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O modo de operação ideológica fragmentação, segundo Thompson (2002), é expresso por meio de estratégias que segmentam os atores que possam desafiar os grupos dominantes na manutenção das relações de dominação. Vejamos, a seguir, alguns exemplos:

(k) ―Onde se situa o produtor rural do Pará e da Amazônia diante desse cenário grotesco criado

pela ‗republiqueta‘ Brasil? Essa praga, o Código Florestal, deve ser combatido (sic) senão vai

devorar rapidamente a lavoura e o gado. Os produtores rurais que carregam esse país nas

costas há décadas, nesse momento crucial da economia brasileira, estão olhando de longe a ‗morte‘

chegar sem uma reação contundente que rechace essa loucura governamental. São 27 federações de Agricultura, 2.300 sindicatos rurais e 1,7 milhão de produtores perdendo, sendo acuados por

‗meia dúzia‘ de ambientalistas, ONGs e instituições governamentais declaradamente inimigas do

produtor rural‖ (Produtor rural, em artigo de opinião). (OL-26/05/2011)

(l) ―Uma nota técnica assinada pelo movimento SOS Florestas, que reúne sete ONGs (entre as quais Greenpeace e WWF Brasil) aponta 19 falhas na proposta do novo Código Florestal e afirma que o texto ‗incentiva novos desmatamentos‟ e permite uma „isenção quase generalizada‟ aos

(m) ―Agora, inadvertidamente, talvez para livrar de multas milionárias e beneficiar quem se deu à prática de desmatamentos irregulares o novo Código Florestal prevê anistia para multas impostas. Exurge evidente que não é o estatuto que sai prejudicado por sua aprovação. O principal risco de

prejuízo é para o Estado de Direito‖ (Advogado, em artigo de opinião). (OL-15/07/2011)

(n) ―A Presidente da SBPC, Helena Nader, abriu a última reunião anual da SBPC com um

verdadeiro desabafo contra a forma como vem sendo discutido e votado o texto do novo Código

Florestal brasileiro, porque a colaboração da ciência vem sendo evitada pelos parlamentares tanto da Câmara Federal quanto, agora, do Senado. Ela criticou o fato de que, em nome de interesses

restritos, lideranças ruralistas e ambientalistas tenham dado as costas para as possibilidades que a

ciência tem a oferecer para a definição de regras e parâmetros que harmonizem a preservação

ambiental e a produção agrícola‖. (AC-18/07/2011)

No exemplo (k), extraído do jornal do Pará, a voz do ator do âmbito econômico, com o auxílio da estratégia expurgo do outro configura o modo de operação ideológica fragmentação, que é reforçado com as estratégias gerais polarização ideológica e autoapresentação positiva/outro-apresentação negativa, na sustentação do controle do poder. A estratégia típica de construção simbólica é baseada na representação do Código Florestal (e do governo federal, como podemos notar em ―‗republiqueta‘ Brasil‖ e ―loucura governamental‖) como um algoz da agropecuária e dos produtores rurais. Por meio de argumento acusativo, resgatando elementos do discurso da prática trabalhista rural, a lei ambiental é metaforicamente associada com uma ―praga‖, que pode prejudicar a atividade agropecuarista (vide também a análise do exemplo (54), na seção 5.2), e com a ―‗morte‘‖, que pode chegar para controlar a atividade. Dessa forma, o expurgo do outro ajuda a construir o inimigo ameaçador e que deve ser enfrentado pelo coletivo (THOMPSON, 2002). Inclusive, essa representação de ameaça é reforçada com a modalidade deôntica, denotando a obrigação de se enfrentar a lei, como podemos notar em ―essa praga, o Código Florestal, deve ser

combatido (sic) senão vai devorar rapidamente a lavoura e o gado‖.

Considerando as relações de poder que envolvem os atores participantes da divulgação, é válido destacarmos, com base em Fairclough e Wodak (2000), que o processo da luta política e a busca pela legitimidade dela estão cada vez mais vinculados a questões econômicas da mídia e à busca por maiores audiências e lucros. Diante disso, percebemos o papel assumido pelos meios de comunicação como instrumentos de lutas hegemônicas, por possibilitarem que grupos difundam seus discursos e sua concepção de mundo por meio de um caráter universal (RAMALHO; RESENDE, 2011). Isso porque a condição para que esses grupos se mantenham, temporária e hegemonicamente, no poder é o estabelecimento e a sustentação da ―liderança moral, política e intelectual na vida social‖ (RAMALHO; RESENDE, 2011, p. 24), o que, muitas vezes, é possibilitado pelas mídias.

Semelhante à estratégia de fragmentação, a autoapresentação positiva e a outro- apresentação negativa é construída por meio da sustentação de que os agentes do setor rural são ―os produtores rurais que carregam esse país nas costas há décadas‖ e que o Código Florestal e os atores envolvidos em sua elaboração são ―‗meia dúzia‘ de ambientalistas, ONGs e instituições governamentais declaradamente inimigas do produtor rural‖. Com isso, é emitida à lei em questão e, mais precisamente, aos responsáveis por sua (re)elaboração, a culpa por situação negativa (VAN DIJK, 2012), que, nesse caso, seria o fato de prejudicar os ―produtores rurais‖.

Por consequência, temos também a presença da polarização ideológica, já que os possíveis prejuízos à agropecuária são representados como problemas superiores à redução florestal, a serem enfrentados pela lei florestal, o que podemos confirmar na apresentação da ‗produção rural‘ (representando a agropecuária) em contraposição à ―loucura governamental‖, remetendo-se a essa lei.

Podemos adicionar também que essas duas estratégias ideológicas gerais (VAN DIJK, 2012) servem, semelhante à fragmentação, para deslegitimar o Código Florestal, ao relacioná-lo enfaticamente à informação negativa em contraposição a ênfase positiva dada aos atores do setor rural, representados como responsáveis pelo sustento do país, já que ―carregam esse país nas costas há décadas‖.

Em (l), no jornal A Crítica, o âmbito ecológico é introduzido na divulgação através de uma nota publicada pelo movimento SOS Florestas (vide também a análise do exemplo (45), na seção 5.2). Nessa nota, a fragmentação é construída por meio da estratégia expurgo do outro, que apresenta o Código Florestal em votação como uma ameaça ao controle do desflorestamento. A referência à nota começa com a apresentação, na voz do divulgador, de possíveis falhas na lei em questão, inclusive com a indicação da quantidade delas, o que, segundo van Dijk (1990), sugere que a informação é exata e que os repórteres tiveram acesso direto aos dados. O expurgo do outro é sustentado (ora com a voz textual, ora com a voz externa), com a indicação dessas falhas e com a citação direta de trecho da nota, a saber: ―‗incentiva novos desmatamentos‘‖ e ―‗isenção quase generalizada‘‖. Além disso, a citação direta é acompanhada da avaliação ‗infratores ambientais‘, reforçando o efeito ―expurgatório‖ da informação divulgada.

O exemplo (m) do modo fragmentação é de matéria publicada também pelo jornal paraense e trata-se do posicionamento de ator do âmbito jurídico. A estratégia de construção simbólica que expressa esse modo de operação ideológica também é o expurgo do outro. Com

essa forma simbólica, o poder legislativo, representado, indiretamente, pelo Código Florestal, é apresentado como sendo produto que atende aos interesses de um grupo específico (vide também a análise do exemplo (58)), como se percebe em ―talvez para livrar de multas

milionárias e beneficiar quem se deu à prática de desmatamentos irregulares‖. Dessa

forma, a fragmentação atribui a essa lei ambiental a função de ameaça ao ―Estado de Direito‖, ao qual os legisladores devem estar subordinados125, ajudando, assim, a estabelecer a relação de poder.

No último exemplo do modo em questão, de matéria do jornal do Amazonas, a estratégia de construção simbólica expurgo do outro, na voz da representante do âmbito científico, expressa a fragmentação, por meio da representação dos parlamentares como atores que defendem interesses particulares, no que tange ao Código Florestal. Com essa representação, esses atores podem ser vistos como um inimigo perigoso que deve ser combatido (THOMPSON, 2002), já que a função desses atores é defender os interesses coletivos, mas estariam adequando a lei florestal aos seus interesses econômico-ideológicos (vide também a análise dos exemplos (27) e (14e.), nas seções, respectivamente, 5.2 e 5.3).

Além da fragmentação, também podemos perceber, no exemplo, a presença da estratégia geral autoapresentação positiva/outro-apresentação negativa. Com essa estratégia, os cientistas (na divulgação, como a representante e o vocábulo ‗ciência‘) são representados como possíveis conciliadores da ―preservação ambiental e a produção agrícola‖, que geraram o impasse na definição do novo Código Florestal. Os parlamentares, por sua vez, descritos como ―lideranças ruralistas e ambientalistas‖, são representados como atores que se preocupam em defender seus interesses particulares, ignorando a necessidade de a lei ambiental ser embasada cientificamente. Dessa forma, os primeiros recebem a conotação positiva e os últimos a negativa, desempenhando (nos termos citados por Bañon Hernandez (2006)) a função de legitimar os primeiros e deslegitimar os últimos.

Na sequência, apresentaremos a análise do modo de operação da ideologia reificação e das estratégias ideológicas gerais.

125 Segundo informações da Embaixada Americana, ―Estado de Direito significa que nenhum indivíduo,

presidente ou cidadão comum, está acima da lei. Os governos democráticos exercem a autoridade por meio da lei e estão eles próprios sujeitos aos constrangimentos impostos pela lei‖ (EMBAIXADA AMERICANA. O Estado

de Direito. Disponível em: <http://www.embaixada-americana.org.br/democracia/law.htm>. Acesso em: 08 Jan.