Chapter 4 Result and Discussion
4.2 Results
4.2.3 Main themes
Onde se relata um tortuoso percurso vivencial-acadêmico. Onde se fala da morte porque se fala da vida.
Onde a escola é transformada em imagem.
Onde a literatura engana a escola, assim como o inconsciente logra o ego e o mito burla o logos.
Transitando entre literatura e mito, mito e educação, sempre ao sabor dos meandros, das curvas, dos bancos de areia do rio onde freqüentemente encalhamos de braços com nossos projetos, terminei por dar com os costados no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica, da PUC de São Paulo, talvez pela intervenção de um daimon um tanto dispersivo. Havia lá, à época, uma área de estudos - Literatura e Intertextualidade – em cujo cais teórico pude fundear minha canoa sem necessariamente violentar meu desejo, e podendo mesmo legitimá-lo, ainda que minhas escolhas por vezes fossem vistas com certa reserva pela maior parte dos peirceanos e greimasianos de plantão. Foi como, no mestrado, reafirmei a opção pela literatura imbricada à vida – leitura - e, desse modo, reencontrei a imagem mítica, atualizada e ressignificada pela prosa poética d’O livro do desassossego por
Bernardo Soares, de Fernando Pessoa, na qual pude igualmente identificar a prática literária
como exercício de narratividade (de produção, de fruição, de comunicação), transmutado em possibilidade existencial: ou seja, vivido como imagem e como mediação.
No Livro – como aliás em toda escritura, conquanto nele de um modo ainda mais revelador dos bastidores do processo de criação textual e de formação de identidade do autor –
o fazer textual exibia seus bastidores, e mais do que isso, suas entranhas, ao expor os gestos mais banais do escritor-leitor Soares enquanto era por seus gestos revelado e modelado, num circuito incessante de troca de atributos, de afirmações, de negaceios e entregas, numa intensa dinâmica de reversibilidade entre as etapas da atividade estética: nunca se sabia onde terminava a poiesis da escritura e onde começava a aisthesis da leitura, muito menos em que ponto das duas podia irromper a catharsis. Se essa era uma verdade fundante para Fernando Pessoa e sua obra, parecia no entanto a única verdade possível para Bernardo Soares, o semi-heterônimo mais verossímil do que o homem real, o autor-personagem que, em minha experiência de leitura, parecia existir, como criatura, mais concretamente do que seu criador. O segundo, aliás, já me fora de imensa valia em momentos particularmente turbulentos da adolescência, quando eu havia alternado adesões às identidades poéticas de Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, dependendo do enigma proposto pela vida. O fingimento pessoano foi outro achado em minha vida, a imagem encontrada para a expressão de uma estratégia muito familiar e eficaz, longamente praticada naquele “outrar-me” defensivo-criativo que a literatura desde cedo me ensinara e que me garantira a passagem pela escola, no sentido iniciático do termo, e sua ultrapassagem.
Pessoa fora, muito antes do tema de mestrado, portanto, uma escolha vivencial que retomara e recriara, em proporção, linguagem, gênero, temática, estilo, imaginário, a experiência com o arquétipo literário que eu vivera com Monteiro Lobato na infância, tendo possibilitado que eu encarnasse, pela imaginação, um outro repertório vivo e eficaz de imagens que de seu texto (e portanto de sua vida, de seu imaginário) migraram para a minha vida, atualizando-se diante de novas imposturas do pólo objetivo do trajeto. Não posso esquecer o impacto que me causou a descoberta de Álvaro de Campos e de seu Poema em linha reta. Por outro lado, o fingimento oferecia-me justamente uma experiência de viver “entremundos”, era uma dessas “‘figurações de libertação” a mediar realidade subjetiva e objetiva, ativando expedientes da imaginação capazes de revestir certas sensações nuas, inexprimíveis, inclassificáveis da adolescência, ajudando-me a elaborar conflitos, preenchendo espaços que se esvaziavam também com a perda da infância. Era como se, ao ler o multifacetado e perturbador Pessoa, eu recuperasse, de certo modo, senão o próprio Lobato, “a coisa” do texto que o figurava, ou mesmo algumas de suas imagens como que reativadas, projetadas num texto que, sendo outro, pululava de reverberações.
A essas alturas, eu já tinha reencontrado Monteiro Lobato em Emily Brontë, Edgar Allan Poe, Érico Veríssimo, Isaac Bashevis Singer, Gustave Flaubert, Giuseppe Tommasi di Lampedusa, Guimarães Rosa, José Lins do Rego, Giovanni Boccaccio, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Oscar Wilde, Théophile Gauthier, Eça de Queiroz, Alexandre Dumas, Francisco Marins, H. Rider Haggard, Agatha Christie, Arthur Conan-Doyle, Amedé Achard, Rafael Sabatini, M. Delly, entre muitos outros, sem escalonamentos ou hierarquias, sem a intervenção de árbitros do bom gosto literário para atrapalhar a fruição. Deixo de fora as revistas de fotonovelas (que retomarei brevemente mais adiante), os gibis variados (a série
Kripta, de quadrinhos de terror, repassada por primos mais velhos, era a melhor de todas, nutriz
de ótimos pesadelos), as edições do Almanaque do Pensamento e das Seleções do Reader’s Digest, embora não possa deixar de citá-los, e assim fazer-lhes alguma justiça. Graças a Deus, meu pai comprava-me todos os livros que eu lhe encomendava sem jamais perguntar se eram ou não adequados para minha faixa etária ou se constituíam, de fato, boa literatura.
Descoberto na 1º série do ensino médio com o referido Poema em linha reta, de Álvaro de Campos, penso hoje que Pessoa afigurou-se, grosso modo, numa espécie de versão depressiva, oposta-complementar de Monteiro Lobato, porém igualmente eivada de contradições, redobramentos e desdobramentos textuais, assim como de ideários exóticos, afinados, na essência, com o nacionalismo utopista de ambos: em Pessoa tão nostálgico, sebastianista e ensimesmado, em Lobato tão progressista e extrovertido. E se tais comparações certamente careciam de verossimilhança externa, podia-se ajustá-las, entretanto, pelas aproximações e distanciamentos que a dança das imagens era capaz de ativar na leitura. Afinal ambos alternaram experiências criadoras radicalmente modernas com atitudes e posturas políticas e artísticas de um surpreendente conservadorismo. Haviam sido contemporâneos e, não raras vezes, devo tê-los combinado num mesmo devaneio, talvez entregue àquela modorra intervalar que nos permite enxergar os sacis nas garrafas, ambos miúdos, magrinhos, trajados com o mesmo apuro discreto, usando chapéus bem parecidos e circulando por cidades que chegavam mesmo a encontrar-se nalguma rebarba do tempo, São Paulo e Lisboa com seus cafés, melindrosas e bondes. O bigodinho de Pessoa e o bigodão de Lobato bem poderiam esconder, em minha fantasia de leitora, o mesmo sorriso ambíguo, quase alegre e quase triste. No limite, eu os enxergo hoje também um pouco fraternos em seu luto jamais elaborado, freqüentando sessões espíritas para falar com fantasmas queridos: dona Maria, a mãe de Pessoa;
Guilherme e Edgard, os filhos de Lobato. Entretanto, naquele tempo em que “se comemorava o dia dos meus anos”, eu também “era feliz e ninguém estava morto”, como Álvaro de Campos.
A monografia de mestrado que me levou de volta a esse outro autor querido, na convergência de um projeto de vida e de formação, chamou-se Biografemas pessoanos ou o
corpo em desassossego no signo (Como compreendo esse título hoje, muito mais do que o
compreendia então!) e nasceu da reflexão acerca do mistério que entrelaça vida e literatura, teoria e experiência, inteligível e sensível, consciência e inconsciente, o eu e o outro, realidade e imaginação, e que eu enxergava tão claramente no percurso de autor-leitor-personagem de Pessoa. E havia ainda a consciência de que o fingimento, esse “outramento” possibilitado, no caso de Pessoa, por um fazer literário que se desdobrava em múltiplas imagens, personificações poéticas, ficções míticas, podia fornecer-me alguns modos eficazes para viver de muitas maneiras, ir um pouco além da existência no “piloto automático” que eu observava nos modelos concretos, disponíveis ao meu redor. Para Hillman (1997:85), “...a personalidade múltipla é a humanidade em sua condição natural”, podendo até, em outras culturas menos identificadas com o ego do que a nossa, receber “...nomes, localizações, energias, funções, vozes, formas angelicais e animais, e até mesmo formulações teóricas como diferentes tipo de almas”. Tomado do ponto de vista da alma (e aqui, da alma segundo a Psicologia Arquetípica), as “personalidades parciais’” de Pessoa não seriam fragmentações de um ego patológico, estilhaçado, assujeitado por uma miríade de complexos ou sintomas, mas um simpósio de deuses aninhados na alma e manifestos na escritura: “daimones, gênios e outras figuras míticas imaginais.” (Hillman,op.cit.:88).
Devo dizer que, por essa mesma época, o daimon de meu destino já me conduzira à educação, ainda que por um caminho transversal. Aliás minha educação sempre se deu por atalhos e desvios, nunca pelas estradas principais, talvez porque, fugindo, eu acabasse sempre por retornar a ela. Mesmo assim, não pude deixar de me surpreender quando compreendi afinal, depois de viver várias experiências práticas de magistério informal, que o que eu queria mesmo, na vida, era ser professora. Afinal eu, que tantas vezes escapara da escola sem ausentar-me dela fisicamente, é verdade, porém inventando as mais variadas estratégias de evasão e resistência, que sobrevivera a ela com algumas cicatrizes sensibilizadoras e como quase todo mundo, mas inteira, podia por fim retornar a ela, depois de haver experimentado uma passagem promissora
pela publicidade onde fui tentada por não poucas compensações materiais e onde, por pouco, não sucumbi às imagens fascinantes e sem alma que povoam esse deserto glamuroso. Tendo recusado esse caminho largo (como aconselhava o quadro Os dois caminhos, pendurado na parede da sala de uma casa de tia-avó), eu me decidira a fazer uma escolha nitidamente desvantajosa aos olhos do mundo. Como educadora, eu perdia dinheiro e status, mas me entregava à paixão pela sala de aula que envolvia tanto ensinar quanto aprender, agora com liberdade para reinventar a escola e a professora. Talvez eu quisesse mesmo ser a “desprofessora” que reconheço um pouco no “educador negativo” de Paula Carvalho, mas para isso seria preciso construir-me.
Eu tinha pouco mais de quatro anos de magistério de Língua Portuguesa, quando procurei o mestrado numa área da qual os professores que eu conhecia costumavam fugir. Minha escolha resultava de um desejo de arriscar em sala de aula, mas também de uma motivação existencial que não arredava pé da literatura como valor inegociável. Se por um lado eu recusava os lugares-comuns da disciplina e seus conteúdos restritos e restritivos, por outro eu me ressentia da falta de subsídios para ousar de modo mais consistente e fundamentado, em minha tentativa de ressignificar o universo verbal (articulado ao não-verbal) e com ele a experiência de aprendizado (escolar ou não), pela força da literatura. A disciplina escolhida por si só já me servia então de salvaguarda, visto que, na escola – eu bem sabia - sempre é preciso ter a sua. Protegida pela Língua Portuguesa – que estranhamente me conferia, por tabela, a prestigiosa e dúbia função de redatora em reuniões de professores (porque os especialistas de outras áreas são, quase todos, muito reservados em relação ao próprio texto) -, abrigada na literatura, enfim, eu podia reinventar grande parte dos conteúdos, graças aos deuses do texto.
No que tange, pois, ao mestrado, eu já vinha bordejando o imaginário pelo viés da escritura pessoana e tangenciando o mito oculto e desvelado nessa obra, o que me permitiu inventariar alguns dos arquétipos encarnados como imagens por Pessoa para poder viver e escrever. Eu planejava à época que a experiência de reflexão acadêmica permanecesse como pendência e possibilidade aberta, como fruto e pregnância de novas experiências que eu sonhava partilhar com alunos e outros professores, os quais eu sabia, como eu, inquietos e insatisfeitos com a escola que tinham diante de si, ela mesma um duplo persistente de um modelo de formação sem dilema nem encanto: ecos do sonho de Cazuza. Em resumo: eu não
sonhava (e continuo não sonhando) a experiência acadêmica como um cargo vitalício, uma comenda, uma relíquia. Para mim, ela era, mais que tudo, um território interior do qual eu desejava tomar posse. Ainda faltava, porém, compreender que a educação era para mim muito mais do que um campo de reflexão teórica e uma práxis: era uma vocação existencial e uma seara subjetiva por limpar, adubar e semear, na qual a profissão de professora constituía apenas um pequeno distrito.
No tempo do mestrado, foi a possibilidade de tornar a operação com meu objeto – e, nesse sentido, a existência concreta, para mim inexoravelmente embaraçada à vivência acadêmica -, um modo de franqueá-lo, de reparti-lo com outros interlocutores (exatamente como eu buscava fazer com meus alunos na sala de aula), o que mais me estimulou a assumir um empreendimento que tinha também contornos de questionamento vocacional, de revisão de escolhas pessoais, de resposta anímica às interrogações da vida. Fui, portanto, e desde o princípio, movida pela angústia escolar consteladora de imagens – e agora comigo no papel inverso. A literatura já se me afigurava então como um dos melhores caminhos, não apenas para ressignificar o ensino da língua na escola, como também para instalar outros espaços e modos de aprender que não os que a escola previa e privilegiava. A escritura pessoana concedera forma e voz à intuição de que essa angústia era, não uma maldição, mas um tesouro fundamente enterrado no solo da minha infância, quando ser feliz na escola soava quase como mau comportamento.
Encerrado o processo formal, entretanto, as seduções e imposições da realidade, as microdemandas do cotidiano, minha atração pela sala de aula, tudo aliado a uma certa tendência inata ao comportamento que Pessoa classifica de lepdóptero, ele mesmo enraizado num bovarismo intrinsecamente dissipador para com o tempo e de cuja culpa já fui devidamente liberada por, no mínimo, Morin e Maffesoli, tudo isso, enfim, terminou por desviar-me para outros pensares e fazeres menos pontuais e oficiais dos que os que me determinava então a academia. Desse modo, permanecer na academia, no contexto que se me apresentava, significava confinar essa energia que queria desaguar num viver do aprendido, num experimentar significativo lastreador para outras reflexões. Era o que eu queria fazer, antes de me meter de novo no gabinete. A quantidade de libido exigida para outra etapa penosa de produção intelectual, eu a sentia então um pouco menos genuína do que a que me movera em
direção ao mestrado, já que agora parecia-me imposta mais como seqüência lógica, numa lista que me cheirava a curriculum mortis, em referência a um dos trocadilhos favoritos de Rubem Alves.
Dois anos mais tarde, convencida por meu orientador - e muito mais pragmática quanto aos benefícios concretos do doutorado -, eu já me preparava para retomar o andamento de minha formação numa perspectiva pela primeira vez sistemática e assumidamente utilitarista, quando fui colhida pelo inesperado. Não planejei, confesso, afastar-me por tanto tempo – 10 anos - da academia. Fui afastada pelos ditames da vida, tendo decidido assumi-los como parte integrante e protagonista da mesma formação. Hoje – deslocada da Semiótica da Literatura para o Imaginário, na perspectiva de uma Educação da Alma pela Literatura – quero crer que foi, de novo, esse meu daimon errático a impôr-me a metanóia precoce, principiada com ares de exílio e que me tem guiado neste retorno que apenas falseia desvio de rota, como todas as outros. Eu estava fadada a submeter meu percurso acadêmico a algumas provas nada convencionais, levadas a cabo fora da academia, num lugar desconhecido e pleno de terrores e maravilhas, como na jornada do herói de Campbell, cursando para isso algumas disciplinas nada ortodoxas, a começar por uma longa jornada às profundezas da alma e de volta. Um descenso “...na direção de memórias enterradas de infância”, tanto quanto “...em direção a mitologemas arcaicos” (Hillman, 1995:57).
Se descobrimos nosso mistério à custa de nossa inocência, tal como afirma Robertson Davies, apropriado por James Hillman (1997:11) numa epígrafe de O código do ser, então posso, somente agora e à distância, ainda que apenas como imagem que escapa às sistematizações do “espírito, com sua retórica de ordem, número, conhecimento, permanência e lógica autofensiva” (Hillman,1995:52), posso enfim apreender uma pequena faceta desse mistério, para torná-lo visível ao outro e buscar compreender, ainda que também em parte, por quais caminhos caberá a mim passá-lo adiante, posto que a educação permanece sendo o lugar para o qual acredito teimosamente haver sido designada, ainda antes de nascer. A questão aqui é, no entanto, passar-me adiante, como eu já disse, feito cama-de-gato que se desconstrói para reconstruir-se diferente nas mãos alheias. Só assim é possível que algo do mistério resista em sua interpretação.
Não é difícil perceber, até este ponto, que, desde minha dissertação de mestrado, talvez mesmo desde minha escolha pelo curso de Letras, eu já andava seduzida pelo canto da imagem que eu escutava no texto literário. Imaginário, arquétipo, mito, contudo, permaneciam gravitando na esfera mágica das reminiscências, das emoções, das intuições – em suma, experimentados como imagens nos territórios da alma, que sempre soube que todas as coisas são a mesma coisa, mas que só iria revelá-lo do mesmo jeito curvo e lento que, segundo Guimarães Rosa, é o de Deus. Aqui, novamente, vida e texto se entrelaçariam. Errando por labirintos do desassossego cavados pelo humilde auxiliar de guarda-livros Bernardo Soares, eu compreendera sobretudo que o texto literário constrói-se como materialidade por força da operação da leitura, ela mesma ancorada inapelavelmente numa existência real, que assim se constitui no filtro pelo qual o texto passa para transformar a realidade e para transformar-se em realidade. A escritura inscreve-se como marca indelével no imaginário do sujeito leitor, marca de uma pertença ao coletivo que a origina, coleciona e conserva, mas também como estigma da singularidade desse mesmo sujeito capaz de fazer girar e assim amplificar suas imagens, sempre que capturado e recapturado na órbita da obra. À época dessa descoberta, eu ainda transitava pelos conceitos da semiótica peirceana, permanecendo portanto interditada (apenas do ponto de vista consciente e acadêmico) de epifanias, hierofanias, revelações, mistérios... Assim pensava eu, até que Bernardo Soares chegou para pôr-me a perder.
No processo da pesquisa, mergulhada naquela escritura pantanosa, larvar, de uma pluralidade perturbadora, escritura-laboratório do sujeito e do texto pessoano, eu tentava em vão organizar, sistematizar, submeter minhas leituras e meu pensamento a alguma taxonomia, a fim de conter o universo instável que é o Livro do Desassossego - nem poesia nem prosa, nem fingimento nem dor, nem nome nem heterônimo, nem escritor nem personagem, nem eu nem outro - no qual o logos subverte sua própria natureza de signo para deixar-se rasurar de existência e abandonar um decifrador tarefeiro à deriva, de braços com imagens que aderem à memória e à experiência, impedindo-o de avançar produtivamente, escapando da instância analítica para extravasar sua turbulência no cotidiano desse sujeito sempre incauto que o pesquisador que ama seu objeto e que, por amor a ele, se sujeita às suas leis, jamais deixará de ser: o leitor. Eu não sabia, mas estava às voltas com o que Jung (apud Pieri, 2002:460) chama “um símbolo vivo”: irredutível, incognoscível, indecodificável, capaz de colocar lado a lado as oposições, sem reduzi-las ou resolvê-las numa síntese. Para aprofundar ainda mais a
ambigüidade insolúvel dessa vivência, defendi-me mal contra os efeitos colaterais d’O Livro, na medida em que escolhi um método por demais aderente ao objeto. Fato é que este último escapava-me mais do que eu o conseguia abarcar, e a essa recusa de entrega, eu tomava apenas como sinal de inépcia da hermeneuta (o que não deixava de ser um espelho da verdade).
Em meio ao embate com um texto emaranhado, cheio de redobramentos e que não me permitia manter dele uma distância asséptica e segura, acabei por adoecer, deprimida como Soares, e meu corpo entregue ao texto obrigou-me a parar de resistir. Foi convalescendo que retomei minha condição radical de leitora, passando a exercer uma espécie de hermenêutica da entrega, tendo suspendido a do embate com o texto. Passei de novo a vivê-lo como imagem do