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3. RESEARCH DESIGN

3.2 DATA MATERIAL

A análise de situação das redes de Atenção à Saúde deve fazer-se sobre a população e sobre as redes de atenção à saúde, construídas como respostas sociais às necessidades de saúde desta população.

A análise populacional leva à definição do estado de saúde que é uma medida da extensão na qual esta população pode funcionar física, mental e socialmente. Este diagnóstico é feito por meio de informações descritivas que coletam dados segundo pessoas, lugares e tempo (Fos & Fine, 2005).

As variáveis pessoais medem as características individuais que são importantes para a descrição do estado de saúde e doença e suas tendências. Dados demográficos e socioeconômicos permitem estabelecer insights sobre padrões, etiologia e causas das doenças.

As variáveis pessoais que devem ser descritas são: idade, sexo, raça, estado civil e estado sócio-econômico. Com relação ao estado sócio - econômico os dados mais importantes relacionam-se com ocupação, renda, educação e estilos de vida.

Dependendo do modelo de Atenção à Saúde definido, haverá que se conhecer os determinantes sociais da saúde (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2005) e importam informações sobre os determinantes estruturais (coesão social, renda, educação e ambiente) e sobre os determinantes intermediários (condições de vida, condições de trabalho, disponibilidade de alimentos e barreiras para a adoção de comportamentos relacionados com a saúde). As pirâmides populacionais mostram a estrutura demográfica, e analisadas ao longo do tempo, permitem identificar tendências de crescimento.

As variáveis de lugar indicam padrões geográficos que são úteis para compreender o processo de saúde/doença e podem ajudar a distinguir fatores genéticos dos ambientais na causação das doenças. Estas variáveis são importantes, também, para a construção de redes de Atenção à Saúde que se estruturam com bases territoriais. As variáveis de lugar, portanto, devem ser construídas segundo os territórios sanitários das redes de Atenção à Saúde (país, província ou Estado, macrorregião, mesorregião, município etc). As variáveis importantes para a realização desta pesquisa no HPSM Mário Pinotti, em Belém, serão melhor esclarecidas no capitulo a seguir.

Ademais, a análise de situação de saúde da população deve utilizar as medidas de morbidade, tais como as taxas de prevalência e as taxas de incidência, e as medidas de mortalidade como as taxas de mortalidade e a carga das doenças. Em termos de carga das doenças, se disponíveis, devem

ser levantados os anos de vida ajustados por incapacidade. Devem ser analisados os fatores de risco proximais como sedentarismo, baixa ingestão de frutas e vegetais, uso de tabaco, uso de álcool e de outras drogas e sexo sem segurança, bem como de fatores de risco biológicos como baixo peso, sobrepeso ou obesidade, hipertensão arterial e colesterol elevado.

Atenção primária ou básica significa atenção primeira, própria noção de básico ou primário, com sentido de primeiro e supõe a existência de unidade de saúde encarregadas do que é secundário e terciário, encarregadas portanto do que não é básico. Por isso, o conjunto das Unidades que compõem Sistema Único de Saúde, pode ser subdividido segundo o que se denomina níveis de atenção.

O que se observou neste estudo é que a assistência à saúde, nos níveis de especialidades, apoio diagnóstico e terapêutico, média e alta complexidade, em geral são um ponto importante de estrangulamento dos serviços de saúde. De um lado, os gestores do Sistema Único de Saúde (SUS) convivem com uma grande pressão de demanda por estes recursos assistenciais, à qual não se consegue responder, gerando muitas vezes longas filas de espera para alguns procedimentos. Por outro lado, estes serviços representam vultosos gastos para o orçamento da saúde.

Com os questionários aplicados durante o tempo de permanência no lócus da pesquisa, o que podemos notar é que existe grande desconfiança do usuário do SUS quanto às unidades básicas de atendimento primário:

A gente procura os posto de saúde, mas nunca tem médico, material, as vezes somos atendidos mal. Pelo menos aqui (pronto-socorro), a gente tem a certeza de que vai ser atendido.[...] O posto de saúde que procurei antes me mandava vir direto pra cá, então não perco tempo mais indo lá, já venho direto 6 (Informação Verbal)

Os entrevistados apontam desigualdades de acesso aos serviços da rede básica de saúde por estarem mal estruturados, assim como dificuldades de acesso aos serviços de atenção secundária e terciária, especialmente em algumas áreas, explicadas por uma sobrecarga, decorrente das deficiências da rede básica.

6

Fala de um usuário do SUS obtida durante trabalho de pesquisa no HPSM Mario Pinotti. Os nomes dos usuários foram alterados e não serão divulgados afim de preservar a identidade dos entrevistados.

Em relação à rede básica, podemos inicialmente imaginar como ela pode contribuir ou não para uma melhor performance da assistência especializada. Uma maior resolutividade da assistência prestada no nível das Unidades Básicas de Saúde poderá reduzir a demanda por consultas especializadas e exames, especialmente os de maior complexidade, reservando os recursos públicos para garantir os procedimentos realmente necessários. A saúde básica que deveria servir de porta de entrada para o SUS, acaba não realizando esta tarefa adequadamente, facilitando o aumento das longas filas de espera nos Hospitais de Pronto Socorro.

Contribui ainda para a baixa resolutividade na rede básica, o exercício hegemônico de uma clínica centrada no ato prescritivo e na produção de procedimentos, em ação substitutiva da prática que valoriza a clínica como o exercício ampliado de múltiplos profissionais, em relação entre si e com o usuário (MERHY; 1998). O exercício da clínica, traduzido em atos de fala, escuta, onde o diagnóstico ganha a dimensão do cuidado, foi sendo ao longo do tempo, substituído pelo ato prescritivo, a relação sumária entre profissional e usuário. O atual modelo assistencial se desenvolveu ao longo do século XX, motivado por uma clínica centrada no biológico e impulsionada pelo complexo médico industrial, que mantém a acumulação de capital no setor da saúde, através do altíssimo consumo de máquinas, instrumentos e medicamentos, usados como os principais recursos de diagnose e terapia. O projeto de Humaniza SUS, discutido no tópico anterior tenta ainda reverter este legado histórico, embora muito ainda tenha que ser feito.

O atual descuido com a saúde gera um excesso de encaminhamento para especialistas e alto consumo de exames, tornando os serviços pouco resolutivos, pois a assistência desse modo é incapaz de atuar sobre as diversas dimensões do sujeito usuário (CAMPOS, 1992; MERHY, 1998; FRANCO; 1999). Prevalece um processo de trabalho partilhado que desconhece o sujeito pleno que traz consigo além de um problema de saúde, uma certa subjetividade, uma história de vida, que são também determinantes do seu processo de saúde e doença.