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Departamento de Comunicación del Ministerio de Reforma Agraria (MIDINRA), a oficina Cine Super 8 (El Cine de los Trabajadores), a oficina da Central Sandinista de Trabajadores (CST) e o Instituto de Cine Nicaragüense (INCINE), adscrito ao Ministerio de Cultura.

O INCINE começou a trabalhar antes da vitória, pois na época da ofensiva final foram feitas filmagem dos frentes de batalha, ao norte, sul, leste, oeste, e da frente interna, ou seja, em Manágua. A brigada cultural “Leonel Rugama”, da Frente Sur Benjamín Zeledón foi a responsável pelas filmagens. Um grupo de guerrilheiros cineastas, apenas com treinamentos básicos e contando com equipamentos de filmagem obsoletos, puderam documentar a guerra de liberação. Foram filmados mais de 80 mil pies de película. Conforme Ugarte, para a perspectiva propagandística, “esta brigada teve um papel primordial, já que a partir de todo o trabalho de filmagem que recolheu a luta da insurreição, surgiram importantes produções cinematográficas sobre a Revolução Popular Sandinista”.49

Nesses anos o cinema nicaragüense, assim como todo o pais, buscava uma identidade, e a institucionalização da produção cinematográfica foi um grande passo nesse sentido. O INCINE logo participou de concursos, festivais e foi reconhecido por suas produções, já mais elaboradas. A projeção de documentários antes dos filmes nos cinemas foi retomada, entretanto, longe da mono-linguagem da ditadura, agora havia múltiplas experiências a serem divulgadas. Seguindo o estilo do jornalismo cinematográfico cubano,

49 idem

compilavam os acontecimentos mais importantes da revolução: a reforma agrária, a Cruzada Nacional de Alfabetización, a difusão da cultura nacional, etc. Entre os noticiários mais importantes podemos citar: Nacionalización de las minas de Frank Pineda, primeiro noticiário de Pineda (1980); 1979 año de la liberación (1980), do mesmo diretor, obteve o Premio da Crítica no Festival de Tashkent/URSS; Inicio Cruzada Nacional de Alfabetización (1980) de María José Alvarez; Primer Aniversario de la Revolución Popular Sandinista (1980) de Ramiro Lacayo; Jornada anti-intervencionista (1981) de Mariano Marin; Unidad frente a la agresión (1983) de Alberto Legal e Nicaragua ganó (1985) de Fernando Somarriba50.

O resgate dos costumes indígenas também foi fundamental para que o “desenho”, borrado e apagado do rosto nicaragüense, pudesse ser novamente traçado em todas as suas vertentes mestiças e complexas. A tradição da fabricação das máscaras indígenas foi retomada51. Tais artefatos possuíam características de rostos espanhóis, feições finas, olhos claros e, quando contavam com cabelos, estes eram louros. Os indígenas dançavam com elas, desde a conquista, para ridicularizar os invasores. Essas máscaras foram usadas pelo povo para lutar contra o ditador, “um povo que não se rendeu jamais” (Cardenal,2004:379-380). Dentro desse panorama, o artesanato autóctone, profundamente esquecido, é incentivado.

No âmbito da saúde, medidas urgentes foram eficazmente implementadas, erradicando a poliomielite e instaurando a vacinação de

50 ibidem 51 Ver anexo II.12

crianças em todo o país, o que nunca havia sido feito antes. Ainda no campo das políticas públicas, o governo sandinista viu-se impelido a buscar saídas rápidas para o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos, que privava a Nicarágua do trigo, vital à alimentação básica daquele povo. Foi realizado então o Festival “EL MAIZ NUESTRA RAIZ”, comentado por Ernesto Cardenal em suas memórias (2004:383-389), que retomou o consumo de um dos principais alimentos da cultura pré-colombiana, o milho. Um grande evento foi organizado, com receitas desde bebidas feitas à base de milho, chichas (um tipo de aguardente) e outras não alcoólicas, até a tortilla de maíz, que é o pão de milho básico para as culturas pré-hispânicas; passando por doces, bolos, biscoitos. Foram compiladas mais de 500 receitas em um folheto de baixo custo produzido pelo governo, e o êxito foi tanto que o milho acabou e teve que ser importado da Costa Rica.

Entretanto, o sucesso do festival, que foi muito mais profundo que puramente econômico ou alimentício, fez com que o trigo também fosse conseguido, pois a visibilidade ao problema do país foi tanta, que a União Soviética, a Suécia e outros países resolveram enviar o alimento embargado anteriormente.

Desta forma, o interdição dos EUA, que deveria criar um clima de desespero e isolamento, contribuiu na verdade para unir os povos. Posteriormente, inúmeras crianças nascidas após o festival do trigo receberam

de seus pais o nome de Tinolem52, título dado ao evento. Segundo Cardenal (2004:388), hoje, mais de 20 anos depois, ao encontrar essas pessoas chamadas Tinolem, revive-se o êxito daquele momento. Foram celebrados ainda, posteriormente, vários pequenos festivais seguindo a tradição do primeiro.

Em 1989 realiza-se a Feria del libro- Primer festival internacional del libro en Managua. A publicação de literatura nacional e sua difusão foi um dos objetivos centrais do Ministério de Cultura sob o governo sandinista. De acordo com Sergio Ramírez (2002:67),

A escassa atividade editorial do país, que somada à ausência de livrarias e à pobreza das bibliotecas caracterizou a desolação do panorama literário com relação à difusão dos autores, sofreu uma mudança notável durante a década da revolução, quando apareceram várias casas editoriais respaldadas pelo estado, a mais importante delas a Editoria Nueva

Nicaragua (ENN). Esta instituição conseguiu ao longo de

sua existência a publicação de mais de trezentos títulos, entre eles as obras mais notáveis dos escritores nicaragüenses das antigas e novas gerações.(T.A.)

Esperavam-se para a Feria aproximadamente 50 editoras, que se multiplicaram atingindo a cifra de 400 stands. Foram vendidos livros de todos os tipos e ideologias. Ao lado do stand da União Soviética encontrava-se o da embaixada dos Estados Unidos, com livros contra a revolução. Nenhum deles foi censurado. Os princípios sandinistas foram diferentes dos de outros processos

52 Tinolem é a princesa nahuatl, que, segundo o mito, sacrificou-se aos deuses em um tempo de seca, para que com a sua morte fosse produzido um milho bom e melhor. O indigenista Dávila Bolaños via neste mito o sacrifício dos que deram a vida pelo povo nicaragüense, durante a revolução, como ele próprio, que foi assassinado pela guarda somozista. (CARDENAL, 2004:389)

revolucionários: “desde o início a revolução sandinista propôs-se a ser de economia mista, social e privada, sem exclusão de nenhum bloco de poder democrático, com absoluto respeito aos direitos humanos” (Cardenal, 2004:394).

Para a Teologia da Libertação, idealizada por teóricos e religiosos como Frei Betto e Julio Giardi, que freqüentavam a Nicarágua nestes momentos, a revolução foi o processo mais democrático ocorrido na história, pois questionava não somente a dominação norte-americana mas também as diversas dominações desde a conquista, como a opressão histórica sofrida pelas mulheres, o que levou muitas intelectuais a comprometerem-se com o sandinismo, como Gioconda Belli. Uma mostra dessa abertura é o episódio dos consulados, narrado por Cardenal (2004:394):

Reagan fechou todos os consulados da Nicarágua nos Estados Unidos, para que os norte-americanos não pudessem obter visto e vir. Mas o governo sandinista dispôs que os norte-americanos podiam entrar sem visto mostrando só seu passaporte. E eram muitos os que chegavam, às vezes em grupos enormes.(T.A.)

Desta forma, muitos norte-americanos escolhem viver em Manágua e em outras cidades, entre eles, artistas, intelectuais e pessoas comuns.

Nesse momento pós-revolucionário a sociedade funcionava sem miséria, não havia crianças pedindo esmolas, mendigos, tráfico de drogas ou delinqüência. A Nicarágua foi um dos países mais seguros do mundo. O escritor argentino Julio Cortázar afirmou que a “Nicarágua é o país mais vivo do mundo, mas bonito e mais livre, porque sua revolução é alegre”53. Em Anotaciones sobre la revolución, o poeta José Coronel Urtecho, descreve a revolução

sandinista como “um fato nacional em si mesma, um processo histórico, um desenvolvimento vital, uma revolução nacional que confunde o povo com o corpo da nação”54.

Criaram-se programas de televisão, que consistiam em levar os ministros aos povoados, para que os habitantes locais pudessem perguntar o que desejassem, ao vivo e sem cortes, e os políticos não tinham conhecimento do que seria perguntado. Outro programa na mesma linha, mas através do rádio, foi Linea directa no qual uma personalidade, da política ou não, era convidada a responder perguntas ao vivo, pelo rádio, durante duas horas. Participaram desse programa escritores como Gabriel García Márquez, quem, mesmo avesso às entrevistas, aceitou ser entrevistado por todo o povo de um país.

Nunca houve tanta solidariedade com a causa nicaragüense como na época da revolução. Cardenal (2004:393) afirma que Gioconda Belli chama essa época do país de “la ternura de los pueblos”. Da Espanha, França, Itália, Suíça, Argentina, EUA, vinham homens e mulheres, jovens entusiastas com suas mochilas aos ombros, prontos a levantar paredes ou construir escolas. A “ofensiva cultural” desenvolvida pelo Ministério de Cultura e Ernesto Cardenal nos faz lembrar novamente do processo espanhol de 1936-1939. As estratégias nicaragüenses assemelham-se às do grupo teatral espanhol La Barraca, criado por Federico García Lorca no início da Guerra Civil espanhola, e continuado pelo poeta e dramaturgo espanhol Miguel Hernández. Também na Nicarágua sandinista, o teatro foi levado a todas as partes do país, a arte chegou a lugares

onde nunca havia chegado: “a diferença entre atores e público se havia desfeito, a diferença entre o teatro e a realidade” (Cardenal, 2004:378).

Nesse contexto surgem os primeiros poemas de Gioconda Belli, inseridos no momento ativamente cultural, do qual a autora participou não só artística mas também politicamente, ao integrar a FSNL e posteriormente no governo sandinista.

Para concluir este sub-capitulo, que apenas constitui-se como um breve caminhar pelas memórias da revolução, citamos outro elemento que nos faz retomar o contexto da Guerra Civil espanhola, pois os dois momentos históricos possuem diversos pontos de encontro no que tange à ideologia revolucionária, e transformadora. Cardenal (2004:396-397) nos conta que o escritor argentino Julio Cortázar, quando estava à beira da morte em Paris desejou voltar à Nicarágua sandinista. O fato nos relembra outro poeta, também um escritor hispano-americano comprometido com uma luta que ultrapassou fronteiras e tocou nacionalidades interiores e poéticas: César Vallejo, peruano, que no leito de morte na mesma cidade de Paris, desejou voltar à Espanha para continuar contribuindo com o exército republicano na Guerra Civil.

3.2. Poetas na Nicarágua: precursoras e contemporâneas de Gioconda Belli

Neste sub-capítulo realizamos um panorama da poesia escrita por mulheres na Nicarágua abarcando as precursoras de Gioconda Belli e algumas contemporâneas de seus inícios. A poesia foi o gênero literário com o qual a autora iniciou sua trajetória literária, e, mesmo após haver centrado sua produção na obra em prosa, os elementos poéticos jamais desapareceram de sua escritura.

Desta forma, faz-se imprescindível conhecer sua trajetória poética e também a de autores que, como as escritoras aqui tratadas, compartem temáticas e ideologias com Belli. A estrutura do poema, que representa a forma de suas obras, é “nicaragüense por excelência” desde Rubén Darío.

Nos anos prévios à insurreição popular contra a ditadura de Somoza, e durante toda a revolução sandinista, percebe-se uma intensa atividade feminina, não só política, mas também em muitos frentes artísticos. Segundo Daisy Zamora (1992:15), escritora nicaragüense, “essa presença feminina, nas diversas etapas da luta revolucionária, não tem precedentes no continente americano, principalmente com relação às conquistas do presente”. A participação da mulher foi motivada por um conjunto complexo de causas, entre as quais a opressão que esteve sempre submetida, por isso:

[...] originou um conceito de liberação mais profundo e amplo, talvez integral, sem que por isso se negasse sua condição feminina; exatamente o contrário, somente através dessa liberação integral aprofundaria em sua natureza humana e realizaria seu potencial feminino. (T.A.)

Gioconda Belli integrou o Grupo Las Seis, que pretendia “reinvidicar o país e a mulher e conferir-lhe uma maior importância como sujeito histórico, capaz de contribuir nos distintos processos de desenvolvimento” (Vargas Vargas, 1997:62). As mulheres participaram dos grupos de luta armada, inclusive fazendo parte de suas direções, comandos e demais tarefas de guerrilha, entretanto dentro da mesma FSLN (Frente Sandinista de Liberación Nacional) algumas delas tiveram que lutar contra atitudes machistas arraigadas, que por vezes tentavam impedi-las de participar em alguma atividade mais “perigosa”, impondo um trabalho de retaguarda. Uma das primeiras mulheres a participar da FSLN, a comandante Doris Tijerino Haslam, afirmou: “Não somos desconsoladas, mas combatentes; não somos militantes que são mulheres, mas sim mulheres que são militantes”55, reafirmando desta maneira que a condição feminina é fundamental para compreender a magnitude de seu engajamento e como se deu esse processo.

Dentro da FSLN as primeiras participações femininas foram no movimento de mães, esposas e filhas, contra os maltratos aos presos políticos56 e, posteriormente, na Alianza de Mujeres Patrióticas – 1969, um movimento que

55 “No somos dolientes, sino combatientes; no somos militantes que son mujeres, sino mujeres que son militantes” (Randall,1977:30)

unia universitárias e camponesas. Em 29 de setembro de 1977 é organizada a AMPRONAC (Asociación de Mujeres ante la problemática nacional), “uma experiência original no caminho da construção do movimento popular de mulheres na Nicarágua” (Murguialday, 1990:41), defendendo uma participação ampla, democrática, popular e unitária da mulher. Com o triunfo revolucionário é criada a AMNLAE (Asociación de Mujeres nicaragüenses Luisa Amanda Espinoza) , lutando sobretudo pela emancipação feminina.

Conforme Zamora, sempre houve mulheres que escreviam na Nicarágua, entretanto, essas obras estavam marcadas por um discurso submisso ou, quando não, ingênuo e desligado de temas mais profundos, sabendo-se que esse fato tem origem em elementos históricos e culturais. Em sua antologia Dayse Zamora (1992:22) cita uma reflexão do crítico marxista José Carlos Mariátegui:

Os versos das poetisas geralmente não são versos de mulher. Não se sente neles sentimento de fêmea. As poetisas não falam como mulheres. São, em sua poesia, seres neutros. São artistas sem sexo. A poesia da mulher está dominada por um pudor estúpido. Enquanto o poeta mostra seu “eu”, a poetisa esconde e mistifica o seu. Envolve sua alma, sua vida, sua verdade, nas grotescas túnicas do convencional. (T.A.)

A geração de poetas dos anos 70 rompeu com um estigma inerente à poesia de mulheres anterior à essa década, o de não ser realmente “versos de mulher”. Para algumas dessas escritoras a poesia foi uma forma de participação revolucionária, além de outras tarefas políticas, com as quais todas ou quase todas as escritoras, contribuíram. Segundo o poeta Sergio Ramírez:

A poesia nicaragüense foi reconhecida como um dos fenômenos culturais mais importantes da América Central; uma tradição firme, variada e continuada que não cede nunca em sua qualidade, uma poesia que até a presente década (setenta) tinha tido um signo predominantemente masculino, ou cerradamente masculino. Mas a poesia nicaragüense da década dos anos setenta, será indubitavelmente ou já o é, feminina. […] Cada uma das (novas escritoras) afirmando-se dentro de um estilo e criação muito pessoais comunica, sem abatimento, verdade e frescura a seu próprio ofício e podem representar obras de juventude que são obras de amadurecimento, todas jovens de vinte anos que

consolidam agora essa nova tradição literária

nicaragüense.57 (T.A.)

A grande novidade portanto, dessa década e das posteriores na Nicarágua, foi o surgimento de várias jovens escritoras que declararam abertamente sua vocação de poeta e sua vontade de afirmação no cenário artístico daquele país. É importante lembrar que, sendo obras de mulher, vão muito além de um feminismo ingênuo, e, de fato, negam esse tipo de estratégia. São poetas feministas, mas no sentido de construir um movimento diferente, onde não se busca igualar a mulher ao homem em todos os sentidos, principalmente porque a diferença, a essência feminina, é fundamental em sua luta. Não dogmatizam a poesia taxando-a de “feminina”, e afirmam que é fundamental perceber a diferença entre os termos, “poesia feminina” e “poesia escrita por mulheres” (Zamora,1992: 34):

É claro que não estou classificando a poesia pelo sexo: poesia feminina ou poesia masculina, e muito menos pela

57 Ramírez apud Zamora (1992:21)

confrontação sexista: poesia feminista ou feminina e poesia machista. A poesia não tem sexo, mas os poemas sim têm autores. E os poemas, única prova da existência real da poesia, são expressões de individualidades irredutíveis, como tais, insubstituíveis. Os próprios textos, ou melhor dizendo, as características da tendência poética, lançam uma caudalosa informação que denota que são obra de mulher. (T.A.)

Estas autoras buscam, certamente, uma igualdade social, política, profissional, intelectual, mas os temas trabalhados podem ser quaisquer. O que faz com que a obra seja especial é a qualidade literária, o ser de quem a produziu e em quê circunstâncias. Para Selena Millares (1997:303), as obras das poetas nicaragüenses desta época são regidas pela bandeira da subversão do corpo e das idéias, e a liberdade será o traço característico de todas as suas manifestações.

Em uma entrevista à jornalista Yasmin Ross, da revista Brecha, de Montevideo58, quando perguntada sobre o caráter “feminino” de sua obra, Gioconda Belli responde:

Me preguntan si escribo sobre el asunto de las mujeres. Mi literatura no es femenina, es una literatura donde la mujer es protagonista. Nadie diría que Hemingway escribe una literatura masculina. Mi literatura es la visión del mundo desde la perspectiva de la mujer. La discusión sobre los asuntos de género no nos compete a los escritores de literatura, para eso están los ensayos y todo eso. Lo que hacemos es cambiar el papel de la mujer. Es la mujer actuando.

Desta forma, o que Belli, assim como suas precursoras, realiza é uma literatura que, sobretudo, devolve à mulher o lugar de protagonista tanto na cena ficcional quanto no papel de agente de sua história. A autora explicita uma série

de propostas, ao defender um feminismo inclusivo, no artigo “La mujer: la búsqueda de un futuro más eqüitativo”59:

Construir las condiciones que, sin obligarnos a desnaturalizarnos o masculinizarnos, nos permitan una plena participación en nuestras sociedades requiere de la redefinición de los roles paternales y maternales dentro de la familia; requiere de una agenda política que obligue a las sociedades modernas a concebir la reproducción y crianza de los futuros ciudadanos como una responsabilidad colectiva, esencial para la felicidad y armonía del conjunto, y que no puede depender del “sacrificio generoso” de la mitad de la humanidad. Para lograr el nivel de conciencia que estos cambios requieren, es preciso que las mujeres asumamos un papel más activo en las instancias de poder local y nacional. Somos las mujeres, con nuestra inventiva y creatividad, las que debemos volver a las trincheras que hemos abandonado. Sólo así seremos protagonistas en la construcción necesaria de un mundo mejor para todos.

Antes de entrar propriamente nos comentários sobre a poesia dos anos 70, veremos brevemente um de seus antecedentes mais importantes. O fenômeno antropológico da poesia entre os indígenas miskitos da Nicarágua era basicamente sustentado pela mulher. Esses grupos, que ainda existem em número reduzido entre o norte da Costa Atlântica e o rio Coco, têm, segundo os cronistas, não o homem, mas sim a mulher, como a encarregada dos ritos, sendo ela, desta forma, uma mescla de poeta, chamán e sacerdotisa. Entretanto, de acordo com Sergio Ramírez (2002):

Pouco resta e pouco sabe-se da literatura indígena. Os códices pré-colombianos, os primeiros ou mais remotos livros feitos sobre tiras de couro de veado, “tão longas como dez ou doze passos e tão largas como uma mão”,

59 Belli. “La mujer: búsqueda de un futuro más equitativo.” In: La opinión digital. Los Ángeles, 11 de

que, segundo o cronista, eram um tipo de dobradura, foram destruídos e queimados por Fray Francisco de Bobadilla, em uma praça pública do que hoje se conhece como o antigo centro urbano de Manágua, e sua pictografia, que foi a primeira forma de escrita, ficou, portanto, perdida também desde a segunda década de 1500. (T.A.)

No primeiro romance de Gioconda Belli, La mujer habitada (1996:120), a personagem indígena Itzá, refletindo sobre sua vida pré-colombiana e as modificações impostas pelos conquistadores, cita diversos aspectos históricos e a ficção se mescla com elementos das atividades femininas nas diversas etnias formadoras do povo nicaragüense:

Los españoles decían haber descubierto un nuevo mundo. Pero nuestro mundo no era nuevo para nosotros. [...]