O que proponho nesta parte do trabalho é auxiliar para que as crianças não precisem mais silenciar-se sobre assuntos supostamente reconhecidos como tabus, pois a realidade aflorada da prostituição infantil, gravidez indesejada, problemas que surgem com a descoberta da identidade sexual, auto-estima baixa, abusos sexuais e preconceitos podem ser amenizados se o assunto for bem trabalhado ao invés de silenciado.
Faço nesta parte do trabalho um convite para deixarmos de ser apenas informantes do saber, mas de assumir a função de mediadores, de sermos aquele e aquela que intervém no processo educativo, que considera uma história, mas se desvencilha dela para perceber o que está por detrás de nossos anseios em abordar com as crianças este tema.
Há, portanto, uma série de desafios colocados a prática da educação sexual no contexto religioso, como por exemplo:
a) Conhecer e discutir as representações da sexualidade que formam nosso imaginário dentro e fora do contexto religioso, responsável em muitas situações por nos fazer reproduzir pré-conceitos;
b) Perceber como as crianças são cada vez mais introduzidas em práticas sexuais de maneira precoce e desorientadas;
c) Observar como são ensinadas a refletir sobre seus corpos e como a ditadura da beleza inflige sobre parâmetros nefastos e impiedosos;
d) Examinar o repertório de materiais que temos disponíveis para ler e interpretar o assunto no contexto religioso, entre outros.
Tais tópicos são apenas algumas indicações visando à libertação de preconceitos profundamente repressivos e castradores, tanto em nós quanto nas crianças, em busca de
saídas mais saudáveis para a construção de crianças autônomas, reflexivas, tolerantes com o outro, menos tensas em relação ao corpo e aos prazeres.
Sabe-se que diferenças em termos de educação e cultura podem compor a história sexual de cada pessoa. Algumas possibilidades de trabalho e reflexões sobre a sexualidade na educação infantil dentro das ED’s podem ser estabelecidas a partir de alguns questionamentos:
a) Quais são os parâmetros que compõe a orientação sexual nas igrejas dentro dos temas abordados por aqueles responsáveis em transmitir estas informações?
b) Na prática educativa das ED’s, como tem ocorrido a educação sexual, ou seja, o tema está em espaços definidos ou somente como um tema transversal que perpassa os outros conteúdos trabalhados?
c) Quais são os princípios e posicionamentos da igreja que norteiam uma proposta metodológica para a educação sexual infantil?
d) Há uma preocupação em divulgar materiais sobre o tema? Da mesma forma, estes materiais estão acessíveis ou são procurados pelos educadores (as)? Partindo desses questionamentos, a construção de formas de atuação e respaldo de materiais didáticos relacionados à sexualidade talvez nos possibilite acreditar mais na prática educativa no contexto religioso, criando espaços alternativos de ação que podem representar um movimento de transformação, de criatividade e de rompimento de paradigmas e pré-conceitos.
Deve-se buscar a interação entre diversas áreas do conhecimento para apresentar um programa que considere as varias dinâmicas da vida da criança. Subsídios na Psicologia, Sociologia, Biologia e Teologia serão essenciais:
Desta maneira os conhecimentos sobre espaço, tempo, comunicação, expressão, a natureza e as pessoas devem estar articulados com os cuidados e a educação para a saúde, a sexualidade, a vida familiar e social, o meio ambiente, a cultura, as linguagens, o trabalho, o lazer, a ciência e a tecnologia (CAMARGO, RIBEIRO. 1999.p 62).
Estas questões devem acontecer em meio a cuidado e educação, conciliando os dois de modo que o aprendizado se realize de forma prazerosa. O lúdico auxiliará neste processo, através de brincadeiras e jogos. A utilização da sonorização como músicas, danças e cantos
proporcionará às aulas sensações de bem estar. A dramatização e também o uso de histórias (podem ser usados: livros, fantoches, dedoches, filmes etc) são importantes como auxílio ao professor ou professora, pois possibilitam e facilitam a expressão dos saberes infantis.
A postura e o modo como o professor(a) se coloca frente às crianças ao tratar do assunto é muito importante. É preciso estar atento(a) para perceber que:
a) Qualquer dúvida, por mais simples que pareça, é relevante e pertinente;
b) Ouvir a criança, mais do que falar, é a melhor conduta, estimulando o debate e deixando-as compartilharem umas com as outras as suas dúvidas;
c) Caso alguma criança pergunte ao educador(a) qual a sua opinião, é preciso estar atento para não fazer as crianças tomarem como verdades absolutas o que você pensa, lembrando que para falar é preciso livrar-se de preconceitos;
d) Apresentar informações científicas nas ED’s poderá deixar a aula ainda mais interessante, por exemplo, quando falado de questões ligadas a aspectos biológicos. Outro aspecto, é proporcionar rodas de conversas com as crianças sobre sexualidade com temas geradores da discussão, que poderá fornecer ao educador (a) o que está passando pelos pensamentos das crianças, como representam suas idéias e o que realmente gostariam de saber ou não.
Deixar que as crianças tenham liberdade em expor-se e falem sobre suas dúvidas e curiosidades sem serem “podados”, estimulará neles a vontade de falar sobre suas identidades, as diferenças entre os sexos, a vida intra-uterina, seus corpos, suas funções biológicas e sociais. Podem ser usados temas geradores da discussão, a partir de questões como, por exemplo:
a) O que é ser menino? O que é ser menina?
b) Que coisas são de meninos e que coisas são de meninas? Existem coisas que só um ou outro podem fazer?
c) Como será que o neném vai parar na barriga da mamãe? Como será que ele se alimenta lá?
A educação sexual na igreja precisa considerar as crianças, os/as educadores/as não esquecendo também das famílias e membros no geral, sempre favorecendo a manifestação de seus sentimentos, suas hipóteses e descobertas, sem tabus ou preconceitos, imposições e controles.
Aos educadores (as) cabe redescobrir primeiramente sua própria sexualidade, aprofundar seus conhecimentos, ter formações específicas sobre sexualidade e infância, ter acesso a literaturas sobre o tema e estar consciente do que a igreja pensa sobre o assunto e de que forma pode trabalhar o mesmo, desenvolvendo estratégias pessoais que facilitem o trabalho para repassarem as informações de maneira clara, criativa e verdadeira.
Em relação aos pais e demais membros adultos da igreja, cabe a instituição informar e integrar igreja e família, ajudando-os a (re)pensarem sobre suas próprias identidades, tabus e preconceitos. Auxiliá-los para que tenham a compreensão sobre a criança e o espaço dela na comunidade de fé.
É muito compreensível a preocupação de alguns pastores (as) e educadores (as), revelados na pesquisa de campo, em relação ao receio em tratar de alguns temas que tragam a tona questões morais, éticas e religiosas. O lhes vem a mente é “o que irá pensar as famílias se souberem que eu estou falando sobre como nascem os bebês? O que pensará meu líder se passar perto da sala e ouvir?”. Por isso trata-se de um trabalho conjunto, com comprometimento não só dos professores (as) e pastores (as) que assumem esta postura de educar, mas de toda a igreja.
Talvez uma alternativa seja a de chamar as pessoas que fazem parte desta comunidade de fé para conversar em uma escola dominical (tema também relevante na ED dos adultos), mostrando que os assuntos são passados de forma pertinente, respeitando também a idade de cada criança, onde o maior objetivo é o de que tenham uma vida responsável consigo mesmo, com o outro, com seus corpos etc.
A igreja é uma instituição encarregada de transmitir cultura e formas de comportamentos aceitos pela sociedade, mas também pode ser espaço de questionamentos desses comportamentos e de criação de novas formas de vida. Espera-se que essas formas sejam voltadas para a emancipação e autonomia dos indivíduos.
Nesse sentido, a igreja visará abrir espaço para a emergência do novo a partir de práticas e concepções a serem construídas, sempre a partir do diálogo e da experiência própria de cada criança, ampliando os reducionismos históricos e dando abertura para que em suas ações e falas a criança, depois de terem caminho livre para dialogar sobre sua sexualidade, possam emergir na relação consigo mesma, com o outro com o transcendente e com o mundo de forma saudável.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho considerou a importância de se abordar e problematizar o tema da sexualidade infantil em ambiente eclesiástico, assim como, a partir de um recorte de uma igreja de missão, procurou mostrar através de uma pesquisa de campo como o tema era abordado em algumas Igrejas Metodistas do estado de São Paulo e também em alguns documentos oficiais publicados que traziam uma abordagem em relação a educação, a infância e também a sexualidade.
De maneira geral, questionei como os conceitos são construídos historicamente e como se desenvolvem a partir de uma percepção pontual, que uma vez cristalizada não respondem a problemas de outros contextos, o que nos leva a repensar os parâmetros pelos quais abordamos atualmente certos assuntos, como a sexualidade, por exemplo.
Com isso, verifica-se que a sexualidade é uma construção cultural, por conseguinte, não representa apenas uma função biológica marcada pela ideia de função/disfunção, natural/patológico, normal/anormal. Dentre os principais elementos históricos e teóricos, destaca-se a questão dualista entre corpo e alma, a depreciação do corpo e daquilo que o constitui, como os desejos, as emoções ou a própria identidade, como no caso das questões relacionadas ao gênero, por exemplo.
Da mesma forma, quando se trata da infância, foi possível verificar que ela também é uma categoria que existe no espaço social, sendo estabelecida, negociada, desestabilizada
e reconstruída ao longo do tempo. A noção de infância, seu desenvolvimento e valorização é algo recente.
Desses dados históricos foi possível depreender que foram anos de adestramento em que a sexualidade foi concebida como uma problemática inerente ao controle social e é nesse sentido que ela vem, em boa parte, definindo-nos como pessoas e como sujeitos, sobretudo a partir da infância.
Trabalhar temas referentes à sexualidade e a infância, não só ajudará nossas crianças a se perceberem diante do outro, da sociedade no geral, mas também a compreender sua relação com o mundo e com sua fé pessoal, pois se trata de relacionamentos experimentados não apenas com o mundo, mas também com o transcendente.
Embora nossa herança cultural tenha nos impregnado com a ideia de que nosso corpo está imerso numa relação de pecado, estes valores não respondem mais aos desafios de nossa época e, portanto não devem se impor como princípios morais. Felizmente, o questionamento de ideias preconcebidas como essas começa a criar espaço para o estabelecimento e criação de novos valores. Enquanto pesquisadora e educadora, espero ter contribuído para isso, não no sentido de fixar alguma verdade ou caminho, mas de pontuar alguns tópicos que possam contribuir para futuras reflexões.
Ao realizar a pesquisa documental percebi que, de fato, essa é uma necessidade atual. Embora a Igreja Metodista possua um referencial teórico sobre os temas da educação, do posicionamento e do respeito frente à criança e a sociedade, ela, porém deixa de especificar em seus documentos sobre sexualidade, apesar de coerentes e em muitos momentos libertador, um trabalhado mais concreto e direcionado às crianças.
Este fato refletiu ao verificar a atuação de educadores (as) e pastores (as) na região do ABC, onde foi possível verificar que os (as) participantes tinham em sua maioria mais de vinte anos de membresia na Igreja Metodista, sua maioria atuava no ministério de educação há mais de vinte anos, o que me fez questionar como, durante todo este tempo, foi possível desconhecer se o tema era ou não abordado nas ED’s e desconhecerem materiais que pudessem lhes auxiliar em sala de aula.
Da mesma forma, desconheciam também a existência de materiais editados pela Igreja Metodista que trouxessem uma abordagem sobre sexualidade e uma abordagem para trabalhar com a criança e a sexualidade infantil (levando em conta, que nos questionários foi
relatado que a maioria deles(as) faz uso dos materiais editados pela editora da Igreja Metodista).
Mesmo com alguns incentivos apresentados nos documentos apresentados sobre sexualidade quanto ao desprendimento de preconceitos, tabus e medos, alguns receios de como falar, o que falar e como agir também ficou claro nas posturas dos educadores (as). Quando questionados (as) se já trabalharam em sala de aula o tema da sexualidade, a maioria relata que não, e poucos tem uma resposta positiva de que trabalhou com segurança.
Quando questionados como achavam que poderia ser feito um trabalho voltado para a educação sexual, as respostas refletem a preocupação com os pais das crianças e o que vão pensar se souberem que o tema está sendo abordado, o que nos mostra ainda a perpetuação de certos preconceitos, preocupações em “aguçar” as crianças ao invés de orientar.
Outro elemento problemático relatado foi a falta de formação e capacitação da liderança da igreja e educadores (as) sobre a temática, assim como a falta de materiais sobre o tema para trabalhar nas igrejas com as crianças. Da mesma forma, a falta e dificuldades de diálogo dificultam o processo e alguns percebem que precisam se livrar de pré-conceitos e tabus que carregam consigo mesmo e ter escutas sensíveis para saber o que as crianças estão querendo lhes dizer.
Apesar de tudo isso, estes (as) participantes percebem a necessidade de buscar ajuda de outras áreas da saúde e educação, bem como a necessidade de desenvolver o tema de forma mais criativa e lúdica. De maneira geral, todos relatam terem pelo menos um pouco de conhecimento a respeito desse tema e acham relevante que ele seja abordado nas igrejas.
Assim, parece evidente que este é o momento para dialogarmos sobre as possíveis formas de atuação no contexto religioso, caracterizando essa ação como uma pastoral também, pois isso representa um caminho extremamente relevante para a instauração dos valores do reino de Deus de respeito a si e ao outro.
Foi com esse intuito que no último capítulo da pesquisa é pontuado a relação entre o tema e a pastoral, buscando refletir a respeito da pastoral como subsídio para uma educação sexual. Meu interesse foi o de discorrer sobre possíveis naturalizações dos conceitos e as implicações disso para a correta práxis tanto pastoral quanto educativa dentro da igreja. A partir de determinados pressupostos foi possível visualizar o modo como um termo pode
contribuir para a prática do outro, o agir pastoral e a educação confluindo num fim que vise o diálogo entre Deus e sua comunidade.
Sobretudo, foi possível visualizar a necessidade de uma ação refletida, que considere as diferentes dinâmicas e contextos e que de fato, apreenda a urgência de uma participação efetiva da comunidade em prol da difusão do tema, confluindo assim, tanto a pastoral quanto a educação sexual num sentido libertador e de estabelecimento do Reino de Deus.
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ANEXOS
Anexo 1. Questionário- Pesquisa de Campo
Prezado (a) participante da pesquisa intitulada: Religião e Sexualidade: Estudo de caso sobre a presença ou ausência de práticas educacionais voltadas para a sexualidade infantil nas Igrejas Metodistas do ABC, por favor, responda as questões sem consultar quaisquer tipos de materiais.
É assegurado ao (a) participante que os dados pessoais serão mantidos em sigilo, usufruindo apenas dos dados que constam como respostas do questionário.
Dados pessoais: Participante16: Data de nascimento:___/___/______ Formação: Profissão: Igreja: Ministério(s) exercido (s): 16
Questionário:
1- Há quanto tempo é membro (a) da Igreja Metodista? ( ) menos de 5 anos
( ) de 5 a 10 anos ( ) de 10 a 20 anos ( ) mais de 20 anos
2- Há quanto tempo atua na igreja como educador cristão? ( ) menos de 5 anos
( ) de 5 a 10 anos ( ) de 10 a 20 anos ( ) mais de 20 anos
3- Quais as estratégias utilizadas para transmitir as informações para as crianças17 na