5 Results
5.4 Association of outcome results with other variables
5.4.2 Confounder- adjusted estimates
A incorporação da usina Frutal pela transnacional Bunge, assim como demais unidades agroindustriais canavieiras do Grupo Moema, representa o recente processo concentracionista de internacionalização do setor sucroenergético.
A tendência concentracionista do setor agroindustrial canavieiro, mantida desde a criação do SNCR, no ano de 1965, que favoreceu os grupos e empresários, constituiu liames para o agronegócio, viabilizando o aumento da produção agrícola naquele instante e a internacionalização do capital na contemporaneidade.
Ao longo de décadas, o setor foi marcado pela intervenção estatal, instituidora de políticas facilitadoras do engendramento e da formação de grupos, empresas e holdings. Com o advento da desregulamentação, a redução da intervenção governamental e a obediência aos preceitos neoliberais, o setor tornou-se liberto das amarras estatais e exposto às leis do mercado internacional.
Para tal enfrentamento, os líderes resolveram, por meio de articulação fortalecedora, instituir órgãos para sua representatividade, como a CONSECANA, a UNICA, ORPLANA, CEPAAL e a BBA.
No término da década de 1990, quase a totalidade do setor sucroenergético no país estava sob o controle de grupos familiares e por empresas limitadas de origem nacional. Mas, em contrapartida, tem sido crescente a participação do capital estrangeiro nos domínios do agronegócio canavieiro, com destaque para o grupo COSAN, que detém o domínio de cerca de 9,3% desse mercado, conforme informações da UNICA, apresentando um faturamento de U$23 bilhões de dólares anuais. Neste ranking, também se destacam as empresas Santa Elisa/Dreyfus, representando 5,10%, Tereos 2,45%, Santa Terezinha, 2,44%, e Moema, 2,25%.28
Mediante a crise eclodida no ano de 2008, alguns investidores acreditaram na sobrevalorização das commodities e do etanol, projetando uma saída para o colapso financeiro que assolou principalmente a economia dos países centrais.
Observa-se que a medida tomada pelo capital nacional e externo foi a prática gradativa de fusões e aquisições de grupos, constituindo-se no principal mecanismo de internacionalização do setor sucroenergético. Além disso, a vantagem do baixo custo de produção da cana no Brasil, aliada ao ambiente político internacional intensamente protecionista, nos esclarece a ocorrência desta disposição concentracionista. Trata-se de mais uma alternativa dos países centrais, representados pelas empresas transnacionais, para assegurar a dominação dos países emergentes como o Brasil e manter o controle sobre o seu crescimento econômico. Até porque
O novo momento do capitalismo, ancorado num imenso desenvolvimento tecnológico (informática, robótica, telemática, etc), não anulou a existência do centro e da periferia e nem a persistência de estruturas estatal-nacionais como fundamentais na ordem política vigente e muito menos a presença de classes sociais dotadas de interesses antagônicos. (MORAES, 2008, p.152).
Ao analisar este novo momento do capitalismo, entendemos como foram somente reformuladas as formas de dominação dos países centrais sobre os periféricos. Viu-se um país em condição periférica com projeções audazes de se tornar produtor de energia, munido das condições naturais necessárias para seu crescimento produtivo, ou seja, com um filão para o contexto no qual se cogita o fim de reservas fósseis, quando as exigências mundiais
demandam alternativas renováveis. Sem mencionar o mercado consumidor crescente do açúcar nos outros países emergentes.
Tal jogo nos induz a concordar com Porto-Gonçalves e Haesbert (2005) quando salientam que países do pólo dominado, como o Brasil, tradicionalmente conhecidos como exportadores de matéria-prima e/ou agroexportadores, perdem poder no jogo geopolítico global. Isso, porque os países hegemônicos “e suas indústrias têm seu poder fortalecido, à medida que a indústria passa a ser a mediadora de todo intercâmbio, este é o ponto central”. (PORTO-GONÇALVES; HAESBERT, 2005, p.118).
Benetti (2009) analisa que a intensificação do processo de internacionalização do setor sucroalcooleiro remonta ao ano de 2000, mais precisamente a partir da aquisição de uma empresa nacional pelo grupo francês Louis Dreyfrus. Desse momento em diante, outros grupos passaram a investir no setor, a saber: ADM (Estados Unidos); Adecoagro, de George Soros; Cargill (Estados Unidos); L. Noble (Cingapura), Dreyfus (França), Tereos (França); Infinity Bio-Energy (Reino Unido) e Evergreen (Reino Unido). Cabe ressaltar que a decorrência da internacionalização foi engendrando diversos matizes, já que, além das fusões e aquisições, passou abarcar outros modos de organização de suas práticas econômicas, como as alianças e os acordos estratégicos na área da produção, joint-ventures do comércio da transferência de tecnologia e de pesquisa. Ainda
[...] é impressionante verificar a complexidade das relações econômicas que foram sendo estabelecidas entre os grupos estrangeiros, entre os grupos nacionais e entre os nacionais e os estrangeiros. Na realidade, formam um emaranhado tal que se torna muito difícil conhecer todas as conexões envolvendo os protagonistas do processo, a real importância de cada um e, no caso dos acordos de cooperação formal, a que novas instituições correspondem [...]. (BENETTI, 2009, p.5).
A Bunge Ltda. representa esta reflexão. A empresa assumiu em 2010 a direção das unidades agroindustriais canavieiras de Ouroeste, Guariroba, Itapagipe, Frutal e Moema, do grupo paulista. Além disso, a companhia concordou em entregar aproximadamente US$ 3,5 milhões em ações ordinárias, aumentando o valor total de ações a serem emitidas pela companhia nas duas operações de aquisição das cinco usinas em US$ 10,8 milhões, também assumindo a dívida líquida de cerca de US$ 675 milhões29.
29 Ver em:<http://www.abril.com.br/noticias/economia/bunge-finaliza-aquisicao-grupo-moema-
A Bunge, com sede em White Plains, no estado de Nova York, Estados Unidos, divulgou uma nota na Bolsa de Valores de Nova York (12/01/2010) de que havia se tornado dona de 100% da participação das cinco usinas do Grupo Moema e mantinha a transação desde a aquisição da holding Moema Participações, da qual já havia se tornado a principal sócia desde 24 de dezembro de 2009.
Trata-se, portanto, de uma empresa transnacional consolidada, presente no Brasil desde o ano de 1905, destaque na produção de grãos, processamento de trigo e soja, na fabricação de fertilizantes, gêneros alimentícios e em serviços portuários, com um faturamento bruto, em 2010, de cerca de US$ 14,7 bilhões 30.
A partir do ano de 2006, a empresa inicia sua atuação no setor sucroenergético com a comercialização de açúcar. No ano de 2007, realiza sua primeira aquisição no setor, a usina de Santa Juliana (MG). Em 2008, adquire cerca de 60% das ações da usina Monteverde (MS) e, simultaneamente, inicia a instalação de outra usina no município de Pedro Afonso (TO). No ano de 2010, a empresa adquiriu as cinco usinas de cana-de-açúcar do grupo Moema e, em 2011, inaugurou a usina de Pedro Afonso no estado de Tocantins. Em 2012, a Bunge e a Solazyme se associaram para produzir óleo renovável a partir da cana-de-açúcar,
A Solazyme, empresa de óleos renováveis e bio-produtos, e a Bunge Global Innovation LLC, subsidiária integral da Bunge Limited firmaram parceria para construir e operar uma fábrica de óleos renováveis no município de Orindiúva, em São Paulo (SP). [...] A planta vai utilizar tecnologia de produção de óleos da Solazyme, aliada à capacidade de produção e processamento de cana da Bunge, para produzir óleos triglicérides customizados [...].31
A iniciativa da transnacional de investir no setor sucroenergético revela seu interesse na diversificação de atividades, que deve assegurar a expansão de seus capitais. Isso, com vistas ao promissor mercado mundial do açúcar e as perspectivas futuras quanto à adoção do etanol como combustível alternativo em nível planetário.
Ainda que a incorporação de unidades agroindustriais canavieiras pela empresa transnacional esteja inscrita no processo de territorialização canavieira no período recente e se justifique a partir da prerrogativa da produção de energia renovável, vemos que o interesse
30 Ver em: < http://www.bunge.com.br/Bunge/Nossa_Historia.aspx.>. Acesso em: 10 de setembro de
2012.
31 Disponível em: < http://revistagloborural.globo.com/Revista/Common/0, EMI302262-18531,00-
BUNGE+E+SOLAZYME+INVESTEM+EM+OLEOS+RENOVAVEIS.html.> Acesso em: 28 de abril de 2012.
maior converge na exportação de commodities. Oliveira (2009) nos bem relembra que o mercado internacional, no qual se insere o setor sucroenergético, está regulado pelo açúcar e não pelo etanol, distinguindo que o agrocombustível não é considerado uma commoditie e sim o açúcar.
Bunde (2011) ressalta que quando o preço do açúcar se eleva no mercado internacional, nas usinas a cana-de-açúcar é designada para a fabricação do açúcar, o que reduz a oferta de etanol no mercado interno, elevando seu preço. Por outro lado, no advento da queda no preço do açúcar, incentiva-se a produção de etanol. “O etanol produzido no Brasil é praticamente destinado ao consumo interno, por isso o produto não é considerado uma commoditie, já que não regula o mercado internacional de derivados da cana”. (BUNDE, 2011, p. 86).
Estas possibilidades que norteiam o ordenamento produtivo das usinas ampliam, simultaneamente, as alternativas de reprodução do agronegócio canavieiro. Vemos, conforme avalia Oliveira (2009), que as multinacionais tornaram-se a representação mais avançada do capitalismo. Desde a crise imperialista, vem configurando outras maneiras de organizar internamente as relações de trabalho, gerando condições para a superação de disputas de mercado além do domínio sobre as fontes de matérias-primas.
Em última instância, o desenvolvimento do capitalismo na contemporaneidade deve ser apreendido como um processo de consolidação dos oligopólios internacionais, possibilitador da “formação das empresas multinacionais: sejam elas cartéis, trustes ou monopólios industriais e/ou financeiros”. (OLIVEIRA, 2009, p.4). A partir deste processo, se assegura a respectiva condição de cada país na divisão internacional do trabalho.