Quando o assunto de nossa entrevista foi a respeito do álcool e direção22, os entrevistados apresentaram suas opiniões em relação à quantidade ingerida e prejuízo na capacidade de dirigir. Ângelo acredita que, dependendo da quantidade de bebida ingerida, o condutor pode não sofrer prejuízos: “... se beber um pouco, eu acho que não faz mal (...) eu
bebo dois ou três copos de cerveja (...) eu bebo, depois eu paro...” Ana nos revelou que não sabe a quantidade de álcool permitida por lei, mas que, geralmente, o que ela observa em seu meio social é que as pessoas bebem dentro de seus limites, não importando, em momento algum, com a quantidade tolerada ou não pela lei “...a pessoa bebe e no final toma água,
come um doce e acha que isso já é suficiente. Por exemplo, toma dez copos de cerveja, mas esse não é o limite ainda, então bebe mais... Antonio pressupõe que “....beber uma cerveja
Quadro 2. Álcool e direção / cultura
Entrevistado
(a) Quantidade de álcool Relação álcool e direção Cultura do álcool
Ângelo ... se beber um pouco, eu acho que não faz mal
(...) eu bebo 2 ou 3 copos de cerveja (...) eu bebo, depois eu paro...
...eu acho que o álcool deixa a pessoa mais corajosa (...) se dirige alcoolizado ele vai pisar mais no acelerador para ir mais depressa. Perde a noção do perigo (...) com mais velocidade e sem atenção.
... não existe quem vá a um restaurante e não tome uma cerveja ou uma taça de vinho...
... eu não acredito que um jovem que gosta de beber, não vai beber só para levarem seus amigos bêbados para casa.
Ana
... eu não sei a quantidade de álcool para ser punido pela lei....
... a pessoa bebe e no final toma água, come um doce e acha que isso já é suficiente. Por exemplo, toma 10 copos de cerveja, mas esse não é o limite ainda, então bebe mais....
...Nunca bebi e dirigi porque tenho medo da minha reação, eu não sei até que ponto a bebida pode alterar meu consciente, minha percepção (...) eu não tenho segurança para dirigir quando eu bebo. Acho dirigir perigoso e com álcool na cabeça na cabeça piora. Eu não dirijo de jeito nenhum quando eu bebo. Eu acho que eu posso para num cruzamento e não conseguir ver um carro que está vindo, ter a rapidez da percepção, porque eu acho que a bebida realmente altera...
... Dá medo, mas ainda assim não é aquele medo de que a coisa vai acontecer de fato. Eu penso: “... ele bebeu, mas está indo devagar... é como se a gente tentasse justificar de alguma forma o medo... “ele está dirigindo devagar, não tem muito movimento hoje...”, como se isso pudesse minimizar o perigo.
... A gente confia(...) “ele bebeu, mas está sabendo o que está fazendo.
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...tem mais motorista que bebe e dirige do que de acidentados. Num restaurante, por exemplo, todo mundo está bebendo e a maioria vão sair dali e voltar para casa dirigindo...
...Da nossa turma, por exemplo, todo mundo bebe e dirige e eu não conheço ninguém próximo a mim que sofreu acidente, então dá a impressão que é distante (...) a probabilidade de sofrer acidente é baixa.
...Dá a impressão que não é tão fácil assim sofrer um acidente como a mídia fala..
... A única vez que tem bafômetro na região é na festa de agosto. Nessa época tem ônibus porque a prefeitura oferece de graça. Mesmo assim a gente vê as pessoas não quererem ir de ônibus. E aquelas que vão, não vão porque elas pensam: “ eu vou beber e posso cometer um acidente depois” (...) elas vão de ônibus porque sabem que tem polícia com o bafômetro e poderão ser multadas depois. Elas utilizam o ônibus só porque não querem ser multadas, só por isso.
... o motorista veste o carro e fica poderoso, é como se o carro lhe desse poderes...
Antonio ... eu acho que beber uma cerveja ou uma taça de
vinho não seja quantidade suficiente para provocar acidente ou mesmo reduzir a atenção principalmente se é para acompanhar um jantar (...) acho isso um pouco confuso, não entendo bem essa questão da quantidade porque cada um é cada um e cada organismo reage de uma maneira, né?...
...a pessoa que bebe, perde o reflexo, a noção de distância, de velocidade (...) frear fica mais difícil, tudo muda na cabeça.
... é como se a pessoa se transformasse se esta com um carro importado (...) não acho que dirigir um fusca da a mesma sensação boa de dirigir uma Ferrari (...) acredito no poder que o carro dá, acho que o carro completa o ego.
Adão Uma cervejinha pode não te deixar alcoolizado
(...) o que deveria ser melhor estudado é a quantidade de álcool no organismo para diferentes pessoas...
... quando tomo uma cervejinha com meus amigos (...) não me sinto alcoolizado ao ponto de colocar a vida de outras pessoas em risco
.... fora a integridade física, pode ter problemas com a
apreensão do veículo... Muitas pessoas só tem programas como irem a bares, baladas e churrascos, onde o apelo para a ingestão de álcool é bastante elevado.
ou uma taça de vinho não seja quantidade suficiente para provocar acidente ou mesmo reduzir a atenção, principalmente se é para acompanhar um jantar (...) acho isso um pouco confuso, não entendo bem essa questão da quantidade, porque cada um é cada um, e cada organismo reage de uma maneira, né?...”A resposta de Adão não deixa de ser semelhante à de Antonio quando opinou: “... Uma cervejinha pode não te deixar alcoolizado (...) o que
deveria ser melhor estudado é a quantidade de álcool no organismo para diferentes pessoas (...) quando tomo uma cervejinha com meus amigos, não me sinto alcoolizado ao ponto de colocar a vida de outras pessoas em risco...”
Notamos que a quantidade de álcool é também um fator a se levar em conta quando pensamos a lei seca: Todos os entrevistados, embora prefiram não dirigir após beberem, apresentam certa “benevolência” com a bebida, se ela for ingerida em pequenas doses. Com exceção de Ana, os outros três entrevistados nos disseram que beber pouco não prejudica o ato de dirigir, principalmente se a bebida é acompanhada por algum alimento.
Ângelo, embora nos revelasse que beber “um pouco não faz mal”, ao ser questionado sobre os efeitos do álcool nos deu uma opinião que parece contradizer um pouco com sua primeira resposta: “... eu acho que o álcool deixa a pessoa mais corajosa (...) se dirige
alcoolizado ele vai pisar mais no acelerador para ir mais depressa. Perde a noção do perigo (...) dirige com mais velocidade e sem atenção. Ana pareceu-me mais coerente ao nos revelar
que jamais dirige após beber, porque conhece as consequências: “... Nunca bebi e dirigi porque tenho medo da minha reação, eu não sei até que ponto a bebida pode alterar meu
consciente, minha percepção (...) eu não tenho segurança para dirigir quando eu bebo (...) eu acho que eu posso parar num cruzamento e não conseguir ver um carro que está vindo, ter a rapidez da percepção, porque eu acho que a bebida realmente altera...” Ana também confessou medo de estar com um motorista que tenha ingerido álcool “... Dá medo, mas ainda
assim não é aquele medo de que a coisa vai acontecer de fato...” E contou as justificativas que dá para si mesma para atenuar o medo “... Eu penso: “... ele bebeu, mas está indo
devagar (...) é como se a gente tentasse justificar de alguma forma o medo (...) ele está dirigindo devagar, não tem muito movimento hoje (...) como se isso pudesse minimizar o perigo (...) a gente pensa: “ele bebeu, mas está sabendo o que está fazendo...” Antonio também apresentou a questão da perda do reflexo, da noção de distância que fica prejudicada e do aumento da velocidade. Adão argumentou com outra reflexão, ou seja, sua preocupação, além da integridade física está também na apreensão do veículo.
Resumidamente, podemos destacar que os entrevistados não acreditam que seja possível não beber em nossa sociedade. Beber está intrinsecamente ligado à maneira de se relacionar do cidadão brasileiro, principalmente dos jovens. Ângelo observou: “... não existe
quem vá um restaurante e não tome uma cerveja ou uma taça de vinho (...) eu não acredito que um jovem que gosta de beber, não vai beber só para levar o amigo, seus amigos bêbados, para casa...” Ana é mais reflexiva: “... tem mais motorista que bebe e dirige do que de
acidentados. Num restaurante, por exemplo, todo mundo está bebendo e a maioria vai sair dali e voltar para casa dirigindo (...) da nossa turma, por exemplo, todo mundo bebe e dirige e eu não conheço ninguém próximo a mim que sofreu acidente (...) a probabilidade de sofrer acidente é baixa (...) dá a impressão que não é tão fácil assim sofrer um acidente como a mídia fala...” Parece que Ana, embora em outros momentos tenha relatado que o seu maior medo é sofrer um acidente de carro quando sai para jantar e seu marido volta para casa dirigindo, após ter bebido, nesse momento da entrevista, ela mencionou exemplos que atenuam seu medo, ou seja, ela refletiu sobre o número de pessoas que bebem em um restaurante e o número de acidentados. Quando comparados, Ana chega à conclusão de que os acidentes são bem baixos tendo em vista que as pessoas em geral ingerem bebidas alcoólicas quando vão a um lugar público. Outro apontamento de Ana foi em relação ao comportamento do motorista quando dirige um carro: “...o motorista veste o carro e fica poderoso, é como se
o carro lhe desse poderes...”Antonio relatou ideias semelhantes: “... é como se a pessoa se
transformasse se estiver com um carro importado (...) não acho que dirigir um Fusca dá a mesma sensação boa de dirigir uma Ferrari (...) acredito no poder que o carro dá, acho que o carro completa o ego...”Adão pensa que “... muitas pessoas só tem programas como irem a
bares, baladas e churrascos, onde o apelo para a ingestão de álcool é bastante elevado...” Nader (2004, pag. 26) explica que “os fatos sociais são criações históricas do povo,
que refletem seus costumes, tradições, sentimentos e cultura. A sua elaboração é lenta, imperceptível e feita espontaneamente pela vida social”. Percebemos, por meio da análise do eixo 3, que a cultura brasileira englobou a “cervejinha” em suas raízes. Hoje, a cerveja se mostra, por assim dizer, como uma forma de inserção social. Em sociedade, se considera normal, e até se incentiva a beber uma “cervejinha” aos finais de semana, nas comemorações de alguma data especial, enfim, em momentos que, de alguma forma, haja motivos para comemorar ou meramente para relaxar e descansar.