7.6 Satisfiability
7.6.1 Mechanisms and Rules
Qualquer trabalho de pesquisa deve ser estruturado e concretizado a partir de um planeamento adequado ao tema em estudo, tendo como objectivo a produção e aquisição de conhecimento científico. Quando falamos de conhecimento científico, referimo-nos a um tipo de conhecimento que se encontra relacionado com um processo de investigação e que se obtém mediante a utilização de métodos e procedimentos científicos, cuidadosamente utilizados para dar respostas fiáveis às questões apresentadas. O conhecimento científico tem, pois, uma referência empírica, procurando alcançar a verdade dos factos e/ou objectos a partir de pesquisas metódicas e sistemáticas da realidade. O investigador classifica, compara, aplica métodos, analisa, sintetiza e extrai do contexto social, ou do universo em estudo, princípios e leis que estruturam um conhecimento válido e universal.
As características do conhecimento científico foram já identificadas e analisadas por autores como Bayés (1974), Arnau (1978) e Kerlinger (1985); segundo estes autores, o conhecimento científico é um conhecimento de tipo (1) factual, (2) contrastável, (3) racional, (4) metódico, (5) sistemático, (6) analítico, (7) comunicável e (8) objectivo. Além disso, devemos ter em conta que toda a investigação, quer seja científica ou não, começa com a identificação e tratamento de algum problema, o que nos permite inferir que nem todos os problemas são
75
problemas científicos. Só são científicos aqueles problemas que podem enquadrar-se numa perspectiva científica, com meios e instrumentos científicos e com o objectivo primordial de acrescentar conhecimento ao conhecimento já existente (Bunge, 1986, p. 167).
A investigação é uma prática social específica que procura a produção de conhecimento científico:
“Investigar significa dar respuestas a problemas del conocimiento. Implica o requiere actitudes y capacidades básicas de: descubrimiento, asombro, observación, pensar reflexivo, relacionar teoria y empiria, toma de distancia, sensibilidad social, artesanía intelectual, etc.” (Sirvent, 2006).
No campo educativo, tal como no do resto das ciências, a investigação surge como uma actividade precisa e elementar. Por este motivo, Arnal, Rincón e Latorre (1992) afirmam que a investigação educativa surgiu como disciplina que trata as questões e problemas relativos à natureza, epistemologia, metodologia, fins e objectivos, com a finalidade de procurar, progressiva e sistematicamente, conhecimento no âmbito educativo.
O conceito de investigação educativa foi-se modificando à medida que surgiram novos enfoques para o tratamento dos fenómenos educativos, um processo marcado por conflitos e debates paradigmáticos, que integram correntes de cariz mais positivista e outras de teor mais aberto e pluralista.
Tradicionalmente, a investigação em educação seguiu os fundamentos e os preceitos inscritos no paradigma positivista. Nesta perspectiva, a investigação no âmbito educativo tinha como finalidade desocultar as leis que regem os factos educativos para poder formular teorias que orientassem e controlassem a prática educativa; todo esse processo, mediante a utilização de instrumentos e técnicas quantitativas de investigação. No entanto, apesar de este paradigma facilitar a utilização de critérios de rigor científico e metodológico no âmbito educativo, a verdade é que se tem revelado demasiado reducionista, já que, em nome do dito rigor, sacrifica o estudo de outras dimensões importantíssimas do fenómeno educativo, como sejam a realidade sociocultural, política, ideológica, etc.
Um outro paradigma de investigação é o denominado paradigma interpretativo, de teor construtivista e pretende compreender o significado das acções humanas e da vida em sociedade. Para isso, utilizam técnicas de investigação de carácter mais qualitativo. Os partidários desta linha de investigação tentam compreender e conhecer a realidade educativa como uma praxis, o que requer “unir teoria e prática; implicar o educador mediante a auto- reflexão e dirigir o conhecimento por forma a emancipar o Homem (Popkewitz, 1988).
76
A investigação educativa apresenta algumas particularidades que se relacionam justamente com a especificidade dos fenómenos que estuda. Segundo Arnal, Rincón e Latorre (1992), podemos estabelecer as seguintes características:
- Os fenómenos educativos apresentam uma dificuldade epistemológica maior já que os mesmos interaccionam uma diversidade de variáveis que não permitem um estudo preciso e exacto como o realizado no domínio das ciências naturais;
- A diversidade de paradigmas existentes e a variedade de metodologias que se utilizam no estudo desses fenómenos;
- O carácter pluridisciplinar dos fenómenos educativos leva a que o seu estudo se sirva dos contributos de diferentes disciplinas, como a Psicologia, a Sociologia e a Pedagogia; - A variação dos fenómenos educativos no tempo e no espaço não facilita o processo de
generalização e o estabelecimento de regularidades;
- O investigador faz parte do objecto de estudo que investiga; isso faz com que não possa manter-se neutral e alheio à problemática educativa que investiga.
Como conclusão, podemos afirmar que a investigação educativa apresenta uma série de características particulares nem sempre fáceis de conjugar. A multiplicidade dos objectivos e fins que pretende, a singularidade dos fenómenos que estuda e a pluralidade dos métodos que emprega são dimensões que lhe conferem uma especificidade muito própria. A realidade educativa é dinâmica, interactiva e complexa, está moldada por aspectos éticos, morais, políticos e sociais que se prestam mais a análises humanístico-interpretativas, sem que isso implique o abandono de técnicas e instrumentos de carácter mais quantitativo ou a minimização do rigor científico que deve presidir a qualquer processo de investigação.
São notórios os obstáculos metodológicos com que choca a investigação educativa, mas, como afirma Pacheco (1995, p. 20), a investigação qualitativa “não pode substituir-se unilateralmente à investigação quantitativa. Embora ambas tenham críticas pertinentes e argumentos válidos, uma não pode pôr em questão a outra já que seguem processos de investigação diferentes”.
De facto, a investigação quantitativa facilita o conhecimento das grandes tendências da realidade social considerada objectivamente. A investigação qualitativa complementa aquela, uma vez que pretende compreender e captar o pensamento dos actores, as suas motivações, problemas e interpretações.
77
5.3. Caracterização do contexto de desenvolvimento do estudo