7. Words and silence: the collective assemblage of enunciation
7.2. Collective enunciations: the state versus individuals
Conforme explicamos anteriormente, o conceito de tendência é ponto chave para que compreendamos a moda, a construção de suas imagens e, por conseguinte, a conformação do corpo e da subjetividade femininos. A partir de sua lógica de funcionamento criam-se e recriam-se as mulheres de papel: a flutuação da moda tenta ser apanhada e sistematizada pelas trends.
No caso dos editoriais e capas escolhidos tanto para contextualização do objeto quanto para a análise estão calcados naquela dos anos 1980. A moda que olha para essa década tem características bem peculiares e marcantes, tanto no que diz respeito a modelagens quanto a cores, estampas, cabelos, maquiagem e postura corporal.
Como é uma releitura, alguns pontos-chave presentes nas roupas dos anos 80 reaparecem, mas são repaginados. Isso significa que os elementos estéticos chave da década ganham ares mais contemporâneos. O mais emblemático é a ombreira. A daquela época é grande e volumosa. A atual é uma continuação do ombro, uma ponta com menos volume, mas mais artificial.
As cinturas mais altas também são uma referência àquele tempo. Para sustentar uma silhueta em Y (mais larga em cima e ajustada na parte de baixo), a altura do cós da calça e das saias deve ser mais alta. Isso significa também que as peças são mais próximas do corpo. Se a ênfase é no ombro, o resto deve ser justo para manter uma harmonia. Estas premissas foram usadas outrora e mantém-se na adaptação. Vale ressaltar que estas propostas de formatação do corpo feminino encontram justificativa no destaque da mulher no mercado de trabalho. Mais masculinizadas, elas usavam ternos que eram muito parecidos com os dos homens e que deixavam seus corpos, aparentemente, tão fortes quanto os deles. Não que isso não fosse
permitido anteriormente1, mas é nos anos 80 do século passado que a androgenia
ganha contornos mais populares e representa uma possibilidade real de igualdade entre os gêneros no mercado de trabalho. Por isso os ternos para elas são tão populares nesta década. No entanto, eles não são ajustados ao corpo, e sim aparentam ter sido “roubados” do homem da casa.
Atualizada, a versão é conhecida hoje como “boyfriend”, termo usado para designar
a roupa construída para parecer que foi tomada de empréstimo do namorado. As calças jeans com esse nome tornaram-se muito populares, ao lado dos blazers grandes. Diferente dos bem ajustados das estações anteriores, estes são propositalmente maiores, mais longos e largos, para dar a impressão de item reaproveitado. Ironicamente, rezam as revistas que eles devem ser usados com vestidos bem justos e curtos, assim como se sugere também que as calças boyfriend sejam usadas com tops justos e saltos altíssimos.
No entanto, não somente a roupa era um artifício para demonstrar um corpo feminino que podia tanto quanto os dos homens. É durante essa década que há um aumento vertiginoso das academias de ginástica e das técnicas de construção corporal. Um número crescente de mulheres ocupa cada vez mais não só as empresas, mas também as academias. Vale ressaltar que os ícones de beleza e as supermodelos ostentavam corpos milimetricamente construídos, curvilíneos, bem diferentes dos quais havia se visto até então.
Esse tipo de relação com o corpo é responsável por mais uma tendência forte dos anos 80: as roupas de ginástica. Uma vez que as academias eram tão freqüentadas e faziam parte do cotidiano de tanta gente, o que era vestido lá passou a ganhar as ruas. Tecidos, cores, modelagens e acessórios tornaram-se tendência: lycra, flúor, justo por baixo e largo acima, polainas e faixas no cabelo eram vistos à exaustão. As tonalidades das academias eram as mesmas da maquiagem. Como todas as tendências indicavam para uma artificialidade ímpar, não poderia ser diferente nas
1 Chanel, no início do século passado, já encorajava as mulheres a usar elementos do universo da
cores do rosto e também nos cortes de cabelos. Na verdade, é necessário lembrar que além de tonalidades muito fortes, as tendências apontavam também para um excesso que resultou em sobreposições, misturas inusitadas e a máxima “mais é mais”. Por isso, os olhos nas maquiagens dos anos 80 são absolutamente coloridos, fortes, em tons berrantes. O blush corta o rosto – na releitura contemporânea ele aparece mais leve – e o batom é sempre enfático como as sombras. Nos cabelos, o volume imperava e voltou a imperar. Anelados (lembremos dos famosos permanentes) estavam em voga e a regra era sempre aumentar mais.
Para contrastar com tanta maquiagem e cor no rosto, o negro nas roupas encontrou várias manifestações nos anos 80. Sempre em cortes mais geométricos, a cor aparecia especialmente nas rendas e segundas peles. Um ícone deste tipo de indumentária é a cantora Madonna no início de sua carreira.
Esse preto, como se pode notar, não significava sobriedade. Na verdade, ele vinha acompanhado de uma gama imensa – literalmente – de acessórios. Essa é uma tendência das mais relidas na contemporaneidade. Anéis, pulseiras, colares e brincos são imensos e é indicado, na maioria das publicações, que sejam usados juntos para um efeito propositalmente excessivo. A idéia chave é o abuso. As bolsas e sapatos (com saltos altíssimos) também acompanhavam e ainda acompanham o clima, senão grandes, cheios de bordados, pedraria e detalhes chamativos. Este,
inclusive, é um dos elementos que se pode notar em várias roupas: bordados. Paetês, rebites, pedras, correntes, em dourado ou prateado – e junto também – estão tanto nos acessórios quanto nas roupas.
Conforme são explicadas as referências das roupas anos 80, fica claro também que uma atitude particular é associada a elas. A mulher oitentista é segura de si e aparece na maioria das imagens com uma pose que indica poder e sensualidade, mas não necessariamente um ligado ao outro. O que as imagens das revistas da época indicam, e que as contemporâneas se apropriam, é que o mundo pode e deve ser dominado por mulheres, que elas podem tanto quanto os homens, que seus corpos têm curvas, mas são fortes e que o mercado de trabalho é do melhor, independente do gênero. É um corpo que muda à luz da tendência, não só na forma, mas também na atitude.
Neste contexto, escolhemos para análise as edições dos meses outubro, novembro e dezembro do ano de 2009 da Vogue America e Brasil. A escolha desses exemplares se deu pelo fato deste período ser o mais relevante na consolidação da tendência dos anos 80 em um âmbito mundial.
Antes de começar a análise, contudo, é necessário esclarecer uma peculiaridade da Vogue America: a presença de estrelas de cinema nas capas. Inaugurada pela editora Anna Wintour, esta prática faz parte da proposta de mundo criada pela publicação, já que, especialmente no que diz respeito às atrizes de Hollywood, trata- se de referências femininas que possuem um apelo, senão mundial, muito grande nos países ocidentais. Tal como nos lembra Erner,
as celebridades são melhores profetas que os modelos. Paradoxalmente, as estrelas nos parecem mais próximas que rostos desconhecidos. Temos a impressão de conhecê-las, povoam nosso imaginário e são vinculadas a certos momentos de nossa existência. É por esse motivo que constituem poderosos indicadores em matéria de vestuário. (ERNER, 2005:176)