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6. Actors in action: the machinic assemblage of actors

6.2. Action from below

6.2.3. Meet a new actor: ‘foreigners’

Quando publica Madame Bovary em 1857, Flaubert dedica o volume a seu defensor, Marie-Antoine-Jules Sénard, responsável pelo discurso que lhe rendeu a absolvição no pro- cesso em que fora envolvido. O agradecimento ao advogado, registrado para posteridade, re- vela-se não como gesto de conveniência encomiástica de Flaubert, mas como atestação de que a obra incorpora para sempre as circunstâncias históricas que a viram nascer e que a tornaram, por diversos motivos, um clássico da literatura ocidental. Pairando indecisamente entre fato e valor, considero que o qualificativo “clássico” pode ser atribuído a uma obra literária a partir do momento em que esta é capaz de apresentar questões imprevistas tanto para o autor quanto para o público contemporâneo a ela.

Lançado em 1856, na Revue de Paris, o romance Madame Bovary provocou grande escândalo na cena cultural parisiense, o qual culmina no processo movido pelo Ministério Público contra o autor, o editor e o impressor da revista, sob acusação de ofensa à moral e à religião. Entre 31 de janeiro e 7 de fevereiro de 1857 ocorreu, na VI Câmara do Tribunal Cor- recional de Paris, o julgamento de uma obra ficcional, de um personagem fictício e de seu autor empírico, não nomeados desta maneira, mas confusamente interligados como unidade indecomponível, por se tratar de distinções terminológicas inconcebíveis àquela altura.

O valor de novidade formal manifesto em Madame Bovary permitiu a realização de um grande salto na linguagem do romance moderno, além de prover o vocabulário da teoria crítica de conceitos relevantes sobre questões relacionadas à enunciação da narrativa e às vo- zes do discurso ficcional. No entanto, essa novidade formal não foi imediatamente aceita ou mesmo compreendida pela sociedade burguesa oitocentista, não apenas devido ao mal-estar provocado pelo comportamento da heroína de Flaubert, mas sobretudo pela técnica do estilo indireto livre, a qual introduziu elementos narrativos que comprometeram os padrões de leitu- ra então praticados.

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37 O material relativo ao processo de Madame Bovary, que surge anexo ao romance em algumas edições e traduções do mesmo, interessa pela constatação da dificuldade em argu- mentar sobre um problema decerto tão capcioso que mal podia ser nomeado. Incapaz de sus- tentar com profundidade analítica uma discussão que pudesse tecnicamente comprovar a su- posição de que o romance ofenderia a moral e a religião, o processo caracterizou-se por certa incompetência dos encargos do ônus de prova. Não obstante a notável plaidoirie de Sénard, os críticos divergem sobre os motivos da absolvição de Flaubert em um caso onde acusação e defesa parecem ter mantido posições conservadoras.

O julgamento de Madame Bovary deixa exposta toda a fragilidade da relação que o leitor mantinha com as principais categorias da ficcionalidade literária. Segundo Maria Rita K , “ p p x b , r- nância indiscriminada entre as vozes do narrador e dos personagens deveria possibilitar um distanciamento irônico por parte ”.75 Mas a acolhida negativa do público pode signi- ficar que houve sim certo entendimento da ironia flaubertiana e de seu projeto dialógico, já que se instalou o processo.

O estilo de Flaubert ficou caracterizado pela construção de desníveis de fabulação concernentes à divisão do narrar e do descrever e pela agilidade dos cortes e transições entre os cenários. Os elementos particulares deste estilo ç p “ ”76 de um texto em prosa que, segundo Proust, empreendeu uma diferença no uso de determina- dos tempos e aspectos verbais, pronomes pessoais, preposições e advérbios na língua literária francesa e culminam na “ x á ç ”77 por meio da qual o narra- dor flaubertiano pode transmitir a medida do tempo. O paradigma aberto por Flaubert levou Borges a lembrar- “ p ”78

e que, pela primeira vez na história moderna do romance, foi capaz de consagrar-se “à ç b p ética em prosa”.79

Maria Rita Kehl corrobora a posição de Dominick La Capra, cuja tese baseia-se na ambiguidade do estilo de Flaubert e na inadequação dos argumentos utilizados pela Promoto- ria, e b “ p não estavam inteiramen-

75 KEHL, 2008, p. 131. 76 PROUST, 1988, p. 135. 77 PROUST, 1994, p. 78. 78 BORGES, 2008, p. 142. 79

38 , p p ” 80

A autora aponta a origem precisa do misreading que acometeu todo o julgamento de Madame Bovary:

(...) o que se nota é que tanto a acusação quanto a própria defesa estão tra- tando autor, narrador e personagens como uma única voz, de modo que não se sabe ao certo se quem deve ser punido é Gustave Flaubert, Emma Bovary ou o estilo da obra, o que levou Dominick La Capra a afirmar que o crime de que Madame Bovary foi acusado era basicamente um crime de linguagem.81

Em que pesem os elementos intrínsecos ao discurso romanesco que intervieram para o desconcerto do leitor diante da obra, alguns fatores políticos têm sido mencionados como relevantes para a abertura do processo contra Flaub , “ dos historiadores tem visto o caso de Madame Bovary assim como Flaubert acabou por consi- derá- : p ”.82 O crítico assinala que o oportunismo e os interesses carreiris- tas do promotor de Estado Ernest Pinard devem ser levados em conta, sobretudo quando se trata de entender a ganância pessoal de Pinard em participar ativamente do processo, ainda que seus superiores tentassem dissuadi-lo de permanecer à frente dos trabalhos da Promotoria:

A julgar pela energia com que conduziu o processo, parece que Pinard ficara chocado com Madame Bovary, em parte seduzido por sua força literária, em parte convencido de que devia proteger o público daqueles tentadores que convidavam à imoralidade.83

O tratamento formal que Flaubert dedicara ao texto de Madame Bovary permitiu que o romance constituísse um lugar de diferença em relação a outras obras produzidas no mesmo momento. O caso de Flaubert possibilitou a Hans Robert Jauss desenvolver o conceito de ho- rizonte de expectativas e “ b á é b tanto em seu contraste com o pano de fundo oferecido por outras formas artísticas quanto con- p xp ”.84

É justamente o conhecimento do horizonte de expectativas de uma obra o critério que nos permite avaliar sua novidade e originalidade, perfilando tal obra de encontro a uma tradi- ção, a uma série histórica e às convenções estéticas presentes em determinado período ou gê- nero literário. O processo movido contra Madame Bovary evidencia de que modo uma nova

80 KEHL, 2008, p. 135. 81 KEHL, 2008, p. 131. 82 GAY, 2010, p. 93. 83 GAY, 2010, p. 94. 84 JAUSS, 1994, p. 53.

39 forma pode perturbar todo o sistema literário, ou a série literária em vigência, e superar o ho- rizonte de expectativas de sua época, como afirma Jauss:

A nova forma literária que obrigou o público de Flaubert a uma percepção b “ áb ” p p p e- , “ i- ”, p b tamento do foco narrativo.85

O que se espera de um texto literário realmente inovador é que ele force o receptor a uma nova consciência crítica quanto aos protocolos habituais de leitura. De acordo com Terry , “ p ç percepções que temos, a obra literária, quando valiosa, violenta ou transgride esses modos normativos de ver e com isso nos ensina novos ”.86

Flaubert não foi o primeiro nem o único escritor a ser processado pelo Estado ou por outra instituição corporativa ou eclesiástica. A história da literatura ofere- ce numerosos exemplos de autores cujas obras foram negligenciadas, censuradas ou banidas de bibliotecas ou livrarias seja por razões morais e religiosas, seja por razões políticas.

Há décadas, Luiz Costa Lima vem e ô “controle do imaginário”, com o intuito de analisar os mecanismos por meio dos quais a sociedade oci- dental regulamenta e ajusta o discurso ficcional diante das realidades institucionalizadas em épocas determinadas. Costa Lima percebe que as exigências controladoras do romance, pre- sentes desde a instituição deste gênero literário, sobretudo a partir de Dom Quixote, ainda atuariam em pleno século XIX, momento em que o discurso romanesco encontraria sua su- posta legitimidade diante do público burguês.

b , “ p b , p u- ”,87

demonstraria que a autonomia do romance é sempre relativa e complicada, fato que corrobora a dificuldade de emancipação do discurso ficcional na modernidade. Isso equivale a dizer que o controle do imaginário não foi desmentido pelo prestígio concedido à arte no sé- culo XIX, posto que tal prestígio estaria fundamentado na prévia neutralização do potencial polêmico da literatura.

Baudelaire, contemporâneo de Flaubert, não teve a mesma sorte do amigo, e assistiu quase impotente a Flores do mal ser condenado pelos tribunais imperiais. Não se compreende bem a razão do distinto veredicto aplicado a ambos os autores, mas Dolf Oehler sugere que

85 JAUSS, 1994, p. 53. 86 EAGLETON, 2006, p. 120. 87

40 Flaubert, diferentemente de Baudelaire, dispunha de boas relações em virtude de seu nome de família e contou com um advogado proveniente da burguesia conservadora, respeitado no cenário político do Segundo Império:

O processo contra Madame Bovary terminou, é certo, com uma absolvição, mas só porque Flaubert dispunha de melhores relações, sendo Sénard seu de- fensor, um dos protagonistas de junho de 1848. Se esse paladino da burgue- sia honesta aceitara a causa de um autor, isso pesava mais do que todo es- crúpulo moral que podia ser alegado sobre a devassidão de Emma e de seu inventor.88

Fora da arena jurídica, a grande contribuição do processo contra Flaubert foi lançar as bases de uma discussão sobre como abordar o pacto de leitura exigido por sua obra. A no- ção de pacto de leitura engloba as situações textuais e extratextuais referentes às posições ocupadas pelos agentes ligados à produção, à circulação e à recepção de dada obra literária em determinado contexto. A distinção funcional das categorias pertencentes à ficcionalidade literária e o modo como operam na criação estética, na imaginação do leitor e no discurso da crítica literária é o detalhe fundamental que será incorporado não apenas à fortuna crítica de Flaubert, mas também à moderna teoria literária.

É impossível referir-se a Madame Bovary sem mencionar as circunstâncias herme- nêuticas que desafiaram o senso comum, chocaram os pressupostos éticos partilhados pela comunidade de sua época e transformaram o romance em clássico da prosa de ficção moder- na. A partir da singularidade do romance de Flaubert, Jauss desenvolve a tese de que uma b á p , “ é b , p xp leitores e, ao mesmo tempo, colocá-los diante de uma questão cuja solução a moral sanciona- p p ”89

Mestre na arte da resistência e da esquiva, Flaubert deve a seus “ p a- b p 857”,90

de acordo com Leda Tenório da Motta. Reconhecida como uma enunciação sem centro, a narrativa flaubertiana teria impossibilitado os juízes do Segun- do Impé “ no texto, e assim de apontar com o dedo a res- p b ”91

Se alegam que o verdadeiro crime de Flaubert é seu estilo, sua memorável defesa está contida na proclamação da fórmula-blague Madame Bovary, c’est moi, o enunciado que reconhece o poder do discurso ficcional no exato momento de seu veto. 88 OEHLER, 1999, p. 390. 89 JAUSS, 1994, p. 56. 90 MOTTA, 1997, p. 101. 91 MOTTA, 1997, p. 101.

41 O episódio do processo contra Flaubert não é referido por Jules de Gaultier em seu ensaio de 1902 e tampouco a frase atribuída ao escritor é mencionada pelo filósofo. Por cir- cunstâncias aleatórias do mundo das letras, o discurso moderno encarregou-se de associar a noção de bovarismo à frase mítica de Flaubert, sem que se saiba ao certo quem responsabili- zar pela criação do novo laço. A conjunção desses enunciados é uma consequência tardia do bovarismo das letras, uma modalidade retórica que elabora mal a questão da autoria e da auto- ridade e finge desprezar a propriedade mantenedora dos discursos.

É “ p Madame Bovary,

c’est moi) e de uma definição póstuma (se concevoir autre que l’on est) se torna finalmente

p b ”,92

como defende Delphine Jayot. É tam- bém assim que a obra ficcional de Flaubert, suscetível de censura, se diferencia da esfera do bovarismo que a sucedeu. Instância todo-poderosa, o bovarismo das letras pode ser tomado como metonímia de um segmento recente da crítica acadêmica, que tem no crítico argentino Ricardo Piglia, adiante mencionado, seu maior representante. Este segmento teria encontrado para si um espaço virtual de celebração da ficção, no qual as apropriações de textos alheios fomentam uma experiência peculiar da teoria literária.