2. Scientific background
2.4 Snow distribution modelling and snow data assimilation into hydrological
2.4.1 Main processes and controlling factors in snow distribution
Até o período da Segunda Guerra Mundial, apesar da formação de núcleos urbanos dinâmicos em alguns pontos do espaço nacional, o Brasil tem uma estrutura territorial que pouco contribuía para sua integração efetiva. Como nos lembra Pedro Geiger (1963:104), neste tempo “não existe uma rede urbana única, nacional, pois a fragmentação herdada do período colonial põe à mostra, ainda, as linhas de separação”. Esta desarticulação pode ser verificada ainda no que diz respeito aos sistemas de movimento13, assim como no que tange aos sistemas de produção de energia do País.
Em relação ao sistema de movimento, podemos dizer que começam a ser substituídos os modais ferroviário e aquaviário pelos sistemas de movimento rodoviário e aeroviário, ainda que “desordenadamente” (RIBEIRO, 1956:176). A topologia destes sistemas era, até esta época, extravertida e desarticulada internamente. Extravertida pois todas as redes-suporte (principalmente a rede ferroviária) aqui implantadas, desde o final do século XIX, serviram principalmente para o escoamento da produção de gêneros agrícolas para os mercados internacionais (ARAÚJO FILHO, 1956). Desarticulada pois, como se tratavam de redes de pouca conexão umas com as outras, cada região do país tinha uma vida
13 O conceito de “sistemas de movimento” foi criado por Jean Gottmann, em seu La Politique des États et leur
Géographie (1952). Para o Autor, os “sistemas de movimento” é que possibilitariam todos os processos de circulação (de pessoas, bens, idéias) que animam a vida regional das nações. O outro “par conceitual” no sistema teórico de Gottmann seria o de “sistemas de resistência ao movimento”; estes, por seu turno, seriam responsáveis pela geografização (ou não) dos fluxos trazidos pelos “sistemas de movimento”, em cada região. A utilização dada para o conceito no presente trabalho, porém, é distinta. A noção de “sistema de movimento” aqui empregada diz respeito aos diferentes modais de transporte disponíveis para a organização e uso do espaço geográfico (SANTOS e SILVEIRA, 2001: 126 e ss.; CONTEL, 2001).
de relações mais densa com o exterior, em detrimento muitas vezes de nosso mercado interno. A este tipo de organização do espaço geográfico, convencionou- se chamar de espaços derivados (SANTOS, 1972).14
Mas mesmo voltada em grande parte para o exterior, a formação da rede urbana consolida um processo de industrialização nas cidades brasileiras, principalmente nas Regiões Sul e Sudeste do país. Em função desta nova realidade, ocorre expressiva “expansão das infra-estruturas necessárias ao crescimento da atividade industrial, particularmente em São Paulo e Minas Gerais”(GEIGER e DAVIDOVITCH, 1983:21).
O ritmo de crescimento da população também é considerável. Entre os anos de 1946 e 1956, a população brasileira cresce cerca de 2,17% ao ano; entre 1957 e 1964, essa percentagem é de 3,03 ao ano (GOLDSMITH, 1986:221). Ainda segundo o autor, “entre o censo de 1940 e o de 1960 a população urbana cresceu em 18,5 milhões de habitantes, ou 143%, ao passo que a população rural limitou-se a 10,5 milhões, ou 37%”(GOLDSMITH, op. cit.:222).
É a aceleração do crescimento da indústria, porém, que nos chama ainda mais a atenção. Para os mesmos períodos de 1946/1955 e 1956/1964, a produção industrial cresce 9,10% e 8,30% ao ano, respectivamente (GOLDSMITH, op. cit.:221). Com relação à estrutura da industrialização, podemos dizer que se tratava de um processo mais pulverizado, fundado em unidades produtivas bastante dependentes de seus mercados locais ou regionais (JAMES, 1935; BARROS DE CASTRO, 1971; MAMIGONIAN, 1976). Este arranjo regionalizado parece ser também outro condicionamento imposto pela compartimentação do território15.
14 Inspirado no conceito de “paisagens derivadas” de Max Sorre, Milton Santos (1972) nos mostra que a
difusão de inovações técnicas nos países da periferia do sistema capitalista muitas vezes aumenta a dependência destes com as necessidades da metrópole com a qual seus laços (comerciais, políticos) são estreitados. Para o autor (SANTOS, 1972:265), “do fato que são derivados, esses espaços se organizam ou se reorganizam ao serviço de interesses distantes: seu planejamento (aménagement) é função de necessidades exógenas e depende de parâmetros importados, copiados de sistemas representativos de interesses distantes”.
15 A compartimentação do território pode ser considerada como resultado do próprio processo de formação
“espontânea” das regiões. Faz-se necessário diferenciar a compartimentação do espaço, do atual processo de
fragmentação, típico do processo de globalização. A fragmentação pode ser entendida como uma cisão intencional do uso do espaço, provocada pelas vicissitudes das firmas privadas, e de seu comportamento corporativo. Ver Santos e Silveira (1996) e Santos (2000).
Com relação à divisão territorial do trabalho que se instala, é também possível afirmar que entramos em outro período histórico, por dois principais motivos: a) forma-se um efetivo mercado interno para os bens industriais (FURTADO, 1959, 1995), que diminui a dependência da vida de relações do território com os fluxos provenientes do exterior; e b) consolida-se a mudança do centro dinâmico da economia nacional para o Estado de São Paulo (BECKER e EGLER, 1993). No que diz respeito aos circuitos produtivos, as atividades agro-exportadoras deixam paulatinamente de ser o principal elemento de geração de riqueza no país, sendo substituídas por atividade ligadas aos consumos urbanos como: alimentação, vestuário, habitação, serviços de saúde e atividades administrativas, entre outros.
Neste período de mudanças importantes da vida nacional, assistimos à formação de um meio técnico mais complexo em parcelas selecionadas do espaço nacional. São criadas, assim, novas necessidades de investimentos públicos, para sustentar essa expansão de sistemas técnicos mais sofisticados, complexos, no território brasileiro16. Segundo o economista Fernando Costa (1988:267), eram principalmente para a construção de infra-estruturas energéticas, de “serviços básicos” e de transportes que vão se tornar necessárias novas instituições financeiras públicas, neste mesmo período.
Deste novo quadro em formação, podemos ressaltar dois dados da infra-estrutura do território que estão na base da possibilidade da formação de um meio técnico dinâmico: os novos sistemas de geração de energia elétrica, e os novos circuitos da industrialização do território. Pareceu-nos importante destacar estes dois novos conteúdos do território, pois eles terão também relação direta com a formação de nosso moderno sistema bancário.
16 Como nos lembra Luigi Fray (1961:215), “o progresso técnico leva a necessidades crescentes de
intervenção por parte dos órgãos públicos, na qualidade de ofertantes de meios de financiamento, por motivos diversos”.
2.2. A geração de energia: base para a urbanização e a industrialização substitutiva
A história de todos os países que se industrializaram é – do ponto de vista de suas infra-estruturas energéticas – ligada diretamente ao incremento das necessidades de geração e transmissão de energia, lembra-nos Gerald Manners (1964, 1976). “Petróleo, gás e eletricidade desabrocham no contexto da economia mundial do pós-guerra”, assevera ainda Jean-Marie Martin (1992:62), e fazem parte das possibilidades que o novo período histórico coloca à disposição das nações para o incremento de suas respectivas matrizes energéticas.17
Conforme destaca Flavio Saes (1986a), o crescimento urbano verificado nas cidades brasileiras começa a exigir investimentos em serviços públicos nas cidades: transportes urbanos, serviços de saneamento e urbanismo, iluminação pública etc. E praticamente todos os novos equipamentos instalados no território, a bem da verdade, são grandes consumidores de energia (como é o caso das unidades fabris, da iluminação pública urbana, entre outros). Daí uma enorme demanda gerada, sobre uma insuficiente capacidade energética instalada.
Segundo Hugo Schlesinger (1958), as principais atividades produtivas que passam a demandar uma quantidade maior de energia, já na década de 1950, eram:
a) atividades industriais: indústria do fumo, de materiais elétricos, couros, cerâmica, algodão, bebidas, produtos químicos/farmacêuticos, produção de plásticos, metais, bens de fabricação/máquinas, automóveis e produção de cimento;
17 No Brasil, antes do ano de 1945, havia uma “esmagadora predominância da lenha no panorama energético
brasileiro”(LEITE, 1997:87). Uma situação típica de regiões em que o meio natural era ainda um elemento de condicionamento do uso do território, do ponto de vista de seu uso produtivo. Dada a abundância de florestas utilizáveis, não havia ainda estímulo suficiente para a implantação de infra-estruturas energéticas diversificadas, que permitissem a geração e o transporte de energia em termos nacionais, integrados.
b) atividades urbanas: uso da energia nos lares e na iluminação pública, entre outras necessidades das cidades em crescimento18.
Daí a importância de destacarmos a alteração no padrão de funcionamento do sistema elétrico brasileiro, e não só para o estado de São Paulo. A construção de grandes sistemas de engenharia para a produção de energia é um dado digno de nota: é o caso da Usina de Paulo Afonso, posta em funcionamento no ano de 1955. Vale destacar também o início das atividades da Usina Subterrânea de Cubatão (1955/56), Hidrelétrica de Peixotos, entre outras.
Um enorme acréscimo de sistemas técnicos é realizado no território, tanto na geração, quanto na transmissão da energia. É iniciado um processo de institucionalização (e estatização) do controle dos sistemas de engenharia, que merece ser destacado. São fundadas autarquias como a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (CHESF) em 1948, as Centrais Hidrelétricas de Minas Gerais (CEMIG, em 1952) e Furnas (1957). A CEMIG, por exemplo, constrói no Estado mineiro (entre 1952 e 1956) as Usinas de Itutinga, Salto Grande, Tronqueiras e Cajuru; de 1957 a 1962, implantaria também a Usina de Três Marias, que seria “a quarta maior barragem de terra do mundo”(BIBLIEX, 1977:76).
Para coordenar as necessidades da demanda e da oferta de energia, o Governo Federal criar a Eletrobrás (1961), que cuidaria da integração dos esforços de geração de energia regionais. Como mostram Milton Santos e María Laura Silveira (2000:69), “a ocupação e a urbanização do território, o processo de industrialização, o aperfeiçoamento das técnicas de geração e transmissão e a
18 No estado de São Paulo as cidades que mais se destacavam em termos de necessidades energéticas eram a
própria capital, mas também os municípios do que viria a ser conhecido como o “grande ABC”: principalmente as cidades de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul. De 1954 para 1956, o consumo nestas cidades aumenta cerca de 51,7% (SCHLESINGER, 1958:81). Também nas regiões mais distantes do cinturão da metrópole em formação o aumento deste consumo é expressivo: nas regiões de Jundiaí, Sorocaba, assim como no Vale do Paraíba, o consumo de energia aumenta em 31,9%, para o mesmo lapso de dois anos (SCHLESINGER, op. cit:81). Conforme mencionado, a partir já do final dos anos 1940, os sistemas técnicos instalados no território não estavam mais conseguindo fazer face às necessidades das infra-estruturas demandantes de energia. Segundo estudo publicado pela Biblioteca do Exército (BIBLIEX, 1977), “de 1943 a 1953, a capacidade instalada aumenta 1,95% ao ano, a produção aumenta 2,56%”. Ocorria, portanto, “uma redução da reserva das instalações a níveis tais que comprometem a confiabilidade do sistema”(BIBLIEX, 1977:69), dizia-se.
organização centralizada do setor em torno da Eletrobrás convergem para interligar boa parte dos sistemas isolados”19.
Não só o processo de integração é importante naquele momento, mas também (e talvez principalmente) as mudanças que a instalação de novos sistemas de engenharia produtores de energia provoca nos usos possíveis do território. Além de ser necessária a criação de um corpo de engenheiros e de trabalhadores que dessem conta do planejamento e da construção de tais sistemas, também sua instalação impulsiona ainda mais o processo de industrialização que ocorria. Como mostra o estudo da Biblioteca da Exército (BIBLIEX), para o caso da CEMIG,
“Com base na energia fornecida pela CEMIG desenvolvem-se a Companhia Siderúrgica Mannesmann (a partir de 1954), a USIMINAS (em 1962), e a produção de cimento, além de outras atividades industriais. No setor dos não- ferrosos torna-se possível a expansão da ALCAN, em Ouro Preto. (...) O desenvolvimento acelerado de Minas Gerais, com uma grande e diversificada eclosão industrial e um alargamento da sua fronteira agrícola, muito deverá a CEMIG”(BIBLIEX, 1977:76/77).
Esse conjunto novo de eventos (criação de sistemas de engenharia, institucionalização de autarquias públicas relacionadas) influenciaram sobremaneira a criação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (o BNDE). Como se tratava de sistemas de engenharia que demandam prazos de maturação dos investimentos bastante dilatados, somente com a criação de novos atores financeiros é que seria possível seu financiamento. Antes de falarmos da criação do BNDE, porém, faz-se necessário destacar o processo mais geral de intervenção do Estado nos demais eventos relacionados à industrialização do país.