3 Resultater og diskusjon
3.1 Intensitet og konsekvenser av infeksjonen på ville sjøørret og laksebestander i
3.3.2 Intensitet og utviklingsstadier til lakselus på utsatt laksesmolt: burundersøkelsen . 25
É a partir dessa relação de poder e dessas interações de arranjo social que se explorará a questão da perseguição no Ceará. Vê-se claramente que a perseguição religiosa se revela no Ceará como uma rede de fofoca, censura, violência e estigmatização. Revela-se como confronto entre os estabelecidos (católicos) e o novo grupo social (protestantes). O objetivo, porém, será apenas constatar o objeto. Não se deterá em teorizar essas redes de violência religiosa.
No Nordeste, a ação antiprotestante foi mais constante e às vezes mais violenta. Léonard (1981, p. 112) destaca que o Nordeste foi, de forma particular, palco de “uma atmosfera de tensão progressiva”. Segundo ele, isto aconteceu devido a existência de “choque de elementos caracteristicamente ofensivos, tanto do lado católico como protestante, aos quais se aliaram personagens políticas transformando as discussões religiosas, muitas vezes, em lutas políticas”. Havia o comparecimento de autoridade superior, mas muitas vezes prevalecendo a morosidade. Considerando-se os conflitos inerentes às tentativas de expansão
do protestantismo, verifica-se que também os protestantes tiveram apoio suficiente para estabelecer suas igrejas.
Quanto ao Ceará, não foi diferente. Boanerges Ribeiro (1991, p. 153) faz sua análise: “A reforma religiosa no Ceará não prosperou sem lutas, da polêmica ao tumulto, ao quebra-quebra, à destruição de locais de culto presbiterianos, à agressão física.” A implantação foi dada em forma de “conquista” do espaço religioso. Não houve uma inserção sem resistência. Eduardo Campos (VIANA, 2001, p. 08) também afirma que:
...não se excluíam os exageros do fanatismo inconseqüente, a ameaçar, e truncando muita vez o exercício religioso dos que dissentiam do catolicismo, repulsa que, em certos momentos de maior exaltação, chegava à insensatez de negar sepultura a quem renunciara ao catolicismo.
Fatos dessa natureza vão-se verificar, de modo deplorável, em Iguatu, em Aracoiaba, em Aurora (CE).
Essa postura de fanatismo religioso era exceção. A perseguição acontecia mais na sua forma psicológica e ideológica do que física. É inegável que uma população movida por insinuações, pelo medo e pela religiosidade pode alcançar ânimo de revolta popular ou individual em nome de sua religião. Leonard (1981, p. 35-36) esclarece que tal espírito de ânimo não era aquele de Contra-Reforma, pois o Brasil nunca assumiu tal postura. Era característica da religiosidade católica no Brasil que beirava a superstição, como expressa Hermínio Oliveira (1985, p. 23): “O ensino da religião foi sempre acompanhada da ameaça do fogo do inferno, com seus diabos horríveis, para todos aqueles que ousassem desobedecer a Deus”. Ou como esclarece Riolando Azzi (1985, p. 32-33), lembrando que no período da Reforma Católica (1840-1920), prevalece a “Teologia do Mérito”.53 Esta teologia foi influenciada pela Revolução Comercial cuja ênfase encontrava-se no lucro que provem da atividade econômica. A partir dessa perspectiva, buscava-se a atividade espiritual, tida de valor eterno, de onde, cria-se tirar os verdadeiros lucros, os méritos para o céu.
As perseguições no Ceará ao protestantismo, como nos informa Agileu Gadelha
53 A “Teologia do Mérito”, como é apresentada por Riolando Azzi (1985, p. 32-3), é uma continuação da
“Teologia do poder espiritual” (ambas, marcas da Reforma Católica de 1840-1920). Ela enfatizava o poder do clero em sua piedade de dirigir o povo através da pastoral sem participação política. A Teologia do Mérito é adaptação da Teologia do poder espiritual à mentalidade burguesa católica que se firma a partir do espírito mercantilista introduzido pela Revolução Comercial. A nova burguesia urbana se caracterizava principalmente pela ênfase na atividade econômica visando o lucro. O ascetismo católico tomou emprestado esta concepção. Daí, a partir da concepção ascética existem dois tipos de atividades no mundo: a política e econômica (de valor passageiro) e a atividade espiritual (de valor eterno). A terra deixa de ser o lugar de exílio para tornar-se o lugar de “provação”. As práticas religiosas são atividades que renderão lucros, méritos no céu. Duas consequências podem-se enumerar como fruto dessa teologia: primeiro, a ação pastoral passa a ser orientada pela diversidade das obras religiosas (confissões, penitências, etc.); e, segundo, o trabalho pastoral é medido pelo êxito na promoção destas obras religiosas (quantidade de confissões, batismos, etc. realizado pelo sacerdote). Se o pecado é um impedimento ao recebimento do lucro, a confissão e os sacramentos (mediados por outras práticas e devoções) equilibram a balança do juízo.
(2005, p. 87), não ocorreram somente no âmbito da Igreja Católica. Os políticos também tomaram partido. A Assembléia Legislativa do Ceará votou um imposto de quinhentos mil reis sobre negociante ou vendedor de livros acatólicos. O reverendo Wardlaw, missionário presbiteriano em Fortaleza, reagiu através das colunas do jornal O Libertador:
...Depois de Pôncio Pilatos, depois da matança de São Bartolomeu, depois das fogueiras, depois do Index, vem um imposto de quinhentos mil réis sobre negociantes ou vendedor de Bíblia e outros livros acatólicos (apud GADELHA, 2005, p. 87).
Como se vê, em determinado momento era o Estado que assumia o espírito de oposição. Às vezes o povo era incitado ao fanatismo ou à superstição como assim fez padre Cícero quando em 1917 dois colportores visitaram Juazeiro. O mesmo proibiu a venda de bíblias e livros e ameaçou com penas rigorosas quem ousasse por a mão em tais literaturas. O povo então passou a se benzer quando avistavam os colportores com receio da excomunhão do santo padrinho.54 Em outras circunstâncias, o povo era incitado à chantagem emocional como no caso do padre Lima que publicava que se não expulsassem os protestantes ele se suicidava. Em Barbalha, uma placa na entrada da cidade anunciava seu repúdio: “Alto lá Senhores Protestantes. Barbalha de Santo Antônio já está evangelizada” (GADELHA, 2005, p. 106). Em Quixadá o reverendo Natanael Cortez pregou pela primeira vez com dois guardas de um lado e do outro da porta para que o povo não o linchasse.55 Em Várzea Alegre, houve queima de Bíblias. Estes acontecimentos reforçam a afirmação anterior de que no interior do Ceará o catolicismo popular era pulsante.
O reverendo Wardlaw sofria nas ruas de Fortaleza zombaria dos adolescentes. Em Baturité, certa vez, quando ia tomar suas refeições lançavam terra no seu alimento. Ele foi socorrido pelo Sr. Alxêncio Rodrigues que levando para sua casa pôs comida para ele. Esta família veio a tornar-se uma referência do presbiterianismo naquela cidade (GADELHA, 2005, p. 88). Nesta mesma cidade, em visita com o missionário leigo Calvin Porter e de J. R. Smith, ao celebrar o culto foi surpreendido pela multidão com buzinas de chifres e barulhos de lata batendo de forma que não se podia ouvir o pregador. Durante, uma hora, sob o risco de morte, os missionário ouviram os gritos de guerra: “Nossa religião é a do Estado” e “Nosso Cristo é o Cristo da hóstia” (OLIVEIRA, 2002, p. 48). Relatos indicam que algumas famílias foram expulsas da cidade devido a sua adesão ao protestantismo. Se os documentos contêm relatos de perseguição aos missionários e pregadores, as memórias populares, como documentos históricos, dispõem de relatos de pessoas simples que se viram tolhidas de sua
54 Fato relatado no jornal Norte Evangélico de 22 de agosto de 1917 (RIBEIRO, 1991, p. 154-155). 55 Foto da Congregação Presbiteriana em Quixadá em 1922 (anexo 06).
liberdade devido a adesão ao protestantismo.
O centro da perseguição religiosa no Ceará foi a cidade de Cedro tendo em vista que ali também se tornou um centro da divulgação do presbiterianismo. Dali o presbiterianismo chegou em Medeiros, Boa Sorte, Lavras, Aurora, Juazeiro, Crato, Parambu e Tauá. Também em Juazeiro Redondo, Serra da Donana, Baixio Verde e Xique-Xique. Natanael Cortez (1965, p. 48) registra: “Centro de evangelização da zona, Cedro sofreu cruéis perseguições. O pastor e outros obreiros que por ali passaram tiveram suas vidas em perigo várias vezes, entre estes obreiros, o reverendo A. Teixeira Gueiros, e reverendo Benedito Aguiar.”
O caso mais marcante na cidade de Cedro foi a perseguição do padre Lima à Igreja Presbiteriana nesta cidade. O padre José Lima, que se mostrou o grande opositor do presbiterianismo no Estado, era homem de temperamento sanguíneo. Em Várzea Alegre chegou, autorizado pelo bispo do Crato Dom Quintino, a interditar a Matriz e excomungar até o prefeito por se recusar a comprar o “patrimônio de São Raimundo”. O mesmo preferia continuar pagando somente o foro anual. O padre Lima pretendia arrecadar com a venda dos lotes dinheiro para o suposto banco que Dom Quintino queria abrir no Crato. Desse descontentamento da elite da cidade é que surgiu o convite ao presbiteriano Sebastião Gomes para pregar na cidade com todas as garantias e plena liberdade concedida pelo Cel. Antônio Correia, que era chefe político da cidade e muito prestigiado. Sebastião Gomes pregou por dez dias na cidade através de cultos regulares e distribuiu folhetos e Novos Testamentos. Esse fato ocorreu em setembro de 1921 (RIBEIRO, 1991, p. 160).
O padre Lima, visitando Várzea Alegre e ao encontrar o reverendo Natanael pregando, posteriormente, voltou para Cedro e através das pregações insuflava os paroquianos contra os protestantes. Em 1922, foi o ano mais crítico. O padre Lima usou de todos os meios – psicológicos, políticos e físicos – para tumultuar a vivência do presbiterianismo naquela cidade. Quando um membro da Igreja Presbiteriana doou uma casa localizada no centro da cidade e próxima a Matriz para a realização dos cultos, o padre ameaçou dinamitá-la. Tão grande foi a questão que foi necessária a presença de um delegado militar de Fortaleza. Como o patrimônio do Cedro pertencia a São João, o padroeiro local, o padre Lima alterou a documentação do local passando o lote para a Prefeitura que, em reunião secreta na Câmara de Vereadores, decidiram pela desapropriação da casa construída sobre o lote. O reverendo Natanael Cortez trouxe dois advogados de Fortaleza com recurso judicial. O prefeito também apelou para seus correligionários políticos em Fortaleza. Finalmente, o processo encalhou na justiça, principalmente devido aos meios usado pelo padre Lima para impedir o progresso do
mesmo. Por fim, a casa não foi usada para fins religiosos (RIBEIRO, 1991, p. 161).
A situação começou a ficar dramática. Na missa matutina do Natal de 1923, o padre endureceu seu discurso: “Ou vocês expulsam esses protestantes ou eu me suicido”. Essa fala produziu efeito. À noite invadiram a casa de cultos presbiteriana e incendiaram a mobília. Foi aberto inquérito policial que logo desapareceu. Os dois filhos do prefeito e um seminarista estavam implicados nesse inquérito. O pior estava para acontecer. Na noite de 17 de junho de 1925, um grupo de arruaceiros, diante da casa de cultos presbiterianos tentam impedir sua realização e outros perseguem um grupo de presbiteriano. Algumas bombas estouram, e uma criança católica cai, aparentemente ferida. A versão que se alastra, na mesma noite, é que a criança foi baleada pelos protestantes, tendo a bala atingido acima do rim e saído do outro lado, o que logo produziu revolta. No dia seguinte ao ocorrido, a casa de cultos presbiteriana amanheceu em chamas. Esse cover-up ganhou força quando o jornal O Nordeste de Fortaleza, de apoio católico, noticiou com indignação o caso da criança baleada por protestantes (RIBEIRO, 1991, p. 162). Gledson Oliveira (2002, p. 42), falando sobre a força dos boatos, esclarece:
A tentativa de impedir a atividade presbiteriana parece seguir uma lógica bem clara, variando do acionamento jurídico ao ataque à imagem de seu líder e membros. Em um jornal de circulação de 3.000 exemplares, como o
Libertador, as denúncias aos protestantes arranhariam a estima da empresa
missionária. O povo cria e recria a bel prazer acontecimentos em seu cotidiano que não necessariamente precisam ser verdadeiros. As potencialidades da oralidade possuem longo alcance nas vidas dos atores dificultando para congregação tão pequena como presbiteriana remediar tais fatos.
O reverendo Natanael Cortez ao receber a notícia prontamente se solidarizou, por carta, com o pai da criança, o Sr. Joaquim Marques, prometendo que o culpado sofreria sanção penal e eclesiástica. Tal providência não seria necessária, pois Antônio Pereira, membro da Igreja Presbiteriana em Cedro, relata-o que a criança que havia sido baleada na quarta-feira foi vista por ele brincando na quinta, quando de sua visita à família. No sábado alguém também indicava ao Sr. Pereira que tal menino que estava correndo e brincando com as outras crianças na rua era o menino “baleado”. O que havia acontecido é que os arruaceiros soltaram bombas vindo a quase provocar um grande acidente. O padre Lima, diante do fato, fingiu acreditar que houve um “milagre” de cura na criança (VIANA, 2001, p. 274-275).
Por último, o padre planejou a morte do reverendo Natanael Cortez. No culto comemorativo ao primeiro ano da inauguração do templo da Igreja Presbiteriana (não mais construído na casa próximo a Matriz) seria o dia ideal para tal feito. Tal empreendimento tornou-se conhecido de Pedro Ramos, sargento do exército, através de seu amigo Natanael
Cortez. Na hora do culto, ao principiar a pregação, Natanael foi interrompido pelo barulho de vozes de uma multidão em procissão que vinha em direção ao templo. Pedro Ramos, que se fez presente no culto por precaução, correu à rua e, de arma em punho, deu voz de prisão ao padre e dispersou a multidão que o acompanhava. No jornal Correio do Ceará, o reverendo Natanael afirmara em entrevista: “Mais uma vez o Senhor socorreu-me em sua providência” (apud SOUZA, 2000, p. 47).
Em 1927, o reverendo Benedito Aguiar assumiu o trabalho presbiteriano em Cedro. O mesmo declarou através do jornal Norte Evangélico: “Não temos nesta cidade nenhuma garantia de vida. As autoridades estão de comum acordo com o padre” (apud RIBEIRO, 1991, p. 163). O próprio reverendo Aguiar viu um mês depois da inauguração do Colégio Gonçalves Dias, presbiteriano, ser invadido e ter seus móveis destruídos. A permissão para funcionamento desse colégio levou o bispo do Crato a extinguir a paróquia, depois dos padres declararem greve e retirarem-se da cidade. Foi aberto inquérito sem nenhum resultado.
A atitude do padre Lima era seguida por outros. O reverendo Natanael Cortez, percebendo que se tornava comum mais sacerdotes nas cidades iniciarem suas investidas contra o protestantismo, como no caso de Senador Pompeu através do padre Lino, escreve com certo receio:
Fico maravilhado com o ver que o vigário de Senador Pompeu quer imitar o do Cedro.
E se outros lhe seguirem o exemplo, onde iremos parar? Teremos, cedo, a inquisição aqui na terra de Iracema.
Onde estamos nós? Será já efeito da sonhada reforma da Constituição? Com a ação das autoridades e com o apelo feito noutro artigo ao sr. Arcebispo do Ceará, ao sr. Bispo do Crato, espero paradeiro a tais desatinos (VIANA, 2001, p. 271).
Somente a partir de 1928 é que a tensão foi superada. Isto aconteceu devido a grande influência do reverendo Natanael Cortez na política, como deputado estadual e amigo do governador Matos Peixoto, que tornou a aceitação do presbiterianismo uma realidade. Na própria cidade de Cedro, o reverendo Alcides Nogueira que pastoreou entre 1928 e 1930 foi orador em recepção oferecida pela cidade ao Governador. Também foi convidado para candidatar-se a prefeito da cidade tendo recusado. A Igreja Presbiteriana de Cedro foi organizada em 1929.56
Na cidade de Acopiara, até hoje é conhecido da população uma rua (que hoje recebe outro nome) cujo nome é prova do estigma com que os protestantes eram marcados.
Essa rua era conhecida como “alto dos bodes”. Conforme indica o imaginário das pessoas que ali habitam, principalmente os da terceira idade, o motivo desse nome era porque ali moravam alguns protestantes. Em várias cidades cearenses é possível identificar no imaginário popular ruas identificadas com tais estigmas.
Como é sabido, os protestantes eram chamados de “bodes”. Esse apelido trazia em si um sentido pejorativo, de cunho religioso, considerando o que Jesus dissera: que ele separaria no último dia os bodes das ovelhas. Foi fácil considerar que aqueles que saíram do rebanho da “madre Igreja” eram os bodes – escatologicamente excluídos.
Em Acopiara ocorreram dois fatos de extrema importância histórica para se perceber quão intensa foi a perseguição religiosa em certas regiões do Ceará. Nesta cidade, por volta de 1910, o templo da Igreja Presbiteriana foi destruído totalmente e o responsável pela congregação, o pregador Raimundo Ferreira, obrigado a se transferir para Iguatu para não ser morto. O reverendo Natanael Cortez que, foi testemunha desses fatos, pois havia ajudado a construí-la, também nesta mesma cidade se livrou de uma emboscada na estação ferroviária da R. V. C. de Acopiara quando aguardava condução para visitar a Congregação de Vencedor.57 Depois de hospedado no hotel da cidade (Hotel Matos), chegou Raimundo Nogueira e incitou-o a partir às pressas, pois o padre da cidade havia convocado o povo para fazer uma procissão com o intuito de expulsá-lo da cidade. O destino da procissão era o Hotel Matos. O herege protestante que escreveu os artigos pelo “Unitário” contra a Igreja Católica haveria de ser expulso (ou morto!). O reverendo Natanael teve que sair às pressas, atravessar um rio a nado (pois era inverno e o rio Quincoé estava com grande vazão) e andar a pé cinco léguas (trinta quilômetros) durante toda a noite, pois não tinha cavalo no momento (CORTEZ, 1965, p. 96-97). Contudo, o que se considera mais marcante é a fundação do Cemitério protestante na comunidade de Vencedor (Irapuan Pinheiro), hoje administrado pela Igreja Presbiteriana de Ebenézer, localizada na comunidade de Carretão, município de Acopiara.58
Cemitérios dizem muito ao historiador. Eles são museus que contém histórias guardadas no esquecimento ou na memória de seus visitantes. Os túmulos são templos e são moradas do passado. As pessoas que viveram e que hoje através da expressão de seu nome, família e catacumba decifram momentos do ontem. Martin Dreher (1993, p. 121) comentando sobre as vilas dos imigrantes no Sul do país na sua busca de organização da vida religiosa escreve:
57 Foto da casa onde se reunia a Congregação presbiteriana no Sítio Vencedor, município de Irapuan Pinheiro
(anexo 08).
Igreja e escola perfazem o centro da vila, na qual, ao lado da escola-igreja se encontra o cemitério. Como o catolicismo fosse religião de Estado e como as autoridades eclesiásticas se negassem a „desbenzer‟ parte do cemitério para que nele fossem sepultados acatólicos, os imigrantes tiveram que construir seus próprios cemitérios. Em parte ainda conservados, esses cemitérios são dos melhores depositários de história para o estudo do protestantismo de imigração. Neles salta aos olhos a grande quantidade de túmulos infantis, atestando a alta taxa de mortalidade infantil. Por outro lado, os túmulos femininos nos falam da juventude das mães que morriam em conseqüência de partos sem assistência médica.
Também Antônio G. de Mendonça (1984, p. 21) confirma:
Também os cemitérios, administrados com exclusividade pela Igreja Católica, permaneciam defesos aos não-católicos, o que criou para os protestantes situações muito difíceis para o sepultamento de seus mortos. Em alguns lugares ainda existem cemitérios protestantes, como em São Paulo e Brotas-SP. Mas nem em todos os lugares foram estabelecidos cemitérios protestantes; como foram sepultados os adeptos da “nova religião” não se sabe. Mas é de se crer que tenha havido, aqui e ali, tolerância por parte da Igreja Católica porque, caso contrário, os cemitérios protestantes teriam sido mais numerosos.
Tratar da perseguição religiosa e mostrá-la a partir da existência material do cemitério é ir de encontro a sua forma mais agressiva.59 O Cemitério protestante de Vencedor (Irapuan Pinheiro) está na centralidade de nossos esforços para mostrar a luta em prol do diálogo religioso e, principalmente, pela sua permanência como dado histórico.60 Ele é testemunho da intransigência religiosa e da resistência protestante na sua busca do diálogo. A história foi contada pelo reverendo Alcides Nogueira (apud RIBEIRO, 1991, p. 156-157). Seu avô paterno, Joaquim Cândido de Sena, possuía uma fazenda de nome “Vencedor” (hoje nome de um lugarejo). De tradicional família católica e educado no rigor da religião católica, considerava qualquer penitência, por maior que fosse, o meio de receber o auxílio divino. Em conversa com o padre Joaquim Ferreira Diniz, o Sr. Joaquim confidenciou a crença de que quando na eleição dos papas, o Espírito Santo pousava sobre a cabeça do eleito.61 O padre, por sua vez, esclarece que isso não era um fato. Mostrou-lhe que até luta sangrenta já havia ocorrido na disputa do cetro do Sumo-Pontífice. O padre com esse esclarecimento dá a entender que não havia ainda assumido a Reforma Católica. Esse caso ocorreu em 1860, no município de Jaguaribe-Ce. A história não parou por aí. Entre os livros do padre Diniz, o Sr.
59 Havia também profanações contra os cemitérios protestantes como o que ocorreu no de Ubatuba, conforme