A queda das estátuas não se limitou, portanto, a simples apagamentos e substituições de símbolos. Alguns olhares sobre o derrube e a vida “pós-monumental” da estátua de Mouzinho demonstram como também não implicava necessariamente um fim.
Mia Couto escreveu, já nos anos 1980, um breve conto sobre a queda da estátua, com o título “A derradeira morte de Mouzinho”15. A narrativa recorda a fotografia de Ricardo Rangel (Fig. 2). O narrador conta como a queda visualizava o colapso da ordem colonial: “Quando a estátua já terminou a sua queda, por dentro daqueles olhos portugueses [dos colonos], cavalo e cavaleiro continuam a tombar, já sem arte nem aprumo […]. Há um mundo que termina.” Desta forma, a leitura da estátua alterava-se: “pareceu provir [da estátua] um suspiro triste, como se Mouzinho nos confiasse um infinito cansaço de posar para o retrato do mito.” E, noutro lugar: “Afinal, Mouzinho é apenas um nome, um herói contrafeito. As brutalidades da dominação excedem este solitário cavaleiro. Do militar fizeram lenda e era esse artifício que mais magoava.”
No conto, a utilização política do monumento é explicitada, mas também contraposta a uma nova imagem que emerge do mito desfeito. Uma imagem que antes, em cima do pedestal, não seria plausível. Neste sentido, a nova situação no Museu de História Militar implica um claro
reenquadramento da estátua (Fig. 4). Sem o pedestal, sem a escala e o lugar privilegiado do monumento, sem o aparato ritual, a estátua ingressa numa nova hierarquia expositiva, ao mesmo nível que o espectador. E agora o retrato aparece tingido de melancolia – como se o escultor tivesse
15
Mia Couto, “A derradeira morte de Mouzinho,” in Cronicando (Lisboa: Caminho, 1991), 161–163. As citações seguintes são daqui retiradas.
preferido representar não o herói das cargas de cavalaria e da captura do temido Gungunhana, mas antes o romântico cavaleiro, nascido, segundo o próprio, no século errado, e que cedo se suicidou16. Mas esta melancolia de ordem biográfica não pode ser separada de outra, própria das estátuas postas de lado. Estátuas que, lê-se num livro dedicado, precisamente, às memórias de Lourenço Marques, “haviam perdido a cidade” e “clamaram por Justiça, ignorantes da fragilidade da condição humana e da subjectividade da interpretação da história”17. A estátua é, assim, também um
monumento à sua própria queda, memória do império perdido. Tal como a ruína, representa aquilo que já não é – é de certa forma um antimonumento, um espelho quebrado que reflecte o vazio que sobra das fantasias de dominação.
No entanto, as leituras do monumento não se limitam necessariamente a tais alegorias de um passado perdido e irrecuperável. De facto, na Fortaleza de Maputo, estas memórias convivem com a valorização patrimonial, turística e cultural. Uma imagem do fotógrafo moçambicano José Cabral aponta, também, para a possibilidade de leituras menos melancólicas18. A imagem (Fig. 5) retrata o filho do fotógrafo a subir um dos relevos do Monumento a Mouzinho. A persistência e o peso do passado colonial aparecem, na figura da criança, com uma quase íntima proximidade ao presente e ao futuro. Parece que a fotografia nos diz que não é possível despachar a história para o museu, mas que a história, marcando o presente, não o determina, deixando em aberto o futuro. Remete assim para a ambígua esperança do narrador do conto de Mia Couto de que, após a necessária morte simbólica da estátua, o povo moçambicano seria finalmente capaz de construir, a partir das ruínas do passado, o seu próprio futuro, “sem ninguém [lhes] dizer o que fazer”.
A imagem de José Cabral ilustra como a estátua de Mouzinho pode continuar a desempenhar um papel na visualização não só do passado, mas também do presente. Os caminhos das estátuas portuguesas – poder-se-ia responder por fim a António Lopes Ribeiro – não se esgotaram na queda, mas antes abriram-se a novos contextos, olhares e interrogações.
16
Para uma visão histórica (e não mistificada) de Mouzinho de Albuquerque veja-se Aniceto Afonso, “Mouzinho de Albuquerque, o herói dos heróis,” in História de Portugal (Lisboa: Ediclube, 1993), IX: 255–262. 17
José Alves Pereira, prefácio a Memórias de Lourenço Marques: Uma visão do passado da cidade de Maputo, de João Loureiro (Lisboa: Maisimagem, 2004), 2.ª ed., 7.
18
Este fotógrafo está também por laços biográficos ligado à estátua de Mouzinho: é o neto do governador- geral homónimo que em 1935 disponibilizara uma verba avultada no orçamento da Colónia para completar o fundo necessário para a realização do monumento.
Fig. 1 – Composição fotográfica da inauguração do Monumento a Mouzinho de Albuquerque, 1940. Fonte:
Moçambique, Documentário Trimestral 24 (1940)
Fig. 2 – (Não disponível) Ricardo Rangel, “O outro destino dos heróis, 1975”. Fonte: Ricardo Rangel, photographe du
Mozambique (Maputo: Centre Culturel Franco-
Mozambicain, 1994
Fig. 3 – Estátua de Salazar, Biblioteca Nacional de Moçambique, Maputo, 2011. Fonte: Paulo Pires Teixeira / Delagoa Bay
Fig. 4 – Estátua de Mouzinho de Albuquerque, Museu de História Militar, Maputo, 2010. Fotógrafo: Diogo Alves
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21 NOVEMBRO SESSÃO TEMÁTICA 2 – ARTE CONTEMPORÂNEA EM CONTEXTO. ARTE PÚBLICA,
NATUREZA E CIDADE