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SEXUALIDADE

Na prática educativa, quando são criados os espaços para o tema da sexualidade, não só pelo professor ou professora de escola dominical, mas também por toda a liderança e membros da igreja para que o projeto tenha credibilidade e consistência, isso pode representar um movimento de transformação, de criatividade e de rompimento com os velhos hábitos e preconceitos.

Alguns receios que surgem nesta trajetória, levantados também a partir de nossa pesquisa, é o de que as igrejas e educadores (as) considerarem, ainda hoje, a abordagem de questões sexuais na igreja como algo não sadio, pois estimularia precocemente a sexualidade da criança e adolescente, ou que proporcionaria a eles o conhecimento da importância da vida sexual precocemente, antecipando o primeiro contato sexual. Esse é um mito duramente criticado também nas orientações do Colégio Episcopal da Igreja Metodista em sua carta pastoral sobre sexualidade:

É importante desmistificar a ideia de que a educação sexual estimula ou aumenta as condutas sexuais, pois não há provas disto. O que pode e deve aumentar é a liberdade para se perguntar, o respeito nas relações, a proteção frente a pessoas adultas que tentem abusar delas e a diminuição da culpa ou do medo por causa de condutas que são naturais para a idade (COLÉGIO EPISCOPAL, 1997. p.28).

Na realidade, o que não é percebido por aqueles (as) que aceitam esse mito é que hoje a necessidade da educação sexual dentro dos projetos de educação cristã é muito mais necessária, dada a quantidade de informações errôneas e deturpadas que nossas crianças recebem todos os dias fora do ambiente da igreja, através da família, de mídias sensacionalistas, da internet ou mesmo de pessoas desinformadas.

Certamente existem grandes limitações para se trabalhar esse tema no contexto religioso, reconhecer as possibilidades e limitações já um grande avanço nesse caso. Mas, sobretudo, importa compreendermos a sexualidade segundo uma perspectiva mais humana, constituída a partir de nossas próprias relações.

Entre os séculos XIX e XX uma das maiores tendências ligadas à educação sexual foi aquela de caráter higienista e médica, voltada para uma compreensão biológica da sexualidade, mas de maneira cientificista. Entretanto, analogias entre a reprodução animal e a sexualidade humana, por exemplo, não dão conta das inúmeras problemáticas éticas que envolvem esse tema.

Sendo assim, é salutar instigarmos não um conjunto predeterminado de regras ou modelos de educação sexual, mas sim um constante reexame crítico de nossa sexualidade a partir do diálogo e do respeito. Segundo Nunes e Silva:

Não podemos reduzir a “sexualidade” a um campo frio, distante, extrínseco e objetual, ou mesmo imprimir-lhe uma mera identidade discursiva e formal, sem perscrutar as grandes indagações de sentido, as grandes

perspectivas de significação existencial e direcionamento ético da vida humana. Isto supõe, como atitude decorrente desta apreciação de globalidade e reconhecimento da grandeza do universo a que nos predispomos a investigar, a serenidade e a tolerância em reconhecer os limites deste misterioso processo de humanização (NUNES; SILVA, 2006. p.107).

O trabalho de educação sexual nas igrejas implica a discussão de questões sociais, éticas e morais. Dessa forma, as relações entre liberdade, autonomia e respeito devem estar presentes em todo o trabalho educativo.

Dentro de objetivos mais abrangentes, a educação sexual precisa promover através da educação cristã a formação integral das pessoas, enfatizando os processos físicos, psicológicos, sociais e espirituais. Auxiliar para que percebam valores em si mesmas, que favoreçam o respeito à dignidade humana de homens e mulheres, reconhecendo seus direitos iguais, quer seja socialmente, politicamente, legalmente, economicamente, familiar e também sexual.

Para aquele (a) que se dispõe a trabalhar com essa temática é necessário passar para a criança uma visão de aceitação e respeito de seus corpos e do outro, de responsabilidade e liberdade diferente daquela vendida e consumida no mundo moderno. Segundo as orientações episcopais, “é preciso buscar conhecimento do fator sexual humano no plano biológico, psíquico e social, em substituição a concepções errôneas, baseadas em preconceitos e crenças infundadas” (COLÉGIO EPISCOPAL, 1997. p. 34).

O papel de quem estiver se propondo a ensinar, independente da idade do educando, é de levar-lhe elementos que possibilitem reflexões e tomadas de consciência, num clima de cooperação, reciprocidade e respeito mútuo, buscando subsídios que embasem a metodologia de trabalho, integrando teoria e prática. Sobretudo, é requerido do educador (a) que ele saiba estabelecer condições para o educando elaborar suas próprias concepções, a partir de determinados elementos teóricos, mas também vivências pessoais. Assim:

Aqueles que pretendem apresentar a sexualidade deverão, em primeiro lugar, escandir os apelos de controle e dominação, normatização repressiva e arbitrariedades históricas calcadas no preconceito e na negação do desejo e afetividade. A condição humana nessa perspectiva de sentido, espelha o apanágio de poder realizar, com o sentido da escolha, a própria dignificação do corpo e suas múltiplas formas de doação, plenitude, encontro, conquistas e expropriações (NUNES; SILVA, 2006. p.109).

A educação sexual realizada nos espaços eclesiásticos poderá ser uma complementação do trabalho realizado pela família e pela escola, contudo, este processo educativo requer que seja processual e sistematizado, embora estejamos falando de relações que estabelecemos com o mundo natural e cultural.

Isso exige dos educadores um planejamento sério para atuar com as crianças. Da mesma forma, requer que os profissionais embasem-se em bons autores e práticas lúdicas, planejadas, para melhor entendimento das crianças em relação ao tema proposto, evidentemente sem a banalização do assunto. Isto está diretamente ligado a necessidade de conhecermos a criança e o modo como ela entende, imagina, transforma e define a sua sexualidade, algo que precisa ser instigado nos educadores (as).

Toda possibilidade da criança falar sobre seu corpo, sobre seu sexo e sua identidade, podendo tirar dúvidas, abrirá um canal capaz de interferir na construção de seus conhecimentos, e isso geralmente não ocorre da mesma maneira tradicional do adulto. A mediação do (a) educador (a) na igreja e na escola, da família em casa, dos materiais que despertam as sensações e emoções, dos incentivos a questionamentos que desencadeiam conflitos etc., possibilitam novas formas de ver as coisas e isto pode ocorrer através de rodas de conversa, músicas, histórias, poesias, livros e filmes que irão criar um ambiente de descontração, possibilitando a fala natural sobre o tema e desencadeando na criança um processo de compreensão dessa realidade através de práticas transformadoras:

Necessário se faz, entretanto, que o incômodo inevitavelmente provocado pela proposta de reforma radical no pensamento não impeça o educador cristão da aventura da tentativa de descobrir em que consiste a complexidade e de que maneira é possível assumir os desafios que ela propõe, e isto em benefício de uma prática educativa transformadora, que é a vocação inicial da educação cristã conforme proposta por seu fundador (BORGES, 2008. p.88).

Permitir que as crianças brinquem também é fundamental para organizarem o seu mundo e perceber as relações sociais. Ter a liberdade de representar neste processo de construção do conhecimento será positivo para a criança, pois irá favorecer o auto- conhecimento e o conhecimento do outro.

Seja qual for a melhor forma utilizada pelo(a) educador(a) para passar conhecimentos, a importância da educação sexual não pode ser posta em dúvida, sobretudo

porque inerente a ela está presente também uma série de conteúdos éticos. Ela é tão necessária quanto urgente no mundo atual, e isto em todas as etapas da vida.

Esta parte da pesquisa pretende explicitar, portanto, o papel que o(a) educador(a) têm sobre a criança, e que é nestas relações que precisa perceber a urgência deste trabalho de educação sexual no âmbito da educação voltada para às crianças nos projetos de educação cristã de suas igrejas.

As relações humanas, embora complexas, são peças fundamentais no processo de aprendizagem, uma vez que, a construção do conhecimento se dá também coletivamente, onde professor(a), demais colegas da sala de aula irão formar um conjunto de mediadores da cultura, possibilitando progressos no desenvolvimento de seus conhecimentos.

Sem apontar que o(a) professor(a) seja responsável sozinho para que este processo ocorra nas igrejas, pois sabemos que precisa ser uma preocupação geral de todos, envolvendo membros, pastores (as), bispos (as) e demais responsáveis. Também educador (a) e educando (a) têm uma responsabilidade conjunta. A quem se propõe ensinar é restituído seu papel fundamental na aprendizagem, pois para que o(a) aluno(a) construa novos conhecimentos precisa de alguém que os ensine, não um ensinar passivo, mas ativo no qual há um sujeito de ação e não sujeito-paciente diante do que lhe passam.

A imagem que o(a) professor(a) têm de seu aluno e a influência desta imagem na sua prática pedagógica é refletida na sua própria postura, pois é por meio de sua organização e sistematização didática que será proporcionado ao aluno a atividade de aprender. Para pôr em prática o diálogo, não pode colocar-se na posição ingênua de quem é detentor de todo o saber; deve, antes, colocar-se na posição humilde de quem sabe que não sabe tudo, e livrando-se de seus preconceitos para dialogar.

É preciso preocupar-se em conhecer a quem se esta ensinando e quais as suas particularidades. O Referencial Curricular para a Educação Infantil (1998) menciona que a observação das formas de expressão das crianças, de suas capacidades de concentração e envolvimento nas atividades, de satisfação com sua própria produção e com suas pequenas conquistas é um instrumento de acompanhamento do trabalho, que poderá ajudar na avaliação e no replanejamento da ação educativa, isso só se torna possível se o educador (a) esta atendo a quem ensina e como ensina:

Uma ação educativa comprometida com a cidadania e com a formação de uma sociedade democrática e não excludente deve, necessariamente, promover o convívio com a diversidade. Essa diversidade inclui não somente as diversas culturas, os hábitos, os costumes, mas também as particularidades de cada um (RCN, 1998, p.35).

A ação positiva do(a) professor(a) no processo de ensinar se dará quando passa a pensar sobre o seu papel e se torna consciente da sua responsabilidade, sentindo a necessidade constante de atualização e o desejo de refletir e investir na sua auto-formação, pois, acima de todos os recursos, é o(a) educador(a) um elemento primordial para a otimização do processo ensino-aprendizagem, razão por que, sua formação é de vital importância na tomada de consciência para a construção de uma refletividade crítica, que se adquire e se constrói à medida que passa a conscientizar-se de sua ação.

È revelado na pesquisa de campo a dificuldade de algumas igrejas em adquirir materiais e investir na formação, porem a formação também deve ser uma mudança intencional e partilhada, sendo um processo de desenvolvimento e transformação pessoal, refletindo sobre suas ações e fazer pedagógico.

De certa forma, as ações diante das consequências e desdobramentos da exposição banalizada do sexo também acabam perpetuando o senso comum, ou pior ainda, engendram o medo, os velhos estereótipos e preconceitos. Certamente há casos em que os limites de nossa formação, cultura e informação sobre o tema são barreiras que precisam ser derrubadas, e justamente por isso não se trata de julgar tais pais e educadores de maneira inquisitória.

Ressaltamos aqui a importância da observação sobre o(a) aluno(a) e sobre suas manifestações de curiosidades e medos em relação a suas sexualidades. Professores que não medem esforços para levar os seus alunos à ação, à reflexão crítica, à curiosidade, ao questionamento e a descoberta são essenciais, sem apenas (re)passar as informações.

Lembramos que orientar sexualmente não significa apenas informar. A simples passagem de informações, embora muito relevante e de fundamental importância para o processo educativo, não constitui esse processo em si mesmo. Fornecer informações sobre determinados fatos não é, isoladamente, um processo de orientação ou educação, embora possa fazer parte do mesmo.

Informar é uma atividade de ensino, de instrução, e não de orientação, ao menos enquanto a informação for passada isoladamente, pois ela sozinha não é capaz de mudar o

comportamento. A orientação sexual implica em um mecanismo mais elaborado, segundo o qual, baseando-se na experiência e em conhecimentos específicos, o (a) orientador (a) ajuda o (a) orientando (a) a analisar as diferentes opções disponíveis, tornando-o (a) assim, apto (a) para descobrir novos caminhos.

As informações corretas, aliadas ao trabalho educativo, de autoconhecimento e de reflexão sobre a própria sexualidade podem contribuir para uma ampliação da consciência dos cuidados necessários para a prevenção, conhecimento e respeito pelo próprio corpo, pela diversidade, pelo outro e assim por diante.

Não só no mundo adulto, mas também no infantil, propomos que tanto no âmbito das ED’s como nos momentos cúlticos, ocorra uma discussão aberta sobre o significado da sexualidade, a importância de uma promoção e de um desenvolvimento integral das pessoas, a aceitação, o respeito e a igualdade entre os gêneros, a promoção do conhecimento dos processos biológicos, psicológicos, sociais, éticos e espirituais da sexualidade, entre outros.

Muitas ideias, imagens e concepções de educadores (as) observadas na pesquisa de campo retratam lugares comuns da tradição cultural, religiosa e institucional. É interessante observar que num país marcado pelo tema da sexualidade, exposto excessivamente em várias instâncias, isso não ocorra de maneira tão responsável ou sadia:

A temática da sexualidade está presente nos meios de comunicação, nas discussões sociais, nas músicas, nos filmes. Trata-se de um discurso aberto e subliminar que encerra elementos autoritários e estereotipados, revelando concepções errôneas, que vão permear a educação da criança, dos pais e educadores (RIBEIRO, 1996. p.15).

Diante desse quadro, uma das atitudes mais comuns por parte dos pais e educadores tem sido a de “apagar focos de incêndios”, ou então, simplesmente silenciar-se diante do afloramento e da descoberta da sexualidade pelas crianças. Segundo Nunes e Silva:

Deixam seus filhos e alunos à mercê da curiosidade diletante, não desenvolvem habilidades de linguagem nem situações didáticas para abordar as descobertas corporais e as manifestações do desejo de suas crianças. Omitem-se no mais crasso silêncio, muitas vezes obsequioso, afirmando que o assunto é demasiado complexo e não se encontram preparados para abordar a questão (NUNES; SILVA. 2006. p.116).

Apagar “focos de incêndio” ou silenciar-se diante das manifestações e descobertas das crianças não é a melhor alternativa. Abaixo listamos algumas reflexões para o trabalho de educação sexual nas escolas dominicais.

4.1.5 A SEXUALIDADE DA CRIANÇA E O TRABALHO NA