabalho, tudo isso faz parte dos degraus que nós temos que escalar, até sentir com os dedos e o nariz o cheiro e o brilho do poder. Ofélia:
Meu pai, quando estava rezando em meu quarto, o príncipe Hamlet apareceu diante de mim, com a calça aberta, o cabelo despenteado, como se tivesse escapado do inferno para me falar dos horrores que enxergara.
Polonius:
Enlouquecido pelo amor que sente por ti? Ofélia:
Não tenho certeza senhor, mas é o que esper... é o que temo! Polonius:
E o que foi que ele disse? Ofélia:
Segurou-me pelos pulsos, apertando-me com toda força, e pondo a outra mão assim no meu pescoço, ficou olhando o meu rosto com uma intensidade como se quisesse gravá-lo para sempre. Aí ele sacudiu meu braço assim, três vezes balançando assim pra cima e pra baixo a minha cabeça.
Ofélia! O que ele disse? Ofélia:
Que me amava muito e que... Polonius:
Armadilha pra pegar codorna! Sei perfeitamente que quando o sangue esquenta, a alma confessa qualquer coisa. Ofélia, pega esse livrinho aqui, querida, e fica passeando tontamente de um lado pro outro como uma colegial solitária.
Hamlet (entra com um livro também):
Morrer, dormir, só isso. E com o sono, dizem, terminar com a ansiedade do coração. Morrer, dormir. Talvez sonhar. A reflexão sobre a morte torna uma calamidade a nossa vida. Quem são esses que suportam a longevidade do tempo, a afronta do poder, a angústia do amor desprezado, a morosidade da lei, tendo uma arma qualquer por perto? Se não fosse o medo de alguma coisa depois da morte, o país não descoberto de onde nenhum viajante jamais voltou.
@ (falando junto com Hamlet):
O país não descoberto de onde nenhum viajante jamais voltou. É interessante o fato de na cena anterior ele ter visto o pai morto, ou imaginado.
Ofélia:
Senhor príncipe, estava falando sozinho? Hamlet:
Estou apenas pensando alto, Ofélia.
(silêncio)
Não é estranho? Meu tio agora é rei. O gigolô que prostituiu minha mãe agora pasta no poder, e muitos que torciam o nariz para ele, hoje pagam cem paus por uma foto dele em miniatura. Vou enquadrá-lo no 288 por formação de quadrilha!
Ofélia:
Você está falando do meu pai? Hamlet:
Preferia encontrar-me no céu com meu maior inimigo do que ter vivido mais este dia! Ofélia:
Ah, se o senhor soubesse como, em vez de ficar sufocando nesse castelo, eu preferia ser uma das tantas mulheres que de manhã vão pro trabalho...
Hamlet:
Se eu fosse tu, um belo dia, fugiria, ninguém mais me veria, mas nunca mais mesmo. Ofélia:
Eu te aborreço? E pensar que eu não tenho outra coisa na cabeça a não ser você, Hamlet. Hamlet:
Jura? Ofélia:
Juro pelo evangelho. Hamlet:
Mas você é igualzinha a eles. Os mesmos olhos, a mesma orelha, a mesma nuca... Ofélia:
(Polonius derruba algo e Hamlet percebe)
Hamlet:
Meu. Meu o que Ofélia? Meu, teu, isso não é nada! Ofélia deixa-me comer teu coração? Posso me enfiar no teu colo? Pôr minha cabeça entre as suas pernas?
Ofélia:
Que que é isso, Hamlet? Hamlet:
Você é honesta e bonita. Sua honestidade não deveria admitir qualquer intimidade com sua beleza. O poder da beleza transforma a honestidade em meretriz mais depressa do que a força da honestidade faz a beleza se apaixonar por ela.
(silêncio)
Ofélia, eu te amo. (baixinho) Ofélia:
Realmente, senhor, cheguei a acreditar. (Polonius faz barulho) Hamlet:
Pois não deveria ter acreditado. Eu não te amava. Escuta, vai para um convento. Por que desejas ser mãe? Para dar a luz a pecadores? Sou arrogante, vingativo, ambicioso, tenho mais crimes na minha consciência do que pensamentos para concebê-los, imaginação para desenvolvê-los, tempo para