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1.2 Primary Research Question and Theoretical framework

1.2.2 Media construct

Enquanto no primeiro prólogo da gramática quechua o interlocutor privilegiado é o monarca espanhol, no segundo prólogo a interlocução recai, basicamente, sobre os demais missionários relacionados ao trabalho catequético. O ideário constitutivo do primeiro prólogo permanece e organiza, como um pano de fundo, a enunciação que se desdobrará no segundo.

Concluídas as manipulações a Felipe II, sistematizadas as principais intencionalidades enunciativas presentes no primeiro prólogo, o enunciador sente-se à vontade para falar, agora, a seus pares:

Y porque, como se há tocado, este arte se haze para ecclesiásticos que tienen noticia de la lengua latina va conforme a la arte della (SANTO TOMÁS, [1560] 1995, p. 10).

Como a Arte gramatical, ora apresentada, faz-se para eclesiásticos, que conhecem a língua latina, Santo Tomás anuncia que desenvolverá seu trabalho seguindo os referenciais metodológicos da tradição gramatical clássica. Está o dominicano, portanto, ciente dos leitores potenciais de seu texto e a eles se dirige, nesse segundo prólogo.

É interessante observar a mudança de tom nessa segunda enunciação. O acento sedutor e cerimonioso do primeiro momento abre espaço para um tom muito mais informal. O enunciador prepara seus interlocutores para os possíveis enganos e imperfeições que possam encontrar em sua gramática:

BIEN entiendo christiano lector, quán sobre mis fuerças es el negocio y obra que al presente tomo sobre ellas, en querer redduzir la lengua general de los reynos del Peru a arte, queriéndola encerrar debaixo de preceptos y cánones porque una de las cosas más difficultosas que en esta vida humana se halla es el componer y ordenar arte de hablar perfecta y congruamente alguna lengua, aunque sea muy entendida y usada (SANTO TOMÁS, [1560] 1995, p. 13).

Reconhecendo a dificuldade de “redduzir la lengua general”, a língua quechua, à “arte”, ou seja, admitindo os diversos obstáculos que se colocam para aqueles que se dedicam a elaborar uma gramática de uma língua qualquer, ainda que “muy entendida y usada”, Santo Tomás encontra, nesse segundo prólogo, outros adjetivos para qualificar seu objeto de estudo: “esta lengua del Perú, tan estraña, tan nueva, tan incógnita, y tan pergrina a nosotros” (SANTO TOMÁS, [1560] 1995, p. 14).

A escolha lexical operada pelo enunciador, no segundo prólogo, em referência à língua quechua, é bastante diversa. A interlocução, dirigida basicamente aos pares de Santo Tomás, e a necessidade de defesa prévia em relação a qualquer censura futura, levam o enunciador a adotar, nesse momento, descrições menos positivas da língua ameríndia: ela é qualificada, agora, como “estranha”, “nova”, “incógnita” e “peregrina”.

Observemos que os valores eufóricos conferidos ao objeto língua, no primeiro prólogo, são, aqui, atenuados. Anteriormente, o enunciador valoriza a língua quechua como prova cabal da racionalidade do homem americano. Descreve-a como similar à latina e à espanhola. Vê, nela, um indício certo da humanidade e do valor moral do povo quechua. Neste segundo momento, entretanto, o enunciador, em diálogo com os demais missionários interessados no trabalho catequético que utiliza as línguas gerais do Peru, expõe a dificuldade da descrição gramatical e desculpa-se, com antecedência, pelos possíveis erros observados. De um modo geral, podemos dizer que essa segunda enunciação enunciada cumpre com as funções habituais do gênero aí instituído: explicitar, no mais das vezes, métodos e objetivos procedimentais utilizados, tendo em vista o uso concreto da Arte na alfabetização e conversão dos nativos.

O ethos um tanto beligerante do primeiro prólogo, que anuncia o fim do mundo e a perda de milhares de almas, caso o enunciatário não cumpra com as instruções do enunciador-manipulador, reveste-se, no segundo prólogo, de um ethos de natureza mais expositiva. Santo Tomás, nesse segundo momento, narra, a seus irmãos de religião, as dificuldades encontradas no trabalho lingüístico empreendido e chega a refletir sobre a natureza do objeto descrito:

[...] que como lo principal de las lenguas consista en la imposición de los términos de los que primero los impusieron a significar, y de la acceptación, aprovación y uso de los que después delos vinieron y cobraron reputación de sábios en ello (SANTO TOMÁS, [1560] 1995, p. 13).

Deixando emergir o contexto discursivo do século XVI, em que as Artes gramaticais eram orientadas pelo uso, pela tradição, pela “acceptación, aprovación” dos primeiros falantes das línguas, o enunciador, nesse fragmento, expõe, também, sua compreensão sobre a função social dos códigos lingüísticos. No contexto histórico em que se insere esse discurso, não podemos determinar oposição entre ciência e arte, como

veremos acontecer mais à frente, com os desdobramentos da Modernidade. As técnicas, de um modo geral, dentre elas as técnicas ou Artes gramaticais, eram orientadas segundo o padrão normativo tradicional utilizado pelos falantes eruditos de uma determinada língua.

Assim como se observa no primeiro prólogo, a heterogeneidade mostrada, explicitada pelo enunciador ao referir-se ao “christiano lector”, nesse segundo caso, deixa transparecer, igualmente, o contexto histórico do século XVI e o ideário cristão que anima as tarefas missionárias. A interdiscursividade, também aqui, nessa outra enunciação enunciada, a exemplo do primeiro prólogo, constitui uma das bases da construção do sentido manipulada pelo enunciador. Reportando-se, no primeiro prólogo, a Felipe II e, no segundo, aos missionários envolvidos nos trabalhos catequéticos, o enunciador dialoga com os atores e com o contexto histórico de seu tempo.

Assim, mais que a simples defesa do índio peruano e de suas capacidades lingüísticas, a intencionalidade enunciativa presente nesses prólogos remete, principalmente, à defesa de um modelo de colonização para a América espanhola que descarte o sitema de encomiendas e a escravização indígena e aproxime os interesses reais à lógica de Roma, imprimindo, à conquista espanhola, um caráter nitidamente cristão.

As contradições, entretanto, permeiam o ideário dominicano. Sabe-se, por exemplo, que a escravidão de negros africanos era um fato aceito e mesmo sugerido por muitos religiosos da ordem, como solução para o problema da mão-de-obra escassa, diante da impossibilidade da escravização indígena (BARNADAS, 1998, p. 536). Estamos diante de uma idealização da figura do indígena que atravessa o Romantismo e chega até os nossos dias, certamente transmutada, transfigurada. Não deixa de ser

significativo, por outro lado, que, contemporaneamente, figuras como Las Casas e Santo Tomás sejam lembradas como ícones da defesa dos direitos indígenas no contexto americano.

De fato, sem a pretensão de esgotar ou solucionar problemas históricos complexos que dividem especialistas até hoje, é preciso reconhecer que, da pena de Santo Tomás, desenha-se e desdobra-se toda a situação conflituosa da pós-conquista peruana. A interdiscursividade, o dialogismo que marca de ponta a ponta os prólogos aqui analisados, atestam essa leitura.