É válido destacar que as estratégias de van Dijk (2012) se somam aos modos de operação da ideologia, propostos por Thompson (2002), principalmente, ao se tratar da fragmentação, resultando no efeito discursivo, mencionado por Bañon Hernandez (2006), de deslegitimação/legitimação. Esse modo de operação ideológica foi o mais representativo no nosso corpus, seguido, nesta ordem, pela dissimulação, legitimação, reificação e unificação e, posteriormente, pelas estratégias gerais polarização ideológica e autoapresentação positiva/ outro-apresentação negativa. Optamos por não reproduzir o gráfico dessa representatividade, como o fizemos nas outras análises, por entendermos que há uma linha tênue entre eles, especialmente, devido à extensão dos excertos que compõem os nossos dados, a qual favorece a coexistência de mais de um modo.
Além disso, destacamos que nossos dados apontam para a presença majoritária dos modos de operação da ideologia relacionados ao âmbito científico, seguido pelo econômico, depois pelo político e ecológico e, então, pelo ambiental. Dos jornais analisados, identificamos as estratégias ideológicas gerais e as de construção simbólica predominantemente no jornal O Liberal. Essa recorrência mais expressiva no jornal do Pará é justificada por dois motivos: a quantidade de matéria divulgada sobre o tema, conforme já mencionamos, e a presença mais diversificada dos âmbitos sociais na divulgação debate.
Sabendo que ‗ideologia‘ está relacionada com o uso do sentido que, em situações particulares, pode estabelecer e sustentar relações desiguais de poder; apresentaremos, a
seguir, um apanhado de como a participação dos atores se vincula, no nosso corpus, a esse sentido ―a serviço do poder‖ (THOMPSON, 2002, p. 16). Nessa relação de poder – que envolve ―dominantes‖ e ―subordinados‖ (THOMPSON, 2002, p. 16) ou ‗elites do poder‘ e dominados (VAN DIJK, 2012) –, temos como ―dominado‖ principal a Floresta Amazônica e, secundariamente, as pessoas que sofrem as consequências resultantes da problemática ambiental.
No âmbito político, as estratégias de construção simbólica e as estratégias gerais, de modo geral, ajudam a sustentar as relações de poder, em torno do desmatamento, de modo a descaracterizá-lo como uma problemática, como vimos em (a), (d) e (p). As estratégias servem para ocultar a questão ou estabelecer a importância do capital econômico, apontado por Thompson (2002). Dessa forma, a hegemonia instaurada, por meio do capital simbólico, é a do lucro, o que é característico da sociedade moderna. Em contraposição a esses exemplos, configurando a luta no e pelo discurso, conforme pontuam Ramalho e Resende (2011); em (b), as estratégias ajudam a problematizar o Código Florestal, na defesa de interesses do Estado do Amazonas.
No âmbito científico, as estratégias aparecem associadas, majoritariamente, com as questões do desflorestamento e os acordos internacionais, tais como, as metas de redução de GEE (como prejuízo para o país, quando do seu não cumprimento) e os possíveis mecanismos fiscais ―verdes‖ (como benefício econômico para a Amazônia), conforme mostram (c) e (i). Nesses dois casos, o discurso hegemônico construído é relacionado a interesses coletivos, mas que, na realidade, resulta em benefício econômico para os grupos ‗dominantes‘. Na relação com o capital econômico, quando das discussões do novo Código Florestal, há também a luta travada no discurso entre cientistas versus parlamentares, no exemplo (n). Nesse caso, os primeiros defendendo seu direito de possuidor da verdade que, no sentido de Foucault (1979, p. 13), refere-se ao ―conjunto das regras segundo as quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder‖. Essa verdade seria a de saber conciliar os polos ‗preservação ambiental e agricultura‘, sendo, portanto, um reforço da hegemonia da ciência na sociedade atual.
Na esfera ambiental, as estratégias gerais e de construção simbólica aparecem vinculadas a casos de desmatamento: em assentamento agrário e nas cidades com maiores índices do evento, na Amazônia Legal (nos estados Pará, Mato Grosso e Amazonas). No primeiro caso (e), o poder simbólico envolve a autodefesa, mediante apresentação de culpados pela problemática. No segundo (h), a divulgação serve apenas para indicar locais de desmates,
mas não são apresentadas nem as causas nem os causadores. Esses exemplos remetem-nos ao que dizem Resende e Ramalho (2004) quanto ao fato de as relações sociais de poder sustentarem as redes de práticas e, ao mesmo tempo, ao se articularem, estarem ligadas a lutas hegemônicas. Assim, no caso das omissões de causas e causadores do desflorestamento, vemos como, ao se articular com a prática política, a prática midiática mantém-se à distância de questões conflitantes, tomando como verdade a informação recebida, podendo resultar na ―unilateralidade da informação‖, indicada por Cremilda Medina (2008).
No âmbito econômico, as estratégias aparecem associadas com a representação da (agro)pecuária como sendo uma ação positiva, como podemos verificar em (f), (j), (k) e (q). Essa positividade é construída com a apresentação de que gera emprego e renda e que o Código Florestal a prejudicaria, que a prática, no Pará, é pautada na sustentabilidade e que seria necessário reduzir a área da reserva legal, na Amazônia, em benefício dessa região. Dessa forma, o discurso econômico norteia a divulgação do desflorestamento, enfatizando-se, novamente, a importância do capital econômico. Portanto, considerando que a defesa da prática agropecuária (e, indiretamente, do problema em questão), em detrimento da lei florestal, resulta em beneficiar apenas os grupos do setor rural, podemos indicar a presença de representações ideológicas. Pois, assim sustentam Ramalho e Resende (2011, p. 24): ―quando essas perspectivas favorecem algumas poucas pessoas em detrimento de outras, temos representações ideológicas, voltadas para a distribuição desigual de poder baseada no consenso‖. Nesse caso, o consenso almejado é o da aceitação da pecuária como uma atividade econômica que beneficia a população da região, e não apenas os grupos que a realizam.
No âmbito ecológico, as estratégias consideradas na pesquisa estão relacionadas com o Código Florestal. Em (g), servem para manifestar a insatisfação quanto às discussões em torno dessa lei terem gerado desmatamento, já que a redução poderia ser menor. Em (l), essa mesma lei é apresentada como uma possibilidade de colaborar com o evento. O poder é, portanto, exercido por meio da acusação/cobrança em torno da lei ambiental em questão, pois ―o exercício do poder não se limita simplesmente a uma forma de ação, mas consiste em uma forma de interação social‖ (VAN DIJK, 2012, p. 43). Nessa interação social, cada grupo imprime os efeitos ideológicos que lhe caracterizam, resultando em um campo de contestação, como é característico da vida social (THOMPSON, 2002).
Por fim, no âmbito jurídico, a estratégia de construção simbólica serve para travar discursivamente luta com o poder legislativo, em função do Código Florestal. Nessa luta, esse poder é representado como um grupo que visa seus próprios interesses e descumpre o que
rege o Estado de Direito. Nesse ponto, retomamos Thompson (2002), salientando que a luta travada na vida social ocorre por meio de palavras e símbolos, bem como através da força física, e a ideologia é parte dessa luta. Além disso, a ideologia ―é uma característica criativa e contestada e transformada, através de ações e interações, as quais incluem a troca contínua
de formas simbólicas‖ (THOMPSON, 2002, p. 19, grifos nossos).
Na divulgação do desmatamento na Amazônia, causas e consequências, podemos perceber a troca de forma simbólica que envolve os atores dos diversos âmbitos e, ao mesmo tempo, podemos notar como a linguagem utilizada a serviço do poder pode camuflar os fatos, por meio da difusão de um recorte de informação. Esse recorte pode, muitas vezes, colaborar com a confirmação, legitimação e reprodução da dominação social, travada discursivamente. Em relação à divulgação debate do tema em questão, os efeitos sobre a realidade socioambiental do Pará e do Amazonas, quando da omissão das causas, dos agentes causadores, e, principalmente, das consequências que atingem minorias, que pouco acesso possuem ao capital econômico e menos ainda ao simbólico, resultam no prolongamento da problemática na região. Dessa forma, salientamos que a potencialidade transformativa e criativa do uso da linguagem e das ideologias é um instrumento que urge ser empregado no campo de contestação, que é a vida, e também nos instrumentos de difusão do poder simbólico, como são as mídias.
A seguir, apresentaremos a discussão das análises desenvolvidas, relacionando-as com as perguntas de pesquisa.