2. Theory
2.3. Code-Switching
Numa sessão da Academia Real das Ciências de Lisboa em Abril de 1849, Charles Bonnet apresenta o itinerário de estudo que iria seguir na sua primeira viagem ao serviço da Comissão Geológica.39 Naquela notícia apenas são referidas as localidades que iriam ser
alvo de uma análise mais pormenorizada, não sendo mencionada a totalidade das
povoações por onde a Comissão pudesse eventualmente passar.40
Bonnet partiu para a sua primeira expedição a 29 de Maio de 184941 acompanhado
por Joaquim Júlio Pereira de Carvalho e por José Maria da Ponte e Horta, tendo regressado
a 11 de Agosto do mesmo ano.42 A sua digressão fora particularmente penosa, como
testemunham as palavras de Franzini:43
(...) percorrer o desabrido Alemtejo nos meses de Junho, Julho e Agosto, subindo aos cumes das serras no meio do dia, expondo-se ás febres que (...) predominam nesta provincia durante os grandes calores (...) carecendo em muitos dias dos indispensáveis alimentos, e até de água (...).
A Comissão iniciou a sua digressão pela margem esquerda do Sado, continuando pelo lado ocidental do Alentejo até ao Algarve. Este itinerário fora especialmente traçado de modo a que Bonnet pudesse relacionar os novos dados recolhidos com os já anteriormente
espécie com raiz). Evidenciava-se ainda a necessidade de serem enviados diversos exemplares da mesma espécie. Sessão Litteraria de 23 de Maio de 1849, loc. cit. (34), p. 93-95.
37
Sessão Litteraria de 23 de Maio de 1849, loc. cit. (34), p. 95. 38 Sessão Litteraria de 23 de Maio de 1849, loc. cit. (34), p. 96. 39
Sessão Litteraria de 25 de Abril de 1849, loc. cit. (34), pp. 47-48.
40 As localidades a estudar, constantes do itinerário eram as seguintes: Setúbal, Comporta, Horta do Porto, Grândola, Melides, S. Tiago do Cacém, Bairros, Ferreira, Aljustrel, Castro Verde, Ourique, Garvão, Os Colos, Alvalade, S. Domingos, Sines, Cercal, Vila Nova de Mil Fontes, Odemira, Odeceixe, Monchique, Santa Clara Velha, Santa Clara Nova, Ourique, Almodôvar, Minguado, Alcoutim, Mértola, Santa Iria, Serpa, Beja, Pomares, Moura, Mourão, Monsaraz, Monte do Trigo, Évora, Corval, Portel, Vidigueira, Beja, Vª Nª da Baronia, Porto de Rei, Alcácer do Sal, Setúbal. Ibid.
41 Bonnet inicia a sua viagem apenas no final do mês de Maio de 1849, apesar de existir uma portaria do governo indicando que deveria iniciar as suas viagens em Fevereiro daquele ano. No entanto, o atraso deve-se ao facto de Bonnet só ter recebido as instruções do governo no início de Maio. Portaria de 21 de Dezembro de 1848,
Relação dos papéis pertencentes á Commissão Geologica e Mineralogica entrada com officio de 30 de Novembro de 1852 ao Ministério das Obras Publicas Commercio e Industria — Secretaria de Estado dos Negocios do Reino, ANTT, Ministério do Reino, loc. cit. (18).
42
Apenas foi localizado o relatório da sua segunda viagem, publicado nas actas da Academia. 43 Marino Franzini, op. cit. (9), p. 232.
obtidos em viagens que realizara num período anterior à constituição da Comissão.44
Segundo Franzini, Bonnet apresentou ao Ministro do Reino, o Conde de Tomar, um extenso
e circunstanciado relatório45 dos trabalhos executados nesta primeira viagem no qual
explicitava os rios e ribeiros com as suas nascentes e afluentes, as serras, as rochas, etc., que tinham sido explorados. No mesmo relatório sugeriu ainda a junção dos rios Guadiana e Sado por um canal que deveria passar próximo da cidade de Beja, mas não foram adiantados pormenores porque a Comissão optou, de acordo com Franzini, por reservar a
exposição da sua sugestão para uma memória especial sobre este assunto.46 Quanto aos
exemplares recolhidos, Bonnet manifestou a intenção de os expor com a maior brevidade mas nada mais adiantou sobre o assunto.47
Bonnet partiu para a sua primeira viagem sem ter conhecimento das instruções que deveriam orientar a sua expedição, as quais eram responsabilidade da Academia das Ciências. Somente na sessão extraordinária da Academia, realizada a 1 de Agosto de 1849, seria apresentado o Projecto de instruções para o Engenheiro Carlos Bonnet se dirigir por ellas, na sua viagem Geologica e Mineralogica do Reino.48 Não se compreende este atraso
por parte da Academia, tanto mais que aquela instituição considerava aquelas instruções
essenciais ao cabal desempenho da Comissão responsável pelo levantamento:49
(...) não podendo (...) repetir-se com facilidade a commissão que lhe foi encarregada, sendo por isso necessario tirar della todo o proveito possível, pareceo á Academia Real das Sciencias conveniente (...) ordenar o incluso Projecto de Instrucções (...).
As instruções fornecidas pela Academia pretendiam orientar a natureza das observações a efectuar no terreno: definiam o modo de recolha de rochas e fósseis, insectos, ossadas, etc.,50 e versavam sobre assuntos de carácter económico já que deveria
ser comunicado à Academia quais as minas passíveis de exploração. Estavam também contempladas algumas das questões em discussão na época, como por exemplo a existência de blocos erráticos (“blocs erratiques”) próximos das grandes montanhas. Segundo as instruções da Academia, Bonnet deveria examinar a causa destes fenómenos
tendo em conta as explicações de Visse,51 comparando esta interpretação com outros
44 Ibid.
45 Este relatório não foi consultado, por não ter sido determinado o seu paradeiro. 46
Marino Franzini, op. cit. (9), p. 232. Esta memória não foi publicada, desconhecendo-se mesmo se alguma vez foi apresentada.
47 Ibid.
48 Estas instruções só chegam a Bonnet em Setembro de 1849. Portaria de 10 de Setembro de 1849, ANTT, Ministério do Reino, loc. cit. (18).
49 Consulta da Academia enviada à Rainha para respectiva aprovação. Sessão Extraordinaria d’Effectivos de 1 de Agosto de 1849, loc. cit. (34), p. 269.
50
Os treze primeiros artigos do projecto referem-se sobretudo aos processos de recolha de exemplares de rochas, cristais, plantas e fósseis. Projecto de Instrucções para o Engenheiro Carlos Bonnet se dirigir por ellas,
na sua viagem Geologica e Mineralogica do Reino, Sessão Extraordinaria d’Effectivos de 1 de Agosto de 1849,
Sessão Litteraria de 23 de Maio de 1849, loc. cit. (34), pp. 270-272. 51
No seu artigo, Visse considerava que o fenómeno que conduzia à formação de penedos erráticos era independente dos cursos de água. Por outro lado, concluía das suas observações efectuadas nos Andes, que os
modelos explicativos para o mesmo fenómeno.52 Deveria ainda atender às observações
efectuadas por Favre53 sobre os maciços dolomíticos. Outro assunto em debate na época
sobre o qual a Academia pretendia também que Bonnet se debruçasse, dizia respeito ao aparecimento de Numulites em diferentes formações. Apesar de se julgar que aquelas espécies surgiam apenas no Terciário, Bonnet deveria apurar se tal era conforme às suas observações ou, no caso de não verificar tal ocorrência, deveria averiguar se poderia encontrar uma explicação “baseando-se unicamente no deslocamento de camadas”. As instruções da Academia indicavam ainda que, se possível, Bonnet deveria recolher fragmentos de ossadas de animais em cavernas a fim de se poder determinar as diferentes espécies animais aí existentes. Finalmente, deveria também dedicar especial atenção a um rochedo existente perto das margens do rio Sado conhecido por “pedra furada”, dadas as suas características geológicas.54
No período decorrido entre 27 de Setembro e 29 de Novembro,55 Bonnet efectuou
uma outra viagem de exploração na qual se fez acompanhar apenas de Joaquim Júlio Pereira de Carvalho.56 O itinerário desta segunda digressão fora uma vez mais elaborado de
modo a continuar o trabalho executado na primeira viagem. De acordo com o seu plano, deveria proceder à pesquisa de todas as regiões vizinhas de Évora e de Portalegre para poder concluir algumas das suas observações. Para a Academia das Ciências Bonnet limitar-se-ia a remeter um pequeno excerto sobre a primeira parte da sua segunda viagem, incluindo simplesmente alguns detalhes sobre as numerosas observações de nível
mesmos não tinham origem vulcânica. Com efeito, se se tratasse de um fenómeno de origem vulcânica, estariam os mesmos dispersos de um modo desordenado em redor das crateras, além de serem encontrados justapostos sobre os sedimentos menos consistentes. Visse, “Études sur les blocs erratiques des Andes de Quito” Comptes
Rendus Hebdomadaires des Séances de l’Académie des Sciences, 28 (1849), 303-307 (305, 307).
52 As instruções da Academia nada referem sobre quais os restantes modelos que serviriam como comparação. Sessão Extraordinaria d’Effectivos de 1 de Agosto de 1849, loc. cit. (34), p. 272.
53 Numa viagem aos Alpes, Favre refere os dois tipos de jazidas de montanhas dolomíticas: umas, regularmente estratificadas, são devidas a uma formação sedimentar regular, semelhante à do calcário, apesar de ser considerada mais complexa; a outra, cristalina, é apresentada como resultado da simples fusão com um calcário contendo magnésio. Alphonse Favre, Comptes Rendus Hebdomadaires des Séances de l’Académie des
Sciences, 28 (1849), 364-366 (366).
54
Sessão Extraordinaria d’Effectivos de 1 de Agosto de 1849, loc. cit. (34), p. 273. A “pedra furada” é um rochedo de cerca de 12 metros de comprimento, 8 metros de espessura e 18 metros de altura; apresenta uma cor acastanhada muito escura e encontra-se crivado de cavidades. Segundo Marques da Costa, a explicação dada por Carlos Ribeiro é a mais adequada, isto é, “(...) devida a nascentes repuchantes sobrecarregadas de
sais de ferro (...).” (ver Carlos Ribeiro, Descripção dos terrenos quaternarios da bacia do Tejo e Sado, Lisboa,
Commissão Geologica do Reino, 1866, p. 152), desenvolvendo no seu artigo uma explicação pormenorizada para esta formação rochosa. Ainda de acordo com o mesmo autor, não consta que alguém tenha estudado esta formação rochosa, além do Barão de Eschwege e de Carlos Ribeiro, referindo que, se Bonnet efectuou, eventualmente, algum estudo, nunca o publicou ou entregou relatório algum ao governo. A. I. Marques da Costa, “A Pedra Furada de Setúbal”, Comunicações do Serviço Geológico de Portugal, 11 (1916), 97-117 (97-98, 110- 115).
55
Oliveira Simões refere que o início da viagem de Bonnet é de 28 de Setembro, mas de acordo com o relatório publicado nas Actas da Academia das Ciências, Bonnet diz que inicia a sua viagem a 27. J. Oliveira Simões, “Os serviços geológicos em Portugal”, Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal, 14 (1923), 5-123 (14). Sessão Extraordinaria d’Effectivos de 28 de Novembro de 1849, loc. cit. (34), p. 379.
56
Não se encontrou nenhuma indicação sobre quais foram os motivos que, nesta altura, levaram à redução da comitiva de Bonnet.
topográfico e de geografia física que foram efectuadas.57 No que respeita aos estudos
geológicos que Bonnet diz ter realizado é referido unicamente o predomínio das rochas xistosas e ígneas, sendo os calcários os menos abundantes.58 Neste seu périplo diz ainda
ter recolhido quatro caixas de exemplares diversos e feito alguns cortes geológicos em alguns pontos do Alentejo, os quais nunca chegou a especificar.59
No final do pequeno excerto sobre a sua segunda viagem, Bonnet refere que toda a zona do Alentejo tinha já sido estudada. Menciona igualmente que fizera a medida de mais
de 250 alturas, a marcação de 32 estações de triangulação,60 a determinação de um
elevado número de direcções de serras e de camadas rochosas, além de ter efectuado a recolha de inúmeras amostras de exemplares de minerais e rochas. Menciona também que foram reunidos dados acerca da população, incluindo o tipo de produção agrícola e fabril, o gado existente, a actividade piscatória, e a instrução pública. Franzini aproveita para exaltar a importância destas informações, fundamentais para efectuar a estatística dos diversos concelhos que, até então, se mantivera fora do alcance do poder administrativo.61
Em Fevereiro de 1850, Bonnet envia ao Ministério do Reino um resumo dos trabalhos realizados. Comunica ainda ao mesmo Ministério que necessita de completar os estudos sobre a região do Algarve e de Santarém, e que se preparava para iniciar o levantamento das regiões compreendidas na margem esquerda do Tejo, de Abrantes a Lisboa. No mesmo ofício refere, convictamente, que conta terminar o levantamento de Portugal continental em 3 ou 4 anos.62