2.1 To overordnede perspektiver på samarbeid
2.1.2 Mandatperspektivet
Nelson e Rawlings (2007) recomendam a construção de um caminho fenomenológico para cada pesquisa, devendo o pesquisador explicitar o aporte teórico utilizado e os passos seguidos em consonância com as qualidades do fenômeno investigado, isto é, deve indicar e contextualizar suas escolhas. Talvez, por isso, como diz Mansini (1989), seja mais coerente falar em postura(s) ou atitude(s) fenomenológica(s).
A postura fenomenológica propõe uma abertura em relação ao objeto de estudo buscando descrever e compreender, sem a intenção de explicar ou estabelecer vínculos causais. Não se preocupa em estudar aquilo que se mostra de forma isolada, mas compreender como a realidade se constrói por meio da experiência das pessoas envolvidas em determinada situação ou com um dado fenômeno, ou seja, valoriza o mundo da vida cotidiana, o mundo vivido (GIORGI, 2008; FORGHIERI,1993; CARVALHO; VERGARA, 2002; COLTRO, 2000).
A descrição coloca-se como uma importante via para a compreensão da experiência vivida (SOUZA; MATOS, 2004; HOLANDA, 2006), permitindo conhecer como alguém experienciou determinado fenômeno, pois a descrição já é, funcionalmente, um processo interpretativo (GOMES, 1998).
Conforme nossa compreensão, as vivências nos são dadas pelas expressões daquele que as experiencia e por isso, a descrição torna- se ponto chave da pesquisa qualitativa fenomenologicamente conduzida. [...] A descrição é sempre explicitada pela linguagem e é por isso que solicita análise e interpretação efetuadas com o auxílio de recursos hermenêuticos (BICUDO, 2011, p. 3).
A pesquisa de cunho fenomenológico constitui-se, também, enquanto uma pesquisa existencial e pede que o autor possa se deixar afetar pelo fenômeno e pesquisar a partir dele: “Deste modo, pesquisador e pesquisado confundem-se, afetam-se mutuamente. Cuidam de suas existências. Aprendem que no entre- homens é que se constrói sentido” (SAMPAIO, 2013, p. 33).
O reconhecimento do valor da descrição no caminho metodológico que adoto, não quer dizer que a trajetória em direção ao fenômeno estudado se limite a este procedimento, já que apenas descrever, não satisfaria os desdobramentos que
giram em torno do objeto de estudo em questão. Segundo Minayo (2012, p. 622), “embora a experiência possa ser a mesma para vários indivíduos a vivência de cada um sobre o mesmo episódio é única e depende de sua personalidade, de sua biografia e de sua participação na história”, ou seja,
A noção de experiência não pode ser reduzida à experiência interior subjetiva, nem à experiência exterior objetiva. Trata-se de uma experiência absoluta, na qual o interior e o exterior apresentam-se imbricados um no outro (GOMES, 1998, p. 20).
Deste modo, o olhar que se volta ao fenômeno, procura tomá-lo tanto em sua forma quanto em seu sentido, valorizando os modos de dar-se no campo da vivência subjetiva e intersubjetiva, ou seja, como se mostra.
Nessa conjuntura, o fenômeno é entendido enquanto processo, em outras palavras, algo que se dá e se mostra por meio de um dinamismo que não exclui sua circunscrição cultural e institucional durante a tentativa de compreendê-lo. Apresenta-se em um mundo vivido em comum, compartilhado entre os diversos participantes de um contexto clínico específico – neste caso, em um CAPS de Belém do Pará.
Nesses termos, meu interesse não se restringe unicamente à vivência particular de uma determinada pessoa neste ambiente institucional específico, mas volta-se para conhecer como diferentes pessoas experienciam a singularidade de um fenômeno comum.
Na busca por compreender os significados atribuídos pelos participantes da pesquisa à experiência, enquanto vivência que permita apreender o fenômeno em questão, busquei, primeiramente, uma aproximação consciente de minha própria experiência religiosa.
Como narrado no segundo capítulo, pude encontrar-me, perder-me e (re)encontrar-me, em um movimento que, por sua própria dinâmica, favoreceu-me o exercício da redução fenomenológica como entendida por Merleau-Ponty (1973, p. 22), enquanto “uma profunda reflexão que nos revele os preconceitos em nós estabelecidos e nos leve a transformar este condicionamento sofrido em condicionamento consciente, sem jamais negar sua existência”.
Como procedimentos adotados neste percurso, também utilizei a orientação fenomenológica acerca da investigação das vivências sugerida por Forghieri (1993), que propõe uma redução fenomenológica constituída por dois momentos: envolvimento existencial e distanciamento reflexivo.
O envolvimento existencial se dá quando o pesquisador deixa de lado os seus conhecimentos adquiridos sobre o que está querendo investigar e, abrindo- se à vivência do outro, mergulha nela de modo espontâneo e experiencial.
O pesquisador inicia seu trabalho deixando-se afetar por essa vivência, permitindo que surjam a intuição, percepção, sentimentos e sensações a partir do que experiencia no contato com o outro. Tal envolvimento existencial propicia um movimento que permite ao pesquisador abandonar seu território e deslocar-se em direção ao país do outro a fim de colocar-se o mais próximo possível da experiência vivida (AMORIM, 2004).
Esse movimento permitiu-me imergir na experiência do Círio de Nazaré como primeiro passo para a vivência do mundo compartilhado pelos colaboradores da pesquisa, antes de entrar em contato com eles. Assim, procurei lançar-me a essa vivência, colocando-me no lugar das pessoas que transitam no CAPS quando experienciam esse evento cultural e religioso. Como diz Merleau-Ponty (1973, p. 40): “nada impede que entre as coisas por mim vividas, a reflexão fenomenológica se dirija para o outro, pois percebo o outro e suas condutas”.
O distanciamento reflexivo, por sua vez, ocorre após o envolvimento existencial e consiste na reflexão sobre a vivência e na enunciação de seu significado, ou seja, os sentidos que foram possíveis captar intuitivamente.
Forghieri destaca que esse distanciamento nunca é completo, pois sempre se mantém um elo com a vivência. Outro aspecto ressaltado é que na prática, o envolvimento existencial e o distanciamento reflexivo “se mostram paradoxalmente inter-relacionados e reversíveis, não chegando a haver completa separação entre eles, mas apenas, predominância, ora de um, ora de outro” (FORGHIERI, 1993, p. 61).
O dinamismo estabelecido entre esses dois movimentos, envolvimento existencial e distanciamento reflexivo, representam o cerne da condução e da
postura fenomenológica no que se refere ao percurso metodológico, no qual, utilizando como principal instrumento o “si próprio”, o pesquisador não se coloca isolado, mas em relação com o outro que partilha do mesmo contexto experiencial, pois, “é na existência, na relação com o mundo e com o outro que se constituem os significados” (LUCZINSKI, 2005, p. 61).
Esse horizonte me permitiu estabelecer os principais procedimentos desse estudo compreensivo e descritivo de como o fenômeno se apresenta (GIORGI, 2008).