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mars Nr. 330 2007

In document N ORSK L OVTIDEND (sider 82-85)

Tarouca

Maria João Pereira Coutinho

Instituto de História da Arte, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa

A presente comunicação1, que nasce em torno da leitura e interpretação de um conjunto de correspondência trocada entre João Gomes da Silva (1671-1738), 4.º conde de Tarouca, Estêvão de Menezes (1695-1758), 1.º marquês de Penalva, e Fernão Teles da Silva (1698-1763), monteiro-mor do reino, tem como principal objectivo responder à questão do entendimento que a nobreza

portuguesa tinha da sua habitação2. Tais missivas, maioritariamente redigidas pelo conde de Tarouca em Viena de Áustria, entre Abril de 1734 e Abril do ano seguinte, à guarda da Biblioteca Pública de Évora, revelam-se importantes testemunhos, onde o diplomata manifesta o seu conhecimento da arquitectura nacional e estrangeira, bem como um correcto domínio da arte de projectar. As cartas, que respondem a outras de seu filho, Fernão Teles da Silva, correspondem grosso modo ao

entendimento que João Gomes da Silva possuía da construção portuguesa, bem como o

conhecimento que tinha adquirido através dos contactos estabelecidos na corte de Viena, onde veio a falecer em Novembro de 1738.

A riqueza que este espólio encerra centra-se quer na forma, conseguida através do tom profundamente paternal a que se dirige a seu filho, quer no conteúdo, fértil em descrições e

pormenores. As missivas recheadas de referências a conhecidos construtores de Setecentos, como o à data falecido arquitecto régio João Antunes (1642-1712), o arquitecto e entalhador Santos Pacheco de Lima (1684-1768), o italiano António Canevari (1681-1764), um tal de “Messier” (possivelmente uma deturpação de “Monsieur”), o húngaro Carlos Mardel (1696-1763) ou Frederico Ludovice (1673- 1752), são fontes inesgotáveis do pensamento do 4.º conde de Tarouca. Por fim, este legado

manuscrito assume uma importância capital, ao dar uma possível resposta ao enigma que as casas de morada do monteiro-mor, na Calçada do Combro, em Lisboa, também conhecidas em Oitocentos como palácio dos marqueses de Olhão e condes de Castro Marim, suscitam no âmbito da história da arquitectura portuguesa3.

1

O presente estudo, realizado no âmbito da investigação desenvolvida para o projecto do IHA-FCSH/NOVA, PTDC/EAT-EAT/099160/2008, nunca se poderia ter concretizado sem a colaboração de Alexandra Gago da Câmara, Álvaro Tição, Helder Carita, Pedro Flor, Sílvia Ferreira e Susana Varela Flor, a quem muito agradecemos.

2

BIBLIOTECA PÚBLICA DE ÉVORA (Évora), Cód. CX/1-6, n.º 25, ref. por Joaquim Heliodoro da Cunha RIVARA em

Catalogo dos Manuscriptos da Bibliotheca Publica Eborense, Tomo II (Lisboa: Imprensa Nacional, 1869), p. 211.

3

Sobre o edifício vide Paulo Varela Gomes, “O Caso de Carlos Gimach (1651-1730) e a Historiografia da Arquitectura Portuguesa”, in Revista Museu, n.º 5 (1996): 141-156, Fernando Sequeira Mendes, “Palácio do Monteiro-Mor, Bairro Alto, Lisboa: Um raro cenário urbano”, in Revista História (Julho/Agosto de 2000): 33-39.

Vide ainda ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA (Lisboa), Núcleo Intermédio, Processo n.º 45664, ARQUIVO

HISTÓRICO DO TRIBUNAL DE CONTAS (Lisboa), Décima da Cidade de Lisboa, Freguesia das Mercês, Prédios e Arruamentos (1763-1833) e CONSERVATÓRIA DO REGISTO PREDIAL (Lisboa), Freguesia das Mercês, Processo n.º 217.

Os actores: João Gomes da Silva e Fernão Teles da Silva

A figura de João Gomes da Silva, incontornável no que concerne à história diplomática em finais de Seiscentos e inícios de Setecentos, apresenta-se como peça fundamental para a compreensão da visão da arquitectura civil lisboeta desse período cronológico4. Com efeito, e como é sobejamente conhecido, João Gomes da Silva nasce no seio de uma família aristocrática a 21 de Junho de 1671, casa-se com D. Joana Rosa de Menezes, 4.ª condessa de Tarouca, e a sua educação tem a marca indelével de seu pai, D. Manuel Teles da Silva, 1.º marquês de Alegrete. A sua carreira diplomática permite-lhe percorrer a Europa e contactar com importantes artistas da sua época, como aliás já foi notado por Alexandra Gago da Câmara, que revela o seu papel de intermediário na aquisição de azulejaria holandesa por parte de D. Filipe de Sousa, seu cunhado, entre 1712 e 17145. Todavia, a relação afectuosa que mantém com a sua terra natal e a experiência colhida na capital do reino estará sempre presente no seu pensamento e na forma de encarar a produção artística do seu tempo, mormente aquela resultante das empreitadas nas casas da sua família na Mouraria e naquelas que intentou fazer na Cotovia. A essas circunstâncias junta-se ainda a sua capacidade de conceber e riscar, invulgarmente assumida por um nobilitado. Tal circunstância, que já tinha sido notada por Gustavo de Matos Sequeira6, é agora uma evidência, pois nas missivas de que nos ocupamos refere claramente a utilização de várias cores para indicar construções e demolições: “Suposto que nesta minha nova planta haja mudanças no que antes era Oratorio, no escaparate, e no segundo camerim, e no Retrete, sempre podeis hir por agora emendando as paredes do quarto baixo da maneira que eu vos las mandei signaladas com as tres cores, verde, vermelha, e amarela.”7 A sua relação com o arquitecto régio João Antunes, que marcou o seu gosto e conhecimento da arte de projectar e conceber obras de arquitectura civil, terá começado em circunstâncias ainda

desconhecidas. Certo é que a 9 de Outubro de 1697, João Gomes da Silva consta no assento de baptismo de Veríssima, filha de Antunes, como seu padrinho8, e que no ano de 1700 encomenda a esse arquitecto o projecto para um palácio que se deveria erguer em terrenos que possuía na Cotovia9. O acompanhamento da construção terá sido frutífero para ambos, pois alguns anos após a morte de Antunes, o conde de Tarouca continua a louvá-lo pela sua imensa experiência de medidor. Veja-se pois uma das cartas que Estêvão de Menezes, primogénito varão que acompanha seu pai à corte de Viena, redige ao seu irmão, onde refere o seguinte: “ Esta medição, e orsamento ouço a meu Paj que mandavão ahi fazer ordinariamente e que João Antunes executava com facilidade, e

outros.”10

4 Cf. Isabel Maria Araújo Lima Cluny Summavielle, “O Conde de Tarouca e a Diplomacia na Época Moderna” (Dissertação de doutoramento em História e Teoria das Ideias apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Lisboa: 2002), ou a versão editada: Isabel Cluny, O Conde de Tarouca

e a Diplomacia na Época Moderna (Lisboa: Livros Horizonte, 2006).

5

Cf. Maria Alexandra Trindade Gago da Câmara, “‘A Arte de Bem Viver’: A Encenação do Quotidiano na Azulejaria Portuguesa da Segunda Metade de Setecentos”, Vol. I (Dissertação de doutoramento em História da Arte Moderna Portuguesa apresentada à Universidade Aberta de Lisboa, Lisboa: 2000), 422-425.

6

Cf. Gustavo de Matos Sequeira, Depois do Terramoto: Subsídios para a História dos Bairros Ocidentais de

Lisboa, Vol. I (Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, 1967), 63.

7

BPE, Cód. CX/1-6, n.º 25, fl. 34 v.º. 8

ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO (Lisboa), Registos Paroquiais, Baptismos, Freguesia de Nossa Senhora da Pena (Santa Ana), L.º 6B, fl. 160 v.º, ref. por Ayres de Carvalho, D. João V e a Arte do Seu Tempo, Vol. II (Lisboa: Edição do Autor, 1962), 151.

9 Cf. ANTT, Cartório Notarial de Lisboa, n.º 7 A (actual n.º 15), Cx. 81, L.º 430, fls. 88 v.º-89 v.º e L.º 431, fls. 4-6, publ. por Ayres de Carvalho, “Documentário Artístico do Primeiro Quartel de Setecentos, Exarado nas Notas dos Tabeliães de Lisboa” (separata da revista Bracara Augusta, vol. XXVI), Braga (1974): 17.

Quanto à vida de Fernão Teles da Silva, menos conhecida do que a de seu pai, sabe-se que terá nascido a 25 de Setembro de 1698, sendo baptizado a 1 de Outubro desse ano na freguesia do Socorro11 e que se terá casado em 1725 na freguesia das Mercês12 com D. Maria Josefa de Melo (1705-1744), filha de D. Francisco de Melo, monteiro-mor do reino e embaixador extraordinário em Madrid13, e de D. Catarina de Noronha. Aliás, terá sido essa a via para adquirir tal cargo honorífico, cuja carta lhe foi atribuída a 1 de Janeiro de 172814, que inclusivamente lhe terá possibilitado vir a habitar a morada de casas de seu sogro na sobredita Calçada do Combro, assim como vir a possuir uma majestosa quinta no sítio do Lumiar. Acerca de outros pormenores da sua vida pessoal pouco se conhece. Contudo, a sua descendência terá sido assegurada através de vários filhos e filhas15.

Também a sua ligação à irmandade dos Passos da Graça, onde foi provedor entre 1741 e 1742, encontra-se comprovada, dando-nos uma outra perspectiva, mais espiritual, da sua vida16, que abandonou a 2 de Junho de 176317.

O palácio do Monteiro-Mor e as várias propostas de reedificação

O casamento celebrado entre Fernão Teles da Silva e D. Maria Josefa de Melo terá sido o grande passo para a transformação da morada de casas, mais tarde conhecidas por palácio do Monteiro- Mor. Com efeito, anteriormente ao seu matrimónio já se sabia da existência do edificado, por aí habitar, em 1723, D. Catarina de Noronha e sua filha D. Maria Josefa de Melo18, situação que se manteve inalterável até à data do falecimento da última senhora19. O intento de construir um palácio mais moderno, de acordo com os novos tempos, leva assim a que alguns anos após o enlace o filho dos 4.ºs condes de Tarouca inicie obras no edificado, localizado na supramencionada Calçada do Combro, com dilatada vista para as Mercês e para o Loreto, segundo se interpreta na leitura destes documentos. Nos mesmos testemunhos, compreende-se que as casas já tinham sofrido alterações, segundo um plano traçado por Santos Pacheco de Lima, conforme foi posteriormente referido pelo conde de Tarouca: “he indispensavel deitar abaixo as paredes interiores que fabricou Santos Pacheco”20. Tal construção, por motivos que desconhecemos, não deverá ter ficado concluída e, como tal, Fernão Teles da Silva solicita um parecer ao seu pai que, de imediato, dá início a um processo criativo que culminará com plantas e propostas de adaptação do construído. Da leitura da correspondência trocada compreende-se que Fernão Teles da Silva envia para Viena de Áustria cópias das plantas do já referido Messier, de Canevari21 e ainda outras do arquitecto e entalhador

11

ANTT, Registos Paroquiais, Baptismos, Freguesia de Nossa Senhora do Socorro, L.º 5B, fl. 193. 12 ANTT, Registos Paroquiais, Casamentos, Freguesia de Nossa Senhora das Mercês, L.º 2C, fl. 156 v.º. 13

Cf. Ana Leal de Faria, Arquitectos da Paz: A Diplomacia Portuguesa de 1640 a 1815 (Lisboa: Tribuna da História, 2008), 247.

14 ANTT, Chancelarias de D. João V, L.º 72, fl. 111. 15

Francisco José Amaro Luís de Melo (ANTT, Registos Paroquiais, Baptismos, Freguesia de Nossa Senhora das Mercês, L.º 2B (1689-1728), fl. 274 v.º); Maria Catarina (Idem, ibidem, L.º 2B (1728-1746), fl. 9 v.º); Catarina (Idem, ibidem, fl. 17 v.º); João (Idem, ibidem, fl. 25 v.º); Isabel (Idem, ibidem, fl. 33); Luísa (Idem, ibidem, fl. 47 v.º); Teresa Josefa (Idem, ibidem, fl. 56 v.º); Catarina (Idem, ibidem, fl. 66 v.º); José Maria Justino António Luís de Melo (Idem, ibidem, fl. 76); Luís José Maria de Melo (Idem, ibidem, fl. 104 v.º) e António Garcia José Alexandre Luís de Melo (Idem, ibidem, fl. 134 v.º).

16

Vide Pe. Ernesto de Sales, Nosso Senhor dos Passos da Graça (de Lisboa) (Lisboa: Edição do Autor, 1925), 200. 17

ANTT, Registos Paroquiais, Óbitos, Freguesia de Nossa Senhora das Mercês, L.º 02, fl. 162. 18

ARQUIVO HISTÓRICO DO PATRIARCADO, Róis de Confessados, Freguesia de Nossa Senhora das Mercês, ano 1723, s. n.º fl.

19

ANTT, Registos Paroquiais, Óbitos, Freguesia de Nossa Senhora das Mercês, L.º 01 (1622-1831), fl. 88 v.º. 20

BPE, Cód. CX/1-6, n.º 25, fl. 22.

21 Vide Ayres de Carvalho, D. João V e a Arte do Seu Tempo, Vol. II,[...], 368; José Fernandes Pereira, “António CANNEVARI”, in José Fernandes Pereira (dir. de), Dicionário da Arte Barroca em Portugal (Lisboa: Editorial Presença, 1989), 107-108; Vítor Serrão, História da Arte em Portugal: O Barroco (Lisboa: Editorial Presença, 2003), 190-191; António Filipe Pimentel, “António Canevari e a Torre da Universidade de Coimbra”, in AA.VV.,

Santos Pacheco de Lima . Plantas essas que são alvo de uma análise detalhada e consequentemente de duras críticas, a que se seguirá a desconstrução dos projectos. Com efeito, João Gomes da Silva apresenta comentários assertivos ao modo de construir de cada um deles. Acerca da proposta do referido Messier expressa que “ he absolutamente impropria para hum Fidalgo em Lisboa, e somente boa para hum banqueiro em Paris”. Quanto à de António Canevari, diz que “ he tão condenavel, que se não pode ver sem enfado, e indignação […] Foi fortuna para vos que Canavari sahise de Lisboa23“. Por fim, quando menciona Santos Pacheco, refere que a planta de “ Diabos Pacheco he na verdade a couza mais monstruoza que vi fazer a hum Architecto, se he que elle se pode chamar Architecto” e mais adiante caracteriza ainda o artista como pessoa que tem “ geito de ser algum Portuguez serrado, de entendimento grosso, e teimoso”24.

Após refutar as propostas destes três riscadores, através de um verdadeiro desfile de críticas e alvitres, o conde de Tarouca inicia uma autêntica lição teórica sobre o modo de construir, que espelha cabalmente o conhecimento adquirido nas suas muitas deslocações pela Europa. Tal prelecção, que tinha por objectivo dar a conhecer ao seu filho o que de melhor se fazia na então península itálica, França, Inglaterra, Holanda, Alemanha e Espanha, deveria elucidar Fernão Teles da Silva, para que em articulação com o modo de construir português conseguisse levar a bom porto a empresa de erguer uma habitação que apelidou de “huma casa magnifica”. Com efeito, ao redigir o seguinte comentário: “Conforme o documento antigo si fueris Rome, Romano vivito more, deveis edificar na maior parte seguindo o metodo Portuguez, mas isso não impede que emendeis em algumas circunstancias o dito nosso método, reflectindo no que tem de bom, os das outras

naçoens”25, enceta um conjunto de elogios às artes construtivas dos já referidos países. Veja-se pois a alusão ao facto de os italianos construírem vastos palácios, apesar de descurarem algumas

comodidades, à vantagem levada pelos franceses no que às artes decorativas diz respeito,

particularmente aos trabalhos de madeiras aplicadas aos interiores, e à capacidade economicista dos ingleses e holandeses, ao aproveitar os terrenos e rentabilizar os espaços. A estas considerações acrescenta ainda outras menos generosas às construções dos alemães, cuja genialidade só se deve ao facto de chamarem arquitectos italianos, bem como às castelhanas, acerca das quais conclui: “Os Castelhanos não construem nada de bom por nenhum caminho.”26

Contudo, a acção de afamados construtores do seu tempo não termina na novidade da existência de plantas destes artistas. Na segunda carta, compreende-se que Fernão Teles da Silva contactara ainda com Carlos Mardel27, a quem pedira igualmente um parecer sobre a sua obra, o que leva a que seu Artistas e Artífices e a Sua Mobilidade no Mundo de Expressão Portuguesa, Actas VII Colóquio Luso-Brasileiro de História da Arte (Porto: Departamento de Ciências e Técnicas do Património / Faculdade de Letras da

Universidade do Porto, 2005), 49-58; Francisco José Gentil Berger, “Canevari em Portugal”, in Artitextos, n.º 2 (Setembro de 2006): 9-18 e António Filipe Pimentel, “António Canevari e a Arcádia Romana: Subsídios para o Estudo das Relações Artísticas Lisboa/Roma no Reinado de D. João V”, in Teresa Leonor M. Vale (coord. de),

Lisboa Barroca e o Barroco de Lisboa: Colóquio de História da Arte (Lisboa, Livros Horizonte, 2007), 31-47.

22 Vide Ayres de Carvalho, “Novas Revelações para a História do Barroco em Portugal”, in Belas-Artes, n.º 20, 1964, Sílvia Ferreira, A Igreja de Santa Catarina, A Talha da Capela-Mor (Lisboa: Livros Horizonte, 2008), e particularmente de Francisco José Gentil Berger, Lisboa e os arquitectos de D. João V: Manuel da Costa

Negreiros no estudo sistemático do barroco joanino na região de Lisboa (Lisboa: Edições Cosmos, 1994), 277.

23

Trata-se da saída intempestuosa de António Canevari de Portugal, motivada pela querela gerada em torno da obra do Aqueduto das Águas Livres. Cf. Joaquim Oliveira Caetano, “Arquitectos, Engenheiros e Mestres de Obras do Aqueduto das Águas Livres”, in Irisalva Moita (dir. de), D. João V e o Abastecimento de Água a Lisboa (Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1990), 67-100.

24 BPE, Cód. CX/1-6, n.º 25, fls. 2-3 e 22 v.º. 25 Idem, ibidem, fl. 4 v.º. 26 Idem, ibidem, fl. 5. 27

Carlos Mardel encontrava-se próximo de Fernão Teles da Silva, uma vez que também ele vivia na freguesia das Mercês. Tal evidência é comprovada através do baptismo de seu filho João nessa freguesia, a 23 de Julho de 1735, onde consta como filho de Carlos Mardel, natural da Alemanha, e de sua mulher Margarida Mardel,

pai procure saber referências acerca desta personalidade. Tal procura, em terras prussianas, não será feliz, pois o que o conde de Tarouca consegue apurar é que, segundo as suas palavras “Carlos

Martelo [é] falsário, embusteiro, e caluniador”, acrescentando ainda que “Diz o dito Senhor Carlos Martelo que fora aqui Capitão Ingenheiro, e mandando eu examinar isso nos livros do Comissariado que corresponde as nossas vedorias não se acha que tal homem fosse; nem Capitão, nem Official. Informei me com Marinoni28 Mestre deputado, ha muitos annos pello Emperador para os ingenheiros, e este o não conhece. Tambem o Baron Ficher29 nascido aqui, e primeiro Architecto do Emperador não o conhece. Tambem João Lucas30 Architecto do Principe Eugenio, e antigo aqui não o conhece. Porem mandando ouvir nisto a Beduzi31, a quem nunca falei, dis que o conhece mas que não sabe que elle fosse Official, e que não achou nelle nenhuma luz de Architectura Civil”32.

Ainda a propósito da aparente discórdia entre pai e filho sobre a empresa das supra-referidas casas, intervém Estêvão de Menezes, que indica o arquitecto e ourives alemão João Frederico Ludovice como um dos mais capacitados para avaliar a já mencionada fábrica: “Ora, meu Senhor, sem perder mais tempo com rapazes, com ignorantes, e com pataratas, mostraj as Vossas Plantas a homens de juizo, consultaj Architectos que o sejão verdadejramente como Federico, ou outro que tenha feito obra grande; medi; e avaliaj a Vossa, e vede bem ao depois se vos convem fazella porque na vossa idade ja não vaj bem emprender, nem desmajar ligejramente.”33

Quanto à proposta do pai, que, no nosso entender, e cotejando com o remanescente, deverá ter sido parcialmente atendida, ilustra cabalmente o que se desejava à data que deveria ser uma morada de casas nobres34. Sendo o piso nobre aquele que melhor espelha a concepção do conjunto, este deveria apresentar “vinte cinco pessas”, a saber: oratório, sala, treze casas para a Senhora e dez para o Marido. Das inúmeras considerações tecidas, salientamos ainda algumas que nos parecem de suma importância para o cabal entendimento do projecto: a existência de uma escada principal, projectada com treze palmos de largo, que deveria cercar toda a sala e saguão, sem impedir que a entrada nessa divisão se desse pelas habituais antecâmaras e guarda-roupa, e a amplitude do pátio, com tamanho suficiente para serem capazes de voltar nele coches a seis cavalos. Este local deveria ainda possuir “huma fonte, ou gruta de embrechados rústicos” que, no entender do embaixador, não era muito

natural do reino da Irlanda, cf. ANTT, Registos Paroquiais, Baptismos, Freguesia de Nossa Senhora das Mercês, L.º 2B (1728-1746), fl. 56.

28 Trata-se de Johann Jakob Marinoni (1676-1755), astrónomo e matemático da corte de Viena. 29

Nessa data trata-se do arquitecto Joseph Emanuel Fischer von Erlach, filho e discípulo de Johann Bernhard Fischer von Erlach (1656-1723).

30 É seguramente o arquitecto Johann Lukas von Hildebrandt (1668-1745). 31

Trata-se do bolonhês Antonio Maria Nicolau Beduzzi (1675-1735). 32

BPE, Cód. CX/1-6, n.º 25, fl. 19. 33 Idem, ibidem, fl. 31 v.º. 34

Sobre o tema vejam-se as várias edições do congresso internacional “Casa nobre: um património para o futuro”, bem como o projecto em curso A Casa Senhorial em Lisboa e no Rio de Janeiro (sécs. XVII, XVIII e XIX) –

Anatomia dos Interiores (PTDC/EAT‐HAT/112229/2009). Parcelarmente, destacamos ainda: Carlos de Azevedo, Solares Portugueses (Lisboa: Livros Horizonte, 1969), Helder Carita e Homem Cardoso, Oriente e Ocidente nos Interiores em Portugal (Porto: Livraria Civilização Editora, 1983), Helder Carita, Bairro Alto: Tipologias e Modos Arquitectónicos (Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 1994), particularmente o capítulo “Palácios, Edifícios

Públicos e Religiosos”, 63-92, António Filipe Pimentel, “Repercussões do tema do Palácio-Bloco na arquitectura portuguesa”, in Actas del VII Simposio Hispano-Portugués de Historia del Arte (Badajoz: s. ed., 1995), 81-94, Marieta Dá Mesquita, “Metodologias para o estudo do habitar setecentista: o contributo da tratadística e a decifração dos códigos habitativos”, in GEHA.A1, n.º 1 (Julho de 1998): 61-67, João Vieira Caldas, A Casa Rural

dos Arredores de Lisboa no Século XVIII (Porto: Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, 1999),

Maria Alexandra Trindade Gago da Câmara, op. cit., Vol. I, particularmente o capítulo “Arquitectura e quotidiano: a habitação-nobre no termo de Lisboa”, 89-130, e Carlos Franco, “Diversão, Cor e Brilho: as longas noites dos salões da Lisboa setecentista”, in Teresa Leonor Vale, Maria João Pacheco Ferreira e Sílvia Ferreira (coord. de), Lisboa e a Festa: Celebrações Religiosas e Civis na Cidade Medieval e Moderna, Colóquio de História

dispendiosa, a qual deveria ficar em frente à porta, exibindo bela aparência a quem passasse pela Calçada do Combro. Além destes reparos, que seguramente nortearam as escolhas de Fernão Teles da Silva, outros sobressaem nas supracitadas cartas. A sala de sessenta e um palmos “em quadro como o saguão que esta debaixo”, o oratório “vizinho da segunda, e terceira antecamara”, a existência de uma “caza de louvor de trinta palmos, e meio sobre vintasete, a qual na planta vos ha de paresser que he esgonça / erro que eu não fiz jamais / mas os seus três ângulos são perfeitamente

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