2 Review of state of the art
2.3 Measuring information security awareness
De acordo com o antropólogo francês Marcel Mauss, magia e religião dependem da crença e são socialmente compartilhadas, originando-se daí a eficácia do mago e a do sacerdote. A religião não teria se originado da magia, mas as duas seriam fenômenos paralelos. Muitas das vezes os rituais mágicos se efetivam por um processo de imitação invertida da religião, pois a magia é “oficialmente” marginal. No seu âmbito clandestino, tudo é viável da maneira que bem entender esta atmosfera que se sabe proibida e censurada a priori. É o que Mauss exemplifica, comparando, ao relacionar magia, morte e mulher na vida social. A mulher na religião e na sociedade em geral é, tradicionalmente, subestimada, situando-se em lugar secundário e inferior. Na magia, mesmo que coisa semelhante ocorra, a posição da figura da mulher é de maior destaque. Na idéia de morte também; morte é o oposto de vida, é o que mais envolve mistério e dúvidas, por ser uma condição diferente da dos vivos, que todos conhecem. Isso pelo fato de os mortos formarem um mundo à parte, de onde o mágico retira seus poderes.
Tanto as mulheres quanto os mortos, portanto, teriam na magia uma posição diversa da real ou do mundo profano. Com esses exemplos Mauss demonstra que “o valor mágico das coisas resulta da posição relativa que elas ocupam na sociedade ou em relação a esta. [...] Em magia, trata-se sempre, no fundo, de valores respectivos reconhecidos pela sociedade” (MAUSS, 2003, p. 154). O valor dado à magia é social, não individual, pois sua noção só emerge do respectivo tecido social. Assim como a religião, a magia faz referência a juízos de valor e a sentimentos provenientes da sociedade. Mana e magia são categorias do pensamento coletivo, que funda juízos de valor e classifica os vários
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elementos da vida, hierarquizando-os. Magia é o resultado das forças coletivas e o mana, noção definida mais adiante, é a sua manifestação. Por serem juízos mágicos, sintéticos a priori, não dependem da experiência sensível. O juízo mágico advém da afirmação coletiva que produz fenômenos de psicologia coletiva, o efeito da magia é esperado e constatado por todo o grupo. A relação de causa e efeito só se realiza de acordo com a opinião coletiva.
Porém, mesmo Mauss diferencia o universo religioso do mágico ao retratar o receio ou o leve desconforto que acompanham o indivíduo, no Ocidente, que busca meios mágicos para a solução de seus problemas existenciais ou materiais, num movimento de atração e repúdio ditados pela postura que a religião exige. A magia estaria relacionada com proibições e censura social, com desejos ainda não realizados, sejam eles de qualquer natureza.
No mundo moderno ocidental, entretanto, o fenômeno da magia e suas práticas, pouco a pouco, tornaram-se individuais e não mais sociais. As práticas mágicas “foram sancionadas pela religião, absorvidas por ela, ou então se decompuseram, um pouco ao acaso, em práticas populares individualmente efetuadas, cuja origem não mais aparece” (MAUSS, 2003, p. 165).
No trajeto da história do Ocidente, a magia foi se distanciando cada vez mais da religião, limitando-se a subsistir como fenômeno individual, alquebrando- se o grupo e reduzindo-se a um pequeno número de indivíduos. As necessidades coletivas foram se transformando em necessidades individuais. A magia sobreviveu como fenômeno individual e aproximou-se das ciências e das técnicas. “De coletivo, a magia procura conservar apenas seu caráter tradicional; todo o seu trabalho teórico e prático é obra de indivíduos, ela não é mais explorada senão por indivíduos” (MAUSS, 2003, p. 173).
Quanto à afirmação de Mauss de que a magia seria uma técnica infantil, pois mais antiga que as demais, não há como concordar com ela, pelo fato de ter se constituído no do contexto peculiar em que surgiu, ou seja, anterior ao
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desenvolvimento do conhecimento científico; não sendo possível lançar mão de práticas mais avançadas que as de então. Afirmar que a magia é infantil equivale a considerar a fé um ato infantil; e se assim for, a religião também o é. Assim, Mauss subestima algo que não reside no cenário de idéias baseadas no rigor lógico científico, mas que depende da crença.
Continuando sua análise, ele associa magia à forma primeira de técnica, o que chama de “despojamento do que havia de místico”, ou o avanço técnico, que seria o desencantamento ou racionalização da magia para Weber. Concordo, porém, quando afirma que magia, técnica e ciência são conhecimentos que remetem à noção de que “saber é poder”.
Vista por outra perspectiva, magia é também a forma pejorativa de alguns denominarem a religião do outro. Não raro atributos mágicos são designados a dissidentes de uma dada igreja. Uma heresia pode ser considerada mágica e ilegítima. Em um caso ou em outro, o que se percebe então é uma constante carga negativa e censurável que a acompanha, sendo também considerada falsa religião.
Uma das maiores contribuições de Mauss reside em seu exemplo de pesquisa, ao relacionar Antropologia e Sociologia, visto que ele utiliza dados históricos e etnográficos, relativiza os conceitos de magia e religião, enxergando- os como noções construídas no Ocidente europeu, sendo, portanto, incompletos por não considerarem realidades como as do Oriente, Oceania e Américas. Mauss tomou a precaução de não classificar as noções de religião e magia de acordo com a geografia, o que o levou a não considerar magia como inferior, anterior ou primitiva.
Elemento fundamental para Mauss, na explicação do fenômeno religioso, mais acima referido, diz respeito ao mana, que seria uma espécie de manuseio, com eficácia, do extraordinário. “Graças à noção de mana, a magia, domínio do desejo, impregna-se de racionalismo. Assim, para que a magia exista, é preciso
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que a sociedade esteja presente” (MAUSS, 2003, p. 160), uma vez que é a coletividade que a viabiliza.
Este seria o poder da magia, de natureza material e imaterial ao mesmo tempo, e elemento a priori, pois antecede a experiência. O mana seria uma “categoria inconsciente do entendimento” que possibilita as idéias mágicas; funcionando, neste sentido, como uma categoria abstrata do pensamento humano, mas sendo ao mesmo tempo concreto. Seria mais que uma força e um ser, mas também ação, qualidade e estado, adjetivo, substantivo e verbo. É qualidade de algo que o possui, mas não está imbuído na coisa em si.
Está em uma dimensão que se situa além do que é considerado normal e corriqueiro; é natural e sobrenatural. Fundamenta a magia e se caracteriza, especialmente, pela alteridade ou por estar apartado da vida comum, apesar de emergir em meio a esta e fazer parte do que se conhece como sagrado. O próprio mana é fruto da consciência coletiva, manifestando-se na consciência individual graças à coletividade. Por isso a magia também possui valor coletivo.
O mana seria uma “projeção dos desejos e aspirações mais profundas da sociedade” (MONTERO, 1986, p. 19). É qualidade inerente às coisas que são percebidas e também fundamento da diferenciação da qualidade de cada coisa; segundo Mauss, é basilar que se compreenda o mana para obter a noção do que seja a magia como sistema de conhecimento.
Constitui o mana também parte comum entre religião e magia. Só se pode descrevê-lo, mas nunca analisá-lo de maneira lógica. Um rito só pode ser empreendido por alguém que detenha o mana, o que lhe confere um quê de extraordinário. Mana também não é um espírito, pois nem todos o possuem. “É a força do mágico [...] é a força do rito”, apesar de o próprio rito poder ser o mana (MAUSS, 2003, p. 152).
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O mana, apartado da vida ordinária, é uma força universal que atravessa épocas e culturas, assim como permeia a religião e a magia, tanto quanto a lingüística, caracteriza-se como noção do inconsciente coletivo.
A eficácia pura presente na magia e na religião advém do mana, superpõe- se à realidade e se situa em uma espécie de quarta dimensão. Por isso não se discute a existência da eficácia pura que legitima e justifica a magia motivando a crença coletiva nela, dado a priori da experiência. A eficácia pura “rege as representações mágicas, é a condição delas, sua forma necessária. Funciona à maneira de uma categoria, tornando possíveis as idéias mágicas assim como as categorias tornam possíveis as idéias humanas” (MAUSS, 2003, p. 152).
Por ser categoria inconsciente do entendimento, a eficácia pura não é conferida individualmente, pois só existe no indivíduo por ser proveniente do social, sendo, então, uma categoria do pensamento coletivo. É da mesma natureza da idéia de sagrado que povoa a religião e a magia. A origem do sagrado é encontrada por Mauss justamente nos ritos mágicos, perpetuados pela tradição que a corrobora.
Com isso, os juízos desenvolvidos pela tradição da representação mágica são provenientes da consciência coletiva, são compartilhados; havendo convergência de necessidades e experiências comuns e objetivas, em um consentimento no âmbito tanto do rito quanto da crença. De onde se depreende que, a exemplo de Durkheim, Mauss equipara em complexidade rito e crença, sem hierarquizá-los, tanto que afirma que as “práticas mágicas não são vazias de sentido. Elas correspondem a representações, geralmente muito ricas [(...)] todo rito é uma espécie de linguagem. É que ele traduz uma idéia” (MAUSS, 2003, p. 97).
Magia no Ocidente moderno, portanto, segundo Mauss, já foi social, foi fenômeno coletivo que assumiu formas individuais ou não institucionais e públicas. Acontece que o catolicismo popular, considerado mágico e ritualístico
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no Brasil e em Goiás, remete a uma realidade anterior à da Modernidade. Logo, esta qualidade de individual não se encaixa neste exemplo específico.
E se o trajeto ocidental, em seu desfecho, não se associa à análise do catolicismo popular, e este se caracteriza como um fenômeno descolado do mundo moderno, ele mesmo se constitui como uma cristalização do mundo tradicional. Nele a magia ainda é fenômeno coletivo, apesar de não menos esporádico e extra-oficial. No caso do catolicismo popular, trata-se de um extrato cristalizado preservado da época da colônia, ainda que combatido pelo ultramontanismo.
Não se pode deixar de perceber, porém, que Mauss, assim como Durkheim e Weber, intentou compreender, e teve como ponto de chegada, a compreensão do Ocidente moderno. Por isso sua conclusão sobre magia e religião se realizou, nos limites deste texto, como foi acima descrito.
Mas o ponto em que minha pesquisa se insere, no estudo maussiano, rompe com a ponta geográfica de chegada do autor, pois o fenômeno do catolicismo popular em Goiás e sua relação com o ultramontanismo não se encaixam na descrição de sociedade moderna nem na de magia como fenômeno individual. A sociedade em questão é agrária, distante dos grandes centros urbanos, econômicos e culturais do país, iletrada, dispunha do catolicismo leigo e tradicional para se auto-representar e se inseria em um determinado contexto envolvente, o do Brasil Império. Logo, com características de ex-região mineratória de ex-colônia portuguesa do catolicismo do padroado, de economia escravista e mercantilista, e étnica e culturalmente mestiça, o que favoreceu o hibridismo religioso, socialmente hierárquica e analfabeta. O que configurou as práticas do catolicismo do padroado.
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2.5. A Trajetória da Magia e do Ritual no Ocidente de acordo com a