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Appendix 4.2.4 Map of facies proportion from 1-8 model (Upscaled Well log)
Passaremos agora a discorrer sobre os aspectos metodológicos da pesquisa. No estágio em que a evolução da ciência se encontra hoje, há uma grande variedade de formas de conhecer e produzir conhecimento, contudo é nosso ponto de vista em relação ao homem, à sociedade e ao mundo como um todo que vai orientar a escolha da metodologia e dos métodos que utilizaremos numa pesquisa científica (SATO; SILVA; BATISTA JÚNIOR, 2011).
A presente investigação insere-se na área da Linguística Aplicada (LA) e justifica-se, pois, à LA interessa o enfoque dado a relação entre linguagem, indivíduo e sociedade e, por meio das análises aqui apresentadas podemos entender como se dá a relação entre esses três pilares.
A Linguística Aplicada é um campo relativamente novo no que diz respeito à investigação e produção de conhecimento, tendo seus impulsos iniciais nos anos 1940. A LA passou, ao longo de sua história, por várias reformulações, novos questionamentos e (re) escrituras com o objetivo inicial de se consolidar como uma área relevante na produção de conhecimento e ter suas pesquisas legitimadas e regularizadas perante a comunidade acadêmica e dos pesquisadores. Hoje, a LA se configura como uma área imensamente produtiva, responsável pela emergência de uma série de novos campos de investigação, de novas formas de pesquisa e de novos olhares sobre o que é ciência.
A LA caracteriza-se por ser uma área da ciência que apresenta um caráter transdisciplinar. A transdisciplinaridade relaciona-se, por sua vez, à heterogeneidade e ao dialogismo teórico do campo linguístico aplicado, buscando “criar inteligibilidade sobre [questões] sociais em que a linguagem tem papel central” (MOITA LOPES, 2006, p. 14), em que a linguagem vista como prática social, a sua função e o seu uso por parte de indivíduos ativos tornam-se pontos fundamentais para a LA. Esses pontos são cruciais na produção de charges, pois o chargista torna-se um indivíduo ativo, a partir do momento em que se utiliza da linguagem para expor e denunciar problemas que muitas vezes são implícitos aos olhos da população geral e que tomam contato destes, só após a leitura das charges. Desse modo, tomar a linguagem como prática social e discursiva sugere refletir sobre realidades que são construídas sócio historicamente. Por isso, não podemos separar a pesquisa da vida social, já que estamos lidando com sujeitos e práticas reais de linguagem.
Partindo desse panorama, Moita Lopes (2006) reafirma que deveríamos repensar as diferentes abordagens de teorizar e desenvolver pesquisas em LA, focando a investigação em
contextos sociais aplicados nos quais os sujeitos agem, vivem e interagem, privilegiando reflexões e discussões acerca da compreensão das mudanças sociais, históricas, culturais e políticas que elas experienciam.
Dessa maneira, a presente pesquisa situa-se no âmbito da LA dialógica e transdisciplinar, procurando compreender como o gênero charge, a partir de sua relação com o interdiscurso e com as técnicas de humor utilizadas, funciona e constitui-se. Além disso, o trabalho busca analisar a língua não pelo seu caráter homogêneo, sistemático e abstrato, mas pelo seu caráter heterogêneo e consequentemente dialógico. É importante esclarecer também que a LA não trabalha com categorias a priori, então é a partir do contato que o analista tem com seu corpus e objeto de pesquisa que as “categorias de análise” vão surgindo. Outro ponto que a LA propõe e que torna-se norteador para nossa pesquisa diz respeito a interrogação que deve ser feita acerca da relevância social da temática e do objeto geral de nossos estudos, tendo em vista os atores sociais que vivenciam as práticas envolvidas no fenômeno a ser focalizado (MOITA LOPES, 2006).
A pesquisa é qualitativa de natureza interpretativista. O interesse central de todas as pesquisas nesse paradigma é o significado humano da vida social e a sua elucidação e exposição pelo pesquisador, é exatamente isso que buscamos realizar com este trabalho, expor como os significados e significações da vida social podem ser representados por meio de um gênero discursivo, visto que na charge os significados são construídos pelo seu autor e também pelo leitor que (re) interpreta o mundo a sua volta, fazendo com que não haja uma realidade única, mas sim várias realidades. Portanto, não nos encaixamos em uma perspectiva situada em práticas a serem investigadas no vácuo social, baseada em um sujeito a-histórico isento às práticas discursivas em que atua e que o constituem.
Este tipo de abordagem metodológica difere-se da quantitativa, uma vez que,
explora as características dos indivíduos e cenários que não podem ser facilmente descritos numericamente. O dado é frequentemente verbal e é coletado pela observação, descrição e gravação (CALEFFE; MOREIRA, 2008, p. 73).
A pesquisa qualitativa não busca enumerar ou medir eventos, e geralmente não se utiliza de instrumentais estatísticos para análise dos dados. Dela faz parte à obtenção de dados descritivos mediante contato direto e interativo do pesquisador com seu objeto de estudo. É uma pesquisa em que o pesquisador desenvolve ideias e entendimentos a partir de padrões encontrados nos dados, ao invés de coletar dados para comprovar teorias, hipóteses e modelos
pré-concebidos. Assim, nesta investigação não coletamos dados e sim os geramos pelo filtro da seleção e interpretação.
Então, nossa pesquisa justifica-se nesse ambiente, tendo em vista que os dados coletados são verbais e não procuramos realizar com estes uma análise estatística. É nosso interesse descrever e interpretar as relações interdiscursivas presentes nas charges através da interpretação dos vários significados que o constituem em uma tentativa de compartilha-los com outros. Não padronizamos os dados e sim os interpretamos.
Temos aqui ainda uma pesquisa do tipo documental, pois nosso corpus está restrito a documentos escritos. Esse tipo de pesquisa é um procedimento que se utiliza de métodos e técnicas para a apreensão, compreensão e análise de documentos dos mais variados tipos. A riqueza de informações que podemos extrair e resgatar dos documentos justifica o seu uso nas áreas das Ciências Humanas e Sociais porque permite expandir o entendimento de objetos cuja compreensão necessita de contextualização histórica e sociocultural. Para Caleffe e Moreira (2008) os passos para a realização de uma pesquisa documental são os seguintes: a) determinar os objetivos da pesquisa, o que já foi feito; b) escolher os documentos, que nesse caso são as charges; c) acessar os documentos; d) analisar os documentos e e) redigir o relatório. Nessa investigação, seguiremos os passos sugeridos.
3.2 Considerações metodológicas em AD
Não podemos deixar de mencionar algumas considerações metodológicas da Análise do Discurso, já que o trabalho é desenvolvido sob essa perspectiva. A AD instaura um objeto-linguagem diferente daquele da linguística tradicional, porque mesmo pressupondo o linguístico, a AD considera o ideológico inscrito no objeto de análise. Trabalhando com um objeto inscrito na relação da língua e da história, é através da análise dos processos discursivos que podemos chegar aos efeitos de sentido no discurso e é exatamente a língua o lugar material onde se realizam os efeitos de sentido. Assim, a Análise do Discurso, “procura compreender a língua fazendo sentido, enquanto trabalho simbólico, parte do trabalho social geral, constitutivo do homem e da sua história” (ORLANDI, 2000, p. 15).
É importante enfatizar, que é a partir dos procedimentos de análise que os princípios metodológicos vão sendo produzidos, em um movimento contínuo entre teoria e prática. Decorre disso o fato de não se considerar na AD a existência de um modelo pronto, mas que se constrói na medida em que o corpus vai sendo analisado. Para Orlandi (1999), a AD não é
um nível diferente de análise, mas um ponto de vista diferente, e nessa perspectiva pode-se trabalhar tanto com palavras quanto com sentenças ou períodos, sob o enfoque do discurso.
Para uma melhor compreensão, apresentamos a noção de texto na AD. Em uma análise discursiva, é preciso entender a noção de texto enquanto unidade de análise, porém, isso não é suficiente, o texto precisa ser compreendido como unidade complexa de significação e efeitos de sentidos, considerando as condições de sua produção e realização. O texto pode ter qualquer extensão, desde uma simples palavra até um conjunto de frases, o que o define não é sua extensão, mas sim o fato de que é uma unidade de significação relacionada a uma determinada situação, seja esta específica ou ampla. Assim, essa questão remete para o que foi dito anteriormente: para a AD, não existe um modelo que se aplique automaticamente a qualquer discurso. A análise de um discurso específico (como nesse caso – o humorístico) partiu da delimitação de um corpus discursivo que tem como ponto de partida um universo discursivo.
Para Maingueneau (1997) os objetos que interessam à Análise do Discurso, correspondem de forma bastante satisfatória, ao que frequentemente se chama de formações discursivas12. Nesta perspectiva, o autor afirma que,
não se trata de examinar um corpus como se tivesse sido produzido por um determinado sujeito, mas de considerar sua enunciação como o correlato de uma certa posição sócio-histórica na qual os enunciadores se revelam substituíveis . Assim, nem os textos tomados em sua singularidade, nem os corpus tipologicamente pouco marcados dizem respeito verdadeiramente à AD (1997, p. 14).
É necessário também que articulemos a Análise do Discurso com a Linguística Aplicada, esse ponto de encontro se dá especialmente no que se refere ao “descortinamento” das relações de poder que ocorrem a todo momento na sociedade e nas diversas práticas discursivas que se desenvolvem. No caso das charges da nossa pesquisa, podemos apreender a relação de embate entre o governo municipal e a população insatisfeita com a gestão da prefeita Micarla de Sousa. Ao se situar a linguagem como prática discursiva, adiciona-se aos estudos da Linguística Aplicada (LA) a dimensão do olhar crítico e atento às relações de poder de que o texto se torna plataforma, graças à materialidade histórica da linguagem através do discurso. A análise da discursividade da linguagem se dá por meio dos vestígios e
12 O conceito de formação discursiva é fundamental na AD. Michel Foucault (1969) entende por formação
discursiva um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço que definiram em uma época dada, e para uma área social, econômica, geográfica ou linguística dada, as condições de exercício da função enunciativa.
pistas que constituem os sujeitos e a produção de sentidos, na historicidade do texto, na tentativa de resgatar os trajetos ideológicos que marcam e permeiam as palavras, o que sem a menor sombra de dúvida constitui escopo tanto da Linguística Aplicada como também da Análise do Discurso (AD) que se ocupará do discurso como sempre determinado e constituído na sua relação com a história.