• No results found

Meir Sternberg’s Model on Translingualism and Mimesis in Literature

2. Theory

2.4. Meir Sternberg’s Model on Translingualism and Mimesis in Literature

A polémica entre Franzini e Folque não irá ser muito desenvolvida neste trabalho até porque se trata mais de uma questão do foro do levantamento cartográfico que do levantamento geológico. Contudo, era inevitável focar este assunto porque, durante a controvérsia entre estas duas personagens, são directamente mencionados os trabalhos que Bonnet estava encarregado de efectuar como director da Comissão Geológica e Mineralógica. Por este motivo, esta polémica é apontada por diversos autores como sendo o

móbil que fundamentou a exoneração do engenheiro francês.63 Assim sendo, a sua

57

Sessão Extraordinaria d’Effectivos de 28 de Novembro de 1849, loc. cit. (34), pp. 379-384. 58 Sessão Extraordinaria d’Effectivos de 28 de Novembro de 1849, loc. cit. (34), p. 383. 59

Sessão Extraordinaria d’Effectivos de 28 de Novembro de 1849, loc. cit. (34), p. 384. 60

Franzini refere a colocação de 115 estações de triangulação, as quais se baseavam na antiga triangulação de Ciera, que forneceram a posição de mais de 900 pontos. Marino Franzini, op. cit. (9), pp. 232.

61

Sessão Extraordinaria d’Effectivos de 28 de Novembro de 1849, loc. cit. (34), p. 384. 62 Ofício de 6 de Fevereiro de 1850, ANTT, Ministério do Reino, loc. cit. (18).

63

Ver por exemplo, Charles Bonnet, op. cit. (1), pp. 10-11, 23-24; M. Telles Antunes, “Sobre a história do ensino da geologia em Portugal”, Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal, 75 (1989) 127-169 (142); Carlos

referência nesta dissenção prende-se sobretudo com a necessidade de apurar se foi este, de facto, o único factor que condicionou a demissão da Comissão ocorrida anos mais tarde durante o governo regenerador.

A Comissão presidida por Bonnet ocupava-se de assuntos variados, relacionados não só com a exploração geológica e geográfica do país, mas também com a estatística, para a qual deveria recolher o maior número possível de documentos. Entre as suas funções refira- se ainda a emenda do mapa de Portugal continental (na escala de 1:400 000) ainda inédito, que fora coordenado por Franzini mas, segundo o próprio, continha muitas lacunas e

incertezas sobretudo para a região do Alentejo.64 Franzini considerava de extrema

importância a conclusão do mapa geográfico de Portugal continental iniciado anos atrás, o qual, de acordo com afirmações por si proferidas, deveria receber um aperfeiçoamento excepcional depois das explorações da Comissão liderada por Bonnet. Aproveitava ainda para acrescentar que uma das grandes vantagens da Comissão liderada pelo engenheiro francês se cifrava, sobretudo, na rapidez e pequena despesa envolvida. Franzini considerava irrisório o montante que ia ser aplicado nos trabalhos da Comissão Geológica: em três anos iriam ser investidos dez contos de réis para terminar uma carta que, apesar de provisória, poderia satisfazer, segundo as suas palavras, todas as exigências administrativas.65

Franzini contrapunha assim o benefício de um levantamento realizado deste modo face ao projecto de elaboração do mapa geodésico e cadastral de Portugal, cujo principal responsável era Filipe Folque (1800-1874). A Comissão Geodésica liderada por Folque estava então encarregada de executar a carta na escala de 1:10 000 a qual, na opinião de Franzini, iria somente ser conseguida à custa de grande despesa por ser necessário imenso tempo para a concluir representando, por isso, um enorme peso para o erário público.66 A

exiguidade de meios humanos e orçamentais aliados ao tempo necessário para concluir tal mapa eram, para Franzini, obstáculos quase intransponíveis para um país que oferecia recursos tão escassos. Presumivelmente, Folque reagiu de imediato às observações de Franzini respondendo duramente a todas as críticas que lhe eram apontadas, dando-se início a uma acesa polémica entre ambos.

Teixeira e Francisco Gonçalves, Introdução à Geologia de Portugal, Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1980, p. 367.

64

Franzini refere que ele próprio coordenara o mapa na escala de 1:400 000, e que apesar de todos os esforços, não deixa de conter muitas lacunas e incertezas, especialmente no curso de rios e direcção de serras, sendo mais evidentes aqueles defeitos no que respeitava ao Alentejo, região muito mal descrita até àquela data. Marino Franzini, op. cit. (7), p. 231.

65 Ibid. 66

Franzini dá como exemplo o gasto envolvido a nível monetário, temporal e humano, que o levantamento da carta geodésica de Inglaterra envolveu. No caso português, alegava que seriam necessários 45 anos e um orçamento anual de 110 contos de réis, desde que a escala da carta geodésica fosse reduzida para a sexta parte da que realmente tinha sido adoptada. Ibid.

Filipe Folque considerou os reparos de Franzini inexactos e contraditórios, discordando totalmente das considerações tecidas acerca dos trabalhos que

superintendia.67 Na sua resposta descreve rigorosamente os meios materiais e humanos

necessários para um levantamento cartográfico do país, considerando inconsistente a argumentação de Franzini. Refere, em primeiro lugar, que Franzini, ao evocar o exemplo de Inglaterra não tinha em atenção a discrepância de épocas, sobretudo porque foram largamente melhoradas as técnicas e métodos de levantamento durante todo o período a

que fazia referência.68 Além disso, demonstra que o custo envolvido no levantamento

topográfico do país era significativamente inferior ao que Franzini adiantara. Segundo Folque, Franzini não atendera, na sua avaliação, às condições particulares do país. Na verdade, em Portugal escasseavam as matas e bosques havendo, por sua vez, muitas charnecas e zonas despovoadas. As propriedades existentes não estavam muito divididas, exceptuando nas regiões a norte de Portugal continental e nas proximidades de cidades e vilas. Por outro lado, as culturas eram também pouco variadas, exceptuando nas zonas supracitadas. Num país com estas características o levantamento topográfico seria

obviamente mais simples do que o realizado em Inglaterra.69 No entanto, mesmo que o

levantamento se tornasse demorado, era para Folque impensável que qualquer governo desprezasse projectos simplesmente porque, dada a sua morosidade, apenas podiam ser concluídos em gerações futuras:70

A idade das nações não se pode avaliar pela idade dos homens, (...) se um homem de Estado rejeitasse uma medida governativa ou uma instituição reconhecidamente util e vantajosa ao seu paiz, só porque elle ou a geração presente já não podia tirar della toda a vantagem, um tal homem seria antes um verdadeiro egoista, porque unicamente tratava de desfructar tudo de bom, que lhe deixaram, sem lhe importar, quem ha de vir.

Folque acrescenta ainda que se os trabalhos de levantamento do país não tivessem estado parados durante 35 anos, ou auferissem apenas a dotação de 15 contos de réis anuais durante o período em que funcionaram, todo o levantamento topográfico na escala de 1:10 000 podia estar já terminado.71 Salienta igualmente a sua total discordância quando

Franzini afirma que a carta deveria ser elaborada numa escala menor que 1:10 000. Folque contrapõe a esta observação o facto de serem muito mais precisos os trabalhos de topografia quando são gravados a partir de uma redução de escalas grandes para escalas pequenas, por se revelarem as reduções mais perfeitas e detalhadas do que seriam os

próprios trabalhos executados naquelas mesmas grandezas.72

67

Filipe Folque, “Trabalhos geodesicos e topographicos do Reino”, Revista Universal Lisbonense, [2], 27 (1850), 317-321.

68

Filipe Folque, op. cit. (67), p. 318. 69

Filipe Folque, op. cit. (67), p. 319. 70 Filipe Folque, op. cit. (67), p. 320. 71

Ibid. 72 Ibid.

Sobre a carta geográfica na escala de 1:400 000, a ser levantada pela Comissão Geológica e Mineralógica que teria como base a de Franzini, Folque, ao contrário do seu opositor, não a considerava suficiente para suprir todas as “exigências administrativas”. Deveria atender-se que o mapa elaborado por Franzini não se baseara em qualquer levantamento sistemático, apoiado em redes geodésicas e executado por uma instituição autónoma dispondo de um corpo regular de funcionários, tal como estava a ser realizado pela Comissão Geodésica sob a alçada do Ministério do Reino. Franzini apenas se baseara nas triangulações de Ciera as quais apresentavam um erro de cerca de 700 metros, além de

outras incorrecções que este último reconhecera no início do século XIX73 em

levantamentos e reconhecimentos militares, e em outras cartas já levantadas ou disponíveis.74 Neste sentido, dificilmente uma carta geográfica elaborada com base nestes

meios poderia preencher as necessidades da administração por não se apresentar fundamentada em dados com o rigor mínimo exigido. Num último ataque desferido a Franzini, então director do Arquivo Militar, Folque culpabiliza aquele organismo por nunca ter organizado ou imposto um sistema de escalas, de convenções de desenho ou mesmo de configuração geométrica do terreno. A ausência desta normalização tornava inútil tal instituição, por esta lacuna na organização dos seus serviços permitir que fossem levantados mapas em escalas e convenções arbitrárias.75

Folque finaliza a sua argumentação acusando Franzini de intencionalmente pretender denegrir os serviços que dirigia, com argumentos publicitados num artigo publicado numa altura próxima do período de discussão parlamentar do orçamento do Estado:76

A immensa publicidade que S. Exa. deu a seu artigo; a escolha da épocha, proxima da discussão do Orçamento (...), tudo nos leva a acreditar que S. Ex.ª procura indispôr a opinião das Camaras, do Governo, e do Publico contra os Trabalhos Geodesicos e Topographicos do Reino, afim de se annullar a verba do Orçamento, que lhes é destinada. Será possível que S. Ex.ª o consiga? Se tal acontecer não lhe invejamos a gloria; a historia das sciencias lhe fará a justiça devida; e no silencio do nosso gabinete lamentaremos esta vergonha nacional.

Perante a lucidez demonstrada por Folque em toda a sua exposição, a Franzini apenas restou alegar que fora sujeito, assim como Bonnet, a rivalidades inesperadas fruto de falsas interpretações, alegando não ter pretendido influenciar a decisão do corpo

73

Filipe Folque, “Trabalhos geodesicos e topographicos do Reino”, Revista Universal Lisbonense, [2], 28 (1850), 331-333 (331).

74

Rui Branco, O conhecimento do território e a construção do Estado. O desenvolvimento da cartografia

territorial em Portugal no século XIX, Dissertação de Mestrado em Economia e Sociologia Históricas, Faculdade

de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 1999, p. 129. 75

Filipe Folque, op. cit. (73), p. 332. 76 Filipe Folque, op. cit. (73), p. 333.

legislativo.77 Aparentemente a questão, pelo menos a nível público, terá ficado sanada por

aqui desconhecendo-se qualquer outra publicação relativa a este assunto.

Actividade da Comissão Geológica depois da polémica Folque-