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Considerando que a maioria das obras citadas nessa pesquisa trabalha com o conceito de apropriacionismo, inclusive a Menina do Brinco de Pérola, no capítulo que segue nos dedicamos a pensar essa prática citando alguns artistas que inserem seus trabalhos nos trabalhos de outros artistas, transformando uma coisa em outra. Esse transformar não implica em alterar a forma, mas sim em jogar com os conceitos implicados na questão entre cópia e do original.

Nessa trama, o trabalho de Sherrie Levine é central para pensarmos a fotografia que vem, desde a década de 1980, assumindo seu lugar no campo da arte. Num questionamento apropriado para a época, Levine fotografou uma fotografia tirada por Edward Weston na década de 1920, e sem nenhuma alteração, ela expôs essa obra sob o título de After Edward Weston.

Ao apropriar-se de uma imagem já existente, a artista referencia o fotógrafo ao mesmo tempo em que se coloca como autora de uma imagem que é igual à de Weston, evidenciando assim, seu gesto de recusa frente à obrigatoriedade de se criar uma imagem original.

Retomando o texto escrito por Walter Benjamin em 193617, no qual o autor dedicou-se a pensar a obra de arte, vemos uma rede de pensamentos acerca da fotografia e de sua influência no campo da arte. Em suas reflexões, observamos a queda dos valores tradicionais de originalidade, criatividade e gênio, usadas anos mais tarde por artistas da Pop Art e por artistas conceituais, e anos antes por Marcel Duchamp. Cena que evidencia a reverberação das imagens e dos gestos nas diferentes temporalidades.

Benjamin (2012, p. 183) chama atenção para o fato de que nossa percepção está em constante processo de transformação, não apenas biologicamente, mas também historicamente. Novas e velhas questões vêm à baila acompanhadas pelas mudanças tecnológicas, e nessas transformações, nos re-organizamos.

Ao mencionar a obra de arte inserida em um campo em transformação tecnológica, Benjamin chama atenção para o confronto entre dois polos que alteraram a função da arte: o valor de culto e valor de exposição. Atuando nesses dois polos, a

17 O texto a que nos referimos é o conhecido ensaio “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade

fotografia aparece como a ferramenta que vai fazer a cisão entre os conceitos tradicionais e os novos conceitos que se apresentam.

O valor de culto das imagens está relacionado ao caráter de magia, de cultuar, de ser mostrada a poucos olhos. Para Benjamin (2012, p.187), “O que importa, nessas imagens, é que elas existem, e não que sejam vistas”. O valor de culto tem o caráter de segredo, de manter secretas as imagens que podem ser contempladas apenas em lugares específicos e por algumas pessoas. Em contraponto ao culto das imagens, Benjamin continua dizendo, “À medida que as obras de arte se emancipam do seu uso cultual, aumentam as ocasiões para que elas sejam expostas” e, nesse sentido, a fotografia foi a ferramenta que contribuiu amplamente para que o valor de exposição das obras de arte aumentassem substancialmente.

Se num momento a apropriação de Levine vai em direção à perda da aura devido à reprodutibilidade técnica e exponibilidade da obra, como discutida em Benjamin, em outro, ela restaura a aura singularizando sua apropriação. No artigo da professora Ruth Sousa18, Levine é entrevistada e na ocasião ela comenta:

Eu estou interessada em produzir um trabalho que tenha tanta aura quanto sua referência. Para mim, a tensão entre a referência e o novo trabalho não existe de fato, a menos que o novo trabalho tenha uma presença aurática dele mesmo. Se não for assim, ele se torna apenas uma cópia, o que não é tão interessante. (LEVINE apud SOUSA, 2007).

Nesse ato encontra-se a questão da autoria e da originalidade, não que ela quisesse abolir a autoria, mas inaugurar uma outra concepção de autoria que em muito se distanciava dos critérios de expressão da individualidade usados por Weston, pois em sua anacronização os problemas eram outros.

Em certo sentido, Levine acredita que o autor como gênio criador já não existe mais, pois esse deu lugar ao articulador de ideias, de trabalhos, de intenções, e, nisso, Levine é pontual.

Figura 23: Sherrie Levine, After Edward Weston, 1981.

Fonte: http://www.theslideprojector.com/art1/art1twoday/art1lecture25.html

Figura 24: Edward Weston, Neil Nude, 1925.

http://www.theslideprojector.com/art1/art1twoday/art1lecture25.html

Numa dupla apropriação, o trabalho do artista conceitual Michel Mandiberg é preciso quando questiona a auraticidade da obra de Levine. Em sua retomada de uma obra de arte do passado, Mandiberg faz uso de seus meios tecnológicos e dos questionamentos contemporâneos para democratizar o acesso às imagens da arte.

A crítica de Mandiberg parte de uma constatação concreta, na busca pela fotografia de Levine, ele percebeu que havia pouquíssimas reproduções da obra, e se isso é um fato, é porque Levine acata as exigências de tiragens limitadas, engessa-se no sistema da arte e envolve sua fotografia em uma aura de singularidades, nas palavras do artista:

Foi muito difícil encontrar reproduções do trabalho de Sherrie Levine. Eu encontrei três livros com ilustração na Biblioteca Pública de Nova Iorque, apenas poucas imagem no Art in America e suas galerias alegaram não ter nenhum de seus slides. A única maneira pela qual pude ver suas fotografias foi tendo acesso às cópias no Metropolitan Museum of Art. Com certeza, isto é irônico, já que seu processo é supostamente sobre reprodução e distribuição, e depois de vários meses de pesquisa a única maneira pela qual pude ver seu trabalho foi indo no encalço de seus originais. (MANDIBERG

apud SOUSA, 2007).

Diante dessa auraticidade encerrada entorno da obra de Levine, Mandiberg joga com a figura do autor e com as regras do mercado. Em sua re-apropriação, intitulada After Sherrie Levine, ele disponibiliza, em alta resolução, as fotografias da artista em seu site19 possibilitando a qualquer pessoa que tenha acesso a um computador e uma impressora, ter uma obra de Levine pendurada em sua parede. Disponíveis para download estão também os certificados de autenticidade, e o modo de enquadramento da obra para que se cumpram as exigências do certificado. Assim, segundo o artista, é possível criar um objeto de valor cultural, mas sem nenhum valor econômico.

As imagens que seguem são idênticas, no entanto, seus procedimentos guardam diferenças epistemológicas, conceituais e tecnológicas de cada tempo, e neles, cada uma é ressignificada de diferentes maneiras.

Figura 25: Walker Evans, Sem Título, 1936

Fonte: http://www.revista.art.br/site-numero-08/trabalhos/05.htm

Figura 26: Sherrie Levine, After Walker Evans, 1981.

Fonte: http://www.revista.art.br/site-numero-08/trabalhos/05.htm

Figura 27: Michel Mandiberg, After Sherrie Levine, 2001. Fonte: http://www.revista.art.br/site-numero-08/trabalhos/05.htm

Weston, ao fotografar seu filho, se apropriou da estética grega clássica fotografando o corpo de Neil durante a grande depressão nos Estados Unidos.

Sherrie Levine, em seus questionamentos sobre o valor da originalidade, na década de 1980, fotografou uma fotografia da fotografia de Weston, apropriando-se de uma imagem na recusa de criar uma nova imagem em um mundo saturado por figuras.

Michel Mandiberg, no século XXI, faz uma dupla apropriação assumindo uma postura contra o mercado de arte ao jogar imagens de Levine em alta resolução no universo digital do Ctrl+c = impressão e democratização das imagens da arte.

Na esteira dos apropriacionismos, ao fotografar Neil posando como uma escultura grega, Weston não foi mais original que Levine ao copiá-lo, pois, se alguma dessas imagens reivindicar a originalidade, talvez essa seja encontrada nas esculturas gregas de Praxiteles.

Na disputa, ou na crítica ao sistema, a fotografia usa a apropriação como estratégia para questionar o valor e o sentido do original num mundo onde tudo pode ser copiado. Se num primeiro momento, a apropriação refletiu uma posição teórica diante do mundo, atualmente, ao nosso ver, seu alcance já não demonstra a potência de outrora, pois sabemos que a apropriação está presente em todos os campos da cultura, desde a mais alta definição de arte, até a peça mais copiada que se estende sobre as bancas dos camelôs de qualquer cidade grande, e, se seu uso indiscriminado ainda hoje for visto como perturbador, podemos dizer que os piratas estão na vanguarda da arte.