• No results found

Map of facies proportion from 1-8 model (Well log)

TCU Layer

Appendix 4.2.3 Map of facies proportion from 1-8 model (Well log)

É cada vez mais evidente no universo acadêmico o interesse de se trabalhar com gêneros humorísticos, dentre eles podemos citar: a charge, a tirinha, o cartum e as histórias em quadrinhos, que pertencem ao mesmo campo discursivo – o humorístico, entretanto apresentam características peculiares que os diferenciam11.

Ao falar sobre charge não podemos deixar de tocar na questão do humor, tendo em vista que é um gênero, que visa causar uma crítica por meio desse recurso. O humor é uma condição humana e manifesta-se numa dimensão linguística e discursiva. E ainda que não se encontre em todas as manifestações discursivas, necessariamente, passa pela linguagem (MUNIZ, 2013). Há quem diga que a capacidade de compreender e procurar solucionar as estruturas linguísticas, sociais e culturais que compõem o humor é uma das poucas e valiosas qualidades que nos diferenciam dos outros seres vivos.

A Análise do Discurso de Escola Francesa, graças aos estudos fundadores de Michel Pêcheux na década de 1960, aliados posteriormente às pesquisas de Michel Foucault e Mikhail Bakhtin, ensejaram novos e arrojados rumos aos estudos da linguagem, descerrando inúmeras perspectivas temáticas antes deixadas de lado, talvez por falta de um aparato investigativo e metodológico adequado. Dentre esses temas, identificamos o discurso humorístico nas charges, discurso que passa, então, a ser veículo de discussões sérias e de grande relevância para a sociedade, muito embora essas se deem em meio a um tom humorístico, tão característico do gênero chargístico.

O humor pode ser entendido como uma ferramenta social, pois descortina aquilo que poderia estar encoberto pelos discursos considerados sérios. De acordo com Brait (2008, p. 17) o discurso humorístico “possibilita o desnudamento de determinados aspectos culturais, sociais ou mesmo estéticos, encobertos pelos discursos mais sérios e, muitas vezes, bem

10 Disponível em: http://chargeseilustracoes.blogspot.com.br/. Acesso em: 15/10/2013.

menos críticos”. Ele desmascara assuntos e trata de temas tabus que se instauram histórico- socialmente, esses temas muitas vezes não podem ser tratados da mesma maneira em outros campos discursivos, como por exemplo, o religioso, o científico ou o político. É como se existisse uma espécie de contrato entre a sociedade e o campo humorístico para que a charge possa tratar de determinados assuntos polêmicos.

O discurso humorístico aborda um sem número de questões que se relacionam direta ou indiretamente com temáticas e polêmicas sociais e culturais as mais diversas: políticas, religiosas, as de natureza moral e/ou ética, costumes, tradições, valores, dogmas, tabus, preconceitos e estereótipos. Esses últimos, por sua vez, são atravessados por discursos que se sobrepõem a outros discursos, trazendo à margem do dito coisas que se ditas fora da esfera da piada ou do campo humorístico causaria uma gama muito vasta de problemas num mundo onde a tirania do politicamente correto goza de certo prestígio.

Conforme assevera Possenti (2010), o texto humorístico não inova naquilo que se refere à sua pauta temática, haja vista que todo dito é um já-dito, e o humor está permanentemente visitando discursos que já são contemplados nos círculos populares. Entretanto, não se pode deixar de perceber que há sim uma inovação na forma como esses discursos são tratados na dinâmica chargística, no acontecimento de sua volta (FOUCAULT, 1996). É graças a essa possibilidade que a charge proporciona tratar de temas social e culturalmente tidos como “delicados” e contundentes, vemos no contexto chargístico a abordagem de questões consideradas polêmicas como pedofilia na Igreja, corrupção e escândalos políticos, homossexualismo e religião etc., temas que o humor parece amortecer o tenso, pesado e forte impacto que eles teriam se outra fosse a forma de tratamento.

A forma como os discursos se constituem no processo sócio-histórico e cultural espalha as marcas desse percurso, marcas que se materializam nos valores que caracterizam uma dada sociedade e que se emaranham ideologicamente através do discurso, por meio de tudo que é efetivamente dito e até nas razões que levam algo a não ser dito. Orlandi (2001), na sua definição de discurso enquanto efeito de sentido entre interlocutores em uma dada situação histórica, foca nesse processo de constituição do discurso, de modo que nos ajuda a entender, inclusive, como o discurso humorístico se estrutura ao romper certas regras socioculturais que, veladamente ou não, determinam o que pode e o que não pode ser dito. Dessa forma, o discurso humorístico:

[...] como qualquer outro, traz as marcas sócio-históricas – as diversas manifestações culturais e ideológicas, valores arraigados que nele se manifestam e, por isso, ele não deve ser entendido apenas como um

instrumento de diversão; o que nele está sendo dito não pode ser simplesmente ignorado (FOLKIS, 2004, p. 01).

É interessante notar como os tabus, preconceitos e valores que assinalam as dinâmicas culturais de uma dada sociedade incidem sobre o campo humorístico. Nessa dinâmica, é permitido ao discurso humorístico abordar os mais inquietadores assuntos e temas, seja qual for a sua complexidade, ensejando ao enunciador que se vale do humor não ser equiparado ao objeto em questão, mas desde e somente que isso leve ao riso. Foucault (1996) pontua esse fato ao afirmar:

que não se tem o direito de dizer tudo, que não se pode falar de tudo em qualquer circunstância, que qualquer um, enfim, não pode falar de qualquer coisa, a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório (1996, p.8-9).

O campo humorístico funcionaria, então, como um amortecedor dessas tensões sociais e proibições, permitindo que o proibido seja dito e bem recebido a partir do riso e da comicidade. Assim, faz parte da natureza do discurso humorístico, através do seu efeito cômico que promove o riso, abordar tudo aquilo que, via de regra, não seria discutido ou debatido abertamente, sem causar certa e indisfarçável tensão.

Saliba (2002, p. 18), por sua vez, pontua que “o humor constitui uma forma de representação privilegiada da história das sociedades”, na medida em que levanta o véu que antes ocultava todo um vasto cenário de preconceitos, valores, tabus, proibições, interdições, que se materializam nos diversos gêneros humorísticos do campo do humor: piadas, charges, tiras, comédias, sátiras etc., inclusive evidenciando suas modificações através dos tempos.

Aristóteles em seu livro “As partes dos animais”, já afirmara a célebre frase “o homem é o único animal que ri”, é próprio do ser humano rir e fazer rir. O riso já foi e ainda é estudado por inúmeros pesquisadores. Articulando seu pensamento e lançando as bases da psicanálise, Freud (1977) se aprofunda na dinâmica do inconsciente, enquanto uma estrutura que nos comanda de forma muito complexa e sutil, e encontra no chiste (riso) uma forma de a mente promover prazer à revelia de discursos repressores sócio-culturais:

Se não solicitamos nosso aparato mental no momento de prover uma de nossas satisfações indispensáveis, permitimos-lhe operar na direção do prazer e procuramos derivar prazer de sua própria atividade. Suspeito que em geral é essa a condição que governa toda a ideação estética, mas sei muito pouco de estética para tentar expandir o assunto. No que concerne ao

chiste, entretanto, posso afirmar (...) que se trata de uma atividade que visa derivar prazer dos processos mentais, sejam intelectuais ou de outra espécie (1977, p. 115).

Freud (1977) pontua certa dinâmica social na produção inconsciente do humor ou processo humorístico, nos seguintes termos:

Há duas maneiras pelas quais o processo humorístico pode realizar-se. Ele pode dar-se com relação a uma pessoa isolada, que, ela própria, adota a atitude humorística, ao passo que uma segunda pessoa representa o papel de espectador que dela deriva prazer; ou pode efetuar-se entre duas pessoas, uma das quais não toma parte alguma no processo humorístico, mas é tornada objeto de contemplação humorística pela outra (1977, p. 67). O autor questiona se o chiste resulta de mera técnica cujo objetivo é propriamente o riso ou se o pensamento que o veicula gera o prazer que o caracteriza e resulta no riso. Essa divisão propõe que as piadas causem o riso puramente pelas técnicas ou formas como são expressas (deslocamento, jogos de palavras etc.) ou por causa de uma tendência, o que pode ser entendido como um fim ou propósito da piada, no caso, fazer rir, como no caso dos sonhos que realizariam, dentre tantas coisas explicadas por Freud, um desejo inconsciente. Inegável, porém, que tanto num caso como no outro, o prazer se materializa como marca inconteste do humor de quem ri.

Bergson (1993) tem uma proposição trinitária interessantíssima quanto ao riso: a comicidade não se opera fora do que é propriamente humano; não se pode descartar certa insensibilidade que se liga o riso, e o riso sempre exige uma participação de uma outra inteligência que o entenda, já que “o nosso riso é sempre o riso de um grupo” (ibidem, p.16). Esse entendimento de Bergson, ao localizar a importância do riso na esfera social e resultante de suas relações, confere ao cômico e ao humor uma verdadeira função social muito assemelhada àquela necessidade freudiana do riso como catártico e elemento redutor de discursos de autoridade. O autor afirma que:

Para compreendermos o riso, temos de o repor no seu meio natural, que é a sociedade; temos sobretudo de determinar a sua utilidade de função, a sua função social. Eis, digamo-lo desde já, a ideia de diretriz de todas as nossas indagações. O riso deve dar a resposta a certas exigências da vida em comum. O riso deve ter uma significação social (BERGSON, 1993, p.17).

Bergson (1993, p. 3) explica que mesmo quando rimos de uma paisagem, de um animal ou até de um objeto como um chapéu, fazemos isso porque flagramos

inconscientemente, nessas coisas, algo de humano, seja devido à “semelhança com o homem, à marca que o homem lhe imprime ou ao uso que o homem lhe dá”.

O estudioso russo Mikhail Bakhtin também teorizou sobre o riso. Tratou do riso no contexto da Idade Média e Renascença através da carnavalização literária na obra de François Rabelais, chamando a atenção para a “alegre relatividade de tudo” (1999, p. 125). Neste trabalho, Bakhtin considera o riso como o elemento mais emblemático da cultura popular medieval e renascentista, principal instrumento de manifestação de uma cosmovisão carnavalesca. Observando o carnaval, entre os séculos XIV e XVI, ele o compreende como a afirmação festiva e ritual da relatividade do mundo, marcado por elementos como o livre contrato familiar entre os homens, a excentricidade, as alianças e a profanação (BAKHTIN, 1997). A partir desses estudos, Bakhtin conclui que o riso carnavalesco da Idade Média e Renascimento é um riso do povo, em que todos riem, além disso, é geral, universal e ambivalente, universal porque o mundo inteiro parece cômico e é percebido e considerado em seu aspecto jocoso, ambivalente porque nega e afirma, amortalha e ressuscita simultaneamente (1997).

Outro estudioso que também dedicou-se ao estudo do riso foi Vladimir Propp. Em seu trabalho “Comicidade e Riso”, PROPP (1992) parte da concepção de que não é possível estudar comicidade fora da psicologia do riso e da percepção do cômico. Para ele, a comicidade acontece devido a uma contradição entre a forma e conteúdo, aparência e essência. A contradição costuma estar associada ao descobrimento de defeitos, segredos, daquele ou daquilo que suscita o riso.

A partir do pressuposto de que o riso e o cômico não são abstratos, pois o riso faz parte do comportamento humano e o homem é o único ser com capacidade de rir de algo que seja humanamente ridículo, PROPP (ibidem) cita três casos em que o riso surge a partir da manifestação repentina de defeitos ocultos: pode ser algum defeito encontrado no corpo, pode ser pela semelhança, quando vemos duas pessoas iguais, pensamos que elas não têm diferenças internas, ou pode ser pela diferença, uma particularidade ou estranheza que distingue uma pessoa do meio em que vive.

Para ele existem vários tipos de riso, o riso bom, maldoso, cínico, alegre, entre outros que surgem quando são observados defeitos no mundo em que o homem vive e atua. No entanto, o riso de zombaria é o aspecto que está permanentemente ligado à esfera do cômico e é esse tipo o que mais se encontra na vida e dentre as coisas que podem suscitar o riso no ser humano a mais comum e natural é rir daquilo que é ridículo, podem ser ridículos o rosto de uma pessoa, sua silhueta e até os movimentos. Algumas vezes é o próprio indivíduo que

revela inconscientemente os lados cômicos de sua natureza, mas em outros casos quem zomba o faz propositalmente (PROPP, 1992).

O autor explica que as condições para suscitar a comicidade são, primeiramente, quem ri tem pelo menos uma noção das exigências morais da natureza humana, algumas concepções do que seja justo e correto, e, por último, quando rimos é porque encontramos no mundo algo que contradiz o que consideramos certo dentro de nós, ou seja, algum defeito no mundo.

Reafirmando a ideia de que o cômico está intimamente relacionado aos textos humorísticos Propp coloca que:

Para resolver o problema da comicidade não podemos nos limitar à obra dos clássicos e aos melhores exemplos do folclore. Foi necessário conhecer a produção corrente das revistas humorísticas e satíricas, incluindo-se os folhetins publicados em jornais. As revistas e a imprensa refletem a vida cotidiana (1992, p. 17).

Após a apresentação dos estudos realizados acerca do riso, discorremos sobre a possibilidade do discurso humorístico ser um campo discursivo.

Será que o discurso humorístico pode mesmo ser considerado como um campo discursivo, assim como temos o campo discursivo religioso, político e científico? As considerações do estudioso da linguagem Sírio Possenti (2010) apontam para o sim. De acordo com Muniz (2013) a noção de campo esteve inicialmente ligada a Pierre Bourdieu (1998), seus estudos eram voltados para determinadas regras que os membros de um campo tinham que seguir.

Na Análise do Discurso francesa, quem mais se debruçou sobre esse conceito foi Dominique Maingueneau, propondo a noção de campo discursivo. Para ele o campo discursivo é “um espaço no interior do qual interagem diferentes “posicionamentos”, fontes de enunciados que devem assumir os embates impostos pela natureza do campo, definindo e legitimando seu próprio lugar de enunciação” (2010, p. 50), portanto, essa noção está intrinsicamente relacionada a de posicionamento. Determinado indivíduo só pertencerá a um campo específico se cumprir certos princípios e adotar certos posicionamentos que o legitimem nesse segmento da sociedade, por exemplo, para que uma pessoa possa se enquadrar no campo discursivo do humor, ele precisa produzir algum gênero discursivo humorístico, possuir um senso crítico, publicar seus trabalhos em jornais, em livros ou na internet, participar de eventos que façam parte desse universo, etc.

De acordo com Possenti (2010), mesmo sabendo que há procedimentos relativamente claros, embora instáveis que caracterizam cada campo é preciso compreender estes como sendo internamente heterogêneos, por exemplo, no campo filosófico em que se tem diversas escolas ou ainda no literário em que tendências vão e voltam ao longo do tempo.

Comparando por analogia o humor e a literatura, Possenti (ibidem) propõe alguns traços que podem definir o humor como um campo discursivo: primeiramente temos as práticas do sujeito: os humoristas não se formam assim como os médicos ou advogados, humor não se aprende na escola ou até mesmo na universidade, esses autores podem surgir em qualquer espaço e ter outras atividades que podem ser próximas da profissão de humorista, é o caso do autor das charges selecionadas para a pesquisa, ele não produz apenas charges, mas cria também tirinhas e não trabalha somente no jornal onde publica suas charges, mas atua também como ilustrador freelancer.

Um segundo elemento definidor é o tema (assunto que o campo humorístico aborda), o humor trata de qualquer assunto e inclusive luta para que nenhuma proibição possa atingir suas produções. Este tenta fugir do “controle do politicamente correto” (2010, p. 175) por defesa de funções e práticas específicas. As charges que compõem o corpus confirmam essa concepção, pois elas abordam assuntos variados no tocante a cidade do Natal, a questão do lixo nas ruas, dos buracos nas estradas, da destruição do calçadão de Ponta de Negra, da saída de Micarla de Sousa da prefeitura de Natal, entre outros, inclusive, mesmo que implicitamente traz à tona temas tabus, ou seja, aqueles que não podem ser tratados de qualquer maneira e por qualquer um, uma vez que geram na sociedade preconceito de indivíduos e/ou grupos políticos, frequentemente charges trabalham com negros, homossexuais, com religião e principalmente com a política.

O terceiro traço são os modos de enunciação (os gêneros preferenciais do campo humorístico). O humor é um campo agregador de vários gêneros. Em suas palavras:

O humor, como a literatura, é um campo em que se praticam gêneros numerosos, da comédia à charge, passando pelas “crônicas” e narrativas, histórias em quadrinhos, tiras, pelas piadas e pela exploração humorística de numerosos outros tipos de textos (provérbios alterados, pseudoaforismos), “comédias em pé”, programas de rádio e televisão... Além de os gêneros humorísticos serem muito numerosos, pode haver manifestações humorísticas no interior de todos os tipos de texto (dos tratados aos ensaios, da Bíblia aos romances) (POSSENTI, 2010, p. 175).

As charges dentro de sua composição fazem uso de paródias de músicas de outros autores, mas o que se destaca nos modos de enunciação do campo humorístico é a utilização

de uma técnica. Mais adiante nas análises poderemos observar que nas charges estão presentes diferentes técnicas linguísticas e discursivas, como a paródia, o rebaixamento do outro, a ironia e o deslocamento. Consideramos ainda o fator da profissionalização e mercantilização do humor, o que possibilita a expansão, favorecendo também sua legitimação como campo discursivo.