4. Vasihuvvon baikki analyseren - saggon govat muitalit
4.1 Lihkohis Ovnnesduottar
4.1.2 Mattuid goahtegiettis
48 Apresento, nesta seção, o conceito de agência a partir das discussões de Engeström (2013), Edwards (2005) e Giddens (1986). Engeström (2013), em entrevista a Lemos, Pereira‐Queirol e Almeida, aponta que o sentido de agência vem sendo entendido como qualquer ação do ser humano, uma vez que toda ação é considerada ativa, o que leva a uma banalização do conceito. Para definir agência como conceito teórico, Engeström se apoia em Giddens (1986) e em seus trabalhos sobre “estrutura versus agência”. Com base nas discussões de Giddens, salienta que os homens criaram estruturas, instituições, regras e, para se integrar a elas e construir seu próprio caminho em situações sócio‐histórico‐culturais em atividades coletivas, necessitam organizar suas ações por meio de uma agência “transformativa”, o que significa agir de forma intencional, crítica e criativa, na transformação de si e de outros, bem como dos contextos de ação e da sociedade. Assim, segundo Engeström (2013:724),
a agência tem de ser vista em relação às estruturas, que, de alguma forma, controlam a nossa vida, agindo ativamente com aquelas estruturas. Em nosso trabalho, realmente queremos ir mais a fundo e gostamos de falar sobre a agência transformativa: Agência na qual os seres humanos estão ganhando a capacidade em suas atividades coletivas.[...] acrescentamos a palavra transformativa para indicar que não queremos apenas um sentido banal, qualquer coisa que o ser humano faça, mas particularmente os potenciais dos seres humanos de se tornarem fazedores de história. Ou transformadores de suas próprias atividades.
Voltada à formação de professores, Edwards (2005:172), discute o conceito de “agência
relacional” entendida como “a capacidade de oferecer e pedir suporte a outros“. Para a autora, é
necessário que seja encorajada a independência dos sujeitos em agir intencionalmente com o outro para buscar e oferecer ajuda. Para isso, é preciso compreender as necessidades das pessoas no trabalho conjunto, mudar a ação individual para a ação com o outro. É com esse foco que o trabalho em conjunto, segundo Edwards (2005) favorece o desenvolvimento afetivo‐cognitivo.
A agência relacional envolve, como apontam os autores citados, um agir intencional dos agentes em contextos de ação, de modo a se organizar pela colaboração crítica, foco central nesta pesquisa. Edwards (2005), a partir da compreensão de que agência relacional é a capacidade de trabalhar com os outros para expandir o objeto em construção, de forma colaborativo‐crítica, reconhecendo e tendo acesso a recursos que outros trazem, salienta que essa capacidade pode ser aprendida e desenvolvida na relação prática‐teoria. Nesta pesquisa, compreender a produção coletiva do objeto peça de teatro em um sistema de atividades em cadeia pressupõe analisar os movimentos de colaboração e contradição entre os participantes. É nesse contexto que todos vão se posicionar a partir do diálogo com o outro, de modo a produzir o objeto em foco – a peça de teatro. Só assim é possível concretizar a expansão do
49 objeto, entendida nesta pesquisa como decorrência dos processos percorridos para a construção, avaliação e reconstrução de uma peça de teatro.
Nessa perspectiva, Edwards (2005:174)16 argumenta:
Quando o objeto é expandido por meio de trazer à tona posicionamentos diferentes, o objeto expandido, isto é, uma compreensão enriquecida do espaço do problema funciona como suporte aos praticantes e estes por sua vez podem tornar‐se enriquecidos com as interpretações dos outros.
Com esse mesmo olhar, é possível destacar que o conceito de agência explanado por Engeström e também por Edwards se aproxima do conceito de autonomia defendido por Freire (1996/2013:105), qual seja:
a autonomia, enquanto amadurecimento do ser para si, é processo, é vir a ser. Não ocorre em data marcada. É nesse sentido que uma pedagogia da autonomia tem de estar centrada em experiências estimuladoras da decisão e da responsabilidade, vale dizer, em experiências respeitosas da liberdade.
O que se percebe nas discussões de Freire é que conquistar a autonomia implica em libertação das estruturas opressoras e, para isso, é preciso desenvolver a capacidade de dialogar, de realizar, o que exige um sujeito reflexivo, criativo e ativo.
Em Freire (1996/2000:11) a proposta de autonomia está “fundada na ética, no respeito à
dignidade e à própria autonomia do educando”. O autor defende que a autonomia deve ser
conquistada, construída a partir de decisões, das vivências que o sujeito tem com o meio em que vive. Nesse sentido é possível visualizar os contextos escolares como espaços que devem proporcionar situações formativas em que as relações sejam propícias para que os discentes possam se constituir autônomos, sujeitos ativos, sujeitos transformadores de si e do outro. Pensar agência relacional, agência transformativa, agência como autonomia, como um agir intencional envolve a concepção de pesquisa crítica e as discussões de Vygotsky sobre as relações dialéticas no contexto educacional, explicitado no conceito de ZPD. À luz de Pennycook (2006:81) e Newman (1996:36), Magalhães (2011:15) adverte que o processo de pesquisa crítica [...] enfatiza um modo questionador de pensar e agir, quanto a criar lócus para que os participantes organizem a linguagem de modo intencional e reflexivo para olhar, compreender criticamente a analisar os sentidos de suas ações, bem como por que e como agir, de forma a propiciar desenvolvimento de ação‐discurso para criação intencional do novo em lugar de transmissão reiterativa, para possibilitar a todos os participantes, modos de “agir além de nós mesmos, emocionalmente, intelectualmente, artisticamente ou de qualquer outra maneira”.
16 Tradução minha. No original: “When the object is expanded through bringing to bear these different mindsets, the expanded object, i.e. an enriched understanding of the problem apace, works back on the mindsets of the practitioners and these may in turn be enriched by the interpretations of the others”.
50
Ao discutir o conceito de colaboração crítica e argumentação colaborativa, respectivamente, Magalhães (2011) e Liberali (2013) expandem a possibilidade de pensarmos agência com um olhar crítico, questionador de modos de pensar e agir em contextos escolares que possam criar o novo e possibilitar um “salto qualitativo” na formação de sujeitos. A argumentação colaborativa foca o diálogo e permite a expansão dos objetos. Nas palavras de Liberali (2013:13), nessa epistemologia,
múltiplos pontos de vista trabalham a favor de uma compreensão compartilhada. Ouve‐se para compreender sentidos e encontrar pontos em comum. Alarga e transforma a visão dos participantes, cria atitudes de mente aberta para rever pontos de vista e transformá‐ los, busca pontos fortes em todas as posições, pressupõe que muitas pessoas têm partes de respostas e que juntas podem chegar a soluções.
Todas as abordagens acima elencadas, acredito, contribuem para a compreensão da relação constituída entre os participantes na construção, avaliação e reconstrução de peças de teatro, na medida em que proporcionam a compreensão dos tipos de agência decorrentes das relações estabelecidas durante a elaboração coletiva e colaborativo‐crítica da peça de teatro.
CAPÍTULO 2: ORGANIZANDO O PALCO
Inicio este capítulo com o embasamento teórico‐metodológico correspondente às escolhas adotadas; em seguida, apresento o contexto da pesquisa, a organização do projeto de teatro como atividade em cadeia, os procedimentos para a produção e seleção dos dados, assim como as categorias de análise e de interpretação, a confirmação de credibilidade da pesquisa, visando a responder: 1. Como o sistema de atividades em cadeia possibilita o desenvolvimento de agência? a. Que tipos de colaboração foram constituídos nos encontros? b. Que tipos de agência foram decorrentes? 2.1 Escolha Metodológica
Esta pesquisa está inserida no paradigma crítico de pesquisa e na Pesquisa Crítica de Colaboração – PCCol. Inicialmente, apresento discussões referentes ao paradigma crítico, na visão de Bredo e Feinberg (1982); em seguida, o posicionamento desta pesquisa em relação à concepção
51 de Linguística Aplicada segundo Pennycook (2006) e, por fim, discussões referentes à Pesquisa Crítica de Colaboração com base em Magalhães (2007, 2009, 2010, 2011).