1. Innledning
1.1 En endret mediehverdag
Heidegger exerceu influências marcantes na filosofia dusseliana e a superação do pensamento heideggeriano, somente se deu após o contato com a filosofia de Lévinas. Encontra-se, ainda assim, uma grande proximidade entre Dussel e Heidegger no tocante à conceituação de homem. Contudo, há uma distinção radical que deve ser destacada. Para isso, é imperioso que sejam mostrados preliminarmente alguns aspectos fundamentais do pensamento de Martin Heidegger para, em seguida, demonstrar a superação encetada por Enrique Dussel.
3.4.1 – O SER
Para Heidegger, a filosofia perdeu-se ao longo dos séculos em questões que não pertencem propriamente ao seu fundamento. É preciso resgatar as teorias dos filósofos pré-socráticos, os filósofos da natureza, vez que eles foram os primeiros e mais profundos perquiridores do Ser, objeto fundamental da filosofia. Nesse sentido, temos:
No que se refere à posição grega a respeito da compreensão do ser, não só veio-se formando o dogma de uma pretensa essencialidade
74 do problema do sentido do ser como também foi sancionado o seu esquecimento. O conceito de ser é o mais universal e vazio de todos e, como tal, contrário a qualquer tentativa de definição; enquanto universal e, portanto, indefinível, nem chega a ter necessidade de definição. Todos o usam continuamente e compreendem o que ele significa. (Heidegger, Ser e Tempo).
Consoante o entendimento de Heidegger, impende Ter-se em mente a compreensão do que é Ser. Essa compreensão, que parece fácil, de fato, tem trazido muitas discussões acadêmicas, pois a forma peculiar com que Heidegger aborda o problema quase não permite uma conceituação fechada. Para ele, Ser é “presença-ausência”, é “des-velamento e velamento”, é “essência”, é “quididade”. Seu des-velamento ocorre no que podemos traduzir como “clareira”, “luz”.
Para explicar o Ser, Heidegger retoma, fundamentalmente a teoria de Parmênides: “O Ser é uno”. “O mesmo é pensar e ser”.
Para Heidegger, Ser é “estamento”, isto é, é aquilo que está, que é, que
existe. Daí, a preocupação da metafísica deve ser com o “estar no mundo”, e,
mais precisamente, com o “estar do homem-no-mundo”.
Está aí, portanto, o problema ontológico proposto por Heidegger. A maneira de o homem se encontrar no centro da procura é inteiramente ditada pela pergunta: “Que é Ser?”
Para tratar a questão, é preciso fazer a distinção entre ente e Ser. O ente recobre todos os objetos, todas as pessoas, todas as coisas, enfim. O Ser, mesmo sendo o que faz com que todos sejam, não se identifica com nenhum objeto particular, nem com a idéia geral de todos. Curiosamente, não se pode afirmar que o Ser “é”, pois se assim fosse, seria um ente e não é o caso.
Mas nós chamamos “ente” a muitas coisas e em sentidos diferentes. Ente é tudo aquilo de que falamos, tudo aquilo a que, de um ou de outro modo, nós nos referimos; é também o que nós somos e como o somos (...) Qual é o ente do qual poderemos extrair o sentido de ser? Qual é o ente no qual deve ter início a abertura do ser? O ponto de partida é indiferente ou existe um ente que pode reivindicar a primazia? (Heidegger, Ser e Tempo).
75 Na filosofia tradicional, como lembra Lévinas, é comum a ligação, a conexão entre Ser do ente e o próprio ente, o que leva, geralmente, a ter-se o
Ser como Deus, ou como Ser absoluto. Para Heidegger, não é assim. O Ser é
o objeto da ontologia, enquanto o ente é o das ciências ônticas.
A grande questão, então, para Heidegger, é compreender o Ser, e, para isso, é preciso alguém que tenha essa capacidade. Em seu entendimento, o homem é o único ente capaz de compreender o Ser.
3.4.2 – O HOMEM
O homem, segundo Heidegger, é o ente a quem cabe “des-velar” o Ser, que se pergunta acerca do sentido de Ser “e esse ente, que nós mesmos já somos sempre e tem, entre as outras possibilidades de ser, de buscar, nós o indicamos com o termo Ser-aí (Dasein)” (Heidegger, Ser e Tempo).
É importante ressaltar que o homem não apenas existe, ele co-existe, razão pela qual toda ação pressupõe uma convivência. Nesse sentido cabe ressalvar, está a ética como fundamento prático de sua metafísica, pois o ser-
aí-no-mundo é responsável por si e pelos demais entes no mundo, vale dizer,
pelo próprio mundo.
Mas, se o homem é quem questiona o sentido de ser, também é aquele que não se deixa reduzir à objetivação do Ser. Todos os objetos são redutíveis, mas o homem não. Ele não é simples-presença. Ele é o fim para que todo o mundo existe.
O homem é o “pastor” do Ser, como dizia Heidegger. Para compreender o Ser, então, é necessário compreender o homem.
Este ente se caracteriza pelo fato de que, através do seu ser, o próprio ser lhe está aberto. A compreensão do ser é, ao mesmo tempo, uma determinação do ser do homem. (Heidegger, Ser e Tempo).
E, para isso, é fundamental colocar-se em suspensão todo o conhecimento que já se tem a seu respeito dado pelas demais ciências. É preciso realizar a époché de todas essas informações, como ensina Husserl.
76 A compreensão do homem deve partir, portanto, de sua manifestação tal qual ele é. Compreender o homem é compreender a sua maneira de ser-aí, o seu modo existencial.
A primeira constatação é que o homem é ser-no-mundo.
Esse ser-no-mundo é um constante transformar-se em algo novo. E esse algo novo é o futuro. O homem, conclui-se, secundado por Heidegger, é o único ente que existe, que se pro-jeta no futuro, vez que sua existência presente está sempre em função do futuro, do que ainda não é. Essa existência é sua essência.
Como se depreende do exposto, o homem existe no tempo. E esse é o terceiro aspecto existencial do homem. Ele é o único que é passado, presente e futuro. “A temporalidade torna possível a unidade de existência, ser de fato e ser decaído, e por isso, ela constitui originariamente a totalidade das estruturas do homem” (Heidegger, Ser e Tempo). Essa categoria temporal corresponde, no campo do conhecimento, ao sentir, entender e discorrer.
Enfim, no tocante à existência humana, Heidegger entende que a vida inautêntica é aquela ligada ao ser-no-mundo, isto é, aquela limitada à relações materiais, servindo-se do mundo e pensando mundo em função apenas dessa relação.
A vida autêntica, ao contrário, é aquela voltada para a existência, ou seja, voltada para os projetos existenciais. E aí também está a morte, o quarto aspecto existencial, é a última possibilidade e ao mesmo tempo a mais presente.