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Mannlige deltakere og den faste instruksjonen

4. Avsluttende diskusjon

4.2 Mannlige deltakere og den faste instruksjonen

O desenvolvimento da ciência teve a ele associado o desenvolvimento da tecnologia, que, por sua vez, proporcionou mais desenvolvimento científico, num ciclo contínuo e de velocidade exponencialmente crescente (Habermas, 1994; Leonhard, 2017). Este processo, impulsionado pelos benefícios económicos que dele se extraem, mudou profundamente a humanidade, a sua relação com o meio ambiente e a face do planeta Terra (Sousa, 2004). E neste processo destaca-se o papel da engenharia enquanto área especializada na transformação e conversão do conhecimento científico em ferramentas, máquinas, produtos, equipamentos eletrónicos e tecnológicos que podem ser

comercializados e usados na dimensão prática do dia-a-dia (Jamisson, Kolmos & Holgaard, 2014; Stephan, Michael, Michael, Jacob & Anesta, 2012).

Dürr (1999), no final do séc. XX afirmava que a investigação científica desprovida de interesses económicos, e como tal só focada no desejo de aumentar o conhecimento como um bem em si mesmo, não é responsável pela utilização prática desse mesmo conhecimento. No entanto, este autor considerou que esta vertente de investigação quase despareceu sob o peso da investigação com interesses económicos, embora considere também que, apesar do destacado papel do sistema económico em todo o processo de desenvolvimento atual, o ramo do saber que passa do saber ao fazer é o principal interveniente neste processo, como afirmou:

“O saber aqui já não serve tanto para melhorar a nossa compreensão de como se relacionam as coisas na natureza ou para aprofundarmos a nossa sabedoria, mas o saber torna-se aqui o pressuposto de ações conscientes, converte-se em know-how, isto é: no saber como fazer para obter um resultado bem definido e pretendido. O saber torna-se um meio de manipulação e, com isso, um instrumento altamente eficaz do poder, aliás um poder ambivalentíssimo, já que esse poder – conforme o seu uso – pode ter efeitos úteis ou nocivos sobre o Homem e a sociedade humana.” (Dürr, 1999:183)

Também neste sentido, Sousa (2004) salienta que as atividades dos que fazem (como o artesão e engenheiros) ainda hoje estão associadas ao saber-fazer e separadas das atividades dos que pensam (intelectuais e religiosos, por exemplo), pelo que a engenharia está ainda associada à produção e não ao pensar e refletir. Apesar disso, a engenharia já não se traduz apenas por uma ação técnica limitada e restrita no seu micro alcance (como é o exemplo dos artesãos), pois a sua ação foi e é ampliada continuamente ao ponto de se tornar global. Esta ação também já não é só motivada pela resolução específica de micro problemas técnicos, mas, principalmente, pela conceção de que a engenharia é o grande motor do progresso (Dubreuil, 2007) que, alimentada pela ciência e pela economia, tem capacidades ilimitadas. São disto exemplo ideias como: tudo é possível à engenharia e tudo está ao seu alcance

(Sousa, 2004); “o progresso se tornará imparável” (Wootton, 2017) e a engenharia possui um “super-poder” que lhe permite “tornar tecnicamente possível o impossível” (Lipovtsky, 2013: 70).

Estas considerações conduziram talvez Dürr (1999) a alertar para a necessidade de se passar da ciência à ética, destacando o papel que o ensino superior deverá ter no processo de reflexão e formação, implicados por tal mudança. Este autor reforça a necessidade de se questionar a quem serve o conhecimento técnico-científico e os profissionais que o transformam em criações práticas; em que medida este conhecimento é de facto usado para a promoção da justiça social e do bem comum, ou se, pelo contrário, é usado sem escrúpulos para benefício económico de alguns sectores que beneficiam do hiperconsumismo que destrói a natureza. Neste sentido, o autor defende que a missão do conhecimento técnico-científico e dos profissionais que o transformam em criações práticas deve ser o de resolver os problemas globais que hoje afetam e ameaçam a humanidade, mas que tal tem que ser assumido de forma explícita e empenhada, sempre valorado pela reflexão ética. Como afirmou: o principal objetivo deve ser “melhorar a qualidade da nossa vida e não transformar a matéria do nosso Cosmo em bens de consumo” (Dürr, 1999:210).

É neste âmbito que se destaca a engenharia, cujo papel é fulcral para permitir a produção em massa e a baixo custo, o que conduz à diminuição dos preços dos produtos para serem comercializados em larga escala (Santos, 1987; Sousa, 2004). No entanto, o sistema industrial não teria alcançado a dimensão atual se se limitasse às necessidades reais dos indivíduos e da sociedade. Para essa evolução, teve de “fabricar as próprias necessidades” produzindo e automatizando as necessidades de consumo (Sousa, 2004: 31). Para o autor que estamos a citar este processo tornou-se num ciclo irreversível entre produzir mais, criar necessidades, aumento do consumo, logo necessidade de produzir mais. No entanto, e como já tinha sido sustentado por Gehlen (1960), associado a este processo estão graves custos espirituais e morais que não foram acautelados, e graves custos ambientais e sociais (Jonas, 2015; Beck, 2016). Para Gehlen (1960), a mega evolução da técnica teve como uma das suas consequências, ou uma das suas intencionalidades, promover uma moral

de subordinação à produtividade e ao pragmatismo, para a qual é fundamental a descontextualização, o desenraizamento e a promoção do pensamento primitivo.

É no quadro desta problemática que Franklin (2017) argumenta que o que está em causa não é a inovação, mas o uso que o sistema económico lhe dá. Contudo salienta a importante relação entre o desenvolvimento tecnológico e o sistema económico, afirmando: “vemo-lo nas teorias económicas em que a mudança tecnológica é a coisa fora do sistema que explica a sua dinâmica a longo termo, a força de crescimento residual inexplicável a partir do exterior” (Franklin, 2017: 290). Neste mesmo sentido, Noble (1977), Riley (2008) e Wisnioski (2015) realçam que a engenharia e os seus profissionais servem os interesses económicos e não o bem comum.

Para Baudrillard (1997), sob a ilusão de transformar o mundo, a tecnologia, produto da engenharia, assassinou a realidade, pelo que o autor se questiona:

“Será a técnica a alternativa mortífera à ilusão do mundo, ou não será ela senão um avatar gigantesco da mesma ilusão fundamental, a sua última e subtil peripécia, a última hipóstase? Através da técnica é talvez o mundo que troça de nós, o objeto que nos seduz pela ilusão do poder que temos sobre ele. Hipótese vertiginosa: a racionalidade, culminando na virtualidade técnica, seria o último dos ardis da desrazão, dessa vontade de ilusão, cuja vontade de verdade não é, segundo Nietzsche, senão um desvio e um avatar” (ibidem: 27).

Em posição contrária, Kelly (2012) considera que a tecnologia, com a conectividade e complexificação que proporciona, beneficia as pessoas, quer do ponto de vista material, quer espiritual, se usarem a tecnologia para as suas próprias finalidades. Contudo, destaca que a tecnologia é um poder em si mesmo que se desenvolve segundo as suas próprias regras, como se de um fenómeno natural ou de um organismo vivo se tratasse. Para este autor a tecnologia é uma força viva que pode dilatar o nosso potencial individual, mas para isso temos que a ouvir e orientarmo-nos pelo que ela quer.

Nesta perspetiva a evolução tecnológica é imparável, e o que nos resta fazer é perceber o seu caminho e tirar o máximo partido da sua evolução. Contudo esta perspetiva não pondera a importante questão: saber quem produz a tecnologia e com que objetivos, “quem escolhe as tecnologias, como é que a sua difusão se espalha através dos mercados e por outros meios e quem beneficia” (Franklin, 2017: 292). Se é verdade que, segundo este autor, “a decisão dos capitalistas do século XIX mudou o planeta de formas nunca imaginadas” (ibidem: 297), também é verdade que foi a engenharia que tornou tal possível. E este autor considera que a tecnologia “não tem uma agenda própria, mas que serve a agenda de outros e de que cria necessariamente novas necessidades quase com a mesma eficácia com que responde às anteriores” (ibidem:301).

É igualmente neste sentido que Noble (1977), Riley (2008), Wisnioski (2015) e também Franklin (2017) consideram que a tecnologia, e como tal a engenharia, serve o sector económico alimentado pelo facto dos sistemas capitalistas recompensarem e valorizarem a contínua inovação como fonte de novidades constantes em que apostar e, seduzidos pelo brilho efémero e hedonista (Morin, 1994) que a tecnologia propicia, os mercados fecham o ciclo económico.

Mas será que a tecnologia e a engenharia se limitam a estar ao serviço do sistema económico? Tal como para Jamisson, Kolmos e Holgaard (2014) e

para Kranzberg (1986) e para Riley (2008), a engenharia está maioritariamente ao serviço do sector económico, mas devia refletir sobre quem serve e recentrar os seus objetivos de forma a colocar-se ao serviço do bem comum da humanidade. Também Nussbaun (2014) e Colon (2013) reforçam esta necessidade, considerando, em sintonia com Riley (2008), que para isso é necessário que a engenharia incorpore uma capacidade de autorreflexão que permita analisar de forma crítica e à luz da ética os objetivos e as consequências da sua ação, assumindo assim a sua responsabilidade quer sobre o presente, quer sobre o futuro (Dürr, 1999; Sousa, 2004; Jonas, 2015; Leonhard, 2017).

Na posição de Rego e Braga (2014) os engenheiros/as não têm consciência da dimensão e do papel que a engenharia tem na sociedade contemporânea, o que também está de acordo com o estudo de Monteiro, Leite & Rocha (2018c) relativo a alunos portugueses de engenharia. Contudo, a reflexão sobre as diversas consequências da ação da engenharia torna-se imprescindível para que este campo do saber e que os seus profissionais tomem consciência das potencialidades da sua ação, para que, de forma consciente, ética e responsável, possam direcionar essas potencialidades para o bem comum. Por um lado, a consciencialização e reflexão, sobre as consequências das suas ações permitem saber a quem a engenharia serve e, por outro, refletir sobre a

quem deverá servir à luz da responsabilidade ética.

Como já neste trabalho indiciámos, Jonas (2015) defende que a engenharia e a tecnologia no passado eram consideradas neutras do ponto de vista ético, porque a sua ação e o seu objeto era apreciado apenas no aqui e agora, ou seja do presente. No entanto, ao incorporar o reconhecimento das diversas dimensões das potenciais consequências da ação da engenharia, esta perde a sua neutralidade e terá de se assumir com valores, o que implica a incorporação da sua dimensão ética (Dürr, 1999; Leonhard, 2017).

4.1.3- Que tipo de formação ética é necessária numa perspetiva