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A implantação do protestantismo no Ceará não apresenta singularidades de grandes proporções. As singularidades, se é que existem, dizem respeito apenas as singularidades políticas, sociais e religiosas próprias de cada “espaço cultural” e que no “campo religioso” é bastante homogêneo. Segundo Agileu Gadelha (2005, p. 69), “no Ceará, a implantação do Protestantismo seguiu os métodos já consagrados em outros Estados e regiões do País”. Ela ocorreu num período de transição entre o Brasil Império (onde o Estado se confundia com a Igreja e legislava liberdade condicionada aos acatólicos) e o Brasil República (onde o Estado divorcia-se da Igreja e legisla plena liberdade as demais religiões). Diante desse fato, pretende-se analisar como a divulgação protestante ocorreu e que estratégias foram usadas na implantação do protestantismo no Ceará.

O conceito “estratégia”, conforme usado por Michel de Certeau (1994, p. 46), é definida como “o cálculo das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que o sujeito de querer e poder é isolável do momento de um ambiente”. A estratégia encontra-se escondida “sob cálculos objetivos a sua relação com o poder que os sustenta, guardado pelo lugar próprio ou pela instituição” (CERTEAU, 1994, p. 47). Os objetivos alcançados através da estratégia são: possibilidade de capitalizar vantagens conquistadas, preparar expansões futuras obtendo independências em relação às circunstâncias, prática panóptica (transformação das forças estranhas em objetos que se podem observar, medir e controlar), e o “poder do saber” que sustenta e determina o poder de conquistar para si um lugar próprio (CERTEAU, 1994, p. 100). É alcançando esses objetivos que as estratégias aplicadas na implantação do protestantismo conseguem consolidar sua presença no Estado do Ceará.

A estratégia usada para divulgação do protestantismo no Ceará é expressa desde o envio do reverendo Simonton pela Junta de Missão. A Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos da América, em sua reunião em maio de 1859, aprovou, como parte do Relatório da Junta de Missões Estrangeiras, o envio do reverendo Asbhel Green Simonton. Nele era afirmado que a missão tinha um caráter experimental sendo os seus primeiros objetivos: “explorar o território, verificar os meios de atingir com sucesso a mente

dos naturais da terra, e testar até que ponto a legislação favorável à tolerância religiosa será mantida.” O relatório conclui: “Se o resultado dessas investigações for positivo – e temos plenas razões para supor que sim – a missão poderá depois ser ampliada em termos que as circunstâncias justifiquem” (RIBEIRO, 1981, p. 18). Isto somente vem confirmar, como mostra Michel de Certeau (1994, p. 102), que “as estratégias apontam para a resistência que o estabelecimento de um lugar (grifo do autor) oferece ao gasto do tempo.” Em outras palavras, as estratégias estabelecem a ocupação teórica modelar de espaços físicos e sociais; ao passo que as táticas resistem às estratégicas e a elas se atravessam.

Os objetivos acima transcritos tornaram-se a estratégia aplicada pelo protestantismo presbiteriano em sua implantação no Brasil. Mesmo depois de um conhecimento prévio do território brasileiro, a exploração do território ganha status de estratégia de implantação. Quando, em 20 de junho de 1875, o missionário John Rockwell Smith visitou Fortaleza, ele estava executando a metodologia protestante de implantação. Fato é que, percebendo que o Ceará era propício ao empreendimento, ao retornar a Recife encaminha um “especialista” para tal tarefa, o colportor João Mendes Pereira Guerra.

A tentativa inicial é criar o “campo religioso”, que segundo a abordagem de Bourdieu, constitui um espaço estruturado e, ao mesmo tempo, estruturante, responsável pela distribuição de bens religiosos. A divulgação não visa apenas a transmissão de conceitos religiosos, mas a produção e reprodução de um determinado habitus. Bourdieu desenvolveu o conceito de habitus para designar a ponte mediadora da relação indivíduo-sociedade, capaz de produzir comportamentos e visões de mundo duráveis e apropriados a uma determinada organização social. Ele chama de habitus os:

...sistemas de disposições adquiridas pela aprendizagem implícitas ou explícita, que funciona como um sistema de esquemas geradores de estratégias que podem ser objetivamente afins aos interesses objetivos de seus autores sem terem sido expressamente concebidos para esse fim. Há toda uma reeducação a ser feita para escapar à alternativa entre o finalismo ingênuo... e a explicação de tipo mecanicista (BOURDIEU, 1984, p. 94). O habitus religioso é concebido por Bourdieu (1982, p. 12) como o:

...princípio gerador de todos os pensamentos, percepções e ações, segundo as normas de uma representação religiosa do mundo natural e sobrenatural, ou seja, objetivamente ajustado aos princípios de uma visão política do mundo social.

O habitus religioso é encontrado quando se identifica o tipo de agente que ele pretende formar. Weber (1994, p. 239-340) foi quem primeiro procurou tipificar os agentes religiosos nas figuras do sacerdote e do profeta. O sacerdote é o especialista religioso que monopoliza a produção religiosa. Ele sobrevive do fortalecimento da instituição que investiu

na sua formação. Como troca administra e protege a riqueza simbólica e o poder implícito da organização. O “profeta” é o agente religioso que pelo “carisma” contesta o monopólio do capital religioso sob a tutela dos sacerdotes.

A produção e reprodução do habitus religioso acontece através de “ação pedagógica”. Esse termo, cunhado por Bourdieu, assume no presente trabalho, o sentido de processo educativo realizado por um sistema de agentes explicitados convocados por uma instituição para essa finalidade. Isto implica numa “violência simbólica”, ou seja, um processo de imposição de um arbitrário cultural e ainda num trabalho de inculcação durável o suficiente para engendrar um determinado habitus (BOURDIEU; PASSERON, 1982, p. 20- 21, 45). Vê-se que esse sistema acontece na busca de implantação, divulgação e consolidação do presbiterianismo no Ceará (que outra coisa não foi senão a criação de um habitus em busca do campo religioso pela ação pedagógica).

A primeira fase da divulgação presbiteriana no Ceará aconteceu através de colportores que tinham por objetivo tornar conhecida as Escrituras através da venda ou doação de Bíblias, bem como de panfletos e folhetos evangelísticos.43 Os colportores adentraram o Ceará, em suas partes mais longínqua, e prepararam o território para a implantação do presbiterianismo. Não se deve esquecer que a colportagem já fazia parte da implantação. Ela era realizada por leigos enquanto a implantação em sua efetivação era mais dada ao especialista (missionário/pastor). A eficácia deste empreendimento é vista no trabalho de Valentino e Antão que venderam e distribuíram dois mil Evangelhos, sem contar os milhares de folhetos evangélicos.44 Também no fato de que o primeiro converso em terras cearenses, o jornalista José Damião de Souza Melo, ser fruto do trabalho do colportor João Mendes Pereira Guerra, enviado pelo reverendo Dr. John Rockwell Smith à Fortaleza.

Imbuídos da estratégia do reconhecimento do território os missionários usaram a linha férrea e adentraram o Ceará.45 A Rede de Viação Cearense (R.V.C.) tornava-se o meio mais rápido e eficaz ao adentramento no interior do presbiterianismo.46 Os braços da R.V.C. tornaram-se os braços do presbiterianismo ou artérias que levavam para o interior a “nova fé”. Parecia que ao lado de cada estação estava destinada a ter uma Igreja. Exemplo disso é a

43 Os colportores eram pessoas que vendiam bíblias e distribuíam folhetos com temas bíblicos. Sua principal

missão era tornar conhecida a Bíblia. Eles foram essenciais para a posterior implantação ou visita de um missionário.

44 Informações fornecidas por Frederick Charles Glass, missionário que participava nesta fase pioneira da

história do protestantismo no Ceará (GADELHA, 2005, p. 69).

45 Vê-se a importância da estrada de ferro para a propaganda protestante no fato de logo após sua criação, em

1879, a Estrada de Ferro Fortaleza-Baturité foi usada resultando, daí, a Igreja Presbiteriana em Baturité. Outras cidades também foram assistidas pela linha férrea.

presença do presbiterianismo em Baturité, Quixadá, Acopiara, Cedro e Iguatu.47 Bem como o maior disseminador do presbiterianismo, o reverendo Natanael Cortez, foi trabalhador na construção das estações de cargas e passageiros da R.V.C. em companhia de seu primo João Varela que o encaminhou ao presbiterianismo. João Valera usava os acampamentos de operários ao longo da ferrovia como oportunidade para propagação da “nova fé”, tendo como aliado a sua influência no meio dos operários. Vários trabalhadores da R.V.C., com seus familiares, tornaram-se presbiterianos devido ao respeito e conhecimento da pessoa de João Valera e de Natanael Cortez.

O reconhecimento do território estava além do mapeamento do espaço-geográfico. Eles ficavam a par dos problemas sócio-econômicos e religioso presente na região visitada (espaço social). Em muitos casos, até interferiam através de ajuda humanitária ou construção de melhorias. Os missionários consideravam que toda melhoria de vida contribuía para elevar a consciência do povo. Essa conscientização geraria, segundo criam, uma aceitação da mensagem protestante, tendo em vista que ela estava vinculada com o progresso e a modernização. Era inaceitável o analfabetismo, o atraso cultural e a privação do saber. Na ideologia protestante o saber conduz ao progresso e o progresso é uma abertura à aceitação da religião, da razão, do trabalho e do protestantismo. Weber (2001, p. 41), porém, pondera:

...o espírito de intenso trabalho, de progresso, ou como se queira chamá-lo e cujo despertar se esteja propenso a atribuir ao Protestantismo, não deve ser entendido, como é a tendência, como uma alegria de viver ou por qualquer sentido ligado ao Iluminismo. O velho Protestantismo de Lutero, Calvino, Knox e Voet tinha bem pouco a ver com o que é hoje chamado de progresso. Contudo, ressalta-se que esse empenho em promover mudança social não é parte fundante da ética social protestante dos missionários. Sua ética, como lembra Rubem Alves (1979, p. 239), era: “Transforma-se a sociedade pela conversão das almas” ou “converta-se o indivíduo e a sociedade se transformará.” Em sua metodologia de trabalho, a ação social foi aplicada e usada como meio de alcançar “a alma” (consciência) dos ouvintes na medida em que a alfabetização acontecia e à medida que as dificuldades eram sanadas.

Ao tratar da questão do reconhecimento do território como método de implantação do presbiterianismo, não se pode deixar de considerar o cuidado que os missionários tiveram de “recrutar adeptos das famílias tradicionais das áreas onde atuaram”, como indica Agileu Gadelha (2005, p. 70). Vê-se esse fato em Baturité com a família Rodrigues Martins, em Quixadá com a família Varella, e em Irapuan Pinheiro com a família Nogueira. É, justamente,

da família Nogueira que se tem a criação do Cemitério Protestante do Vencedor.48 Essa estratégia servia como garantia para fixação e permanência da Igreja através de famílias respeitadas e consideradas socialmente, o que amenizava a resistência ao protestantismo.

A segunda estratégia era verificar os meios de atingir com sucesso a mente dos naturais da terra. Boanerges Ribeiro (1981, p. 101) esclarece:

A mente de todos os brasileiros não estava aberta à palavra escrita, pois eram analfabetos; mas os alfabetizados é que formavam opinião, nas catastróficas mudanças da sociedade imperial desde a Guerra do Lopes, e a eles se diria a

Imprensa.

Desta forma, aumenta a importância da criação de jornais e da alfabetização do povo para a divulgação do protestantismo. Essa é uma concepção fortemente protestante. Não se fala em atingir as emoções, mas o entendimento. Cedo eles descobriram que os meios mais eficazes eram através da criação de escolas e de jornais.

O reverendo Simonton lançou o primeiro jornal evangélico do país intitulado Imprensa Evangélica em 05 de novembro de 1864. O reverendo Emanuel Vanorden fundou, em 1874, o jornal Púlpito Evangélico. O jornal Imprensa Evangélica, segundo Boanerges Ribeiro (1981, p. 101), servia “de contato entre os presbiterianos e as elites nacionais. Denuncia maus tratos e perseguições e é ouvida. Fere-se a luta nacional pela liberdade religiosa: seu apoio é procurado, e dado.” A ênfase na leitura foi um apelo de impacto social muito grande que o presbiterianismo legou à cultura brasileira. Ribeiro (1981, p. 108) conclui: “O presbiterianismo introduzia nos usos e costumes até das mais rústicas famílias do sertão o hábito de ler”. Ele fez isto através do jornal, dos livros de orientação religiosa e das livrarias que começam a serem implantadas. Mas, principalmente, pela leitura da Bíblia. Santos (2003, p. 63) diz que: “Se a leitura torna-se um objeto para a história, ainda se deve escrever sobre a história da leitura da Bíblia no Brasil”. Quanto a escola, o Colégio Mackenzie (hoje Universidade Presbiteriana Mackenzie), em São Paulo, tinha 500 alunos em 1895 (AZEVEDO, 1980, p. 104).

Fazia parte da orientação do pastor presbiteriano aos pais, quando do batismo de seus filhos, lembrá-lo do seu dever de ensiná-los a ler a Bíblia ou mandar-lhes a um centro de instrução para que introduzidos à leitura possam ler a Bíblia (MANUAL LITÚRGICO, 1992, p. 90). Quando o reverendo Simonton propôs ao Presbitério, em 1867, os meios para implantar o Evangelho no Brasil, enfatizou o estabelecimento de escolas para os filhos dos membros da Igreja. Ao analisar as dificuldades para a implantação de tais escolas o mesmo é firme na sua proposta: “Mas é necessário não cedermos a nenhum obstáculo” (apud

RIBEIRO, 1981, p. 184). Daí, surge a metodologia da “escola-ao-lado-da-igreja” onde quer que formasse um núcleo de convertido. O presbiterianismo necessitava de leitores. Ele era uma sociedade que lidava com a leitura em seus atos litúrgicos e experiência religiosa, e cria que a mudança de mentalidade aconteceria através da leitura. Boanerges Ribeiro (1981, p. 184) comenta: “Entre os valores a realizar na nova sociedade, talvez nenhum obtivesse maior ênfase que o da instrução, pois a leitura da Bíblia é indispensável à fé Reformada.”

Esse ideário era uma estratégia que oferecia um sistema educacional a um segmento que buscava fugir do escolasticismo jesuítico de orientação católica. Antônio G. de Mendonça (1990, p. 74) ressalta que: “O sistema educacional que os missionários norte- americanos trouxeram obteve grande êxito junto à elite brasileira”. É claro que a elite não estava interessada na religião protestante, mas na educação oferecida, pois grande parte de seu currículo era liberal. Como não se podia separar o protestantismo da educação, apesar de não se converterem ao protestantismo, ajudou na sua aceitação e permanência. Uma pergunta se faz necessária: Por que a elite não se interessou pela religião protestante? Talvez porque o protestantismo não se apresentava tão inovador e vanguardista quanto a sua educação.

Ainda sobre a educação como estratégia de implantação do Protestantismo, destaca-se a observação de Antônio G. de Mendonça (1990, p. 74) sobre a escassa adesão ao protestantismo através do ensino. Segundo ele, isto aconteceu devido ao caráter cético da elite brasileira do final do século XIX, formadas a partir do secularismo desencadeado pela Revolução Francesa como nos mostra Heller e Ferrér (1998, p. 17). Como consequência, a educação ficou dirigida à elite e a evangelização à massa pobre. Mendonça (1990, p. 74) pondera: “Isso aconteceu não por estratégia missionária, mas por força da estrutura e ideologia da sociedade brasileira do século XIX”. A estratégia era atingir a classe dirigente por ser ela capaz de mudar a configuração social do país. Diante de sua impermeabilidade religiosa, o enfoque foi dirigido para a massa pobre como meio de dar-lhe condição de ascensão à classe média e um impacto sócio-religioso.

Vivia-se o que Michel de Certeau (1994, p. 261) chama de “mito da educação”. Desde o século XVIII, cria-se que o livro (a leitura) fosse capaz de reformar a sociedade e que a popularização da escola fosse capaz de transformar os hábitos e costumes, a começar pela elite em sua interação com seus produtos. O público seria moldado pelo escrito. Ele tornaria semelhante ao que é recebido e deixava-se imprimir pelo texto e como o texto era-lhe imposto. É por esse motivo que a educação liberal, como pensada, era técnica e normativa. A educação humanista era aquela que formava um padrão para o indivíduo ser no mundo. Dava- lhe todo o suporte para se tornar um produtor de bens e mantenedor da ordem que se queria

impor. Michel de Certeau (1995, p. 135) observa também que:

Desde o século XVI, o corpo docente sempre teve necessidade dessa dupla referência: uma, a uma ideologia que mantenha no ensino a possibilidade de uma missão, de um evangelismo; a outra, a uma força, pois o docente não tem outro poder senão aquele que diz respeito à organização de uma sociedade.

Os professores, a maioria missionários, viam sua função docente como vocação missionária/evangelística (principalmente as mulheres, tendo em vista a não prática da ordenação feminina) e com ideário de formação da sociedade (que no discurso protestante era aquele conforme os padrões do Reino de Deus já inseridos na sociedade americana).

Também não se pode deixar de ressaltar que a escola era, no dizer de Michel de Certeau (1995, p. 137), desde a Revolução Francesa, “a arma de uma centralização política”. Nela a democracia encontrou abrigo e qualquer espaço transformava-se em ícone do poder cultural. Assim, a escola era vista como uma instituição de respeitabilidade e credibilidade devido a sua função sócio-cultural. Esperava-se que da escola surgisse a revolução modernizadora. Dentro da geometria cria-se que era forjado o homem do futuro. O protestantismo valeu-se de todo esse imaginário em relação à escola.

No Ceará, tentou-se criar escolas, mas o que prevaleceu foi um intenso combate literário através dos meios de comunicação da época. A criação de escolas, como estratégia de propaganda presbiteriana, não encontrou progresso devido a fatores econômicos, culturais e resistência que culminavam em perseguição. A missionária e professora Miss Carrie Cuningham tinha por objetivo abrir uma escola, mas faleceu vitima de varíola antes de realizar o intento. É lamentável a perda de Cuningham, pois a história mostra que vários colégios foram fundados através da ação missionária. O reverendo Natanael descreve o esforço de colocarem em funcionamento três escolas para combater o analfabetismo no meio religioso. Essas escolas proporcionavam ensino gratuito e eram mantidas através de ofertas. O alvo do reverendo Natanael era substituí-las pelo Colégio Sete de Setembro. Para realizar tal empreendimento chegou a pedir oferta (VIANA, 2004, p. 157). Na cidade de Cedro houve a tentativa de implantar um colégio presbiteriano em 1927, fato que gerou uma luta contra os líderes religiosos católicos daquela cidade que queriam impedir o empreendimento. Esses líderes entraram em greve, retiraram-se da cidade e o bispo do Crato extinguiu a paróquia revoltado por não conseguir o intento. Em 1º de julho de 1927, o colégio foi inaugurado e, justamente, um mês depois, um grupo de adeptos católicos invadiram-no e destruíram seus móveis (RIBEIRO, 1991, p. 163).

duplo objetivo: servia tanto para informar como para integrar os fiéis – sendo que informar é “dar forma” às práticas sociais (CERTEAU, 1994, p. 260).49 Esse meio de divulgação era tido como tão necessário (e eficaz) que a maioria dos pastores usaram-no: O reverendo De Lacy Wardlaw foi muito conhecido devido aos seus artigos escritos em jornais de grande circulação como, por exemplo, o jornal O Século de Natal. No Ceará, ele chegou a publicar semanalmente artigos doutrinários na coluna “Tribuna do Povo” do jornal Libertador, e no jornal Cruzeiro, da Vila de Baturité. Havia publicação de anúncios de cultos no jornal O Libertador.50 Para o reverendo De Lacy, o uso de jornais fazia parte de sua metodologia (“meios”) como ele mesmo afirma em artigo no jornal Libertador, de 20 de fevereiro de 1886: Até hoje temos pregado o Evangelho nas reuniões da Congregação [domigos e quantas-feiras] e por meio de Bíblias e folhetos, vendidos e distribuídos gratuitamente. Vamos continuar usando dos mesmos meios: [...] e além destes meios aproveitando secções de Publicações solicitadas e da Tribuna do Povo, vamos espalhar pela imprensa as boas notícias de Salvação e esperamos dar notícias do progresso do Evangelho no Brazil [sic] e n‟outras terras (apud OLIVEIRA, 2006, p. 153).51

O reverendo Jeronymo Gueiros através do jornal A República travou uma luta contra padres católicos do Seminário Diocesano de Fortaleza. O jornalista José Damião, que assumira a fé presbiteriana, andou pelo campo do confronto e da polêmica. Os versos que seguirão dão-nos uma ideia de sua indignação contra os católicos bem como do ânimo com que era travado tal embate:

Na área do cemitério Um animal da batina, Um turco, um maometano Um judeu, um muçulmano, Que digo? – um padre romano, Desprezou, escarneceu

A caridade divina... Ó animal de batina! Ó malta de estupidez! Aonde foi que Deus fez, Cavalo, em que paragem A Escritura te ensina

Que a imagem é obra divina,

49 Um dos jornais da instituição presbiteriana que teve um impacto muito forte na vida da Igreja presbiteriana no