A entrevista enquanto estratégia para a obtenção de dados qualitativos mostra-se como uma ferramenta privilegiada de acesso às experiências dos colaboradores, já que, por ser constitutiva da existência humana, a experiência alimenta a reflexão e sua expressão (POUPART, 2008; MINAYO, 2012).
Apesar de não ter um roteiro pré-estabelecido de questões para as entrevistas, escolhi temas a serem tratados que se deslocavam do âmbito geral para o específico, na seguinte ordem: participação no serviço, história religiosa pessoal, pontos de vista sobre religiosidade e saúde mental e experiências, envolvendo religiosidade no contexto institucional.
Na medida do possível atentei para as recomendações de Gomes (1998) acerca da ordenação dos itens da entrevista que podem contribuir para a diferenciação das respostas dos entrevistados. O autor sugere que a entrevista comece tratando do presente e, paulatinamente, desloque-se para a abordagem de acontecimentos passados para, só depois, seguir para projetos futuros. Propõe ainda, que no final da entrevista, oportunize-se um espaço para o acréscimo ou comentários do entrevistado.
Nos encontros com os colaboradores, procurei seguir essa direção como forma de favorecer a fluidez da interlocução e organização dos discursos para as análises posteriores, devido às digressões que naturalmente ocorrem nesses casos, já que muitas vezes a entrevista serve ao entrevistado como uma opção para o compartilhamento de questões pessoais que não têm onde serem dirimidas (ROSA; ARNOLDI, 2006). Nas entrevistas em que me deparei com essa situação, permiti que a fala dos sujeitos transcorresse sem interrompê-la, extraindo, posteriormente, os significados que interessavam à compreensão do fenômeno em estudo.
Não me prendi aos temas pré-estruturados, mas consenti aos colaboradores que falassem livremente e discorressem sobre seus pensamentos, experiências, pontos de vista, tendências e reflexões.
Os desdobramentos dos temas e a forma de condução das entrevistas seguiram a disponibilidade dos colaboradores em falar, a partir de uma formulação
flexível em que a sequência dos temas e suas minúcias ficaram por conta de seus discursos e das dinâmicas dialógicas estabelecidas que aconteceram naturalmente.
O grau de abertura dos entrevistados para com o tema e com o pesquisador tornou desnecessária a realização de entrevistas complementares, não havendo necessidade de esclarecer aspectos cuja expressão estivesse comprometida na interlocução inicial.
Todos os colaboradores foram informados do compromisso ético em resguardar suas identidades e de manter o sigilo das informações de acordo com os princípios éticos de pesquisa com seres humanos. Assim, todos os participantes receberam e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
Em seguida, passei a realizar entrevistas semiestruturadas com os técnicos e assistentes do CAPS até o momento em que percebi ter atingindo a saturação. Segundo Muchielli (1991), ela se dá quando o pesquisador percebe a repetição de informações e entende que os dados obtidos são suficientes para empreender suas reflexões e análises em vista do objetivo proposto.
Realizei quinze entrevistas, sendo onze delas com técnicos e quatro com assistentes, no período de 1º de agosto a 30 de setembro de 2013. Dos quinze interlocutores, dez são da equipe da manhã, um da tarde e quatro trabalham nos dois turnos. Eles são: um psicólogo, três terapeutas ocupacionais, dois enfermeiros, quatro técnicos de enfermagem, dois assistentes sociais, um farmacêutico, um nutricionista e um educador físico.
No início da pesquisa, considerei a possibilidade de entrevistar usuários, contudo, percebi, após alguns contatos informais com eles, que não estavam em condições de compartilhar suas experiências, de modo que eu pudesse me aproximar e compreendê-las em virtude das inúmeras dificuldades apresentadas, dentre elas, a de atender as minhas indagações e de compreender o propósito das entrevistas. Por essa razão, não atendiam as condições necessárias para participar de uma pesquisa desenvolvida na perspectiva fenomenológica.
Outras pessoas, como as recepcionistas e o assistente de direção, foram abordadas diretamente apenas com a finalidade de esclarecer dúvidas sobre a
rotina do CAPS, a dinâmica institucional do serviço e de obter informações sobre o fluxo dos usuários no centro.
Esse modo de proceder está de acordo com a indicação de Malinowski (1978), de que o pesquisador deve estar atento e aberto às novidades do campo e, caso seja necessário investigar, abra mão de suas certezas a favor dos influxos da realidade, portanto, “de vez em quando deixe de lado máquinas fotográficas, lápis e caderno e participe pessoalmente do que está acontecendo” (MALINOWSKI, 1978, p. 31).
Após as repetidas leituras das entrevistas, escolhi onze, dentre as quinze realizadas, para compor o material deste trabalho, por entender que compõem o grupo das que melhor expressam as qualidades do objeto de estudo desta pesquisa. As quatro entrevistas restantes, que não foram incluídas nas análises, são aquelas em que os sujeitos não se permitiram compartilhar suas experiências. Nestes casos, as entrevistas contêm informações limitadas aos aspectos técnicos do serviço ou enfocam elementos suficientemente explorados por outros sujeitos, sendo assim, excluídas pelo critério da saturação.
Após a transcrição das entrevistas, os informantes receberam cópia de suas entrevistas a fim de conhecerem o conteúdo captado de forma a poderem alterar sua composição caso desejassem. Dos onze colaboradores, apenas um solicitou alteração no teor do texto e outro não retornou os contatos, sendo sua entrevista incluída no estudo de forma integral.
Na apresentação dos excertos advindos das entrevistas, utilizo pontos (.) e vírgulas (,) para indicar as pausas na fala, ... como indicação de hesitação acompanhada de pausa prolongada, [...] como indicação de recorte da fala e (...) como indicação de uma ideia ou argumento inacabado.