Nesse momento, interessa-nos pensar a imagem e o processo criativo de Arthur Omar na obra Menina do Brinco de Pérola, realizada no ano de 2012. A partir dessa aproximação, nos deteremos nas questões apresentadas pela obra pensando também seu surgimento a partir de uma imagem que sobrevive ao tempo.
Figura 35: Arthur Omar, Menina com brinco de pérola, 2012. Fonte: Arthur Omar
Passados seis anos da instalação realizada na exposição Zooprismas, Omar provoca outra conversa com Vermeer, porém, dessa vez, ele fotografa uma fotografia da pintura, e surpreende-nos com um rosto desconhecido da Moça barroca. Muito embora o artista tenha utilizado a máquina fotográfica como instrumento para registrar esse ato,
ele subverte seu uso, flagrando um rosto que difere da pintura, ou seja, o rosto fotografado por Omar, não é idêntico ao da pintura de Vermeer, pois sua intenção é esgarçar a percepção e não representar o mundo visível.
Nesse jogo perceptivo, o artista nos ilumina com imagens que se aproximam do plano do invisível, de modo que, a imagem que vemos não representa o mundo, mas apresenta uma obra resultante de um procedimento explorativo da linguagem fotográfica. O potencial de transfigurar o visível projeta a imagem para além da obviedade do objeto. O filósofo Gilles Deleuze, ao refletir sobre a representação diz:
Não lhes basta, pois, propor uma nova representação do movimento; a representação é já mediação. Pelo contrário, trata-se de produzir, na obra, um movimento capaz de comover o espírito fora de toda a representação; trata-se de fazer do próprio movimento uma obra, sem interposição; de substituir representações imediatas por signos diretos; de inventar vibrações, rotações, voltas, gravitações, danças ou saltos que atinjam diretamente o espírito. (DELEUZE, 2006, p. 29).
Ao fotografar a mesma imagem, repetidas vezes, Omar instaura o novo a partir de movimento subjetivo em direção à pintura e, nesse gesto, o próprio movimento ao inventar rotações e vibrações cria uma obra que articula o passado com o presente, e, nela, um rosto tem que desaparecer para que outro rosto apareça.
Figura 36: Arthur Omar, Menina com brinco de pérola, 2012. Foto: Arthur Omar
Deleuze, (2006, p. 29) pensa a repetição como algo que se divide em dois, a repetição do mesmo ou a repetição que instaura a diferença. Nesse movimento, podemos pensar a poética de Omar como portadora de uma repetição que carrega consigo uma diferença que se concretiza a cada tomada. Na recuperação de uma imagem do passado no presente, Omar reitera o mesmo gesto, mostrando as diferenças existentes no rosto da mesma pintura.
E no gesto que se repete, a imagem recupera sua singularidade no aparecer e no desaparecer do rosto que se dilui, fato que reforça o pensamento do artista sobre as imagens fugidias26. No pensamento, que se faz e se desfaz, encontramos em Blanchot, não uma luz que poderá nos guiar até a obra, mas um caminho possível para contorná-la. Mesmo porque, o que esse autor propõe não cabe no universo das análises, mas sim, no universo do obscuro, daquilo que não se fixa como certeza.
Nos contornos incertos da Moça que desaparece, aparece a Menina. Nesse instante, somos interrompidos por um rosto invisível entre a máquina e a pintura. Esse rosto só é possível de ser contemplado porque o outro rosto desapareceu. Ali, surge uma imagem que sobrevive ao se desviar da claridade.
Vemos os espectros da Moça como imagens que se despem de verdades ao se colocarem abertas ao erro e, nessa aventura do olhar, enxergamos os rotos secretos que se escondem por trás da pintura de Vermeer, rostos ausentes, que estavam ali, mas nós não os víamos e, agora, os contemplamos através de seus rastros. Na ausência da Moça de Vermeer a Menina mostra seus segredos. Ali, onde a racionalidade desaparece para dar lugar a uma obra sem contornos definidos, participamos do estranhamento sem querer explicá-lo. A obra fotográfica Menina do Brinco de Pérola é uma imagem de desvio, e ao se desviar, se distancia do Isto-Foi27 para se aproximar do porvir. No porvir das imagens que vêm o artista ressignificou uma obra de arte do passado, e podemos olhar Vermeer a partir de Omar.
As fotografias que Omar fez da Moça do brinco de pérola são singulares. Cada uma abre uma fenda para o surgimento da que vem. Nesse sentido, podemos pensar que o olhar do artista desloca nossa percepção do mundo objetivo para um mundo não objetivo, da visibilidade para a invisibilidade, do velar-se para o desvelar-se. No entanto,
26Conforme reflexão do artista sobre sua obra quando o mesmo, em entrevista, afirma sobre a importância
do aparecimento e do desaparecimento como sendo “o próprio núcleo, o próprio coração do meu trabalho.” Já citado anteriormente.
27Para Roland Barthes, o “Isto-Foi” é uma tentativa de fazer acreditar que a fotografia guarda uma
pensamos que esse “desvelar-se” não significa compreender a obra, mas para sempre, perder-se nela.
A nosso ver, para participar desse jogo, o olhar precisa estar aberto ao desvio, e aqui encontramos correspondência em Blanchot quando diz (2007, p. 65): “Errar é provavelmente isto: ir ao desencontro”, possibilitar os desvios e não impor verdades absolutas. Lembrando que em fotografia, quanto maior o tempo de exposição, menor é o controle que temos do resultado, e a chance de errar, é a grande possibilidade.
A fotografia, assim como a palavra, em sua multiplicidade de usos pode ser pensada de diferentes maneiras, no espaço do cotidiano e no espaço da arte. Para Blanchot existem duas formas de pensar a palavra, no uso cotidiano e no espaço literário. O primeiro uso é objetivo, corriqueiro e o segundo avança para o abismo da errância. Da mesma maneira, a fotografia no uso cotidiano pode ser entendida de forma objetiva, mas no espaço da arte, ela pode ser uma imagem que deixa as coisas em suspensão.
Nessa obra que repete o mesmo gesto, Omar nos faz duvidar da estabilidade das imagens, e vemos, agora mais de perto, que não há estabilidade, mas embaralhamentos, desvios, anacronismos.
Diante de uma imagem - tão antiga como seja -, o presente não cessa jamais de reconfigurar-se [...] Diante de uma imagem - tão recente tão contemporânea como seja -, o passado não cessa nunca de reconfigurar-se. [...] Em fim, diante de uma imagem, temos que humildemente reconhecer o seguinte: que provavelmente ela nos sobreviverá, que diante dela somos o elemento frágil [...] A imagem tem mais de memória e mais de porvir do que o ser que a mira. (DIDI-HUBERMAN, 2005, p. 12).
Diante da pintura de Vermeer, a fotografia de Omar não cessa de reconfigurá-la, e de reconfigurar-se.
Essa questão, involuntariamente, nos leva a pensar na insanidade de um pintor que ganhou vida no conto “A obra prima ignorada”, de Honoré de Balzac, escrita originalmente em 1837.
Estamos falando do mestre Frenhofer, que por dez anos dedicou-se a pintar a mulher ideal, tentando torná-la carne através da pintura de sua amada Catherine Lescault. Em seu atelier, o mestre trava um diálogo com Nicolas Poussin, um jovem
artista em inicio de carreira que juntamente com seu mestre Porbus, visitaram Frenhofer a procura de conselhos sobre pintura, quando esse lhes diz:
Vocês desenham uma mulher, mas não a veem! Não é assim que se consegue forçar o arcano da natureza. As mãos de vocês reproduzem, sem que se deem conta do modelo que copiaram na oficina do mestre. Vocês não descem suficientemente na intimidade da forma, não a perseguem com suficiente amor e perseverança nos seus desvios e nas suas fugas. A beleza é uma coisa severa e difícil que não se deixa alcançar à vontade, é preciso esperar suas horas, espioná-la, acossá-la e enlaçá-la firmemente para obrigá-la a render-se. (BALZAC, 1992, p.400).
O gesto empreendido por Omar no processo criativo dessa obra envolve esse olhar de espião que persegue um retrato misterioso encarnado na pintura de Vermeer. A fotografia apresentada rompe o caráter de espelho da representação oriundo das especificidades técnicas da câmera fotográfica, para instalar uma imagem de fronteiras imprecisas, onde o espírito da ordem e da racionalidade representados por Apolo diferem do espírito da vontade de viver e do êxtase representado por Dionísio. Nesse fazer dionisíaco, impresso na trajetória artística de Arthur Omar e não apenas na constituição dessa obra, a matéria informe surge distinguindo a obra de arte do simples borrão destituído de sentido.
Em princípio, a fotografia tem se adequado a própria ideia fidedigna de espelhar o mundo visível fazendo-se valer das qualidades óticas para as quais foi inventada. Esta é uma de suas funções que a liga a um ideal platônico de representação do mundo das ideias, se entendermos que para Platão, a arte era uma imitação do mundo inteligível, ou seja, uma cópia da cópia. No entanto, há outras funções na fotografia, entre elas a de metamorfosear o mundo visível e transformá-lo no que ele representa, como por exemplo, na imagem que segue.
Figura 37: Arthur Omar, Menina com brinco de pérola, 2012. Fonte: Arthur Omar
A questão para Frenhofer era encontrar na pintura a essência da mulher, e não uma imagem que a reproduzisse em sua exatidão, por isso a frase: “vocês desenham uma mulher, mas não a veem!” justifica a obsessão do mestre que, por dez anos, desviou-se da cópia para encontrar o que estava além da pura reprodução. Essa discussão levantada por Frenhofer, ao dirigir-se aos seus discípulos, está no cerne da fotografia desde sua invenção. Por décadas o status de obra de arte lhe foi negado exatamente por sua capacidade técnica de copiar o mundo visível. Omar, na busca pela essência da pintura de Vermeer, usa a câmera fotográfica subvertendo sua função primeira.
Nessa obra, em que o rosto da pintura de Vermeer esboça seu desaparecimento em favor do surgimento de uma imagem que a transforma, o artista dialoga com o pintor observando de que maneira a sua percepção organizará os objetos da aparição da obra, ou seja, o momento em que o objeto se constitui em coisa.
Nas declarações do artista “Eu estou dialogando com Vermeer, mas ao mesmo tempo, pra mim, esse anacronismo seria quando eu consigo, através de uma experiência
interior intensa28, convocar em mim, um posicionamento mental que outros já passaram” 29.
Com isso Omar quer dizer que, mesmo que existam os filtros culturais, ele pode, em termos psíquicos, colocar-se num mesmo cumprimento de onda que qualquer artista, de qualquer cultura e qualquer tempo, porque as estruturas cerebrais são as mesmas. “Nosso sistema de conhecimento trabalha com a geração de objetos, que supõe uma diferenciação do sujeito que vai observar esse objeto através de um determinado instrumental” 30.
Na obra Menina do Brinco de Pérola, a fotografia capturou esse objeto através de uma ferramenta não disponível na época de Vermeer e, segundo o artista, ele não foi posto na cena, mas apareceu sem que ele visse ao menos pudesse refazer os passos que o levaram até o brinco.
O brinco que reapareceu de repente num outro ponto da história, em plena zona de catástrofe, num país bombardeado pela aviação de diversos invasores, dilacerado pela guerra civil, e palco do jogo estratégico onde o futuro da humanidade estava sendo decidido, através de uma tecnologia completamente diferente das tintas de Vermeer, a fotografia, e aos olhos de um homem que ao olhar não sabia o que estava vendo, nem esperava por aquilo o que iria receber, e que só foi iluminado pelo brinco muito tempo depois do seu novo desaparecimento, esse brinco veio do fundo do tempo, e caminha para outra reaparição quem sabe daqui a muitos séculos, num outro espaço do qual não podemos ter hoje a mínima ideia.31
A fala do artista contribui para pensarmos os diferentes tempos contidos nos objetos de arte. Sabemos que o brinco foi pintado por Vermeer no século XVII, e que a fotografia marca sua nova reaparição em outro lugar. O que não sabemos é por quais tecnologias se dará sua reaparição no futuro.
28Quando Omar fala da intensificação da experiência, ele sublinha que não é algo premeditado, algo que
se tenha controle.
29Declarações à autora durante entrevista gravada em setembro de 2012. 30Ibid.
31Informações na página do artista. Disponível em <http://www.arthuromar.com.br/textos-txt8.html>.