Chapter 4 Result and Discussion
4.3 Discussion
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M ESCLARECIMENTO PRELIMINAROs leitores que não tiverem travado contato direto com os textos de Madame Bovary,
Decamerão e O morro dos ventos uivantes precisarão primeiramente inteirar-se de seus
enredos, a fim de que esta leitura possa construir-se no bojo de um contexto mínimo de significação, ainda que limitado ao nível do enunciado. Cada um dos três ensaios que seguem serão, portanto, inaugurados com sinopses dos enredos dos textos dos quais as imagens emergem, com o fito de conduzir o leitor pela narrativa, tendo as mesmas como guias de modo que ele possa localizar-se em meio a elas, ainda que o faça por meio da leitura alheia.
A sinopse do enredo pretende ser, portanto, um elemento facilitador da visualização das imagens organizadas no contexto de uma gestalt narrativa, muito embora se trate aqui de uma coleção pessoal delas, recortadas e remontadas a partir do crivo de uma subjetividade intransferível, fato que, todavia, não as impede de circularem intersubjetivamente para legitimar-se na experiência de quem as vê tendo a tese como fundo, ou mesmo com o objetivo de atrair para sua órbita outras imagens e, com elas, outros significados que não aqueles iluminados por esta leitura em particular. Preciso, porém, concordar com o leitor Alberto Manguel (2004:37), quando diz:
Não gosto que as pessoas resumam livros para mim. Tentar-me com um título, uma cena, uma citação, tudo bem, mas não com a história toda. Amigos entusiastas, sinopses de contracapa, professores e livros de história da literatura destroem muito do nosso prazer de leitores, ao entregar o enredo.
Infelizmente para muitas pessoas, o prazer de conhecer as tramas de Madame Bovary,
Decamerão e O morro dos ventos uivantes já pode ter sido destruído por alguns desses estraga-
prazeres profissionais, entre os quais agora me incluo, desde que o leitor da tese se enquadre na categoria de lector virgo. Quanto à culpa que Manguel atribui à memória da leitura, a qual,
segundo ele, também “... pode estragar muito o prazer de ignorar o que vai acontecer em seguida” (op.cit.:37), preciso discordar veementemente. Em minha experiência de leitura, de modo semelhante ao que se dá com a recepção da narrativa mítica sagrada, tanto quanto com a da criança pequena que escuta prazeromente a mesma história contada e recontada, da qual precisam ser recuperados os menores detalhes pelo narrador a fim de que se renove continuamente o encantamento da primeira vez, quanto mais repetido, mais prazeroso.
Dessa maneira, recuperar um texto muitas vezes lido e deixado de lado por um longo tempo, como acontece com as três obras relidas por mim nesta tese, é também recuperar, como fazia Proust, o sabor de chá com madeleines de certas tardes preguiçosas de leitura, com os cabelos secando ao sol do quintal, mergulhada em imagens tão persistentes e evanescentes quanto os sabores e odores, os amores e humores que intoxicavam o ar de então, fragmentos – e por que não biografemas? - de minha adolescência que só perduram porque o prazer do texto os transformou em amores-perfeitos conservados e inexplicavelmente frescos, prensados entre páginas.
É provável que, em meio à fusão intersubjetiva, esse comércio amoroso que a leitura instala entre autor e leitor, leitor e personagem, texto e experiência, imaginação e realidade, o leitor por vezes se convença de que pode, ao retomar uma leitura capital em sua vida, modificar o rumo dos acontecimentos do enredo e o destino das personagens, reescrevendo a história (a lida e a vivida) enquanto a relê. E talvez chegue mesmo a fazê-lo, ainda que textualmente, como o Pierre Ménard de Jorge Luís Borges, à medida que sonha e devaneia no fluir das “imagens fielmente amadas” de Bachelard. Na prática, ele aprenderá a fazê-lo em sua vida, de inúmeras maneiras misteriosas, poucas das quais mal consegui explicitar aqui. Porém o fato é que reler amorosamente é também escutar ritualmente uma narrativa que já se incorporou ao nosso mito pessoal, com a vantagem de que podemos efetivamente modificar esse ritual de escuta e recriação, tendo sido elevados por ele à condição de leitores-autores. Reler é, portanto, reencantar o mundo com invisíveis possíveis e visíveis impossíveis, repetindo o texto qual um chamado a que a divindade que nele habita se manifeste, a fim de tocar e modificar nossa existência: nossos daimones de autor e leitor, a semente de nossa vocação compartilhada para a vida e para a morte. Esse deus do texto, deus das coisas pequenas radicalmente diverso dos grandes deuses inacessíveis e indiferentes, sempre se manifesta se o chamamos, tal como a ninfa encerrada numa árvore sai para dançar na floresta banhada de luar.
Por razões mais ou menos óbvias, o ensaio inaugural acerca de Madame Bovary, de Gustave Flaubert, é mais extenso do que os que o seguem: primeiro porque há nele esclarecimentos que serão apropriados pelos posteriores, os quais poderão assim seguir mais leves, constituir-se melhor ao ritmo de suas próprias imagens do que às imposições da teoria. Pareceu-me, aliás, bastante natural, enquanto eu relia meu próprio texto dedicado a inventariar imagens “fazedoras” de alma numa perspectiva de sensibilidade heróica, que ele se sacrificasse pelos outros, soasse mais angustiado que eles, mais dividido entre o desejo de boiar à deriva e a necessidade de ancorar, mais perseguido pelo “furor analítico” que caracteriza essa estrutura antropológica do imaginário em especial. Concluí que deve ter havido um daimon heróico a presidir a produção do primeiro ensaio, como um ego maníaco e compulsivo querendo dar conta de tudo, iludindo-se na tentativa vã de apreender racionalmente algum mistério da alma, a qual, como brisa impalpável, sopra apenas onde, quando e para quem quer soprar. Deve ter havido, destarte, também uma pulsação mística e outra, dramática, envolvidas na confecção dos dois ensaios subseqüentes, conferindo os ritmos condutores da reflexão na dinâmica da trajetividade. Ao revelar para mim mesma este mistério que intuo, mas não compreendo, esclareço pontualmente meu leitor acerca daquilo que desejo que ele encontre em meu texto. Quanto ao resto, assim como Gustave Flaubert, Giovanni Boccaccio e Emily Brontë em relação a mim mesma, sei que pouco ou nada posso fazer.
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S LEITURAS PERIGOSAS:
LITERATURA E ALMA NA SENSIBILIDADE HERÓICAE
NREDOA história de Madame Bovary acontece na França, em meados do século XIX, ou seja, é contemporânea de seu autor. Carlos Bovary, um menino de província, de família pequeno- burguesa, é enviado à escola em Ruão. Aluno medíocre, porém esforçadíssimo, forma-se médico e se casa com a senhora Dubuc, uma viúva remediada, indo a seguir clinicar no vilarejo de Tostes. Ao atender um caso de fratura ocorrido numa pequena propriedade rural da região, conhece Ema Roualt, filha do acidentado e dono do lugar, mulher bela, elegante, educada e que o fascina desde o primeiro encontro. Ela, por sua vez, o enxerga envolvido na névoa de sua própria fantasia romântica: vê nele um rapaz agradável que a corteja e lisonjeia, além do profissional liberal de futuro promissor.
A senhora Dubuc contrai tuberculose e morre, fato que libera Carlos para pedir a mão de Ema ao sr. Roualt, para quem a filha adorada é também uma carga, já que detesta a vida no campo. Desde os treze anos, Ema foi educada num convento de carmelitas que a tomavam por vocacionada. Leitora voraz de vidas de santos, a aluna exemplar e devota logo passaria a consumir compulsivamente toda a literatura clandestina traficada entre as alunas internas. Envolvida pela atmosfera do convento, entre as imagens sacras, os rituais e o perfume do incenso, em meio às aulas de música e aos álbuns de lembranças que colecionava, Ema acabaria por mudar-se para um mundo paralelo de imaginação e fantasia, ao qual os livros lhe davam acesso. Avessa à disciplina do convento, terminou por decepcionar as freiras que queriam fazer dela uma noviça e voltou para a casa do pai, onde também logo enfastiou-se de mandar nos criados. Carlos aparece-lhe não apenas como uma saída objetiva, mas também como um cavaleiro andante, protagonista das novelas de Sir Walter Scott, que vem para salvá-la do tédio da vida na fazenda.
Casam-se e, logo nos primeiros dias, ela percebe que cometeu um engano. O marido parece-lhe tolo, superficial, lento, desinteressante, destituído de ambição e de projetos. Ema luta
por trazer alguma elegância e beleza para dentro de sua nova vida, mas a realidade resiste às suas tentativas. Apenas seus devaneios lhe permitem continuar vivendo para desejar uma vida diversa da sua. Ela lê muito, dá ordens à criada, passeia com sua cadelinha Djali e chega mesmo a ser convidada, com o marido, para uma festa na casa de um marquês, onde acha uma cigarreira de prata que guarda como recordação de um mundo que lhe está interditado, mas que, tendo visto, ela não consegue esquecer.
Se Carlos somente desperta nela comiseração e desprezo, ele, ao contrário, a adora indiscriminadamente e lhe faz todas as vontades, embora depois do baile Ema lhe pareça doente, alternando estados de depressão e inquietação nervosa. O marido decide, então, mudar- se para uma vila com mais recursos, Yonville-L’Abbaye, e recomeçar lá sua carreira de médico. Na vila vive Homais, farmacêutico com grande prestígio e um próspero negócio, burguês anticlerical e com veleidades de filósofo positivista. Na noite de sua chegada, na hospedaria de Yonville, Ema conhece Leon, o jovem escrevente do cartório local, que logo se encanta com ela, também despertando nela uma forte atração. O adolescente Justino, que trabalha na farmácia de Homais, é outro que fica perdidamente apaixonado por Ema. A vida profissional de Carlos estaciona em Yonville, em parte porque a clientela do farmacêutico lhe é fiel, em parte porque o primeiro fez muitas dívidas com a mudança e as toaletes e caprichos decorativos da esposa. É quando, para felicidade de Carlos, Ema engravida e nasce Berta. A essa altura, Madame Bovary já se tornou cliente do hábil comerciante L’Heureux, que a supre com aquelas coisas belas que ela ama e que tornam sua vida na província mais suportável. L’Heureux cuida de seduzi-la com a beleza de seus produtos, mostrando-se, contudo, muito pouco interessado em receber por eles de imediato e preferindo colecionar promissórias assinadas por Ema.
Enquanto isso, a paixão recíproca entre ela e Leon evolui silenciosamente, sem que o jovem tome qualquer iniciativa de declará-la, o que a exaspera. Por fim, Leon decide mudar-se para Paris, deixando atrás de si uma Ema profundamente deprimida. Pressuroso, L’Heureux vende-lhe livros, objetos de decoração, vestidos, coisas belas enfim, para aplacar seu tédio e sua frustração, sempre facilitando-lhe os pagamentos e eximindo-a de dar-lhe outras garantias que não sua assinatura em mais promissórias. Como os burgueses de Yonville, a mãe de Carlos também vê com reservas os “ares vaporosos” da nora (Flaubert, 1970, 98), desaprovando totalmente suas extravagâncias. Carlos, ao contrário, vive fascinado com a elegância e a beleza da mulher, com suas inúmeras e surpreendentes excentricidades. Por essa época, o médico
atende em sua casa o criado de um certo Rodolfo Boulanger, aristocrata que comprara uma propriedade perto de Yonville. Rodolfo encanta-se com Ema e decide que fará dela sua amante. Em meio a uma festa municipal, ele seduz Madame Bovary, enquanto, no palanque das autoridades, progridem os discursos patrióticos sobre os progressos do comércio, da agricultura, da indústria, das belas-artes, da civilização. Num passeio a cavalo ao lado de Rodolfo, Ema descobre-se muito semelhante às heroínas de seus romances favoritos e entrega-se ao amante. Começam suas arriscadas visitas a La Huchette, a propriedade de Rodolfo. Paralelamente, Homais toma conhecimento de um novo método para o tratamento e cura de “pés eqüinos” (op.cit., 134) e desafia Carlos a aplicá-lo em Hipólito, o empregado aleijado da Hospedaria Leão de Ouro. O médico reluta, mas é vencido pela argumentação “científica” do farmacêutico e pela insistência de Ema, que o acusa de ser medroso e de não ter ambição. Sob a supervisão de Homais, Carlos realiza uma “operação de estrefopodia” (op.cit., idem) no rapaz. Os resultados são desastrosos e, dias depois, o dr. Canivet, uma celebridade médica de Neufchâtel, vem ver o paciente, constata uma gangrena, amputa-lhe a perna e acusa Homais e Carlos de irresponsabilidade. Este último fica devastado e Ema vai purgar a própria culpa pelo malogro do projeto nos braços de Rodolfo.
Ela freqüentemente presenteia seu amante com objetos caros, sempre comprados de L’Heureux. Depois do fiasco de Carlos com a cirurgia malsucedida de Hipólito, Ema pressiona Rodolfo a que fujam juntos, mas ele reluta. Uma visita desagradável da sogra termina com Ema fazendo uma cena com o amante para obrigá-lo a decidir-se. Fazem planos e ela encomenda um equipamento completo de viagem a L’Heureux, levantando as suspeitas do comerciante. Rodolfo, porém, não tem intenção alguma de levar o plano adiante. No dia combinado, manda uma carta a Ema pondo fim à relação e parte sozinho de Yonville. Ema adoece gravemente.
A doença e a convalescença de Ema são longas, penosas, além de muito dispendiosas para Carlos, que também tem letras a vencer com L’Heureux. Mesmo em dificuldades financeiras, assim que a esposa melhora, ele compra ingressos para levá-la à ópera de Ruão. Lá ela assiste Lucia de Lamemoor e vê encenados, no palco, muitos de seus próprios sofrimentos e esperanças. À saída, o casal encontra-se com Leon e o desejo entre este e Ema se reacende. Ele vai procurá-la na estalagem, onde marcam um encontro amoroso que acontece num fiacre em movimento sem destino pelas ruas da cidade. Assim, Ema começa um novo romance e inaugura uma outra vida paralela.
O pai de Carlos morre e L’Heureux reaparece, para vender a Ema tecido negro para um vestido novo de luto e cobrar dela as compras feitas à época da fuga fracassada com Rodolfo. O comerciante propõe-se a renovar as letras e Ema acede, assinando novas promissórias. A morte do sogro e a necessidade de organizar os negócios dos Bovary dão a ela uma desculpa para procurar o escrevente Leon, em Ruão, para pedir-lhe orientação profissional. Os amantes vivem uma lua-de-mel de três dias, que inaugura um tempo de encontros semanais, ocasiões nas quais Ema vai a Ruão de diligência, pretextando aulas de piano. No caminho entre Yonville e Ruão, uma visão a perturba freqüentemente: um vagabundo de estrada, mendigo cego coberto de chagas, salta na carruagem, cantando uma canção de amor por trás da cabeça de Ema e causando nela horror e sobressalto.
Certo dia, L’Heureux a surpreende com Leon no hotel, procura-a no quarto e cobra-lhe uma dívida de 2000 francos. Diante da impossibilidade de quitá-la, o comerciante propõe-lhe um negócio: que ela venda uma propriedade do pai de Carlos a fim de pagá-lo, já que a sogra lhe deu uma procuração. Dessa maneira, L’Heureux termina por enredá-la num negócio escuso e em novas dívidas que Ema tenta esconder de Carlos, até que uma das letras assinadas por ela chega às mãos dele, que pede ajuda à mãe. Esta, por sua vez, vai pessoalmente tomar pé da situação do filho, constata o perdularismo da nora, censura a ambos e queima a procuração dada a Ema. Diante da insolência desta última, Madame Bovary mãe rompe relações com o filho, mesmo porque ele toma o partido da esposa durante a discussão.
Com Leon, Ema faz-se cada vez mais ousada, apaixonada, temerária. Certo dia, um tal Vinçart, a quem L’Heureux repassara uma das letras de Ema, manda um portador a sua casa para cobrá-la. Ela promete pagar em uma semana, mas nesse ínterim chega-lhe às mãos um protesto da dívida e então ela recorre a L’Heureux, que lamenta não atendê-la, alegando que a letra é agora assunto de Vinçart. Ema recorre ao que resta da herança do sogro, à venda de vestidos e objetos, à cobrança de clientes de Carlos, mas os fornecedores não saem da casa dos Bovary. Ela torna-se mais e mais arrebatada e agressiva com o marido perplexo, isolando-se e rejeitando-o de todas as maneiras. Leon começa a temê-la e a mãe deste recebe uma carta anônima, dando-lhe conta de que seu filho tem uma amante casada. Ele crê que a ligação com Ema pode comprometê-lo a ponto de arruinar sua carreira e decide romper com ela. Na volta de um dos derradeiros encontros com Leon, Ema encontra em casa uma carta de cobrança de 8000 francos, com ameaça de penhora de seus bens. Procurado por ela, L’Heureux recusa-se a
contemporizar, acusando-a de somente se divertir enquanto ele trabalha. Ema tenta seduzi-lo e ele ameaça contar a Carlos sobre seus roubos e mentiras. O ato de penhora tem lugar, mesmo porque alguns banqueiros de Ruão, conhecidos de Ema, também se recusam a ajudá-la. Por fim, ela procura Leon e ele, com medo da reação da amante a uma negativa sua, compromete-se vagamente a tentar conseguir alguma coisa com um amigo riquíssimo.
Nem o tabelião Guillaumin nem o oficial Binet, nem mesmo Rodolfo, o ex-amante que retornou a La Huchette, dispõem-se a ajudá-la. Tampouco Leon leva-lhe o dinheiro emprestado ao amigo, como prometera. Ema volta para Yonville acuada e, ao passar pela farmácia de Homais, tem uma idéia funesta. Com o estabelecimento fechado, convence o apaixonado Justino a deixá-la entrar e a dar-lhe a chave do “cafarnaum”, o armário onde Homais guarda os venenos, pretextando querer matar ratos. Justino acede. Ao vê-la ingerir um punhado do pó branco guardado num dos vidros, o rapaz percebe seu intento e tenta impedi-la, sem sucesso, de envenenar-se.
Ao chegar em casa como uma sonâmbula, Ema encontra Carlos aniquilado pela notícia da penhora. Ela, então, deita-se na cama e inicia-se a sua longa agonia, causada pela ingestão do arsênico. Nem os famosos doutores Canivet e Lariviére, com seus procedimentos clínicos, conseguem reverter a ação do veneno. Homais também acompanha a agonia de Ema, aproveitando a presença dos dois médicos eminentes para exibir sua erudição e fazer citações. O padre vem dar a extrema unção a Ema, quando ela já se acha em coma. Por fim, ouve-se a voz do mendigo da estrada a cantar sua cantiga de amor, do lado de fora da casa. Ema ergue-se e grita: “O cego!”, para morrer em seguida.
L’Heureux faz questão de ir ao enterro, de louvar as virtudes da defunta e de lamentá-la. Justino vai chorar furtivamente sobre o túmulo, durante a noite. O tempo passa e Leon se casa, enquanto Carlos precisa desfazer-se de tudo o que tem em casa para quitar as dívidas. O farmacêutico prospera, enquanto ele decai. O mendigo cego, que Homais tentara inutilmente curar das chagas com uma pomada, passa a denunciar sua imperícia a todos os viajantes que encontra no trajeto da diligência. Temeroso de sua boa fama, Homais escreve artigos culpando o mendigo por acidentes e, afinal, consegue que o internem num hospício. Isso anima o farmacêutico a empenhar-se numa missão pessoal em prol do progresso técnico e científico. Ele escreve para revistas e jornais, fazendo outras denúncias e alusões. Para obter poder e prestígio,
mete-se também em negociatas com o prefeito de Yonville. Acima de tudo, Homais sonha em receber a Legião de Honra.
Por fim, Carlos arromba a escrivaninha de Ema, onde encontra uma série de cartas de Rodolfo e de Leon. A descoberta o aniquila, a ponto de fazê-lo abandonar a rotina do consultório. Na feira em que vai vender o cavalo de Ema, Carlos encontra Rodolfo e este o convida para tomar uma cerveja. Enquanto o viúvo reconhece em Rodolfo um rosto que Ema amou e o perdoa, o outro acha Carlos “cômico e vil” (op.cit., 260). Certa tarde, Carlos senta-se no banco do jardim de sua casa e lá a filha o encontra morto. Berta termina indo viver com uma tia e trabalhando numa tecelagem de algodão. Homais, finalmente, recebe a Legião de Honra.