2 Materiale og metoder
2.2 Materiale
A percepção científica é a seguinte : "O solo, entendido como a camada superficial do globo terrestre, é um sistema dinâmico, sede de fenómenos físico-químicos e biológicos estreitamente interligados. Meio vivo, um solo evolui; sofre modificações lentas mas contínuas, devido a dois processos complementares. Por um lado, a rocha mãe, a partir da qual ele se formou, sofre transformações físicas e químicas sob acção dos agentes climáticos e dos organismos vivos; a sua desagregação física e a sua decomposição química conduzem à formação de partículas de pequena dimensão e à simplificação da composição química dos elementos minerais. O outro processo de evolução do complexo edáfico é o fornecimento regular de elementos orgânicos, que voltam ao solo quando se efectua a decomposição da matéria viva, animal ou vegetal" (24).
Assim, o solo é, por excelência, o suporte de actividades produtivas, as suas qualidades e defeitos, as vantagens ou dificuldades que oferece aos utilizadores, constituem uma "limitação cuja resolução é parte integrante das condições de reprodução das sociedades. Estas devem ocupar-se não só da distribuição dos homens sobre o solo, como da sua exploração" (25). Esta preocupação foi, aliás, dominante no discurso político e acções, dos que, sucessivamente, empreenderam a quimera do povoamento do Alentejo, não respeitando a sua carrying capacity, limite à utilização do ecossistema pelo grupo, que dispõe de certo grau de forças produtivas.
O solo, produto da litologia subjacente, será portanto factor essencial na compreensão da inadequação de dadas práticas agrícolas a um meio. Contudo implica um determinismo que se pode revelar perigoso, em ambos os sentidos: limitativo, visto que não há nada a fazer, o solo não é aproveitável implicando inércia dos grupos humanos; ou ao invés, e dadas certas condições de falta de recursos ou espaço vital, o uso a custos exorbitantes, viabilizado por alguma rentabilidade, mas cujo custo bruto é excessivo (solos artificiais, aproveitamento de áreas desérticas...o caso Israelita num extremo e o Holandês no outro).
Porquê solo-morfogénese ? O solo, num contexto geomorfológico, vai ser a interface entre dois tipos de factores: os endógenos, ligados à litologia, estrutura, interiores, e os exógenos, o clima, a sua agressividade, as modalidades de meteorização-transporte que permitem, condicionadas pelo coberto vegetal consequente. O mosaico morfo-climático do globo, ao reproduzir sistemas morfogenéticos distintos, tem no solo a região que consubstancia esse equilíbrio de forças - litosfera-atmosfera. A libertação inicial de partículas mobilizáveis pela meteorização é "...o acto inicial comum da pedogénese e da morfogénese..." (26). Os efeitos bioquímicos e biomecânicos ditam o aparecimento de um solo, propriamente dito.
(24) op. cit., pp. 59 (25) ibidem
O solo é produto (não é o único, o modelado também o é) da morfogénese e da vegetação existente, que por sua vez vai também ser, no seu tipo, grau de desenvolvimento e adaptações, uma função do solo existente. Mas poderá uma modificação no solo influir no sistema morfogenético ? A degradação das suas características pedológicas, seguindo várias fases, vai, sem dúvida, implicar modificações na intensidade das acções e no material em trânsito. Esta degradação dá-se em quatro etapas (27) : destruição da estrutura granulosa do solo; dispersão dos colóides, que provoca uma diminuição da permeabilidade e o aumento do volume de escoamento superficial; o transporte dos elementos pelo vento ou água de escoamento superficial; e, finalmente, a destruição total dos horizontes superiores. O impacto directo das gotas da chuva desmantela os agregados do solo; o declive do terreno condiciona directamente a velocidade e a força das águas do escoamento superficial.
Este processo é a erosão hídrica dos solos. As condições para o desencadear são preocupantemente simples, pois sendo o conjunto solo-vegetação um binómio onde a relação causa-efeito aparece muito amalgamada, fruto de uma evolução temporalmente muito extensa, a simples destruição da vegetação pode desencadeá-lo. O solo passa a estar exposto ao impacto directo da precipitação que, através da energia cinética das gotas de chuva, vai iniciar a degradação. O facto de estar directamente exposto implica destruição da matéria orgânica, e também menor coesão dos agregados, pois a evaporação é muito superior, e diminui o teor de humidade no solo . A remoção ou destruição das raízes garante menos coesão e constitui o desaparecimento de muitos macro-póros, por onde a água se infiltraria.
A conjugação destes factores vai implicar maiores coeficientes de escoamento dada a menor permeabilidade e aí começa-se a bulir com o sistema morfogenético. O maior volume de águas escoadas implica maior capacidade de transporte nas linhas de água, mobilizando mais material que aí estava em repouso, além de promover maior incisão linear e erosão de sapa (dependendo das características dos leitos, grau de entulhamento sedimentar, etc...). A remoção de partículas do solo, consequente ao aumento da capacidade de transporte no sistema, permite que a rocha mãe fique mais directamente exposta à meteorização, que aumenta , não sobre o solo directamente, mas sobre um rególito residual.
O sistema vai activar reacções de feed-back para tentar encontrar novo equilíbrio face às novas condições. O problema que então surge é o da escala temporal implícita, pois o solo perdido num ano pode constituir uma produção de duração exponencial, implicando uma recuperação infinitamente lenta quando comparada com o tempo necessário à destruição efectuada, sobretudo se a escala a que o fenómeno se passa for não local mas regional. A essa escala, os impactos vão ser eventualmente pouco perceptíveis, mas não obstante preocupantes.
Os maiores coeficientes de escoamento vão ter várias consequências nefastas: o aumento de caudal dos rios, tornando-os muito mais susceptíveis a cheias, facto para que contribui também a quantidade enorme de material em trânsito e que colmatando os leitos e diminuindo o perímetro molhado do rio, vai agravar a altura das águas de cheia; o material em trânsito tem também um efeito directo sobre a vida nos rios, pois ao aumentar a turbidez vai pôr sérios problemas à subsistência de muitas espécies animais e vegetais; maior volume de água escoada significa menos água disponível para recarga dos níveis freáticos, o que a maior ou menor prazo, acaba por comprometer o abastecimento de água através de captações em profundidade; por fim, mas não menos importante, a perda de colóides, de matéria orgânica e do solo per si, vai diminuir a fertilidade dos solos, dificultando a fixação de espécies vegetais (para não referir toda a fauna associada...), o que tem o efeito de ampliar a degradação, entrando-se num ciclo interminável, em que a degradação acabará por ter tendência a diminuir gradualmente, e a recuperação a aumentar.
Transpondo este cenário, quase catastrófico, para a realidade do Concelho de Mértola quais vão ser as variáveis responsáveis pela sua indução ? Um clima irregular que confere aos rios um regime torrencial, litologia pouco permeável, solos naturalmente pobres, delgados, declives acentuados e prática agrícola desajustada. Se a simples remoção do coberto vegetal pode desencadear o processo referido, será fácil compreender o efeito de solos lavrados, a nu durante vários períodos do ano (sobretudo Primavera e Outono), períodos em que os episódios chuvosos atingem grande intensidade (trovoadas). A magnitude da ajuda dada na mobilização do solo pelo homem é tremenda e factor básico no processo de degradação de solos e consequente influência nos processos morfogenéticos.
Indirectamente essa acção também é possível sem haver mobilização do solo. Das queimadas associadas ou não a pastos, até ao pastoreio mais ou menos intensivo, o homem, ao seleccionar artificialmente as espécies vegetais, vai comandar os processos pedogenéticos, alterando as características do solo. Se este processo é relativamente mais lento, os seus efeitos não são menos eficazes enquanto degradação ambiental. Assim, o estado das coisas que se vive actualmente, tem que ser entendido à luz da relação causa-efeito homem-meio, ao longo de vários séculos, mas com especial destaque para as agressões mais intensas.
A exploração racional do solo não depende, como se depreende, somente das suas características físicas e químicas: traduz o conjunto de condições económicas e sociais de reprodução das comunidades que a efectuam. Por esse motivo, mais do que qualquer outro elemento da paisagem, o solo apresenta marcas da história dos grupos que o utilizaram. Nesse sentido importa, não só traçar a evolução dos usos, como ter presente os contextos sócio- económicos que lhes foram subjacentes.