Iniciaremos a apresentação dos resultados referentes a esse eixo20
, salientando que a corrupção é um fenômeno recorrente nas organizações policiais. São práticas observadas em muitas corporações policiais que se estendem aos mais diversos níveis da organização e nem sempre envolvem apenas ganhos financeiros. Fazem parte deste cenário policiais recebendo lanches de comerciantes, gratuitamente; propinas para não aplicarem multas; segurança privada em ruas e bairros inteiros; extorsão, abuso de autoridade; envolvimento direto com atividades criminosas, entre outras atitudes ilícitas. Certamente, algumas dessas atividades são crimes pura e simplesmente, outras, corrupção passiva, e existem ainda as que não são claramente práticas corruptas, mas envolvem questões éticas. Tais práticas são evidenciadas pelos meios de comunicação e tornaram-se assunto diário dos jornais.
Com base em nossas indagações sobre fiscalização, identificamos que os entrevistados buscaram sempre uma maneira de burlar a fiscalização e de não fazerem o teste do bafômetro.
Quanto à atitude em relação à fiscalização, João, ao ser questionado por que ele teria dirigido após ingerir cerveja e vodka em uma estrada da região que costuma ter fiscalização da Polícia Rodoviária Federal, nos respondeu: “... eu perguntei a um amigo se estava tendo
blitz e ele falou que não[...]se tivesse tendo blitz, eu sabia que ia ter bafômetro e eu não teria ido[...] se eu souber que tem blitz, eu não passo por ela, porque não quero levar multa..”
Observamos neste recorte que fizemos da fala de João que, em todas as situações, ele tenta burlar a fiscalização, e sua justificativa sempre se associa à questão do bafômetro e da multa que pode lhe ser imposta, ao ser flagrado dirigindo alcoolizado. A resposta de Joana sobre a mesma questão assemelha-se à de João: “... Mas se eu bebo um pouco e fico sabendo que tem
blitz eu não passo por ela. Procuro um caminho alternativo...” José também nos revelou não ter problema com a fiscalização: “...Sempre alguém avisa, então, se eu bebi um pouco, eu não
passo onde tem blitz, é fácil...” Certamente com Joquim não foi diferente: “...quanto tem blitz,
alguém sinaliza e eu não passo[...] Pego outro caminho[...] Se passar, a gente acaba tendo problema...”
Quadro 3. Fiscalização/ Impunidade e Corrupção
Entrevistado (a) Atitude em relação a
fiscalização Opinião em relação a fiscalização Impunidade/Corrupção João ....eu perguntei a um amigo
se estava tendo blitz e ele falou que não...
...Se tivesse blitz, eu sabia que ia ter bafômetro e eu não teria ido...
... se eu souber que tem blitz, eu não passo por ela porque não quero levar multa...
... falta de fiscalização... ... se ela for mais dura, as pessoas seguem certinho... ... a pior parte é no bolso.... ...os bares se comunicam por torpedo, as avenidas que estão tendo fiscalização “lei seca”, eles comunicam as pessoas para elas não passarem....
... Eu acho que tem muita corrupção entre os policiais. Se a gente oferecer um dinheirinho para o policial ele nos livra da multa...
Joana
... mas se eu bebo um pouco e fico sabendo que tem blitz, eu não passo por ela. Procuro um caminho alternativo
...não tem fiscalização, todo mundo bebe e sai dirigindo, porque não tem
fiscalização...
...eu nunca vi blitz aqui na cidade...
...As pessoas que matam no trânsito não vão presas mesmo, principalmente se tiverem dinheiro. Aqui no Brasil tudo acaba em pizza...
José ... sempre alguém avisa, então se eu bebi um pouco, eu não passo onde tem blitz, é fácil...
... nunca tem blitz na cidade... eles estavam patrulhando o bairro, me pararam por azar meu... ... aqui eu nunca vi blitz para verificar se os motoristas que bebem, dirigem... ... não tem fiscalização... ... acho importante as leis de trânsito, mas sem
fiscalização, não adianta nada...
...parece que quando eles param a gente, querem encontrar algo para nos incriminar... ... é só dar um dinheirinho para o guarda que fica tudo bem....
... quem não tem dinheiro é que dança... aí vai preso, prende o carro, da até dó, mas, se o cara tem dinheiro, ele não tem problemas. Paga e pronto...
... é muita impunidade para os que têm dinheiro... o deputado lá matou o cara e nada aconteceu com ele, o Edmundo foi a mesma coisa... e assim vai....
Joaquim ... quando tem blitz, alguém sinaliza e eu não passo. Pego outro caminho. Se passar, a gente acaba tendo problema....
... o policial chegou e queria verificar se eu estava alcoolizado. Achei um absurdo!...
... o policial disse que eu estava com sintomas de embriaguez, um absurdo, tenho certeza que ele queria arrancar dinheiro...
...acho isso tudo muito errado, principalmente a corrupção...
... ninguém respeita porque sabe que no fim não dá nada . Aquele deputado do Paraná que dirigiu bebaço!? Não aconteceu nada. No Brasil é assim, não acontece nada para quem tem dinheiro e para quem não tem também. ... cada vez mais policiais corruptos.
As respostas dos entrevistados foram praticamentes as mesmas, isto é, se beberem, eles não passarão pelo comando e se sentem tranquilos em relação a essa estratégia, e além disso, os motoristas (amigos ou não) que tenham passado pelo local onde está havendo blitz avisam os outros motoristas. Em cidades menores, como a que estamos pesquisando, o aviso acontece pelos faróis dos carros que acendem e apagam. Parece um acordo entre os motoristas, uma espécie de cumplicidade. Curioso é que essa “cumplicidade” parece acontecer no que diz respeito à fiscalização, como se os motoristas jogassem em um time e a polícia, em outros. Os motoristas, de uma forma geral e no caso da pesquisa, consideram os policiais que fiscalizam o trânsito como adversários. Em cidades maiores (São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro, etc), essa parceria também existe, porém de uma forma mais “sofisticada”. Os avisos se dão por torpedo, twitter e redes de comunicação, orkut e facebook. Verificamos que tanto em cidades pequenas por meio de faróis ou de um amigo que está num bar e avisa, quanto por outros meios de comunicação, os motoristas são “cúmplices” em burlar a lei.
Ainda no que se refere à opinião sobre a eficiência da fiscalização, as respostas foram outra vez unânimes. Todos os entrevistados, ao serem questionados sobre o que pensam da fiscalização, responderam que na região ela não existe. Com exceção de Joaquim que nos contou ter achado um absurdo quando o policial qui verificar se ele estava alcoolizado na madrugada em que colidiu o seu carro no veículo que estava à sua frente. João, Joana e José relataram que não há fiscalização e justificam que as pessoas bebem e dirigem porque não há blitz na região. José se referiu ao fato, contando que ele “deu azar” quando o pararam para verificar se ele havia bebido.
Desse modo, notamos certa incoerência na fala dos entrevistados, pois, ao mesmo tempo em que revelaram ter burlado a fiscalização para não serem multados, eles reforçaram que acham essenciais as leis de trânsito e que a fiscalização é fundamental para que as leis funcionem.
O que nos chama atenção é a forma como os entrevistados se referem à corrupção. João acha que basta oferecer um dinheirinho para o policial e ele se livrará das multas: “... eu
acho que tem muita corrupção entre os policiais. Se a gente oferecer um dinheirinho para o policial, ele nos livra das multas...”. Joana acredita que as pessoas que matam no trânsito não vão presas, principalmente se tiverem dinheiro. E asseverou que no Brasil “tudo acaba em
pizza”. Entendemos que existe um descrédito na instituição Polícia, assim como um descrédito nos governantes. E José, assim como Joaquim, nos lembrou casos de pessoas
famosas que dirigiram embriagadas, causaram acidentes com mortes e não estão presas. A impunidade virou pauta de nossa conversa, e a impunidade que existe em relação aos crimes de trânsito no Brasil pareceu-me racionalizar o discurso de nossos entrevistados em relação às suas infrações de trânsito. Apenas Joaquim foi concorde em que tanto para o rico quanto para o pobre não há punição, ou seja, tratando-se de leis de trânsito, as punições não funcionam para nenhuma classe social. Os outros três, João, Joana e José, por meio de seus depoimentos, deixaram claro que a lei funciona para os pobres, mas os ricos pagam e fica tudo bem. Eles não acreditam que quem tem dinheiro seja punido no Brasil.
CAPÍTULO VII
Entrevistando os condutores não infratores
Este capítulo descreve as entrevistas com os condutores que não dirigem após ingerirem bebidas alcoólicas. Prosseguiremos com a mesma estrutura do capítulo anterior, ou seja, iniciaremos com a transcrição do contexto de produção das entrevistas e, em seguida, seu conteúdo e análise.
Para localizar as entrevistas com motoristas que não dirigem após ingerirem bebidas alcoólicas foi bem mais fácil, pois divulgamos a pesquisa entre amigos e conhecidos, informando sobre as caraterísticas dos condutores que poderiam compor a amostra (homens e mulheres que possuem veículo, trabalhadores entre 25 e 39 anos, que não dirigem após ingerirem bebidas alcoólicas). Dessa forma, pudemos contar com as indicações de condutores (as) que, eventualmente, poderiam se interessar em participar da pesquisa.
Vale destacar, também, que a maior parte das indicações que recebemos partiu de pessoas de meu convívio social, que serviram como intermediárias entre a pesquisadora e os condutores (as) entrevistados(as).
Quando os possíveis entrevistados (as) se mostravam dispostos (as) a participar, entrávamos em contato por telefone, fornecíamos dados mais detalhados sobre a pesquisa, verificávamos se elas realmente se encaixavam no perfil de composição da amostra e se desejavam conceder a entrevista. Somente depois desses procedimentos, agendávamos, de acordo com a preferência e sugestão dos entrevistados (as), o dia, o horário e local de realização das entrevistas.
Ângelo (27 anos, operador de pedágio)
Ângelo, nosso primeiro entrevistado, foi indicado por uma amiga. Quando expliquei a ela meu projeto de pesquisa e lhe perguntei se conhecia alguém que pudesse colaborar, Ângelo foi indicado com veemência, por ser um jovem de 27 anos, que frequenta bares e festas todos os fins de semana e é citado pelos amigos por ser o único que não exagera na bebida e prefere não dirigir após beber. Entrei em contato por telefone, expliquei o objetivo da pesquisa e marcamos um primeiro encontro. Importa esclarecer que a entrevista foi agendada três vezes (10, 17 e 24 de setembro de 2011). No dia seguinte ao de nossa conversa, quando
já tínhamos combinado a entrevista, ele me telefonou adiando, porque teria um compromisso inadiável. Remarcamos para a semana seguinte no mesmo dia e hora, sábado às 15 horas. Na véspera da entrevista, dia 16/9/2011, Ângelo me ligou desculpando-se e desmarcando novamente a entrevista. Finalmente, na terceira semana, no dia 24/9/2011, também num sábado às 15 horas, Ângelo me recebeu em sua casa para realizar aquele que seria o primeiro depoimento de um motorista que não concorda em dirigir depois da ingestão de álcool. A entrevista durou 20 minutos e não sofreu nenhuma interrupção.
Ângelo pareceu-me bastante tímido do início ao fim da entrevista, respondendo “monossilabicamente” às questões, sem entrar em detalhes. Minha sensação era a de que ele queria que terminasse logo, o que me deixou um pouco ansiosa para finalizar logo também.
Ainda assim, acredito que foi uma entrevista com dados positivos e que Ângelo foi sincero em suas respostas, motivos sufucientes para que eu utilizasse seu depoimento para a ánalise.
Ana (26 anos, psicóloga)
Quando conversei com Ana sobre minha pesquisa, ela se ofereceu a participar das entrevistas. Em uma conversa informal, ela me disse que, quando eu estivesse em campo, ela poderia ser uma das entrevistadas entre os que não dirigem depois de beber. Anotei seu telefone e quando entrei em contato, perguntando-lhe se poderia me conceder uma entrevista, ela novamente se mostrou bastante interessada. Assim, Ana me recebeu em seu consultório, lugar bastante agradável e aconchegante, no dia 3/10/2011 às 20 horas. A entrevista durou 53 minutos e foi interrompida apenas uma vez, quando ela parou um instante de falar por ter ouvido um barulho exterior ao consultório.
Ana teve uma participação bastante efetiva e se mostrou muito à vontade durante todo o tempo. Além de responder às perguntas, fazia reflexões sobre o problema dos acidentes, falava de seu medo de sofrer um acidente de trânsito e me fazia questionamentos sobre as pesquisas a respeito do assunto.
A entrevistada considerou o tema da pesquisa muito interessante e disse que esperava ter ajudado, mesmo sem conhecer muito sobre a realidade dos acidentes de trânsito por causa do álcool.
Apesar de o clima da entrevista ter sido bastante cordial, ela ficou bem mais à vontade quando a entrevista terminou e pudemos conversar sem o gravador. Ana fez uma observação
dizendo que o gravador a inibira bastante e que seria mais interessante outra metodologia. Sugeriu-me, então, outros procedimentos de pesquisa. Eu agradeci a entrevista e as sugestões.
Antonio (36 anos, trabalha no cartório da família)
Fui recebida por Antonio em seu local de trabalho, no período da tarde, após o término de expediente.
Antonio me esperou sozinho no cartório em que trabalha e pudemos conversar tranquilamente, sem interrupções durante a entrevista que durou 35 minutos. O entrevistado foi simpático e pareceu-me muito à vontade, não somente para responder às questões, mas também para me questionar sobre os temas abordados. Em alguns momentos da entrevista, ele criticou a forma como a prefeitura da cidade trata o trânsito e faz vista grossa aos motoristas que dirigem alcoolizados.
Antes de nos despedirmos, e após desligar o gravador, conversamos um pouco também sobre meu percurso profissional e sobre outros problemas da cidade de Cambuí. O entrevistado me disse que mora no centro da cidade, ao lado de um clube onde há festas e
shows em quase todos os fins de semana. Ele citou vários exemplos de carros que trafegam em alta velocidade e pessoas que saem bêbadas desses shows e vão para casa dirigindo.
Considero que a entrevista transcorreu de forma muito tranquila com expressiva participação de Antonio.
Adão (28 anos, trabalha no Banco Santander)
Adão ficou sabendo de minha pesquisa pelo pai, médico do trânsito e proprietário da clínica de Exames Médicos e Psicológicos de Cambuí e se interessou pelo assunto, prontificando-se a colaborar com a entrevista. Foi difícil acertar a data, pois Adão trabalha em uma cidade no interior de São Paulo e passa os finais de semana em Cambuí. Por isso, agendamos para o fim de semana do feriado de 12 de outubro, data em que estaria na cidade. A entrevista ocorreu na véspera do feriado, dia 11/10/2011 às 18 horas na clínica de seu pai. Não houve atendimento nesse dia e ele disse que era o lugar mais tranquilo, pois a casa dele estava com muitas visitas.
Adão, embora tivesse se mostrado bastante interessado em participar quando nos falamos pelo telefone, no momento da entrevista, senti que ele estava um pouco desmotivado.
Agradeci sua participação e disponibilidade de tempo, pois sabia que os finais de semana eram reservados para ficar com a família.
Adão não me pareceu tímido e foi muito prático ao responder às questões, ou seja, expressando-se de forma resumida, sem pensar muito na resposta e sem fazer reflexões, como ocorrera com Ana e Antonio.
A entrevista durou 22 minutos e não fomos interrompidos em nenhum momento. Ele considerou o tema da entrevista válido e disse que esperava ter ajudado. Para mim, a entrevista pareceu-me rápida demais, além de não ter conseguido me aprofundar mais nos temas. Saí com uma sensação estranha de não ter atingido meus objetivos, porém, ao transcrever a entrevista, pareceu-me suficiente para a ánalise.
Realizaremos a análise seguindo a mesma proposta do capítulo anterior. Construímos quadros (contendo as citações e/ou sínteses de cada entrevista) que nos permitissem a codificação das respostas. Organizamos os quadros em torno de categorias que serão apresentados ao longo do texto para permitir ao leitor uma melhor visualização dos dados.