É interessante observar nos dados de entrevista que os professores participaram de forma bastante diferenciada em eventos, como os congressos científicos; desde uma participação mais tímida, como a do Professor “C” e da Professora “D””, a uma participação efetiva, como a do Professor “F ”, que diz ter participado de cerca de vinte e sete congressos, muitas vezes durante o período de estudante, quando foi membro do Centro Acadêmico de Geografia-CAG.
O intuito, nesta análise, é verificar a correlação entre as diversas práticas dos professores, observando até que ponto a participação ativa em congressos pode influir em uma prática pedagógica diferenciada, já que o envolvimento nessas atividades pode sugerir que o professor busca atualização, pesquisa seu cotidiano escolar, trabalha em grupo e divulga sua produção, e, ainda, que está atento ao que acontece em sua área.
No que se refere à participação em congressos, os professores disseram que não apresentavam trabalhos; o objetivo era bem mais participar na condição de ouvinte; os de maior idade atribuem a isso falta de orientação por parte de seus professores. Para eles, constitui uma situação que contrasta com a atual, já que os estudantes, atualmente, recebem
melhor orientação nesse sentido, haja vista maior envolvimento em atividades de pesquisa, embora esse não seja o caso dos professores pesquisados que concluíram o curso mais recentemente. Sob este aspecto, consideramos que há realmente sentido no argumento dos professores, posto que, nos dias atuais, há maior informação e conscientização dos estudantes em relação à produção e à divulgação científica, avançando mais na direção da pesquisa e extensão. Contudo, atuam aí outras variáveis intervenientes, que mudam o rumo das coisas; conforme vimos anteriormente, os professores provindos de classe baixa geralmente começam a trabalhar cedo, inclusive durante o curso, diminuindo o tempo dedicado a outras atividades, que não as aulas.
Profissionalmente, os professores responderam que têm participado de eventos promovidos pela SEMEC, principalmente cursos; estes têm um caráter mais prático do que teórico, dando-se ênfase à questão pedagógica, e não especificamente à Geografia. São cursos de aprimoramento e atualização conforme relata a Professora “A”, uma das professoras mais participativas desses eventos:
Esses encontros estão buscando essa questão, tentando aprimorar aquilo que você já faz em sala de aula. Por exemplo, na Jornada da Educação se vêem vários temas, é claro que é teoria, mas faz você pensar naquilo que está fazendo em sala de aula, é uma questão de reflexão, você trazer aquilo que é atual, buscar aquela formação e tentar pôr em prática em sala de aula.
Os cursos procuram, assim, suprir necessidades imediatas dos professores em sala de aula, mas nem sempre todos participam, alegando a falta de tempo em relação a isso.
Os dados sugerem que a participação em congressos científicos regionais, mesmo para aqueles professores que mais o fizeram, não extrapolou a condição de ouvinte. Apesar disso, acreditamos que o simples fato de participar de congressos pode induzir os professores, em maior ou menor grau, a terem mais desenvoltura, conhecendo pessoas, dialogando com colegas de outras regiões e de outras escolas, refletindo sobre sua prática, na medida em que se defrontam com outras experiências. Entra aí uma questão atitudinal importante: a iniciativa de acesso a novos horizontes, a outras possibilidades.
Percebemos um envolvimento distinto dos professores em relação a encontros realizados pela SEMEC, enquanto para alguns caracterizavam apenas mais uma atividade, consumindo seu escasso tempo, para outros, embora reconhecendo isso, procuravam tirar o máximo da oportunidade, assumindo, inclusive, a dianteira nos trabalhos quando encontravam abertura. Tornavam o encontro uma oportunidade válida para discutir os fazeres cotidianos, cotejando experiências. Esse foi o caso da Professora “A”:
Bem, basicamente os PCNs eram para justamente fazer um documento, nesse documento se refletiam alguns temas [...] necessários até para a formação do aluno, por exemplo, as geografias se reuniam dia de quinta-feira, onde todos os professores de geografia de 5a a 8a série se reuniam no Eurípedes de Aguiar; tinha uma formadora, no caso era eu; eu teria que preparar os encontros, os encontros eram bem dinâmicos, e nesses encontros se teria pauta, produção da pauta, leitura compartilhada, sempre dando anuência a questão da realidade do aluno, procurar trabalhar temas ou inserir nos conteúdos de geografia temas que pudessem ajudar; até porque é uma queixa geral de que os alunos não participam, apáticos, e a conclusão foi que os temas estavam desinteressando. Então havia a necessidade de se pegar esses conteúdos e trabalhar de forma dinâmica dentro da realidade do aluno, trazendo temas como, por exemplo, a sexualidade, como trabalhar o meio ambiente dentro da geografia, a questão da sexualidade, a questão do trabalho, alguns temas da própria juventude mesmo.
A esse respeito, reconhecemos na prática dessa Professora a tomada de iniciativas nos eventos, evitando assim a participação passiva apenas por que alguém ou a SEMEC decidiram convidá-los a se envolver em um determinado trabalho. Nesses casos, ela assumia uma posição de protagonismo, chegando a participar da coordenação dos trabalhos, como no caso da elaboração da proposta curricular de Geografia da SEMEC, feita pelos próprios professores em que participou ativamente na elaboração do trabalho. Com tal iniciativa, a SEMEC procurou amainar o caráter exterior das propostas de ensino de Geografia, possibilitando a participação do corpo docente. Todavia, pelo que inferimos dos depoimentos, o material utilizado era, basicamente, os PCNs e o livro didático, restringindo a discussão um pouco mais aprofundada das questões atinentes ao ensino da Geografia nas escolas, terminando por dar ao curso um aspecto de capacitação.
A participação nesses encontros não ocorreu sem resistências, como no caso da Professora “B”, que se reporta ao projeto com os PCNs com uma concepção crítica da utilização desse material.
Olha, teoricamente foi como as outras coisas, me deram o material para me avaliar, exceto uma outra coisa que exclui no material. A idéia é boa de trabalhar o cotidiano, o dia-a-dia, a idéia para ver as coisas atuais, de preparar para a vida, de tudo isso [...]. Teoricamente os PCNs eu diria que são aceitáveis, diria que tem parte do princípio bacana; o problema é posteriormente na prática, porque dão a teoria, mas não dão condição de trabalhar a prática. Quando você vai trabalhar essa questão do dia-a-dia é com material que a gente não expõe ou com a quantidade de aluno que dispõe por sala, ou com o pensamento de passar por passar, a estrutura física da escola, com a falta de preparação dos novos professores e da instituição como um todo, como nós vamos trabalhar isso? Então cospem a teoria na nossa cara e não dão condições, e muitas vezes a gente sente que não é preparado para isso, é todo um processo.
Notamos aqui mais uma vez a preocupação dessa professora com a dicotomia entre determinantes oficiais e a prática docente. Realmente, se cursos, como o dos PCNs, continuarem a limitar-se a transmitir elementos teóricos forjados por especialistas afastados
da escola essa dicotomia tenderá a permanecer. O discurso da professora deixou transparecer a necessidade de os professores participarem mais das decisões, o que não será resolvido com cursos de capacitação ou treinamento. Para incorporar isso a sua prática é preciso incentivar a relação dialética entre teoria e prática; conforme seu relato, com certo teor intuitivo; “é um processo”, em que a prática deve ser aproveitada pela teoria e esta pela prática. Acrescente-se que o professor tem que se dispor a encarar a teoria sem se acomodar repetidamente no pólo da prática, negando a teoria por negar, fazendo isso sem argumentos plausíveis.
Assim, exploramos nas entrevistas se os professores participavam regularmente de eventos, se eles tomavam iniciativa quanto a isso, se era algo casual, ou se havia por parte deles uma atenção especial em relação a essas participações; enfim, se participação ativa em eventos era incorporada à sua prática docente. Compreendemos que agindo dessa forma diminuiriam as chances de uma ação desinteressada, até porque alguns dos projetos desenvolvidos pela SEMEC exigiam deles participação obrigatória.