Com base no corpus para a cena 3, serão apresentadas três situações importantes para a tese, como elementos pragmáticos de contenciosos, justificações e defesas.
Segundo Bardin (2011), a análise de conteúdo é um conjunto de instrumentos que se aplicam a discursos, com seus conteúdos e continentes variados.
A combinação de inferências qualitativas e quantitativas podem ser utilizadas de maneira combinadas de maneira a buscar o esclarecimento das causas dos discursos e das consequências que ele pode provocar.
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Com base em Bardin (2011), a organização do corpus se deu como pré-análise, exploração do material e o tratamento dos resultados. Além disso são apresentadas as técnicas de análise, categorização e interpretação.
Na pré-análise, o corpus foi selecionado no jornal Valor, em que os discursos dos economistas chefe dos bancos foram selecionados com base nos seguintes critérios de seleção: instituições mais bem posicionadas no ranking-SELIC FOCUS do BCB, instituições que tenham maior número de posicionamentos dos agentes na mídia econômica especializada, inversamente à sua posição no ranking e também o posicionamento dos economistas chefe das maiores instituições financeiras do país, independentemente do ranking.
No jornal Valor, foi feita uma busca com base em nas palavras-chave “economista+ chefe+COPOM”, para dois períodos: na inflexão baixista de taxa de juros SELIC entre 2011 e 2012 e na elevação dos juros para o mesmo período.
Por fim, para dar base a montagem das convenções de valor em política monetária, compostas pelo princípio de valor hawkish e dovish, as posições dos economistas chave foram analisadas se eram inclinadas ao aperto ou ao afrouxamento monetário, em função das seguintes ordens de valor, tratadas como palavras chave em uma sub-busca nas reportagens: inflação, desvalorização, cambial, meta, fiscal, inflacionário, Copom, SELIC, alta, desaceleração, crescimento, política, fiscal, juros, monetária, inflacionário, reduções, centro, expansão, creio, expectativas, afrouxamento, aperto. A partir disso foi feita uma contagem de sentenças, para verificar em cada um dos períodos analisados da inflexão dos juros, se os bancos eram mais pró-aperto monetário ou mais pró-afrouxamento monetário, tomando que os governos de Lula e de Dilma, apesar dos revezes pró aperto, tinham uma tendência narrativa e em vários momentos prática do afrouxamento monetário e fiscal.
Foram analisadas as reações do mercado ao corte de juros em agosto de 2011 realizado pelo COPOM, através de uma análise de narrativas no Jornal Valor. Destaque para algumas chamadas de posicionamentos:
60 Quadro10: Narrativas dos jornalistas econômicos - inflexão dovish em 2011
(continua) Data Título/Narrativas de jornalistas, políticos, economistas chefe e demais economistas
31/08/2011 Decisão do COPOM choca a mesa
A notícia foi inesperada e chocou a mesa – Troster (economista)
Essa incerteza pode prejudicar toda a credibilidade construída desde a implantação do regime de metas, em 1999
01/09/2011 Corte de 0,5 ponto no juro põe inflação na berlinda
Em uma atitude sem precedentes no sistema de metas de inflação brasileiro, o comitê de política monetária (COPOM) surpreendeu até as previsões mais agressivas, e decidiu reduzir a taxa SELIC em 0,5 ponto percentual
O Copom interrompeu o ciclo de aperto monetário que vigorava desde o início do ano para iniciar, sem qualquer intervalo, um processo de alívio monetário – atitude também inédita que, historicamente, marcou a condução da política monetária no Brasil
“Esperávamos que o corte da SELIC acontecesse mais para a frente, em novembro. O BC está com um cenário mais pessimista que o nosso e talvez que o mercado inteiro – Cristiano Souza/Santander
Essa decisão é um equívoco. O lado real da economia está desacelerando, mas não acredito que esse impulso monetário vá ajudar...acho que a situação da inflação no início de 2012 vai se complicar ainda mais
Para o estrategista da Banco Nomura, Tony Volpon, ao decidir cortar a taxa de juros em 0.5 ponto, o Copom mostrou ter cedido à pressões políticas e, com isso, “jogou a meta de inflação para o espaço”
01/09/2011 O jogo pesado do BC - A ação do BC que mostra claramente fazer parte de um novo governo – que não pretende sacrificar crescimento por maior controle da inflação 01/09/2011 Analistas divergem do mercado e defendem decisão do Banco Central. A
deterioração do cenário internacional exposta pelo Banco Central no comunicado conjunto à decisão de reduzir a taxa de juros é evidente e justifica o corte de meio ponto percentual na SELIC, atualmente em 12%
01/09/2011 Corte de juros levanta dúvidas sobre regime de metas de inflação
O argumento do BC para o corte de juros é falho. O cenário externo não justifica uma virada brusca na política monetária –Ao fazer a redução, o BC está se comprometendo com uma inflação mais alta lá na frente, o que vai contra o sistema de metas e abala sua credibilidade - Thiago Curado – Tendências Consultoria...
02/09/2011 Mercado diverge de economistas na reação ao corte da taxa de juroEssa história de perda é coisa de teoria de economista. Quem bota dinheiro em jogo, que é o mercado, não perdeu a confiança ou não estaria apostando em queda do juro lá na frente
02/09/2011 Surpresa com o COPOM desencadeia onda de revisões para o rumo da SELIC
Decisão extrema, reação extrema. Os economistas, que em bloco apostavam na manutenção da SELIC em 12,50% em agosto, estão correndo para revisões
02/09/2011 Corte de juros quebrou “liturgia”
O regime é de metas de inflação, mas não está claro que inflação é o mais determinante...o mercado ainda tinha uma convicção, para não dizer esperança, de que o BC desse peso maior à inflação do que ele mostrou – Marcelo Carvalho – BNP Paribas 02/09/2011 Para Barclays, mudança abrupta do BC vai impor volatilidade
A mudança abrupta do Banco Central (BC), saindo de aperto para afrouxamento monetário sem comunicá-lo ao mercado, irá adicionar mais volatilidade à curva de juros doméstica
61 Quadro 11: Narrativas dos jornalistas econômicos - inflexão dovish em 2011
(conclusão) Data Título/Narrativas de jornalistas, políticos, economistas chefe e demais economistas
02/09/2011 Corte do juro não garante ambiente para reduzir dívida atrelada à SELIC
O investidor que compra um papel de longo prazo tem de acreditar que a inflação ficará perto do que o governo está prevendo. Isso porque, se a inflação for maior, a sua remuneração real será menor...qualquer estratégia que vise substituir títulos de longo prazo, para não onerar o Tesouro, tem que vir acompanhada de um compromisso inequívoco da meta de inflação – Fabio Giambiagi
Fonte: Elaboração própria com base em Valor (2011)
Como se pode observar, os economistas chefe dos bancos e corretoras manifestaram grande contrariedade com a elevação dos juros, indicando uma forte defesa da perspectiva
Hawkish repousada sobre o regime de meta de inflação, em detrimento da postura Dovish de
afrouxamento monetário, mais pró desenvolvimento econômico e emprego.
Nesse momento Beluzzo já chamava a atenção de que o centro da batalha dos juros recairia sobre a questão fiscal, o que indica que há constructos ancorados na inflação.
Essas batalhas foram também analisadas no momento de nova inflexão, com alta de juros, onde foi feita uma contagem de sentenças no jornal valor quando os juros passaram a subir em 2013, que estão no ANEXO 1.Em geral as análises estão vinculadas a perspectivas
Dovish ou Hawkish, com enfoque na política fiscal e inflação principalmente.
Outro passo da cena foi a batalha encapada pelo governo na redução dos Spreads. O Quadro 12 indica algumas das reportagens do Valor sobre o assunto:
Quadro12: Narrativas dos jornalistas sobre os Spreads - 2011-2012
(continua)
Data Notícias/narrativas dos jornalistas, agentes públicos e privados 03/11/2011 Spread cai nos bancos públicos e sobe nos privados
Os bancos públicos praticaram, em média, spread inferior ao dos privados em suas operações de crédito a juros prefixados em 2010, invertendo a situação verificada em 2009 22/12/2011 Mântega anunciou R$ 500 milhões para BNDES e R$ 400 milhões para caixa
São pequenos reforços para fortalecer a posição dos bancos oficiais e ampliar a capacidade de concessão de crédito em 2012
19/03/2012 Tombini e a agenda de Mantega
Há quase um mês, o presidente do BC assegurou a senadores que a redução do spread bancária é uma “prioridade de governo” e uma “determinação” da presidenta Dilma Roussef
Há poucos dias, após participar de reunião como Ministro Guido Mantega e o presidente da a Caixa Econômica Federal, Jorge Hereda, Aldemir bendine, do banco do Brasil, garantiu que o spread bancário é agenda permanente e indicou que a perspectiva da instituição é colaborar bastante nesse processo [de redução do spread]. Bendine afirmou ainda que o modelo de crédito no país precisa ser revisto – o modelo econômico financeiro “tem folga para isso”
62 Quadro 12: Narrativas dos jornalistas sobre os Spreads - 2011-2012
(continuação) Data Notícias/narrativas dos jornalistas, agentes públicos e privados
28/03/2012 Mantega cobra queda dos Spreads
O Ministro da Fazenda reúne-se hoje com os presidentes dos bancos públicos (banco do Brasil e Caixa) e com dirigentes dos maiores bancos privados do país para cobrar uma redução do spread bancário
Os bancos privados têm no aumento da inadimplência a principal justificativa para a elevação do Spread que, no caso de pessoa física era de 33,7% em dezembro e subiu para 35,8%. A taxa de inadimplência de 5,8% é a mais elevada desde 2009, ano em que o Brasil teve recessão como conseqüência da crise financeira internacional
Para o governo contrapor o argumento de que a inadimplência está gerando Spreads mais elevados há, também, a ampliação das informações do Banco Central sobre o risco de crédito
28/03/2012 Spread menor a fórceps
28/03/2012 Mantega discute spreads com dirigentes de bancos públicos e privados
Além dos presidentes do banco do Brasil, Aldemir bendine; e da Caixa, Jorge Hereda;
estariam presentes também Luiz Carlos Trabuco (Bradesco), Roberto Setúbal (Itaú) e Marcial Portela (Santander) e Murilo Portugal (Federação Brasileira de Bancos), segundo fontes ouvidas pelo Valor
O encontro ocorre um dia depois do levantamento do Banco Central mostrar que, mesmo com a redução da taxa básica de juros SELIC, o Spread bancário (diferença entre custo de captação dos bancos e a taxa cobrada nos empréstimos aos clientes) não parou de crescer. O motivo para ampliação da margem dos Spreads foi, segundo os bancos, o aumento da inadimplência
Oficialmente, o Ministério da Fazenda não se pronunciou sobre o encontro. A reunião também não consta da agenda do ministro Mantega
02/04/2012 Spread no bastidor
Em abril de 2009, quando Antonio Francisco de Lima Neto foi destituído da presidência do BB, o ex-presidente fez declarações contundentes.
04/04/2012 Em consonância com o governo, BB reduz taxa de juros
Um dia após o governo anunciar medidas de estímulo a indústria e a presidente Dilma Roussef criticar os elevados spreads bancários (diferença entre a captação dos bancos e as cobradas de clientes), o Banco do Brasil anunciou redução do juro no crédito para pessoas físicas, micro e pequenas empresas
05/04/2012 BB corta juros em ofensiva que pressiona bancos
“É claro que o governo tem interesse na queda dos juros bancários. Mas não existe interferência política. Reduzimos a margem de lucro para conquistar mais clientes, aumentar o volume de negócios com os clientes atuais e ganhar mais mercado” - Bendini 05/04/2012 Governo discute capitalização da caixa e BB
Para os dirigentes dos bancos públicos, o movimento de corte de juros e a esperada expansão do crédito não comprometem os índices de Basiléia no curto prazo. Mas já se discute no governo se BB e caixa vão ter que ser capitalizadas pelo Tesouro Nacional este ano ou no próximo, quando começa a vigorar as regras de Basiléia 3
05/04/2012 Caixa anunciará corte de juros na segunda-feira 11/04/2012 Receita dos bancos para o spread cair
As mais de 20 sugestões entregues ao secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, abarcam desoneração tributária da intermediação financeira (IOF, COFINS) à redução gradativa dos depósitos compulsórios e seus direcionamentos, além de antigas demandas dos bancos, como a criação das Letras Financeiras Imobiliárias (LFI). Sugerem, ainda, a incorporação de novas garantias para reduzir a inadimplência e a significação do processo de execução de garantias
63 Quadro 12: Narrativas dos jornalistas sobre os Spreads - 2011-2012
(continuação) Data Notícias/narrativas dos jornalistas, agentes públicos e privados
10/04/2012 A longa e dura batalha pelo barateamento do crédito
Tecnicamente é de difícil explicação os níveis de spread no Brasil – Dilma Roussef O problema é antigo. A derrubada da inflação pelo Plano Real revelou o quanto são salgados os juros e elevados os spreads do crédito bancário. Desde então o governo tenta baratear o crédito, quase sempre sem sucesso
No início da década passada, ficou famoso o estudo do economista do Fundo Monetário Internacional (FMI), Agnés Belaisch, que colocou o Spread bancário praticado no Brasil como o maior entre 102 países analisados e indicou que a causa principal era a falta de competição no sistema financeiro. Vários bancos estrangeiros entraram no mercado brasileiro depois disso e, em vez de competirem, adaptaram-se de bom grado às práticas locais
11/04/2012 Analistas otimistas com o Itaú, apesar de polêmica do Spread
A polêmica do Spread – desencadeada pelo estímulo do governo para que o Banco do Brasil *(BB) baixasse as taxas de juros na concessão de empréstimos – fez estragos nas ações do setor bancário na semana passada. Liderados pelo tombo do papel do próprio BB, que caiu 7,01%, todos os grandes bancos fecharam a semana no vermelho
“Essa história de taxa das taxas do banco do Brasil afetou todo o setor financeiro na bolsa” – diz João augusto Salles – economia da Lopes filho & associados
O mau humor geral acabou estancando a tímida recuperação ensaiada pelo papel preferencial (PN, sem direito a voto) do Itaú Unibanco em 2012. Depois da queda de 11,25% em 2011, a ação do banco subia 4,60% este ano até o dia 30
12/04/2012 Guerra é guerra - O ministro declarou que os bancos querem jogar a conta do spread alto nas costas do governo. Citou que os bancos privados estão retendo crédito, que captam dinheiro a 9,75% e emprestam a 30%, 40% e até 80% ao ano sem justificativa. Mantega lembrou que, em 2011, os bancos brasileiros estavam entre os mais lucrativos do mundo. E informou que o presidente da FEBRABAN, Murilo Portugal, em vez de trazer soluções à discussão sobre o spread bancário que o governo quer reduzir, fez cobranças ao governo 12/04/2012 Mantega critica bancos e vê espaço para cortar juro no crédito
O Ministro fez críticas à reunião da última terça-feira com o presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Murilo Portugal.
Para Mantega, os bancos estão captando os recursos a 9,75% ao ano e emprestando a 30%, 40%, 50% e até 80%, dependendo da linha. “Essa situação não se justifica”
A economia brasileira está bastante sólida. Nós estamos coma inflação baixa em torno de 4,5%. A situação fiscal está ótima. Estamos melhorando o superávit primário, diminuindo a dívida pública brasileira. Os consumidores estão com vontade de consumir com mais salários, porém, está havendo a retenção do crédito por parte dos bancos - Mantega 13/04/2012 Dilma busca aliados para enfrentar banca
Minutos depois de ser empossado, em 27 de março de 2006, no Ministério da Fazenda, Guido Mantega ligou para o secretário executivo da pasta.
Mantega continua no mesmo lugar e Murilo Portugal se tornou presidente do sindicato dos bancos
Em 2008 imbicaria de novo para cima a curva de juros para cima, reduzindo a marcha de colisão que já derrubou os juros e ainda não tirou o pe da lama.
Com a posse de Dilma, porém a rota era traçada e foi publicamente exposta pela presidente da República: a política monetária é a vantagem comparativa do Brasil num mundo que já derrubou os juros e ainda não tirou o pé da lama.
O que está em curso, com a discussão da troca do indexador das dívidas estaduais e municipais e o afrouxamento das condições em que incentivos tributários podem ser concedidos pelos Estados, é a recuperação dos governadores como atores políticos capazes de engrossar o setor produtivo no cabo de guerra com o sistema financeiro
64 Quadro 12: Narrativas dos jornalistas sobre os Spreads - 2011-2012
(conclusão) Data Notícias/narrativas dos jornalistas, agentes públicos e privados
16/04/2012 Febraban, FIESP e as broncas de Dilma
O esforço de criar condições fiscais para baixar os juros tem batido de cara na solida resistência dos bancos privados em reduzir o custo financeiro para a sociedade, argumenta a equipe econômica de Dilma
Assim como Portugal, o presidente da FIESP, Paulo Skaf já havia ajudado a azedar o humor acre da presidente, durante outro evento, o anuncio do Planalto, das medidas adicionais do Plano Brasil Maior, no início de abril. Enquanto executivos se refugiavam em elogios, Skaf foi o único a dizer o que pensava boa parte dos líderes empresariais, criticando como insuficientes as medidas de apoio à indústria.
Com o desinteresse pelo PRONATEC, inflamam os ânimos dos que, no governo, identificam com irritação um obstinado comportamento oposicionista no presidente da FIESP, executivo com pretensões políticas, filiado ao PMDB do vice-presidente Michel Temer. Nos vestiários da indústria, porém, não consta que Skaf venha recebendo críticas de seus pares por isso
18/04/2012 O governo ganhou
O governo deflagrou uma guerra contra os juros altos do sistema bancário e ganhou. Os três maiores bancos privados do pais – Itaú Unibanco, Bradesco e Santander – baixaram as taxas de crédito. Lançou o pacote Maxiconta Portabilidade Salário em conta corrente do banco.
O posicionamento do Itaú foi visto como resposta ao BB que, ao divulgar o “Bom para Todos”, botou fé na livre opção bancária – lei em vigor desde 1 de janeiro deste ano e que permite aos servidores públicos escolherem qualquer banco para receber seus salários Ao anunciar a redução da taxa de juros hoje o Itaú fez mais.
Fonte: Elaboração própria com base em Valor (2011;2012)
A batalha sobre os Spreads entre o Ministério da Fazenda e os bancos privados se intensificou entre o final de março de 2012 até o dia 14/04/2012, tendo se iniciado no final de 2011 ao mesmo período em que o governo começou a trajetória de queda da taxa SELIC. Pela consecução das notícias, há indicativos de que um acordo não foi encontrado, em que os bancos justificavam a inadimplência e colocavam sobre a redução de impostos a responsabilidade para a redução dos Spreads.
O núcleo da tensão entre governo e bancos privados está relacionado à desproporção entre a inadimplência e os Spreads, que é a diferença entre o que os bancos captam no mercado e o que eles cobram.
No período em que o governo passou a deflagrar uma disputa mais aberta para forçar a queda da taxa básica de juros e dos Spreads, há uma quantidade considerável de reportagens nos jornais mainstream e também no jornalismo econômico buscando explicitar dados de aumento da inadimplência.
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A presidente do banco Santander à época, Márcia Portella, vinculava a elevação da taxa de inadimplência no banco para 4,5% teria como razão a elevação da inflação era responsável pela dificuldade das pessoas pagarem suas dívidas (O GLOBO, 2012).
Na mesma linha, a chamada de uma reportagem do Estadão apontava que “A inadimplência do consumidor cresceu 21,5% em 2011”, apontando que a inflação seria então a culpada pela perda de capacidade de perda do poder de compra do trabalhador (ESTADÃO, 2012).
Não se pretende colocar propriamente na mesma lógica das justificativas, mas entender que os vieses repousam justamente no gap entre as análises quantitativas e qualitativas, onde a própria escolha da forma de apresentação dos números opera uma intencionalidade para direcionar a política monetária.
Alternativamente, porque a ampla gama de reportagens de jornais como Folha de São Paulo, Globo, G1, Estadão e, de maneira mais específica, o jornal Valor não apontam para uma adimplência de 96,5% no Banco Santander ou, porque explicitar uma elevação de 21,5%, que soa um alto número, em vez do número absoluto da inadimplência?Ao longo do trabalho, se buscará demonstra que há um operador heurístico técnico-moral, expresso como um jogo narrativo em que se evidencia o marginal e se eclipsa o fundamental, construindo-se a idéia de que o brasileiro e o Estado teriam desvios morais no que tange a honrar seus compromissos e, por esse motivo, mereceria uma justa punição. Identificou-se uma possível correlação entre a meta-heurística dos juros e da inadimplência, ancoradas nas formas de apresentação das narrativas sobre as ordens de valor que dão base a elevação dos juros e estes, por sua vez, teriam uma maior relação com a própria elevação da inadimplência, em uma espécie de “loop infinito” para manter os juros em níveis inerciais altistas.