Neste estudo analisámos as possíveis relações entre a vinculação pré-natal, o ajustamento diádico com a companheira expectante, conjuntamente com as variáveis demográficas, a existência prévia de filhos e a idade, dada a sua relevância apontada por diversos autores em estudos prévios.
No presente estudo a escala foi aplicada aos companheiros das mulheres que se encontravam no terceiro trimestre de gravidez, sendo que verificámos uma média de 66.17 na escala de vinculação pré-natal paterna. Os resultados encontrados encontram-se mais elevados do que os obtidos por Camarneiro e Justo (2010), que verificaram uma média de 58.96 na escala total, numa amostra constituída por 212 casais que se encontravam no segundo trimestre de gravidez. Esta discrepância nos resultados vai de encontro à literatura, que afirma que os níveis de vinculação pré-natal aumentam com o decorrer da gravidez (Muller, 1993, citado por Figueiredo, 2007).
Quanto às dimensões da escala de ajustamento diádico, os resultados médios obtidos são equivalentes aos encontrados na validação da escala para a população portuguesa, por Gomez e Leal (2008).
Tal como no estudo mencionado, os scores encontrados demonstram um enviesamento para o extremo positivo da escala, o que poderia ser esperado, devido à desejabilidade social e ao próprio construto em avaliação, visto que se o nível de ajustamento fosse muito baixo, já não se esperava que o casal mantivesse a relação.
O presente estudo permitiu ainda associar a vinculação pré-natal paterna, ajustamento diádico, idade e existência prévia de filhos.
Relativamente ao ajustamento diádico, verificámos uma associação fraca, em sentido negativo, entre a coesão e a existência prévia de filhos. Pode-se então afirmar que a coesão tende a apresentar valores inferior quando os pais já têm filhos anteriores à gravidez atual.
Camarneiro e Justo (2012) corroboram os resultados encontrados, visto que descobriram que as mulheres reportavam níveis inferiores de satisfação conjugal quando não era a sua primeira gestação. Esta relação foi verificada também para os homens.
Verificámos também que a vinculação pré-natal paterna e o ajustamento diádico estão correlacionados significativamente e em sentido positivo durante a gravidez, principalmente a dimensão coesão. Já a satisfação, também se demonstrou correlacionada positivamente com a vinculação pré-natal mas a correlação apresenta um valor inferior. Notámos ainda que a coesão é uma variável preditora da vinculação pré-natal paterna, no sentido em que os homens que têm valores mais elevados na coesão evidenciam também uma vinculação pré-natal mais elevada. Conclusões idênticas foram apresentadas nos estudos de Gomez e Leal (2007), Camarneiro e Justo (2012) e White et al. (1999), ao apurarem que a vinculação pré-natal está associada à perceção da qualidade conjugal, tanto nos homens como nas mulheres.
Observámos também que a vinculação pré-natal paterna correlaciona-se significativamente e em sentido negativo à idade e à existência prévia de filhos. Neste sentido, os pais mais novos tendem a apresentar níveis mais elevados de vinculação, assim como os futuros pais de “primeira viagem”
Os resultados obtidos vão de encontro à literatura. Vreeswijk et al. (2014), Cannella, (2004) e Gomez e Leal (2007) que verificaram que os pais mais novos e sem filhos prévios demonstraram níveis mais elevados de vinculação pré-natal. Estes resultados podem ser compreendidos pelo o facto da gravidez ser uma nova experiência, enquanto que os que já têm filhos têm de dividir a sua atenção entre o filho e o bebé que está para nascer, podendo influenciar os sentimentos de preocupação e vinculação. Relativamente à idade, tal como os autores Vreeswijk et al. (2014) referem, normalmente os pais mais novos tendem também a ser os que não têm filhos prévios, sendo então os resultados justificados com a premissa anterior.
No que toca à comparação da vinculação pré-natal entre pais sem filhos prévios e com filhos verificámos que os pais que não tinham filhos apresentaram uma média mais elevada de vinculação pré-natal do que os pais que já tinham filhos. As diferenças encontradas demonstraram-se significativas.
Estas diferenças permitem afirmar que o número de gestações é algo a ter em conta no que se refere á vinculação pré-natal.
Os resultados encontrados são corroborados por Condon e Esuvaranathan (1990), Vreeswijk et al. (2014), Cannella, (2004) e Gomez e Leal (2007), que, como foi mencionado anteriormente, demonstraram que os homens que não têm filhos anteriores à gravidez atual apresentam níveis mais elevados de vinculação pré-natal total, quando comparados com os que já têm filhos.
No que se refere às limitações do presente estudo, relativamente aos instrumentos de recolha de dados, utilizou-se um questionário de auto-resposta. No entanto, foi necessária a presença da investigadora aquando o preenchimento do mesmo para esclarecer eventuais dúvidas. Foi possível verificar em alguns casos a desejabilidade social, no sentido em que quando colocavam dúvidas, justificavam sempre e mencionavam que não se davam mal. Verificou-se um receio da existência de juízo de valores, apesar de ter sido sempre mencionado que não existem respostas certas ou erradas.
Apesar de apresentar níveis aceitáveis de consistência interna, o instrumento utilizado para avaliar a vinculação pré-natal paterna também apresentou algumas limitações, nomeadamente o facto de ser muito permeável à desejabilidade social, demonstrando um impacto nos resultados, que se demonstram na sua maioria elevados.
É evidente que a metodologia utilizada demonstra algumas desvantagens, tais como insegurança nas respostas, talvez por comprometimento do anonimato; menos liberdade, visto que a investigadora estava presente; e também um possível enviesamento dos resultados, pela influencia do aplicador, quando clarifica alguns itens.
Também é importante mencionar o momento e o local onde foi realizada a recolha de dados. Os pais foram abordados nos centros de saúde, hospitais, clínicas de preparação para o parto e centros de exames. Visto que a maioria dos locais não dispunha de meios para se poder aplicar os questionários com privacidade (e.g. salas), muitos deles foram aplicados nas salas de espera, facto este que terá influenciado a atenção dos participantes, o tempo útil para responder aos questionários e mais uma vez o receio de comprometimento do anonimato.
Apesar das limitações da investigação, considera-se que os resultados permitem ter um conhecimento mais efetivo no que se refere à vinculação pré-natal e ao ajustamento diádico, durante a gravidez.
No futuro, será deveras importante alargar a amostra e se possível, aplicar os questionários nas condições ideais, tentando minimizar os fatores externos que possam interferir com os resultados.