4 Data Preparation and Result .1 Data Preparation .1 Data Preparation
7.1 Facies Classification
A noção tradicional de gênero foi inicialmente elaborada no âmbito de uma poética, de uma reflexão sobre a literatura e só recentemente ela se estendeu a todos os tipos de produções verbais. É cada vez mais explícita, nos dias atuais, a atitude de dar visibilidade aos gêneros, compreendê-los e analisá-los em sua especificidade nos vários campos sociais. Portanto, uma vez que temos como objeto de análise a charge, não poderíamos deixar de discutir sobre essa questão, tendo como embasamento teórico a Análise do Discurso Francesa e mais precisamente as contribuições do estudioso Dominique Maingueneau.
A noção de gêneros figura desde os estudos de Platão e Aristóteles, e foi a partir dos escritos bakhtinianos que esse tema obteve relevância a ponto de gerar mudanças nos estudos sobre a língua e, consequentemente, no ensino nas escolas. Exporemos assim, a título de
apresentação e contextualização alguns pressupostos teóricos sob o viés dos escritos de Mikhail Bakhtin. Bakhtin (2003) concebe que cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados denominados de gêneros do discurso. Esses enunciados vão diferenciando-se, ampliando-se e variando à medida que a própria esfera desenvolve-se e fica mais complexa. Nesse sentido, os gêneros do discurso apresentam uma extrema heterogeneidade, uma vez que, são fluídos, plásticos e dinâmicos.
Perante tamanha heterogeneidade, Bakhtin (ibidem) investiga os gêneros denominados de primários (simples) e secundários (complexos). Os gêneros primários são os que estão engendrados por ideologias do cotidiano, enquanto que os gêneros secundários estão atravessados por ideologias sistematizadas. Sendo assim, os gêneros primários constituem-se na comunicação discursiva imediata estando mais voltados para a oralidade (mas não restritos a ela), enquanto que os gêneros secundários aparecem nas condições da comunicação cultural mais complexa, organizada e geralmente escrita (mas não restrito a ela). Para Bakhtin, “os gêneros secundários do discurso – o romance, o teatro, o discurso científico, o discurso ideológico, etc., - aparecem em circunstancias de uma comunicação cultural, mais complexa e relativamente mais evoluída principalmente escrita: artística, científica, sociopolítica.” (BAKHTIN, 2003, p. 281).
A noção de gênero do discurso é algo inerente à linguagem, à sociedade, o homem se comunica através de gêneros discursivos, por isso o autor nos diz que:
a vontade discursiva do falante se realiza antes de tudo na escolha de um certo gênero de discurso. [...] Falamos através de determinados gêneros do discurso, isto é, todos os nossos enunciados possuem formas relativamente estáveis e típicas de construção do todo. [...] Esses gêneros do discurso nos são dados quase da mesma forma que nos é dada a língua materna, a qual dominamos livremente até começarmos o estudo teórico da gramática. A língua materna – sua composição vocabular e sua estrutura gramatical – não chega ao nosso conhecimento a partir de dicionários e gramáticas mas de enunciações concretas que nós mesmos ouvimos e nós mesmos reproduzimos na comunicação discursiva viva com as pessoas que nos rodeiam. (BAKHTIN, 2003, p. 282-283)
Bakhtin esclarece ainda que as esferas sociais podem ser entendidas como, por assim dizer, um princípio organizador dos gêneros do discurso, à medida que tais esferas produzem enunciados com seus temas e estilos específicos que, por conseguinte, lhe são próprios.
A charge é, consequentemente, um gênero do discurso, já que dispõe em sua estruturação, de certa estabilidade, com características que se destacam quando analisadas e,
dentre algumas, destacamos: a presença do elemento não-verbal, a ironia, a crítica a um personagem ou a um fato político e o humor.
Já na perspectiva da Análise do Discurso francesa, que é a perspectiva em que iremos nos ater, Maingueneau (2001, p. 61) caracteriza os gêneros do discurso como sendo “dispositivos de comunicação que só podem aparecer quando certas condições sócio- históricas estão presentes”, ou seja, são dispositivos sociais de enunciação do discurso. É uma realidade empírica resultante da articulação entre a organização textual e o fenômeno social. Partindo dessa concepção, entende-se que não é suficiente apenas buscar a organização textual em si mesma, como um objeto acabado, e nem de considerar a situação de comunicação apenas como uma moldura, ou seja, sem nenhuma influência direta sobre os gêneros, mas sim de ressaltar sua íntima associação e interinfluência.
Para cada texto está implicada uma atividade enunciativa ligada a um gênero do discurso, por isso Maingueneau afirma que “todo texto pertence a uma categoria de discurso, a um gênero de discurso” (2001, p. 59). Os gêneros de discurso não podem ser considerados como formas que se encontram à disposição do locutor a fim de que este molde seu enunciado nessas formas, trata-se, na realidade, de atividades sociais que, por isso mesmo, são submetidas a um conjunto de condições de êxito. Assim, para conceber um determinado texto como sendo um gênero, é necessário compreender a constituição dessas condições, que para Maingueneau (2001, p. 66-68) envolvem elementos de ordens diversas, que são:
1. Uma finalidade reconhecida: todo gênero de discurso visa a um certo tipo de modificação da situação da qual participa. O nosso objeto de estudo – a charge – tem por objetivo, criticar por meio do humor um fato ou acontecimento atual. A determinação correta dessa finalidade é indispensável para que o destinatário possa ter um comportamento adequado ao gênero de discurso utilizado.
2. O estatuto de parceiros legítimos: nos diversos gêneros do discurso, já se determina de quem parte e a quem se dirige a fala. Na charge, o chargista a produz e a dirige para o leitor do jornal.
3. O lugar e o momento legítimos: todo gênero de discurso implica um certo lugar e um certo momento, não se trata de coerções externas, mas de algo constitutivo. Por tratar exatamente de fatos atuais (um acontecimento discursivo específico), a charge se refere a um momento específico e particular, e por isso apresenta uma validade fechada.
4. Um suporte material: o que se chama “texto” não é um conteúdo a ser transmitido por este ou aquele veículo, pois o texto é inseparável de seu modo de existência material. No caso da
presente charge, o suporte material é o jornal, mas precisamente o jornal “Tribuna do Norte”, contudo estas também podem ser encontradas em revistas, livros didáticos e na internet. 5. Uma organização textual: todo gênero de discurso está associado a uma certa organização textual que cabe à linguística textual estudar. Existem os gêneros que apresentam uma organização textual flexível, como é o caso de uma conversa familiar, e aqueles que apresentam certa rigidez na sua organização, como é o caso da charge, que é organizada por meio da articulação do texto verbal (pequenas frases e falas) e do não verbal, que são as imagens (na maioria das vezes caricaturas).
As condições de êxito estabelecidas por Maingueneau correspondem às considerações formuladas por Bakhtin para o estudo da língua, encarando os gêneros do ponto de vista do discurso, onde a metodologia enfatiza exatamente a existência histórica da língua e segue os passos a seguir (1995, p.126-127): a) estudar as formas da língua e as situações de interação verbal a partir das condições sociais em que se realizam essas formas e essas situações; b) investigar as formas dos diferentes enunciados em ligação com a situação de interação de que constituem seus elementos; c) examinar, a partir daí, as formas da língua na sua interpretação habitual.
As relações sociais evoluem, a comunicação e a interação verbais evoluem no quadro das relações sociais e as formas dos atos de fala evoluem em consequência da interação verbal, disso resulta a mudança das formas da língua.
Entendendo que, a partir do momento em que vários textos se submetem a um conjunto de coerções comuns é que há gêneros e que estes variam segundo os lugares e as épocas, compreende-se assim, que a lista dos mesmos é, por definição, indeterminada. Portanto, é dever do analista definir, em função de seus objetivos, os recortes genéricos que lhe parecerem pertinentes.
A explicitação das condições genéricas e das cenografias não representa uma finalidade para a AD. Estas apenas constituem coerções por ela integradas a priori com o objetivo de analisar outras coerções referentes à formação discursiva a ser estudada. Então, ao considerar, o discurso humorístico, a intenção não será a de examiná-lo como amostra do gênero “charge”, mas sim compreender como o discurso humorístico investe as regras próprias deste gênero.
Ainda que a análise realizada parta da opção por um gênero de discurso reconhecido (como é o caso da charge), sua inserção em um lugar social é que lhe fornecerá o quadro
enunciativo, ou seja, o contexto amplo para a compreensão interdiscursiva e definição de um arquivo3. O importante é compreender e analisar textos nas redes de que fazem parte.
A partir daí, Maingueneau nos diz que:
Em minha opinião, o interesse que governa a análise do discurso é apreender o discurso como intricação de um texto e de um lugar social, ou seja, que seu objeto não é nem a organização textual nem a situação de comunicação, mas o que os amarra através de um modo de enunciação específico. [...] Em todos os casos deve-se pôr em evidência o caráter central da noção de gênero de discurso, que, a título de “instituição discursiva”, desmascara toda exterioridade simples entre “texto” e “contexto”. O dispositivo enunciativo diz respeito ao mesmo tempo ao verbal e ao institucional (MAINGUENEAU Apud FURLANETO, 2005, p. 266).
Portanto, como vimos, os gêneros de discurso são dispositivos de comunicação que só aparecem quando certas condições sócio-históricas estão presentes, desse modo, o gênero charge só aparece quando um determinado fato ou acontecimento, que se pode dizer polêmico, surgiu no cenário social. Sabendo disso, poder enquadrar o nosso dizer em um gênero e reconhecer os gêneros em que os enunciados são apresentados é um passo seguro para inserir-se na rede de textos de uma sociedade.