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Motivo: estudo da recepção do livro Grande Sertão: Veredas na Itália

Além das descrições linguística e física do livro em idioma estrangeiro, propostas por Venuti e Toury, a descrição da narrativa mítica consiste em apontar os efeitos da tradução no que diz respeito à recepção do séquito de elementos culturais, vazados de mitologia, que a literatura estrangeira convoca e perfila. Para tanto, foi necessária a incursão nas teorias sobre mito, linguagem e literatura. Os elementos culturais ou são acolhidos e respeitados, ou rechaçados, de acordo com os valores culturais da sociedade receptora. “A tradução colabora para a formação de atitudes domésticas em relação a países estrangeiros”, diz Venuti, (2002, p. 175) o que evidencia o papel da mesma na conformação das relações internacionais, “estigmatizando ou valorizando etnias, raças e nacionalidades específicas, atitudes capazes de fomentar o respeito pela diferença cultural ou o ódio baseado no etnocentrismo, no racismo ou no patriotismo [...]” (VENUTI, 2002, p.175) A tradução, portanto, como “inevitável domesticação” das zonas de intraduzibilidade, tende perigosamente a formar representações do elemento estrangeiro através de uma visão e de um ponto histórico determinado pela cultura de chegada, por vezes criando estereótipos para a cultura estrangeira ou amenizando diferenças. A escolha lexical feita pelo tradutor, resultado de suas experiências, pode redundar, por exemplo, em interpretações diversas do texto original ou em cânones distorcidos daquela cultura-fonte, negativa ou positivamente. Tal a queixa de Claudio Magris sobre a primeira tradução alemã de seu livro Mito absburgico nella letteratura austriaca

moderna, que teria perdido a complexidade ambivalente de tomar postura crítica diante da cultura austríaca e ao mesmo tempo deixar entrever todo o fascínio e o encanto que o autor experimentava pela mesma. A tradução plasmara somente o primeiro aspecto, deixando transparecer apenas um posicionamento duro do autor, sem o encantamento que a cultura austríaca lhe causava: “Questa polarità, questa ambivalenza, che costituiscono il vero e proprio senso del libro, erano andati quasi completamente perduti67” (MAGRIS, 2007, p. 53). Essa tradução, diz o autor, teria ocasionado, diferentemente da recepção em língua italiana, francesa ou espanhola, uma interpretação errônea do livro por parte de seu público de língua alemã, que não pôde fruir “l’aspetto fondamentale del libro, ovvero il suo ritmo, la sua musica che, nel momento in cui si formula un giudizio negativo, evocano la fascinazione e seduzione e trasformano dunque il no in un sì.68” (MAGRIS, 2007, p. 53)

Merece reflexão o interesse de um determinado público italiano pelo imaginário brasileiro. Tal público se compõe basicamente de profissionais das Ciências Sociais e das Letras. Nas faculdades de Letras, onde se dá o ensino de língua portuguesa e suas literaturas, é promovida a atenção dos estudantes para esse argumento. Há, igualmente, um interesse considerável do público em geral, por motivos outros, como se pode perceber pelas renovadas traduções de escritores brasileiros, dentre os quais Jorge Amado – cuja obra foi traduzida por inteiro para o italiano –, Clarice Lispector, Chico Buarque, Darcy Ribeiro, Rubem Fonseca, Zélia Gattai, Antonio Callado, Euclides da Cunha e, com especial destaque, João Guimarães Rosa, tema deste trabalho.

O universo fantástico, a mirabolante fauna, as miríades de tipos combinatórios de flora e clima, o exotismo de um povo depositário de diferentes culturas e mitologias, esse conjunto, embrenhando-se através da literatura traduzida, encontra acolhida nos leitores italianos. A

67 “Essa polaridade, essa ambivalência, que constituem o verdadeiro sentido do livro, tinham, quase completamente, se perdido”

68 “O aspecto fundamental do livro, isto é, o seu ritmo, a sua música que, no momento em que se formula um juízo negativo, evocam a fascinação e a sedução, e transformam, assim, o não em um sim”

atenção desse público sagrou João Guimarães Rosa como referência na construção do habitante do sertão. Assim, toma forma no imaginário do povo italiano uma figura híbrida, resultante da síntese entre diversos sertanejos apresentados pelos autores e as inferências fantasiosas decorrentes das conjecturas plasmadas a partir da gesta italiana.

Para estudar de perto tais aspectos, desenvolvemos, durante seis meses, estudos na Faculdade de Letras da Università degli Studi di Roma “La Sapienza”, na cidade de Roma, Itália, sob a orientação do Professor Doutor Ettore Finazzi-Agrò.

Além da pesquisa de doutorado, pudemos aperfeiçoar sobremaneira nossos conhecimentos da língua, história e cultura italianas, o que sem dúvida nos possibilitou desenvolver melhor e com maior segurança este trabalho e nos favorecerá, seguramente, no desempenho de nossa profissão. Adquirimos muitos livros da nossa área de atuação, graças ao baixo custo das publicações na Itália. Nossa adaptação ao país foi rápida, por já termos muitas informações sobre a cultura italiana, aprendidas durante nossos estudos de graduação, mestrado e doutorado na UFRJ. Os demais conhecimentos foram obtidos com bastante interesse, in loco. O povo italiano, muito alegre, é também agitado, estressado e desorganizado.

O objetivo do estudo era pesquisar a configuração da obra no pensamento e no imaginário do público leitor italiano. Fundamentalmente, dividimos a pesquisa na Itália em pessoas e lugares (bibliotecas e livrarias). As pessoas fazem parte de dois grupos: os que, sabidamente, conheciam a obra em estudo e os que, ao acaso, eram inquiridos dentre as pessoas que conhecemos durante a nossa estada em Roma, e, mais especificamente, em duas faculdades de letras. Lembremos que Grande Sertão: Veredas, em italiano, traduzido por Edoardo Bizzarri, tem o título Grande Sertão.

Para iniciar o relato sobre o approccio do leitor italiano com o ambiente do sertão, é necessário levantar a questão crucial e preliminar: o que é o sertão? A resposta mais adequada deve levar em conta as especificidades do sertão rosiano. Sendo assim, citamos a explicação do Professor Ettore Finazzi-Agrò:

E in effetti, anche l’origine di essa è assai controversa: usata dai Portoghesi, già prima della scoperta del Brasile, per definire genericamente l’entroterra, si è voluto farla risalire ad un denominale *de-sertanum, in realtà mai attestato. Qualcuno, peraltro, ha anche provato a farla discendere dal latino sertum, “corona”, derivante a sua volta dal verbo serere, “intrecciare”, consegnando, così, al termine il senso di “grande spazio intricato”, che sembrerebbe connotare il sertão quale dimensione labirintica – quale dimensione, ancora una volta, la cui conoscibilità sta nella tortuosa praticabilità delle sue veredas, dei sentieri che si biforcano per poi tornare ad incrociarsi in una spazialità apparentemente infinita (ed è curioso che il termine possa altresì leggersi come ser tão, ossia, come “ essere tanto/così grande”). (Lugar sertão se divulga – L’identità brasiliana tra apertura e mancanza69. (FINAZZI-AGRÒ, 2007, p. 13)

A partir desse entendimento, agora que explicamos o que vem a ser o sertão, podemos enfim indagar: como é este sertão rosiano lido em italiano? Mudou ou permaneceu o mesmo?

5.1.1 Livrarias

Em todas as filiais da livraria Feltrinelli a obra tem lugar nas prateleiras de Literaturas (Letterature), além de balcões em destaque de narrativa indicada para leitura. É vendida a 13 euros e se encontra ao lado de outros livros rosianos, como Miguilim (6,50 euros) e Una storia d’amore (6,50 euros).

69 E, com efeito, também a origem dela é assaz controversa: usada pelos portugueses, já antes da descoberta do Brasil, para definir genericamente o interior, quis-se fazê-la remontar a um denominal *dde-sertanum, na realidade nunca atestado. Alguns, por outro lado, tentaram também fazê-la desscender do latim sertum, ‘coroa’, derivado, por sua vez, do verbo serere, ‘tecer’, proporcionando, assim, ao termo o senso de ‘grande espaço intricado’, que pareceria conotar o sertão qual dimensão labiríntica – qual dimensão, mais uma vez, cuja cognoscibilidade reside na tortuosa praticabilidade das suas veredas, dos sendeiros que se bifurcam para depois tornar a cruzar-se em uma espacialidade aparentemente infinita (e é curioso que o termo possa igualmente ler-se como ser tão, ou seja, como ‘ser tão grande’

A sede da editora Feltrinelli se localiza em Milão. Para lá escrevemos e telefonamos diversas vezes, solicitando informações sobre as edições do livro, a contratação do tradutor e demais detalhes que somente os editores podem nos fornecer, mas não tivemos êxito, devido à distância e ao curto tempo.

O livro também é facilmente encontrado nas livrarias Mondadori, Silvio d’Amico, Melbookstore, Borri books, Arion, Fanucci, Libreria del Cinema.

Grande Sertão ainda é reeditado, o que demonstra o reconhecimento de seu valor. Ao perguntar a respeito do livro, nos responderam quase sempre com muita naturalidade sobre a presença dessa obra rosiana nessas livrarias. “È un classico, come Cento Anni di Solitudine! Oggi non c’è perché è finito, ma la prossima settimana ci arriveranno altri esemplari. Tutti lo leggono, come no!” – disse o gerente de uma das livrarias. Em quase todas existe a norma de não fornecer determinados dados, como o número de exemplares vendidos. Contudo, conseguimos obter a informação que dois ou três exemplares são vendidos ao mês, em média, em cada livraria. Um liceu de Ensino Médio, cujo nome infelizmente não foi revelado pelo livreiro, o adota como leitura obrigatória.

5.1.2 Bibliotecas

Citamos, dentre as bibliotecas visitadas, aquelas que consideramos mais importantes: a) Biblioteca Angelo Monteverdi – Università degli Studi di Roma “La Sapienza”, Facoltà di Lettere: a biblioteca tem acervo considerável. Infelizmente na nossa pesquisa não obtivemos ajuda, pois não foi possível saber o número de retiradas do livro que constitui corpus da pesquisa. O motivo é que não se mantêm os formulários de requisição de obras, ou seja, os comprovantes em papel. Essa impossibilidade se deu em todas as bibliotecas

visitadas, tendo em vista que o sistema de informação em rede havia sido instalado recentemente.

A biblioteca conta com quinze exemplares da obra em questão, com edições desde 1970 até 2007, que não são retirados; destinam-se à consulta local pelos alunos da instituição. Normalmente, esses alunos, quando devem prestar exame sobre GSV, compram o livro, não sendo necessária a solicitação de empréstimo à biblioteca. Outros livros sobre a fortuna crítica de Grande Sertão compõem o acervo, com autores brasileiros, tais como Walnice Nogueira Galvão, Eduardo Coutinho, Augusto de Campos, Manuel Cavalcanti Proença, junto a Katrin Rosenfield e Francis Uteza.

b) Biblioteca Nazionale – Seus catálogos registram a existência de quatro exemplares. Desde que implantaram o sistema de catálogo virtual, nenhum exemplar foi retirado.

c) Biblioteca da Università Roma Tré – Registram-se dois exemplares

d) Biblioteca Tullio Ascarelli, da Embaixada do Brasil – Possui três exemplares, que são retirados pelos sócios, além de serem consultados por outros leitores dentro da biblioteca. Consta que dois desses exemplares são em português, tendo sido retirados cinco vezes um e sete vezes o outro exemplar. O terceiro, em italiano, nunca foi retirado, mas, sim, consultado.