De acordo com Thompson (2002), a representação das relações de dominação pode ajudar a dissimulá-las ao nos levar a desviar nossa atenção delas ou ao não considerar as relações e processos existentes. Vejamos os exemplos de como esse modo de operação ideológica se manifesta na divulgação debate:
(d) ―As três cidades também figuram na lista dos municípios que mais desmataram a Amazônia Legal, segundo o Ministério do Meio Ambiente‖. (OL-10/09/2011)
(e) ―De acordo com Lacerda, a Justiça costuma dar ganho de causa ao Incra ou até anular as
multas, já que o entendimento dos juízes é o de que o Incra não comete crimes ambientais. ‗O
Incra cumpre a legislação ambiental e não comete crime ambiental. O desmatamento em assentamentos é cometido pelo proprietário ou por quem arrenda a terra. Normalmente, na maioria dos casos, há madeireiros que arrendam vários lotes e até pressionam o pequeno agricultor para desmatar. Ameaçam e matam as lideranças que atrapalham o negócio da madeira. Há pressão do
comércio local, as serrarias, que compram essa madeira. Portanto, não é a política de reforma
agrária que é a causa do desamatamento (sic). E multar o Incra não resolve o problema. A questão é como estancar a derrubada da floresta, que ocorre inclusive em áreas de proteção ambiental‘,
disse Lacerda‖. (AC-15/10/2011)
(f) ―Questionado sobre os impactos ambientais, Carlos Xavier [[presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa)]] afirma que a produção de gado ‗só provoca impacto
positivo‘, uma vez que gera emprego e renda‖. (OL-30/10/2011)
(g) ―‗Temos em evidência a votação do Código Florestal no Senado (que deve acontecer nesta quarta-feira (6) (sic). Aliás, se as modificações da nova lei ambiental não fossem discutidas neste ano, o desmate poderia ser ainda menor, ficando em torno dos 5 mil km²‘, disse o pesquisador
No primeiro exemplo123 do modo dissimulação, no posicionamento do ator do âmbito político, divulgado pelo jornal paraense, identificamos a estratégia típica de construção simbólica deslocamento. A estratégia é construída por meio da atribuição da responsabilidade do desmatamento a três cidades paraenses (Redenção, São Félix do Xingu e Novo Progresso), omitindo, assim, os agentes causadores dessa ação. A apresentação das cidades desmatadoras também é construída de forma a ocultar a prática, como podemos verificar no excerto ―figuram na lista dos municípios que mais desmataram‖, no qual é empregado o verbo ‗figurar‘, que, a nosso ver, no exemplo, é sinônimo de ‗destacar‘, mas não possui a mesma força semântica desse.
No exemplo (e), extraído do jornal do Amazonas, a dissimulação é construída na voz do ator social da esfera ambiental de forma a ajudar a afastar do Incra a responsabilidade pelas ações de desmates em áreas de assentamento, mesmo que algumas das multas, conforme OL-10/09/2011, sejam provenientes de implantação de assentamentos sem a expedição da licença ambiental pelo Ibama. O deslocamento que permite essa dissimulação é apoiado na indicação de outros possíveis culpados. Nesse exemplo, vemos como o controle de poder é operado, por meio do discurso, ajudando a tornar pouco visíveis as falhas na legislação e no controle ambiental que repetidamente resulta em multas, como percebemos em ―Justiça
costuma dar ganho de causa‖, e trocas de acusações entre as duas autarquias, presente em ―E multar o Incra não resolve o problema‖. Wodak (2004) destaca que, por guardarem traços
de diferentes discursos e ideologias que confrontam pelo controle, os textos tendem a ser espaços de lutas. Já Ramalho e Resende (2011) salientam que uma das formas de instaurar e manter a hegemonia é a luta que ocorre no e pelo discurso. Dessa forma, no exemplo em questão, essa luta que se manifesta na divulgação debate ocorre por meio da defesa da legitimidade da ação do órgão ambiental e da indicação de possíveis causadores do desmatamento que o levou a receber as multas.
No exemplo (f), divulgado no O Liberal, a voz do ator do âmbito econômico, por meio da estratégia eufemização, ajuda a dissimular a responsabilidade da atividade pecuarista no problema. A apresentação da expressão ‗impactos positivos‘, em contraposição a ‗impactos ambientais‘ (vide o exemplo (52), na seção 5.2, desta pesquisa), acompanhada de
123
A matéria OL-10/09/2011 é uma ampliação de OL-24/08/2011. Foi feito reaproveitamento total do texto, sofrendo alteração na manchete e na linha fina. Na análise, consideramos a matéria com versão mais completa, nesse caso: OL-10/09/2011.
―uma vez que gera emprego e renda‖ ilustra essa dissimulação, que, inclusive, é reforçada pelo divulgador (ainda que possa se isentar disso), como se percebe no excerto. Nesse sentido, Fairclough (2006, p. 171) destaca que ―incluir discurso relatado - atribuindo uma declaração para os outros [...] é uma forma de reduzir o próprio compromisso sobre isso‖. Além disso, a própria representação da atividade como ―a produção de gado‖ colabora com sua valoração positiva e ajuda a negar sua culpa no problema ambiental, configurando o emprego da estratégia de autoapresentação positiva/outro-apresentação negativa. O desflorestamento, portanto, seria o causador de impactos ambientais, mas a pecuária resultaria em impactos positivos.
Diante disso, Fairclough (2001, p. 41) salienta os postulados de Habermas (1984) quanto à sociedade moderna estar envolta por uma ―colonização progressiva da ‗vida mundial‘ pela economia e estado, envolvendo um deslocamento das práticas ‗comunicativas‘ pelas práticas ‗estratégicas‘, que incorporam uma racionalidade (moderna) puramente instrumental‖. Em adição a esse apontamento, Ramalho e Resende (2011) sustentam que as relações entre diferentes campos da vida social, ao passar por uma reestruturação, resultam em transformações que indicam que os campos sociais (como o político, o educacional, por exemplo) estão sendo colonizados pelo campo econômico.
A hegemonia do discurso econômico em detrimento do problema ambiental é também sustentada por Leff (2007):
colocar em prática princípios e estratégias do ecodesenvolvimento provou ser mais
complexo e difícil que a simples internalização de uma ‗dimensão‘ ambiental dentro
dos paradigmas econômicos, os instrumentos do planejamento (sic) e das estruturas institucionais que sustentam a racionalidade produtiva prevalecente (LEFF, 2007, p. 63).
Nesse sentido, o discurso ambiental que se adéqua ao econômico serve como uma forma de justificar a exploração ou não da floresta, revelando a operação ideológica que ajuda a estabelecer relações de poder através dos meios de comunicação, por meio da socialização de discursos particulares. Nesse contexto, uma vez que ajude a movimentar a economia, o uso da natureza passa a ser justificável, o que ajuda a atenuar e/ou invisibilizar os (e)feitos dessa exploração, por isso, esse discurso serve para dissimular o problema. Por esse meio, as estratégias ideológicas ajudam a sustentar essa relação de poder que tem como fundo o discurso hegemônico do capitalismo.
No exemplo (g), de matéria publicada pelo jornal O Liberal, temos a voz do ator do âmbito ecológico. Em seu posicionamento, o ator comenta sobre a ―queda de 11% do desmatamento anual da Amazônia Legal‖ (vide OL-06/12/2011), anunciada pelo Inpe, destacando que ela poderia ter sido maior, se as discussões em torno do projeto do novo Código Florestal não tivessem ocorrido, em 2011. Dessa forma, a dissimulação ocorre por meio da transferência da responsabilidade pela redução florestal a essa lei ambiental, ocultando a indicação dos agentes por trás dessa lei. No posicionamento, o emprego do advérbio ‗aliás‘ reforça a dissimulação, por meio da reformulação do discurso, que retoma a informação anterior ―o ritmo da derrubada da vegetação permaneceu estável e a queda não significa que a situação está resolvida‖ (vide OL-06/12/2011). A modalização ‗poderia ser
ainda menor‘, com o emprego do verbo auxiliar modal ‗poder‘ e do advérbio ‗ainda‘, dando a
ideia de inclusão, revela o caráter de insatisfação do posicionamento quanto à informação da possível redução do evento. Como podemos notar, a nominalização/passivisação124, respectivamente, ‗modificações‘ e ‗fossem discutidas‘, ajuda a omitir os agentes responsabilizados na dissimulação.
Van Dijk (2012, p. 132 [nota de fim]) destaca que o discurso dos oponentes pode ser utilizado para ―estrategicamente neutralizá-los [ou] simplesmente porque o poder e as ideologias dominantes podem ter mudado, tal como é o caso evidente da ideologia e do
discurso ecológicos‖. Nesse exemplo, vemos que a retomada da informação de que houve
redução do desflorestamento é empregada, dissimuladamente (no sentido da construção simbólica), para demonstrar sua insatisfação, o que pode resultar na neutralização do que seria a ―boa notícia‖.
Na sequência, apresentaremos a análise do modo de operação ideológica unificação e das estratégias ideológicas gerais.