PRESENTATION OF FINDINGS
8. The key informant interview findings
8.5 Measures aimed at improving dietary patterns and physical activity levels of adolescents
Antes de abordar o ritual no banho, lembramos, do percurso cronológica do fenómeno de ritual, alguns elementos relevantes da literatura de enfermagem, o significado e uso do termo, a influência do contexto, e rituais em enfermagem.
Do trabalho de revisão sistemática efectuado por Philpin (2002), “Rituals and nursing: A critical commentary”, apuramos que os “rituais que as enfermeiras usam na performance do seu cuidado, vale a pena serem pesquisados pela fonte rica de conhecimento sobre o significado e propósito das acções de enfermagem” (p.144).
Na literatura de enfermagem, uma das referências ao ritual ocorre com Menzies (1960), num estudo britânico, onde identificou oito mecanismos de defesa desenvolvidos na prática de enfermagem. O impacto do estudo foi intenso e outros autores passam a discutir o “ritual” e “rotina”, com os resultados de Menzies.
Da abordagem na literatura de enfermagem sobre “ritual”, emergem orientações que reflectem percepções diferentes, relativamente ao seu uso, significado e objectivo, as quais têm a ver com o conceito usado.
Neste sentido, podemos dizer que o uso do termo é compreendido num sentido mais “depreciativo”, para descrever a “mecanização” de práticas em enfermagem, em que os objectivos se podem diluir e esquecer, exemplificado pelas asserções de Menzies (1960), Schmahl (1964), Walker (1967), Fretwell (1982) e Walsh e Ford (1990)6, usando um conceito mais limitado e simples (Philpin, 2002).
Por outro lado, o ritual, também é visto de forma favorável e até apropriado em contextos específicos, entendido, como não sendo prejudicial ao cuidado do doente (Froggatt, 1997; Holland 1993; Wolf, 1988a). Autores como Chapman (1983)7, Wolf (1988a, 1988b)8 e Holland (1993) usam na enfermagem, uma outra abordagem, a antropológica sobre ritual, incluindo na definição do termo. A etnografia de Wolf (1988a, 1988b), atendendo ao momento, foi um marco importante na medida em que usa uma definição antropológica, ao descrever três rituais terapêuticos de enfermagem: o cuidado pós morte, a administração de medicação e os banhos a doentes (Wolf, 1988a).
Apuramos que os argumentos sobre ritual estão dependentes da natureza da sua definição (Philpin, 2002), plausível de análise crítica (Hart, 1998), ao resgatar-se a ideia de que, além da
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Acção ritual implica levar a cabo uma tarefa, sem pensar nela, de forma lógica, para resolver o problema (Walsh & Ford, 1990).
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Tenta distinguir “acções de enfermagem racionais e não racionais. Para explicar a “acção racional”, recorre aos ideais de acção de Weber (1994): i) acção tradicional, comportamento determinado pelo hábito; ii) acção “Zweekratinal” que é intencional/racional, há relação técnica entre meios e fins; iii) acção”Vertrational”, os meios e acções não são sempre prováveis, há conjunto de crenças e ideias, sistemático; iv) acção afectiva, levada a cabo com domínio de estado emotivo (Chapman, 1983, pp.13-20).
8 “Ritual é uma acção simbólica padronizada que se refere aos objectivos e valores de um grupo social” (Decraner et al.,
mudança cronológica no significado e uso do ritual, o significado também muda ou altera em função do seu contexto (Philpin, 2002).
Na abordagem de ritual, denota-se a falta de consenso no significado do “termo”, no entanto, tende a haver comportamentos repetitivos, falta de efeitos técnicos directos e o uso de símbolos como características definidoras de ritual (Bell, 1992, cit. por Philpin, 2002).
Da literatura de enfermagem, e compreensão de “ritual”, vão sugerindo conotações e até limitações para a produção e divulgação do conhecimento de enfermagem (Kruse, 2003; Philpin, 2002; Tonuma & Winbolt, 2000; Zago & Rossi, 2003). Zago e Rossi (2003) acrescentam mesmo que os rituais embora não prejudiquem o doente, não contribuem para a melhor qualidade no cuidado. E para Parker (2004), o ritual torna vulgar o cuidado, na medida em que é uma forma de fazer, utilizada pelos enfermeiros, para enfrentarem a situação de fragilidade dos doentes, e a do seu trabalho na doença.
De considerar, segundo Helman (1994), que num cenário social, os rituais exprimem e renovam valores básicos dessa sociedade, principalmente no que diz respeito “às relações de homem para homem, de homem para natureza e de homem para o sobrenatural, relações fundamentais para o funcionamento de qualquer grupo humano” (p.225). Exprimem significados simbólicos importantes para as pessoas que “funcionam dentro de uma cultura ou subcultura” (Wolf, 1988a, p.59). Essa expressão é vista com importância, bem como a manutenção de valores, enfatizando a solidariedade social, além de que mantém a ordem social em áreas complexas, de intensa actividade, combinando a prática e o simbólico (Katz, 1981; Wolf, 1988a, 1988b). Defendidos por Biley e Wright (1997) e Reeder (1994), os rituais são considerados históricos e importantes para manter o papel profissional. Sublinham ainda que, embora não sejam baseados em princípios científicos, os rituais englobam conhecimentos do ser humano e os enfermeiros expressam esses conhecimentos pela arte de cuidar. Nas práticas actuais, os rituais estão presentes, e fazem parte do trabalho quotidiano dos enfermeiros, ao lado de cuidados fundamentados (Philpin, 2007).
Em síntese, na abordagem sobre “ritual”, emergem diferenças entre autores na literatura de
enfermagem, sobre a concepção de “ritual”. Da falta de hegemonia na compreensão do conceito, surgem conotações e definições que a enfermagem usa nos seus argumentos (Philpin, 2002). O ritual é visto como desfavoravel mas também, em alguns sectores, é tido como favorável em contextos específicos. Apuramos que são objectivos do ritual: a protecção contra a ansiedade; a manutenção da ordem social, através da integração da estrutura cultural
e social; combinam a prática e o simbólico, favorecendo a realização dos procedimentos; expressa e renova valores no grupo e enfatiza a solidariedade social.
Das concepções sobre “ritual” emergem aspectos que nos transportam até aos modelos conceptuais de enfermagem, às componentes dinâmicas que advogam (centralidade do cuidado na pessoa, na individualização do cuidado e no papel do enfermeiro na prestação de cuidados), e encontramos argumentos a sugerir o nosso olhar sobre as concepções nos modelos actuais, do cuidado de enfermagem desenvolvido no banho. Centramo-nos seguidamente nas concepções, significado, crenças e valores emergentes, em torno do ritual do banho em enfermagem.
2.4.1. O banho: um ritual de enfermagem
Identificadas as perspectivas dominantes sobre ritual na literatura de enfermagem, focalizamos, no quadro de referência, o fenómeno de ritual do banho em enfermagem.
Delomel (2006), refere-se aos cuidados ao corpo como sendo ordenados e ritualizados, baseados em crenças e construções teóricas, comuns a um grupo, em determinado sistema cultural, e numa esfera de saberes explicativos da vida e da morte.
Na análise da literatura de enfermagem, Wolf (1993) descreve o banho como ritual de enfermagem. Para esta autora, “o banho ou higiene do doente representa uma parte do carácter essencial da enfermagem e está enraizada em crenças, arte e ciência. É um caminho para muitas outras actividades e respostas de enfermagem e como tal é uma parte necessária no trabalho profissional das enfermeiras” (p.146).
Já no passado, as enfermeiras, pelas suas responsabilidades com as práticas de higiene e limpeza que concretizavam através do banho, levaram a moral e a ordem técnica ao hospital. Estas práticas tornaram-se num procedimento repetitivo, diário nos hospitais, pois acreditava- se na sua influência sobre a saúde (Reverby, 1987). A ideia é reforçada por Rosenberg (1987), ao referir-se ao ritual do banho como uma parte da enfermagem, por ter ajudado e continuar a ajudar “corpos disciplinados”, a transformar o hospital. Zago e Rossi (2003) acrescentam que os rituais terapêuticos, como os cuidados de higiene, regulam os aspectos sociais da vida quotidiana nos serviços.
Para Wolf (1993), a competência de dar banho aos doentes persiste como uma parte importante do ofício da enfermagem, marca do seu território, a assinalar a sua cultura, pelo
que deve ser exigido nas regras de enfermagem A autora, argumenta ainda que as crenças nas práticas de higiene e o valor do banho, foram essenciais para o desenvolvimento da identidade profissional e da enfermagem (1988b). Além disso, o ritual do banho une os enfermeiros, enquanto grupo social que “sugere enfermagem”, é primordial e lida com necessidades humanas básicas (Rosenberg, 1987).
Nos trabalhos de Wolf (1988a, 1988b), o banho é visto como um ritual terapêutico de enfermagem, através do qual se melhora a condição do doente, e pode simbolizar ordem, solidariedade, pureza e coesão (Douglas, 1970, cit. por Wolf, 1993).
As enfermeiras curam enquanto lavam os doentes e, simbolicamente, purificam os doentes. Para elas, o significado do banho emerge diariamente como uma linguagem, e o discurso, as acções e as palavras utilizadas nos rituais dignificam a enfermagem (Turner, 1977, cit. por Wolf, 1993).
Ainda segundo Wolf (1993), a enfermeira que executa o banho com arte é perita, conhecedora, subtil e hábil, podendo torná-lo criativo. As falhas na limpeza do doente, ou na omissão do banho, violam a norma de enfermagem. A autora, vê o banho como a oportunidade de limpar e inspeccionar a pele e avaliar o estado do doente, e argumenta que as enfermeiras conseguem ouvir, falar e ensinar durante o banho.
Para Mercadier (2004), os cuidados de higiene, “aparentemente tão simples”, que exigem apenas bom senso, para alguns, são um sequencial de procedimentos, passos protocolados e institucionalizados. O cuidado, em si, inclui passos cuja sequência tem que ser cumprida, acompanhados do uso de uma listagem de material específico, além das orientações para a mobilização do doente (vesti-lo, despi-lo, destapá-lo), o tipo de banho, o tipo de ajuda, entre outras (Bolander 1998; Mercadier, 2004). Obedece a um método com propósito e passos pré- determinados, uma intencionalidade objectiva, exigindo aos profissionais preparação científica, tecnológica e ambiental (Santos et al., 2010). A sequência ritualizada dos cuidados, além de controlar as emoções, revela a aprendizagem específica, comum aos enfermeiros, embora com adaptações pessoais, a estrutura mantém-se, permitindo-lhes trabalhar em grupo (Mercadier, 2004). A disciplina implícita determina a sintonia entre os corpos da enfermeira e do doente, aumentando a eficiência e facilitando o controlo. Cada gesto tem uma função e momento certo, qualquer falha no ritual, ou inversão nas acções, chamará a atenção (Kruse, 2003).
O ritual do banho no leito é o componente específico de uma prática que flui num processo/produto de essência social (Santos et al., 2010). Afigura-se uma arte com significado especial para as enfermeiras, e a sua evolução envolve refinamento gradual de habilidades e requisitos (Wolf, 1993).
Em síntese, as referências ao ritual no banho reflectem as perspectivas polarizadas. É tido por
alguns como uma execução repetitiva, obsessiva e precisa de actos, sem sentido, e vazia de significado simbólico, outros, falam da continuidade, ligação, significado e coerência do grupo, oferecidos pelo banho. Em defesa deste ritual, o banho é descrito como um ritual terapêutico de enfermagem, por melhorar a condição do doente. O cenário de cuidados no banho ao doente, focus de concepções, significado, tradição, crenças e valores, reproduzem o modelo de prestação de cuidados subjacente. Explorar a percepção do doente sobre os cuidados percebidos e perspectivados é um contributo à percepção do seu lugar no cuidado.