2. Medier og hverdagsliv
2.3. Mediebruk og samfunnsdeltakelse
A primeira categoria fundamental na visão de Enrique Dussel é a Erótica. Isto porque o homem, fundamento da Ética, tem sua origem a partir da relação erótica:
O primeiro modo de relação da alteridade, do Eu-o Outro, do “face- a-face”, é a do homem-mulher: relação esponsal que pro-cria e alberga toda outra possível alteridade humana. (ELL I 121).
Na Grécia Antiga, o éros era concebido como um retorno a “o mesmo”. Para os grandes filósofos gregos como Platão e Aristóteles, partindo de uma diferença natural entre os homens, pela qual uns nascem escravos e devem ser escravos, enquanto outros nascem livres e assim devem continuar, também no aspecto erótico a concepção é de que a mulher foi criada para servir ao varão. Aliás, esclarecedor nesse sentido é o mito do Andrógino trazido, por exemplo, no Banquete, de Platão.
De-struindo a concepção de unidade, de mesmidade, ali estampada,
Dussel evidencia porque para Platão a relação entre os iguais, isto é, entre os varões é que era valorizada, enquanto a relação homem-mulher servia apenas para a perpetuação da espécie. É que dentro dessa ontologia totalitária, recorda-nos Enrique Dussel, o éros refere-se a “o mesmo” e, portanto, a
98 relação privilegiada só pode ser a homossexual, relegando a relação heterossexual ao fim tão somente da procriação:
Para Platão e Aristóteles – ontólogos inequívocos da Totalidade – o
éros em seu sentido próprio e pleno é tendência de “o mesmo” para “o
mesmo”. A ontologia da Totalidade valorizará o éros homossexual (éros de “o mesmo” para “o mesmo”) e aceitará o éros heteressexual somente como mediação instrumental para a geração do filho. (ELL I 122).
Quanto a Aristóteles, Dussel assevera que essa ontologia totalitária é ainda “tanto ou mais vigente do que em Platão” (ELL I 122), remetendo ao livro
Política para comprovação de sua afirmação.
Ali fica claro que a relação homem-mulher é de amizade, constituindo-se numa união aristocrática, ao passo que entre os homens existe o Eros. Vale citar as passagens trazidas por Enrique Dussel:
Para Aristóteles, a finalidade da geração do filho é um “deixar atrás de si outro (héteron) que seja o mesmo (autó)”... Essa geração é fruto da unidade do homem e da mulher, entre os quais há um tipo especial de amizade [...] Seja como for, “a comunidade que formam o marido e a mulher é evidentemente de tipo aristocrático”, sendo o homem “o melhor” (áristos) e ao qual corresponde por natureza conduzir a casa. No éros, e na amizade “o mesmo” ama “o mesmo”. (ELL I 123).
Na Idade Média, a concepção totalitária continua em voga, atingindo seu ápice no plano teórico com Tomás de Aquino, ao afirmar que “a mãe só administra a matéria, mas é o pai que dá o ser ao filho”. (FL 86).
Na modernidade, a mulher passou a ser objeto, instrumento de realização do próprio homem. A mulher, nesse período, continuou a ser dominada pelo homem e sempre ocupou posições inferiores, como amante ou
mulher de algum nobre ou burguês. O seu campo de atuação esteve sempre
restrito ao lar, à criação dos filhos dentro da moral machista estabelecida. Devemos ressaltar, conforme explica Dussel, que a dominação já não era, nessa época, em função de uma cosmologia ou divindade, como na Idade Antiga e Idade Média, mas, sim, em razão da subjetividade do homem moderno.
99 É pela própria ontologia da Totalidade (não já cosmológica, mas moderno-subjetual), que a mulher passou a ser objeto do homem e pessoa à sua disposição, instrumento doméstico do varão. (ELL I 123).
Na Modernidade, o ego conquiro, validado pelo ego cogito cartesiano encontrou sua extensão na teoria freudiana do Ich wünsche (Eu desejo). Isso porque, apesar de sermos inegavelmente devedores de Freud no tocante à valorização da vida erótica, o fato é que mesmo a sua interpretação não escapou à visão ontológica totalitária. É que Freud estabeleceu a existência do
Eu desejo considerando-o apenas como característica do varão, relegando à
mulher uma condição inferior, de invejosa do órgão sexual masculino. Freud criou, então, com esse pensamento, o que Maryse Choisy denominou como
falocracia, conforme escreve Dussel, somando-se à interpretação de Jacques
Lacan:
Se for verdade que Freud descobre que além do “eu penso” (descrição redutivamente racionalista do homem) existe um “eu desejo”” (Ich wunsche), não é menos certo que esse “eu” é, primeira e substancialmente de um varão; isto é, o enunciado ontológico fundamental diria “Eu sou corporeidade fálica”, já que “o falo é – para Freud – o significante privilegiado [...] o significante mais saliente daquilo que se pode captar no real da copulação sexual. (ELL III 71).
Muitos se opuseram criticamente ao pensamento discriminatório de Freud. Entretanto, para Dussel, nenhum conseguiu atingir o fundamento ontológico freudiano:
Se for verdade que surgiram novos temas críticos, nem por isso foram superados, na análise efetuada por mulheres, os fundamentos ontológicos do freudismo. O fundamento fica intacto já que se aceitam muitos pressupostos. Isso exige que questionemos mais radicalmente o fundador da psicanálise. (ELL III 75).
Freud, considerando que a satisfação inteira do prazer levaria o homem à morte, interpretou o trabalho como uma forma de o homem economizar prazer e, destarte, retardá-la.
O “princípio da realidade” é uma econômica já que “sem abandonar o fim de uma posterior consecução de prazer, exige e consegue o
100 aprazamento da satisfação e a renúncia a alguma das possibilidades de alcançá-la, e nos força a aceitar pacientemente o desprazer durante o longo rodeio necessário para chegar ao prazer, frUto do trabalho e da civilização”. (ELL III 78).
Assim, estabeleceu dois princípios que impulsionam o homem, o princípio do prazer e o da realidade. Nesse sentido, Freud observa que “sob o influxo da pulsão de conservação do eu é substituído o princípio de prazer pelo
princípio da realidade” (ELL III 78).
Essa dualidade de princípios, no entanto, está fundada numa mesma totalidade, a natureza, que se cinde e dá origem ao homem e à mulher. Então, a vida humana, seguindo-se a teoria freudiana, está voltada para a morte, em busca do retorno ao mesmo. Por isso, também, o prazer é auto-erotismo e não satisfação mútua. “O fim da vida não pode ser um estado nunca alcançado anteriormente, porque estaria em contradição com a natureza, conservadora das pulsões [...] A meta da vida é a morte”. (ELL III 79).
Esse é o nível ontológico do pensamento de Freud. O fundamento é sempre a identidade e, pois, não há dis-tinção, na acepção dusseliana, mas apenas di-ferença, como escreve:
Em conclusão: Freud enuncia implicitamente um fundamento ontológico de sua interpretação psicanalítica, isto é, a Totalidade como “natureza” opera pulsionalmente segundo um duplo princípio. O dualismo ôntico é a única solução da qual pode lançar mão o monismo ontológico. A “lógica da Totalidade” volta a cumprir-se em Freud. Se o fundamento é a Identidade indiferenciada, os entes são diferença ou determinação. (ELL III 81).
Pode-se compreender, então, que, por um lado, o pensamento freudiano foi fundamental para o resgate do valor da vida concreta, em especial, da vida erótica. Todavia, não superou a ontologia clássica, o que o levou a prosseguir com a idéia da inferioridade feminina diante do masculino e a não determinar condições para uma relação de justiça entre os dois.
Fica delineada, portanto, a impossibilidade de se dar uma relação ética de justiça entre o homem e a mulher em nossa sociedade atual, porquanto o
101 homem esteve sempre, ora por um motivo, ora por outro, em situação de predomínio sobre a mulher.
Em face da situação real de flagrante injustiça na relação erótica, Enrique Dussel, fazendo uso de seu método analético, propõe, então, a reestruturação da Erótica, estabelecendo como fundamento maior o amor-de-
justiça, com o objetivo de se alcançar a Justiça.