3.1 Traditional Church Service (TCS) Setup
3.1.2 Findings
Cerrón-Palomino (2003, p. 85) aponta os textos do 3CL como fonte importante para a reorganização da política lingüística do período colonial. A Doctrina christiana y
catecismo para instruccion de los indios (a partir de agora, Doctrina), primeiro livro
impresso no Peru e na América do Sul, por Antonio Ricardo, em 1584, fruto dos trabalhos do 3CL, registra importantes dados da variação dialetal relativos à diferenciação fonológica, gramatical e léxica no interior do quechua do século XVI. A citação é longa, mas significativa; faz parte das “Annotaciones” aos textos conciliares originais:
La imperfecciõ o barbariedad, q ay en los q hablã corruptamẽte la lẽgua Quichua, no esta tãto en la cõnexiõ de las dicciones, quãto en la variedad de los vocablos, q son differẽtes de los q se vsan en el Cuzco, y algo toscos, tomados de sus idiomas particulares, o del vso q comunmẽte rescebierõ todos los q se llamã Chinchaysuyos. Como son, Tamyan por parã, llueue, Pachiã por tocyã rebiẽ ta (sic), Chiquiac por comer, verde, Pistani por lluchuni desollar reses [...] O accẽtuando contra el vso del Cuzco en las vltimas, o antepenultimas, como quiere que lo ordinario sea en la penultima, o hablando con un sonsonete de rusticos y agenos de policia. Item está en algunas frases, y modos que son toscos, como en la transición de segunda, y tercera persona a primera dizen ma por hua, como Ricumanqui por ricuhuanqui. Villamã por villahuan. Cumay por cohay, y tambien que no guardan a vezes la perfecta construccion de las partes de la oracion, antes cometen algunos solecismos. Itẽ en muchas prouincias, y aun en las que se habla con perfection se vsan de participios pasivos
por verbos activos, como Micuscacani por Micarcani. Y tambien de sinalephas, o sincopas, como Micuscani, por micuscacani. Micurcay, micurqayqui, por micurcani micurcanqui [...] (DOCTRINA christiana y catecismo para instruccion de los indios, apud CERRÓN- PALOMINO, 2003, p. 86)
Doctrina, pelas afirmações de Cerrón-Palomino (2003, p. 85), foi elaborada
por uma equipe seleta de religiosos da Companhia de Jesus, coordenados por Acosta, a quem coube a redação do texto castelhano. A revisão dos textos em quechua ficou sob o encargo do também jesuíta Blas Valera (1545-1597).
No excerto que se segue, como vimos acontecer com o anterior, mantém-se a mesma apreciação negativa para as variações observadas, agora na seção sobre “Accentos, pronunciacion, y orthographia”:
Item se aduierte que los que hablã corruptamente esta lengua mudan la ca, qui, en ga, gui, como Inga, ringui, por ynca, rinqui: la r en l, como chilin por chirin haze frio. La t, en r, o en l, como capti, capri, vel capli: La j en l[l], como llallini, yallini o la ç, en h, como coha por coça, la ll en l. (sic) como lacta por llacta (DOCTRINA christiana y catecismo para instruccion de los indios, apud CERRÓN- PALOMINO, 2003, p. 87)
Os substantivos, adjetivos e advérbios que estão associados à descrição das variantes mencionadas são esclarecedores: “imperfecciõ”, “barbariedad”, “corruptamẽte”, “toscos”. Descritas como vícios de linguagem, pelo uso de metatermos gramaticais como “solecismos”, “sinalephas” ou “sincopas”, as formas variantes são tidas como imperfeitas, bárbaras e grosseiras. No fragmento “hablando con un sonsonete de rusticos y agenos de policia”, encontramos uma posição oposta àquela assumida por Santo Tomás: aqui, os sons do quechua são classificados como “agenos de policia”, enquanto o sevilhano afirma ser a língua ameríndia plena de “gran policía” (SANTO TOMÁS, [1560] 1995, p. 8).
De maneira similar, nas Preliminares de Predicación del Evangelio en las
Indias, Acosta (1999), ao contrário do que relatamos no contexto dominicano, não se
furta a descrever o nativo americano como bárbaro. Apresentando, ao leitor, os livros e os temas desenvolvidos na obra, o jesuíta afirma o seguinte:
Queriendo, pues, confiar a las letras esta mi opinión, he repartido toda la materia en seis libros que declaran el modo completo y universal de ayudar al bien espiritual de los indios. El Libro I explica de modo común y general la esperanza que hay de la salvación de los indios, las dificultades de ella y cómo hay que superarlas, y cuán grande sea el fruto del trabajo apostólico. Luego en el Libro II se trata de la entrada del evangelio a los bárbaros, [...] y del oficio del predicador evangélico (ACOSTA, 1999, Preliminares. O grifo é nosso).
O caráter rústico e bárbaro da língua quechua é corroborado, ainda, pela demonização do indígena peruano. Segundo Mello e Souza (1992), Acosta “ilustra magistralmente a tendência em demonizar as práticas religiosas do Novo Mundo” (MELLO E SOUZA, 1992, pp. 93-94), o que pode ser demostrado por vários títulos de sua Historia natural y moral de las Indias (a partir de agora, Historia), publicada em Sevilha, no ano de 1590. Dentre esses títulos, poderíamos citar os seguintes, todos pertencentes ao livro quinto de Historia: Que la causa de la idolatría ha sido la
soberbia y invidia del demônio (capítulo 1); De los monasterios de religiosos que tiene el demonio para su superstición (capítulo 16); De las penitencias y asperezas que han usado los indios por persuasión del demonio (capítulo 17); De los sacrificios que al demonio hacían los indios, y de qué cosas (capítulo 18); Cómo el demonio ha procurado remedar los sacramentos de la santa Iglesia (capítulo 23); De algunas fiestas que usaron los del Cuzco, y cómo el demonio quiso también imitar el misterio de la Santísima Trinidad (capítulo 28).
Para Mello e Souza (1992), a idéia de idolatria variou bastante entre os etno- demonólogos da América:
Diferentemente de um Las Casas, para quem ela (a idolatria) acabava preparando o ameríndio à recepção da fé católica, Acosta achava que, apesar de aptos a receberem a fé, os índios se entregavam a idolatrias demoníacas: era assim o demônio, e não a torre de Babel, que explicava a diversidade das divindades e dos cultos. „Expulsos pela chegada do Cristo, o demônio se refugiou nas Índias, delas fazendo um de seus bastiões. A idolatria não é, pois, apenas uma forma errônea de religião natural. Ela não é natural, mas diabólica‟. Subscreve, desta forma, a definição bíblica segundo a qual a idolatria é o começo e o fim de todos os males (MELLO E SOUZA, 1992, p. 94. O grifo é nosso).
Opondo o ideário dominicano ao jesuítico, Mello e Souza (1992) chama nossa atenção, no fragmento acima, para as diferentes concepções de idolatria que nortearam o trabalho missionário no Novo Mundo. Do ponto de vista dominicano, a idolatria era “natural”, fruto da dispersão, da diversificação vivida em conseqüência à Torre de Babel. Por outro lado, do ponto de vista jesuítico, a idolatria era prática “não natural”, danosa, e deveria, por isso mesmo, ser extirpada com rigor, uma vez que se configurava como resultado da ação diabólica típica em terras americanas.
Assim, concebendo o ameríndio como um ser propenso à influência demoníaca, Acosta, em seus trabalhos do 3CL, fará, da excomunhão, da penitência e das penas pecuniárias, pontos centrais do novo modelo missionário a ser seguido nas Américas. Observemos como isso se concretiza no prohemio e na provision real, textos introdutórios à segunda gramática produzida sobre o quechua no século XVI.
4.4 O prohemio, a provision real e o prólogo da gramática anônima de 1586 como