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Tornar-se pai é algo que se torna um marco e uma transição para a vida do homem, que irá experienciar mudanças psicossociais (Gonçalves, 2013; Yu et al., 2012).

Durante este período transitório os futuros pais podem encontrar várias dificuldades, tais como problemas em desenvolver a sua identidade parental, desarmonia com o cônjuge e sentir-se incrédulo em relação ao futuro bebé (Gonçalves, 2013; Vreeswijk et al., 2014; Yu et al., 2012). Com um olhar sobre esta reorganização por parte do homem, Raphael-Leff (2009, citado por Gonçalves, 2013), classificou os pais segundo duas categorias: o pai renunciador e o pai participante. O primeiro, o pai renunciador, irá reforçar a sua identidade masculina no decorrer da gravidez, fechar o contacto com a mulher e por sua vez aumentar a intolerância e vulnerabilidade face às identificações

femininas. O pai participante irá tentar participar o máximo possível na gravidez, no nascimento e nos cuidados à criança, permitindo-se entrar em contacto com aspetos maternais e femininos da sua personalidade.

Segundo Vreeswijk e colaboradores (2014) como o homem não experiencia as mesmas mudanças fisiológicas que a mulher, poderá tornar-se mais difícil ter uma perceção do feto como um bebé real (Vreeswijk et al., 2014). Por isso mesmo, a relação que é estabelecida com este verifica-se através da construção de uma imagem mental do bebé, dos contactos intergeracionais entre estes e também pelo exercício da paternidade. No entanto, Sá (2003, citado por Gonçalves, 2013) salienta que a formação do vínculo entre pai-feto é mais lenta, comparando com a mãe, visto que este não sente o feto dentro de si, no entanto este vinculo vai-se consolidar gradualmente após o nascimento.

Envolver o pai no processo da gravidez é então um fator muito importante, pois é através deste processo que o homem toma consciência do seu novo papel (Marques, 2012). A relação pai-bebé não se inicia apenas depois do nascimento, mas sim ainda durante a gravidez (Vreeswijk et al., 2014). Como o pai não contacta diretamente com o filho, o vínculo que se estabelece é indireto, visto que é mediado pela mãe (Marques, 2012).

Por isso, a companheira, grávida pode tornar-se num elemento facilitador da vinculação pai-filho, visto que pode promover uma relação precoce entre estes. Desta forma, ao incentivar a participação do pai nas consultas pré-natais, ao convidá-lo a sentir os movimentos fetais ativos, ao envolvê-lo na gravidez, promove-se a formação precoce do vínculo pai-filho (Marques, 2012; Sá, 2012).

Os estudos que têm sido realizados para investigar o papel do pai no desenvolvimento da criança focam-se sobretudo na relação destes com os filhos, nomeadamente em aspetos do bem-estar emocional paterno, o afeto da criança ao pai e a qualidade da interação entre ambos. Estes estudos têm demonstrado que o envolvimento ativo dos pais com os filhos tem um efeito positivo no desenvolvimento social, comportamental, cognitivo e psicológico (Vreeswijk et al., 2014). Para além disso, sabe-se ainda que quanto mais o pai estiver envolvido na gravidez, maior será a sua disponibilidade para percecionar os sinais precoces do bebé e por isso mesmo um maior envolvimento na sua vida (Fonseca, 2012).

No que se refere à vinculação pré-natal, a maioria das investigações focam-se sobretudo nas experiências maternas, pelo que existem poucos estudos sobre a vinculação pré-natal paterna (Gomes & Leal, 2007; Vreeswijk et al., 2014; Yu et al., 2012). No

entanto, os dados que se conhecem sugerem que em grande parte dos casos, é também durante a gravidez que se desenvolve a vinculação mútua pai-bebé (Camarneiro & Justo, 2010; Honjo et al., 2003, citados por Gomes & Leal, 2007; Vreeswijk et al., 2014). Foi ainda verificado, à semelhança do que acontece com a mulher, que a vinculação pré-natal paterna é bastante influenciada pela experiência do homem na sua infância. Brazelton e Cramer (1992, citados por Gonçalves, 2013) defendiam que pais com dificuldade no estabelecimento de uma relação com os filhos durante a gravidez seria o resultado de modelos pouco participativos dos seus próprios pais.

Neste sentido foram realizados vários estudos, sendo que um deles, elaborado por Righetti, Dell’avanzo, Grigio, e Nicolini (2005) revelou a vinculação pré-natal paterna não foi reforçada após o exame de ultra-som, ao contrário do que surge nas mulheres. Seimyr, Sjogren, Wells-Nystrom, e Nissen (2009, citados por Condon et al., 2013) sugerem que os homens estão mais envolvidos emocionalmente com o futuro bebé do que propriamente com o feto.

Mercer e Ferketich (1990) demonstraram que os pais tinham mais facilidades em estabelecer a vinculação com o bebé quando tinham apoio adequado por parte das suas parceiras.

Sabe-se ainda que o aumento do número de filhos torna a parentalidade mais complexa. Existem estudos que revelam que os homens que irão ser pais pela primeira vez exibem uma vinculação superior ao feto comparando com os que já têm filhos, apresentando níveis mais elevados na vinculação pré-natal ao feto e intensidade da preocupação (Gonçalves, 2013). Neste sentido, Condon e Esuvaranathan (1990, citados por Gonçalves, 2013) justificam o facto de os níveis de vinculação pré-natal paterna serem inferiores nos homens que já têm filhos devido ao facto de já terem experienciado a excecionalidade que é ter um filho. Justificam-no ainda devido ao facto de os pais sem filhos prévios demonstrarem um menos nível de stresse, comparando com os pais que já têm filhos, sendo que esta diferença é verificada principalmente devido às exigências financeiras colocada pelos outros filhos.

De encontro a esta premissa está o estudo realizado em Portugal por Gomez e Leal (2007), que revelou que existia uma maior vinculação parental ao feto em pais expectantes sem filhos prévios, comparativamente aos pais que já tinham filhos.

No entanto, Camarneiro e Justo (2012, citados por Gonçalves, 2013) elaboraram um estudo em que demonstraram que o fator número de filhos não interfere na qualidade da vinculação.

Relativamente ao estatuto socioeconómico, White, Wilson, Elander e Persson (1999, citados por Gonçalves, 2013) revelaram que não existe uma influência desta variável na vinculação pré-natal. Contrariamente, Wilson e seus colaboradores (2000, citados por Gonçalves, 2013) demonstraram que existe uma correlação destas variáveis, sendo que um indivíduo com um estatuto social mais elevado apresentará uma maior probabilidade de ter uma baixa vinculação paterno-fetal.

No que se refere ao suporte social, os estudos que o correlacionam com a vinculação pré-natal têm demonstrando uma correlação significativa (Condon & Corkindale, 1997, citados por Gonçalves, 2013). Este facto revela que o suporte social irá favorecer a ligação pais-bebé. Por isso mesmo, pode afirmar-se que a relação conjugal é deveras importante para o desenvolvimento da ligação pai-feto (Gonçalves, 2013).

Para avaliar a vinculação pré-natal paterna, Condon (1993, citado por Camarneiro & Justo, 2010; Pires, 2009; Vreeswijk et al., 2014) desenvolveu a Paternal Antenatal Attachment Scale, sendo que esta foi validada para a população portuguesa por Camarneiro e Justo em 2010 e será utilizada na presente investigação.

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