De acordo com os relatos, verificamos que o ponto de vista dos professores sobre a Televisão pode ser dividido basicamente em três categorias: a que assume de imediato uma postura crítica sobre a televisão; outra que procura aproveitar alguns exemplos do conteúdo televisivo nas aulas, às vezes, com certa passividade; e a última que usa a Televisão como um recurso de ensino, valendo-se de programas voltados para o ensino e de filmes.
Do lado da crítica, os professores questionaram o conteúdo de alguns programas e filmes, principalmente aqueles que exploram a violência e o sexo, considerando que eles terminam banalizando esses temas, tornando a abordagem pouco educativa.
O olhar crítico também se dirigiu ao caráter alienante que pode ter a televisão, visto que ela veicula com bastante intensidade um conteúdo de cultura de massa, tendo a publicidade um papel de destaque, forjando gostos e consumos, que beneficiam grandes empresas. Por esse viés, os professores afirmaram que procuram mostrar aos alunos o que está subjacente a tudo isso; revelando os beneficiados com a criação dos padrões de consumo, a intencionalidade na produção de sentidos, o caráter ilusório de alguns programas. A Professora “B” reportou-se a isso, segundo se pode comprovar em seu depoimento:
Gosto de usar exemplos deles do cotidiano, o que eles acham bonito; eles acham bonitas as pessoas A ou B, ou você ter isso ou você ter aquilo fisicamente; quem criou esse padrão para se comparar futuramente com outras culturas, padrão de beleza é outro; de onde surgiu esse padrão de que as pessoas têm que ser magras, e como mudou isso, as atrizes são magras; a questão do preconceito, a gente vê muito essa questão do racismo, que é muito batido, como todo mundo fala isso. Nas novelas as pessoas negras sempre têm um papel secundário, algumas exceções acontecem, mas historicamente é isso que tem acontecido. Então, na verdade, a gente tem uma série de ideologias dos próprios jornais, de como eles passam as informações, às vezes é a mesma notícia em dois jornais diferentes, eles poderiam ver informações que trazem de uma maneira ou de outra. Então que eles percebam que a Televisão passa informações [...] totalmente distorcidas para beneficiar alguém, então tem que pensar bem o que está sendo dito.
Com uma boa dose de ironia um professor disse preferir desenhos animados a novelas e filmes televisivos, por não ter paciência, nem tempo para assistir a essa categoria de programa. Afirmou entreter-se com esportes, por criarem maior expectativa, como também por sua efemeridade; a categoria documentários também foi citada (Globo Repórter, SBT Repórter).
Na segunda categoria de respostas, os professores partiram do pressuposto de que a Televisão pode propiciar elementos para discutir-se em sala de aula, não esboçando nenhuma crítica contundente como ponto de partida. Para eles a Televisão é puro entretenimento. Foram citados vários programas da TV aberta (novelas, fantástico, Faustão etc.). Teceram elogios às peculiaridades de documentários que abordam características dos continentes. Apontaram também os telejornais nacionais, a exemplo do Jornal Nacional e do Jornal da Globo. E, sempre que possível, procuravam relacionar o conteúdo trabalhado em sala de aula com o da Televisão, fossem programas de variedades, fossem novelas: “Eu peguei várias novelas, por exemplo, O Clone, eu sempre trazia a novela Clone para sala de aula quando falava no modo da civilização Islâmica, pegava algumas partes e comentava em sala de aula”.
Diferente da primeira categoria de respostas, há aqui uma visão menos crítica sobre a Televisão, não obstante os professores afirmassem que procuravam tirar proveito daquilo que interessasse para sua abordagem. A programação televisiva, nesse caso, está incorporada à rotina dos professores, sendo uma fonte básica de informação e entretenimento. Daí recolherem, naturalmente, elementos que julgam apropriados a acrescentar às atividades de ensino. A Televisão é, assim, o principal elemento da mídia de massa a influenciar à prática do professor; recurso que ele utiliza quase que inconscientemente em suas aulas, concorrendo bastante para a constituição do habitus relacionado ao ensinar Geografia. O fragmento do relato da Professora “B” exemplifica nossa afirmação.
Falando sobre violência na escola, aí eu tento colocar para eles também relacionar a violência na escola com a da cidade, do bairro, deles com eles mesmos; tento dar uma orientação para que não venha a acontecer ou que diminua; com relação à droga mesmo ou que chame a atenção deles, tipo, Tisuname, os furacões, eles ficam todos querendo saber. E aí eu tento passar para eles, mesmo que naquele dia eu não esteja falando sobre aquilo, coincide. Quando aconteceram aqueles furacões ultimamente nos Estados Unidos, o Catrina, eu estava fazendo um seminário com eles, e tinha um deles que ia falar sobre furacões, e aí coincidiu que foi no mesmo período.
Na terceira categorização, eles teceram comentários sobre a utilização de programas educativos. Sobre isso apenas um professor comentou haver explorado essa modalidade de programa, mas no passado e em outra escola, tanto no ensino noturno como regular. Entretanto, pelo que evidenciamos, a utilização desses programas era muito restrita, mesmo considerando que as escolas dispunham de mecanismos para a gravação de programas televisivos, como o TV Escola (patrocinado pelo MEC), que apresenta em sua programação aulas com diversos temas que interessam à Geografia. O depoimento do Professor “E” ilustra essa questão:
Eu aqui na primeira experiência nessa escola há sete ou oito anos, trabalhava com material do Telecurso, usava tanto no ensino noturno como no ensino regular; eu procurava os temas que fossem relacionados, dava para trabalhar numa boa e sempre que possível eu procurava os filmes para a gente complementar a idéia, abrir idéias, mostrar que o livro não sabe tudo, mostrar que o livro sabe alguma coisa e que o próprio aluno tenha a sua avaliação, porque a gente tinha muito tempo. Eu tinha uma turma com dez aulas por semana, o pessoal era uma maravilha, e toda vez a gente assistia a um filme duas vezes; a gente via o filme, a opinião do aluno sem qualquer interferência, depois eu fazia um comentário, direcionava a nova exibição, na segunda vez pedia um relatório final.
Como podemos notar dos referentes contemporâneos para a constituição do habitus do professor, a Televisão ocupa um lugar predominante, não obstante às críticas quanto ao seu uso exacerbado e acrítico. Nesse sentido, os professores estão sujeitos à “realidade da cultura
de massa, com sua pluralidade de produtos e mensagens, com sua capacidade de circulação, como uma nova matriz cultural” (BOURDIEU apud SETTON, 2002, 69).