Pode-se dizer que o traço português se repete em cada uma das gerações posteriores a dos imigrantes, uma vez que as entrevistadas, mesmo sem conhecerem a terra natal de seus antecessores, comentam detalhes de lugares que nunca viram, mas que estiveram presentes nas falas dos seus pais e avós.
O meu pai era transmontano. Nas festas usava a boina verde com aquele símbolo. A roupa era branca, vermelha e verde, porque era assim que em sua aldeia se dançava e cantava em homenagem ao padroeiro. Nos campos, junto ao gado, a pradaria se estendia, e as pequenas flores cobriam a imensidão que os olhos alcançavam, as bicas feitas nos morros derramavam água tão límpida que parecia cristais com o brilho do sol. Naqueles vales, correu criança e viveu com os pais, assim ele descrevia o lugar onde nasceu e viveu, e eu fico a sonhar com a beleza do lugar.237
Por que o pai de Clarinha teria deixado as belezas do lugar onde nasceu? Por que no Brasil se fixou e à terra natal nunca retornou? Em seu íntimo, admitia um regresso, mas os filhos e os netos, muito mais que os bens materiais, o fixaram nessas terras definitivamente, embora, em seu âmago português, a saudade o levasse ao lugar onde nasceu, de nome muitas vezes perdido, sem o devido registro nos livros ou Atlas, porém presente em sua Certidão de Batismo. Sua mãe, ao dar a luz, ofereceu a Deus um novo batismo, nascendo mais um cristão e católico português. E nessa comunhão entre português e cristão é que se tem transparente a sabedoria da trajetória desse novo ser, com este sentimento próprio de ser e de se dizer português, sem pudor ou receio de sê-lo. Nesse sentido, Fernando Pessoa escreveu:
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E eu vou...
Cheio de Deus, não temo o que virá, Pois, venha o que vier, nunca será Maior do que a minha alma.238
O pai de Clarinha representa o português que, depois do batismo, se tornou um cristão e um católico e que não temeu a imensidão do Oceano Atlântico ou das terras brasileiras, acreditando que as dificuldades que viriam nunca seriam maiores que a sua alma portuguesa.
5.1.1 Ser descendente de português /Ser filha de português
Partiram da aldeia natal os maridos, os filhos, os sobrinhos e os netos e lá ficaram diversas mulheres, sempre a olharem o horizonte, esperando que um deles aparecesse ou lhes mandasse buscar. Muitas ficaram sós para tocarem a quinta, para defenderem a pequena propriedade ou para tentarem se arranjar da melhor forma. Restou a essas mulheres a responsabilidade de lutarem sozinhas contra os exploradores de qualquer sorte e pelo próprio sustento, imaginando um futuro melhor para os que partiram para o Brasil.
A minha bisavó e a minha avó nunca saíram de Portugal. A minha mãe contava que elas choravam muito e rezavam para que um dia eles pudessem voltar. Elas sempre estavam de preto e fiavam meias e mais meias. Com o tempo, a saudade foi diminuindo e as preocupações diárias aumentando, mas elas nunca se esqueceram da minha mãe, a avó que fez o que era certo veio com o vô e juntos ficaram até morrer.239
Os seus trajes na terra natal eram negros e incluíam lenço, blusa, saia, meias e tamancas. Estavam sempre a rezar e a rogar para que o destino dos que haviam partido fosse bom.
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PESSOA, Fernando. “Mensagem.” Apud BERRINI, Beatriz; SCARANO, Julita. “Imigrante Português/ Empresário Paulista.” In: Boletim da Câmara Portuguesa de Comércio, Indústria e Arte de São Paulo. São Paulo: Gráfica Brasiliana, 1992. p.163.
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Outras, observando o sofrimento de mulheres que viram seus homens partirem, decidiram se lançar na aventura de encontrar essas terras desconhecidas. Estas, após se aconselharem com as mais velhas, as sábias do vilarejo, e com os padres e autoridades religiosas, partiram junto com os seus maridos e filhos pequenos. Nesse sentido, Clarinha relata: “O meu pai veio tentar a sorte aqui, e nunca mais voltou. Já os meus avós partiram juntos, com a filha, um bebê de seis meses, e a bisavó materna.”240
Pode-se dizer que, de algum modo, a mente aberta, a capacidade de tudo abandonar em favor da aventura e do desconhecido e a disponibilidade para enfrentar novas situações fizeram os portugueses deixarem a sua pátria natal e as atividades a que estavam habituados para criarem no Brasil um novo destino. Muitas mães portuguesas acabaram aceitando que seus filhos partissem rumo às terras brasileiras para buscarem um futuro promissor, talvez improvável na própria terra natal naquela ocasião.
Na consciência do pai de Helena estava a certeza de ter deixado para trás a mãe e o irmão, uma vez que o pai já havia falecido. Contudo, emigrou junto com o irmão um ano mais velho. Quanto mais o navio se afastava, mais distante ficava a sua Vila Nova de Gaia. A saudade apertava o peito e as recordações de rapazote o enchiam de emoção, até que, finalmente, sem nunca ter podido regressar, convenceu-se de que Portugal fazia-se mito.
Nessa perspectiva, Helena relata:
Como a gente fala aqui fazenda, lá eles falam quinta. Os pais dele, digo, a mãe, porque o pai já havia falecido, cuidava da quinta e rezava muito pelos filhos. O meu pai veio se aventurar no Brasil e deu certo. Ele só sabia que o Brasil era uma terra muito linda e rica. Eu sei que o irmão também veio com ele.241
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Clarinha, 72 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 08/01/2005.
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Já Fátima, sobre os seus antecessores, comenta: “Os meus avós vieram e se fixaram na região do Brás/Pari. Lá, viviam das hortaliças, remédios caseiros, da roupa com lixívia que a minha avó lavava e engomava, dos bordados, mas era difícil.”242
Muitas mulheres chegaram com seus maridos. As várias decepções que sofreram não foram suficientes para desanimá-las, uma vez que, se na terra natal já estavam acostumadas aos serviços caseiros, à lida na lavoura, aos bordados e às costuras, na nova terra não seria diferente. Perceberam, então, que não poderiam romper com o passado, que, embora estivesse a milhas de distância, estava próximo nas tarefas e atitudes.
Acredita-se que de tudo fizeram um pouco, cada uma em seu tempo, sem, contudo, deixarem de cuidar dos filhos(as), mandando-os para a escola e ensinando-lhes as primeiras ocupações domésticas. Além disso, completavam o orçamento do lar com suas agulhas e guloseimas portuguesas, doces ou salgadas.
Glorinha relata: “O meu pai foi trabalhar na PMSP junto com o meu avô, mas, em casa, a minha mãe era a cabeça de tudo. Ela era forte, trabalhadeira,
companheira, bonita e bondosa.”243 Quando solteira, a mãe de Glorinha
recordava-se da terra natal e sentia-se exilada longe da avó que a criou, embora estivesse perto dos pais e de algumas pessoas que a recebiam calorosamente. Confortava-se ao trabalhar obstinadamente no colégio Sion como ajudante geral. Seu pai, vendo a juventude de sua filha passar, decidiu casá-la brevemente com um conterrâneo que estava sob a sua chefia na prefeitura. Casada, partilhou de cada minuto de sacrifício e perseverança com o companheiro.
Além de realizar os trabalhos domésticos, a mãe de Glorinha também encontrava tempo para costurar para confecções e alfaiatarias. Essa mulher gerou muitos filhos, educou-os, colocou-os na escola e fez com que todos se
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Fátima, 61 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 23/12/2005.
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tornassem “trabalhadores e esforçados”244, mas sempre se manteve na retaguarda e no silêncio. O futuro não lhe reservou fortuna, apenas uma nostalgia em relação à terra natal. Quanto ao marido, foi sua companheira até os seus últimos dias.
Helena, por sua vez, relata: “Os meus pais sempre nos ensinou a sermos honestos, sinceros, não mexer em nada sem pedir, trabalhar muito, mas eu, mesmo trabalhando, nunca tive vontade de deixá-los, sabe, deixar a nossa
casa.”245 A insistência em transmitir determinados valores aos filhos permitiu a
continuidade das características portuguesas nessas terras de além-mar. Pode-se supor, ainda, que o fato de a depoente não querer abandonar a casa paterna fosse algo que se trouxe impregnado na estrutura psico-social e que foi sendo elaborado durante vários anos de forma inconsciente.
Percebe-se, assim, que ser mulher e filha de português envolve tenacidade, responsabilidade e persistência na vida, seja no trabalho, na escola, no casamento, na criação dos filhos ou no celibato.
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Glorinha, 69 anos, filha de imigrante português. Entrevista realizada pela autora em 02/02/2005.
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