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6.3 Main Results

A usina Cerradão LTDA. começou seu processo de instalação num momento de extrema crise, entre os anos de 2007 e 2008, iniciando suas operações no dia 14/07/2009, com a produção de açúcar, álcool e cogeração de energia a partir do bagaço da cana, empregando atualmente cerca de 2.230 funcionários. Situa-se na MG-255, próxima ao entroncamento rodoviário das BRs - 364 e 153, que conecta Minas Gerais a outros estados, como São Paulo e Goiás, além dos municípios da mesorregião do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba.

Esta agroindústria canavieira resulta da união de dois grupos vinculados ao agronegócio, grupo Queiroz de Queiroz (Adalberto Queiroz, pecuarista da região do Triângulo Mineiro) e grupo Pitangueiras (família Andrade, de Ribeirão Preto).

O grupo Queiroz de Queiroz, criado no ano de 1974, atua nas atividades da pecuária de corte e leiteira, plantações de grãos (soja, milho, sorgo e cana-de-açúcar), esta última para o abastecimento das usinas do município de Frutal e Itapagipe. Graças aos incentivos recentes do governo federal no sentido de ampliar a produção canavieira, aliados a disponibilidade de terras do grupo e os aspectos naturais da mesorregião do Triângulo Mineiro, houve a iniciativa de constituir uma sociedade que assegurasse o conhecimento e a otimização da área industrial sucroenergética, a fim de instalar uma agroindústria canavieira no município de Frutal.

A prática e habilidade do grupo Pitangueiras na operacionalização agroindustrial e na moagem de cana viabilizou a sociedade entre ambos os grupos, experiência adquirida a partir da sua atuação e gestão de empresas como Pitangueiras Açúcar e Álcool, situada no município de Pitangueiras em São Paulo, na microrregião de Ribeirão Preto. As empresas ainda atuam na comercialização, fornecimento e assistência agrícola para o uso de defensivos, adubos, produtos veterinários, sementes, ferragens e maquinários.

Com a possibilidade de aumento da utilização do etanol, intensificada no ano de 2006, os usineiros da região de Ribeirão Preto entraram na corrida por investimentos na expansão de seus domínios rumo às áreas no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, nos estados de Goiás e Mato Grosso do Sul. Neste contexto, vários grupos procuraram o empresário Adalberto Queiroz32 para instalar uma usina no município de Frutal, de maneira que cada grupo (sócio) representaria 50% das ações da empresa. Este acordo foi instituído, pois

[...] as outras empresas que propuseram trabalhar com seu Adalberto sempre queriam ações maiores, tipo 60-40, 70-30. E o casamento dessas duas empresas deu certo porque as duas, os dois grupos têm 50%, né, e como o grupo de Ribeirão queria expandir a tua indústria, e os locais mais propícios pra expansão no Brasil, na época, eram essa região, o Triângulo Mineiro, e Goiás, Mato Grosso, enfim.33

Oliveira (2009) havia ressaltado que as terras das regiões Centro-Sul, notadamente, do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, sul/sudoeste de Goiás, oeste de São Paulo, noroeste do

32 Informações levantadas durante a pesquisa de campo, realizadas em 2 de agosto de 2011, Frutal-

MG.

Paraná e norte do Espírito Santo, foram consideradas pelos grupos e empresários do setor sucroenergético como sendo as melhores em possibilidades de cultivos a serem destinadas para a produção canavieira.

Mas, ainda que o potencial do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba para desenvolvimento da produção da cana seja promissor, deve-se avaliar que as condições climáticas e edáficas regionais não equivalem às condições físicas naturais de Ribeirão Preto e das outras regiões canavieiras do estado de São Paulo.

Então, a gente tem que entender que nós temos muita área pra crescer, principalmente 90% das áreas que a gente cresce, áreas que eram pasto, pasto degradado. Só que a produção de cana ela é bem aquém da região de Ribeirão Preto, Piracicaba, por quê? Estamos começando agora, estamos numa região de cerrado, numa região onde ela não é extremamente propícia pro cultivo da cana, mas aos poucos, com o passar dos anos, com tecnologia, com estudo agronômico, nós vamos conseguindo e a região aqui com certeza vai ser um pólo canavieiro 34.

Uma tendência importante que se inscreveu no processo de instalação e na oferta de matéria-prima da usina Cerradão tange à substituição de parte das áreas da pecuária para o cultivo da cana e a concomitância das duas atividades. Inicialmente, para se instalar a usina, foram envolvidas terras reservadas para a pecuária do grupo Queiróz de Queiróz, abarcando também outros pecuaristas locais (produtores independentes e arrendantes), que decidiram investir na produção canavieira.

No caso das áreas de produtores independentes, conforme denominado, a responsabilidade do trabalho com a cultura da cana é somente dos produtores. Na última safra (2010/2011), a usina Cerradão contabilizou cerca de 43 produtores independentes, que, se somadas as suas áreas, totalizam cerca de 4.500 ha. empregados com a cultura. A tendência é que a quantidade de produtores seja ampliada com o decorrer das safras.

A produção de cana-de-açúcar nas áreas arrendadas é considerada como própria da usina, já que todo o trabalho com a cultura (plantio, trato, colheita e transporte) é de incumbência da agroindústria.

A tabela 7 elucida que no período de instalação da usina Cerradão, ocorrido entre a safra 2007/2008 e 2008/2009, a área de cultivo de cana cresceu cerca de 57%. Da safra 2008/2009 para 2009/2010, o aumento foi de 36% e 20% da safra de 2009/2010 para 2010/2011.

34 Informações levantadas durante a pesquisa de campo, realizadas em 2 de agosto de 2011, Frutal-

Em relação às áreas tomadas em arrendamentos, o crescimento foi igualmente progressivo, representando, respectivamente, 62%, 42% e 26% na ampliação de áreas arrendadas. Já as áreas de produtores independentes ampliaram-se safra a safra, respectivamente, 51%, 25% e 8%.

Tabela 7 - A área de cultivo da cana-de-açúcar em hectares, para abastecimento da usina Cerradão em Frutal, 2011

Safras cultivo total Área de

Área tomada em arrendamento Área de produtores independentes 2007/2008 3.000 1.500 1.500 2008/2009 7.100 4.000 3.100 2009/2010 11.123 7.000 4.123 2010/2011 14.000 9.500 4.500

Fonte: Pesquisa de Campo, agosto 2011. Org.: SOUZA, A. G., 2011.

A justificativa para a grande adesão à produção canavieira tanto dos arrendantes como dos produtores independentes pauta-se na garantia de retorno financeiro superior ao das outras atividades agropecuárias, pois, se tratando de agronegócio, ambas as práticas - produção canavieira e pecuária - tornaram-se mais lucrativas. A perspectiva, com vistas à recuperação gradual da crise, é que esta atividade incorpore mais adeptos em razão dos preços atrativos do açúcar e do mercado internacional favorável a sua exportação, aliados à expectativa que projeta futuramente incorporar o etanol na matriz energética mundial.

Estas possibilidades criadas para expansão do agronegócio canavieiro reportam, ainda que indiretamente, o incentivo do Estado para com o desenvolvimento do setor. Para instalação da usina Cerradão no município de Frutal, ambos os grupos sócios buscaram financiamento por meio de empréstimo com o governo federal brasileiro, Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), obtendo cerca de R$ 200 milhões para o projeto de instalação, embora este processo tenha sido demorado e burocrático.

O apoio do BNDES tem sido preponderante e gradativamente vem se tornando a principal instituição financiadora da recente expansão das áreas canavieiras, bem como da instalação de agroindústrias no país. Para Thomaz Júnior (2009), o banco assume o projeto de desenvolvimento do agronegócio canavieiro no Brasil, sendo que, apenas no ano de 2008, encaminhou cerca de R$ 6,7 bilhões para este fim.

No ano de 2010, a instituição concedeu o montante de R$ 7,6 bilhões para as empresas do setor sucroenergético, a serem direcionados à efetivação de mecanização da colheita de cana-de-açúcar nas propriedades rurais no país. No ano de 2011, foi anunciada pelo presidente do BNDES, a disponibilidade de até R$ 35 bilhões para o período de quatro anos ao setor. A meta deste plano de empréstimos bilionários visa cumprir a renovação das lavouras canavieiras no Brasil, que se faz necessária para recuperação da produtividade nas áreas de plantio. Além disso, este financiamento prevê a ampliação dos parques agroindustriais, a conexão de rede de alcoodutos e a otimização da infraestrutura logística, medida que intenta avançar a eficiência do setor e recuperá-lo dos ranços da crise do ano de 2008.

Ao analisar o exemplo da usina Cerradão, compreendemos que o financiamento de tamanha envergadura permitiu a concretização das etapas de instalação em 2006/2007, construindo bases para assegurar o início das operações, além de induzir o crescimento da produção de açúcar, álcool e energia, como apresenta a tabela 8.

Tabela 8 - Moagem de cana, produção de açúcar e álcool realizada na usina Cerradão em Frutal, 2011

Safras de cana (ton) Moagem Açúcar (kg) Álcool (l) Energia (MW)

2007/2008 350.000 - 31.000.000 -

2008/2009 712.000 - 64.080.000 25920

2009/2010 1.122.000 70.686.000 40.392.000 57600 2010/2011 1.250.000 91.875.000 33.750.000 61056

Fonte: Pesquisa de Campo, agosto de 2011. Org.: SOUZA, A. G., 2011.

Se houve um aumento na área de cultivo da cana, em decorrência, ampliou-se proporcionalmente a quantidade de cana moída. A produção de açúcar iniciada na safra 2009/2010 cresceu cerca de 23%; a produção de álcool aumentou 51% da primeira para segunda safra, mas na terceira sofreu redução de 37% e, na última safra, continuou a reduzir a produção em cerca de 16%. A produção de energia da usina (MW), iniciada na safra 2008/2009, praticamente triplicou com o decorrer das safras.

Em relação ao destino da produção da usina, a energia produzida é empregada no funcionamento da própria agroindústria, sendo o excedente vendido para CEMIG e, posteriormente, utilizada no município de Frutal. Quanto à destinação do açúcar, na última safra 2010/2011 cerca de 40% da produção foi direcionada ao estado de São Paulo, 50% para

outras regiões brasileiras e 10% destinada à exportação. No que se refere ao álcool, 70% destinou-se para o estado de São Paulo e 30% para outras regiões brasileiras.

A produção de etanol sofreu arrefecimento nos últimos anos, o que inquietou o governo federal quanto à possibilidade de escassez no mercado interno. Tudo indica que essa insuficiência na oferta do agrocombustível esteja atrelada ao redirecionamento da produção das usinas para o açúcar, em razão da alta de seu preço no mercado internacional. Mesmo em tempos de crises estruturais, o Brasil, China e Índia são economias em ascensão e estes dois últimos países passaram a consumir produtos como o açúcar.35

Nesta conjuntura, o Brasil vem aos poucos se inserindo no mercado internacional, passando a exportar a commoditie para países como estes, induzindo a ampliação na produção e exportação do açúcar. Em decorrência das usinas brasileiras focarem na produção do açúcar, deixando o etanol para segundo plano, houve uma elevação no preço do agrocombustível. No caso da usina Cerradão, a decisão sobre a quantidade a ser produzida e o destino da produção de álcool e açúcar parte da COOPERSUGAR S.A.36, empresa que gerencia a produção de 38 usinas pelo Brasil.

Enfim, a conjuntura da usina Cerradão revela que a projeção é que gradativamente a unidade irá se desenvolver, incorporando áreas antes reservadas à pecuária. Além da reutilização dos subprodutos da cana e da produção de energia a partir do bagaço da cana, a empresa evidencia a vigência da mecanização das áreas de lavoura canavieira, o que vem demandando maior qualificação dos trabalhadores e articulação no sentido de absorver esta mão-de-obra em outras funções dentro da empresa.